O ESPÍRITO DO CRISTIANISMO |
"O espírito é que vivifica". Sem espírito não há vida, não há sabedoria, não há verdade. Em todos os seres existe o espírito vivificante. Em todas as coisas realça a iniciativa, que é o resultado, o produto da inteligência que caracteriza o espírito: nas nobres instituições, nos grandes empreendimentos, é o espírito que impera, dirige, mantém orienta.
Nos animais inferiores e nas criaturas humanas, o espírito é a entidade viva, que domina e equilibra a forma. Nas instituições, a letra do Código, do Regimento, reveste sempre um escopo determinativo, que se denomina - o "espírito da lei". A lei não se interpreta por si mesma, mas representa a interpretação do "espírito".
O Cristianismo, sob os ditames de Jesus, é uma Religião Viva, representada por um corpo de espíritos que se acham a ele subordinados e que dirigem e animam o Cristianismo. O Espírito do Cristianismo, que apresentamos aos internautas, é a forma interpretativa da Religião do Cristo segundo o nosso critério (CAIRBAL SCHUTEL).
Em O Espírito do Cristianismo, modelamos a interpretação dos capítulos e versículos, em seu conjunto, sem truncar a forma, de acordo com o pensamento íntimo de Jesus Cristo, corporificado nos quatros Evangelhos. Enfim, falamos do Espírito ao espírito livre dos dogmas sectários, das interpretações humanas.
Fundada a Religião do Cristo na Revelação, e não podendo esta efetuar-se sem a base da IMORTALIDADE, não quisemos entregar nossa obra à publicidade sem fazê-la preceder de um ligeiro esboço elucidativo do Espírito. Ele não representa mais do que uma resumidíssima síntese da Ideologia Espírita, aclarada com rara maestria pelo grande Missionário Allan Kardec, e explicada, com lógica e clareza, pelos dois grandes luminares, Gabriel Dellane e Léon Denis, cujas existências foram das mais profícuas para o engrandecimento da Verdade.
ESPÍRITO E MATÉRIA
O homem é um ser inteligente: pensa, sente, quer; odeia e ama; estuda e progride; em seu coração palpitam afetos e do seu cérebro brotam luzes. O homem é o "rei da criação", título que auferiu pela superioridade da inteligência, que tem sobre a dos animais, que lhe são inferiores. "O seu corpo: carne, sangue, nervos, ossos, desde as mais tênues camadas do cérebro, até a carcaça óssea, que representa o reino mineral e faz parte do seu organismo, como aliás aconteceu com todos os outros seres, nasce, cresce e morre; transforma-se e modifica-se, pois que é composto desses mesmos elementos imponderáveis que se decompõem, oriundos da matéria cósmica universal: hidrogênio, oxigênio, azoto, carbono, constituintes das variedades da matéria, que se apresentam com nomes de cal, fósforo, sódio, potássio, enxofre, fluor, cobre, chumbo, etc..
Mas existe no homem um princípio que não deve sua existência à Terra; existe no homem uma luz mais intensa do que a que resulta do fósforo. Esse princípio é o que constitui seu verdadeiro EU; essa luz não arde no túmulo como um fogo-fátuo; deve, forçosamente, permanecer na Eternidade.
Tal conclusão não é só um ditame da razão, um aviso prévio do sentimento; mas é o resultado de sábias lições que, durante prolongadas vigílias, aprendemos pela indução e dedução da análise comparativa dos sistemas filosóficos, científicos e religiosos, que passam pela nossa mente como o desenrolar de uma guerra sem tréguas, de exércitos inimigos que se combatem e se aniquilam, deixando, entretanto, imanentes os princípios que não entraram em luta e que, ignorados por uns e proclamados intuitivamente por outros, atravessam eras e gerações, sem serem atingidos por uma negação lógica e positiva.
Mas não é só no ápice dessas escolas, umas proclamando a soberania da matéria, outras aplaudindo o reinado do Espírito, que nós vemos aparecer esse princípio, que tem animado as gerações, fixando-se através dos tempos. É também na tela imensa, no grande panorama da vida terrena, com suas grandezas e misérias, suas investidas para a luz e quedas para as trevas, que a Vida se apresenta em sua forma mais positiva, e a alma se realça como um ser que desempenha o seu papel (cada qual na sua esfera de ação) neste planeta que chamamos Terra.
E se deixarmos essa esfera de observação comum e entrarmos nos domínios da Metafísica e a Metapsíquica, ficaremos admirados ao ver homens de responsabilidade moral e científica negarem a existência da alma e chegarem a confundir a ação que exerce, com as funções dos órgãos, tomando o efeito pela causa e inutilizando todos os princípios da lógica e do raciocínio, que devem guiar nossos passos na pesquisa da Verdade.
Mas nos limitaremos a estes anseios da alma, à síntese que, à guisa de prefácio, comecemos a analisar o pró e o contra referentes ao princípio anímico, ou seja, o princípio da IMORTALIDADE que, segunda afirma Pascal, "é preciso ter perdido todo o sentimento e aniquilado toda a razão, para dele não tratar".
Método
de estudo
De dois métodos dispomos para a solução de todos os problemas
que se nos enfrentam como esfinge devoradora: o da indução e o
da dedução. A indução é o modo de raciocínio
que consiste em tirar uma conclusão geral dos fatos particulares que
se produzem constantemente. A dedução é o modo ou o processo
de raciocinar em que se parte da causa para o efeito, do princípio para
as consequências, do geral para o particular.
Método Indutivo
Encarando o tema em questão sob a primeira perspectiva, não podemos
deixar de concluir, pelos fatos particulares que constantemente se produzem,
que a existência e sobrevivência da alma é um fato incontestável.
A indução vem, pois, corroborar a idéia de Imortalidade,
segundo o nosso critério.
Justifiquemos esta asserção. Para tal fim vamos examinar, embora
ligeiramente, todos os fenômenos que sustentam nossos postulados, dos
subjetivos aos objetivos. Os que mais se realçam à vista e se
desdobram aos olhares investigadores, são os fenômenos da memória.
Fenômenos da Memória
A memória é a faculdade que mais tem atraído a atenção
dos filósofos de todas as épocas: "A faculdade misteriosa
que reflete
e conserva os acidentes, as formas e as modificações do pensamento,
no espaço e no tempo. Ela representa essa sucessão de idéias,
imagens e acontecimentos que já se esvaíram e ficaram sepultados
no passado. Ressuscita-os espiritualmente na mesma graduação pela
qual o cérebro os experimentou e a consciência os percebeu e formou."
Aí estão os fenômenos, aí estão os fatos subjetivos,
mas reais; como negá-los? Como explicá-los sem a admissão
de um princípio imutável que os coordena e expende?"Thompson,
Vierodt, Flourens, dizem que os fatos justificam plenamente a suposição
de que o corpo renova a maior parte da sua substância em um lapso de 20
a 30 dias, e acrescentam: "até o ar que respiramos muda a cada instante
a composição do cérebro e dos nervos". Como demonstrar
que, apesar dessas mutações contínuas, nos conservamos
sempre idênticos?
"Entretanto envelhecemos e sabemos que nosso EU não mudou. No meio
das vicissitudes da existência, nossas faculdades podem alargar-se ou
alternar-se, e mesmo obliterar-se; nossas predileções podem variar
indefinidamente, e nossa conduta apresentar as contradições mais
singulares, contudo, estamos persuadidos de que conservamos o mesmo ser primitivo,
e temos consciência de que ninguém se colocou em nosso lugar; entretanto,
em todos os elementos do nosso corpo, nenhum dos átomos que o constituíam
há dez anos subsiste presentemente neles."
Como permanece a memória que temos dos acontecimentos passados? Foram
os fenômenos da memória, e tão-somente da memória,
que fizeram a Escola Espiritualista proclamar a existência, no homem,
de um princípio que é imutável, cuja natureza indivisível
não se acha sujeita, como a da matéria, à destruição.
Conseguintemente, é a alma que conserva a reminiscência dos fatos
verificados, assim como favorece as conquistas da inteligência
e o desdobramento das virtudes, adquiridas lentamente na luta incessante contra
as paixões.
Até aqui, nada de novo adiantamos: Aristóteles, Descartes, Leibnitz,
São Tomás de Aquino, Ballanche, Helmont e inúmeros filósofos
da Antiguidade proclamaram esta doutrina, ou seja, a doutrina da existência
da alma. Mas, o que é a alma? Em que consiste este princípio imutável,
cuja natureza indivisível não está sujeita às leis
fïsico-químicas, por não se adstringir ao tempo e espaço?
Não se pode deixar de concluir que a alma não é a resultante
do organismo, do corpo, desde que permanece apesar das mutações
da matéria, à qual soube resistir e vencer.
Então que será ela? - Uma chama, uma luz, uma estrela, uma nuvem,
uma coisa abstrata, que nem idéia de si nos possa dar? Aqui intervém
o Espiritismo, cujos ensinos constituem a solução do maior de
todos os problemas que têm embaraçado os filósofos de todos
os tempos. O homem terreno, por mais ilustrado e perspicaz que seja, não
pode perceber nem compreender as coisas espirituais, senão por manifestações,
como dissemos, subjetivas e objetivas, ou sejam, diretas ou indiretas. A alma
de per si, sem uma forma, sem um corpo para sua manifestação,
passaria, como passam as ondas hertzianas, a matéria radiante e os raios
imponderáveis e invisíveis.
Tanto isso é verdade que o filósofo materialista Hartmann disse:
"Se eu pudesse demonstrar que o Espírito individual persiste depois
da morte, eu concluiria daí que, apesar da desagregação
do corpo, a substância do organismo persistiria sob uma forma inalienável,
porque só com esta condição posso conceber a persistência
do Espírito individual." Pois é justamente isso que o Espiritismo
explica, demonstrando por meio de fatos incontestes, que uma substância
do organismo persiste sob forma inalienável; e é justamente essa
substância que constitui o perispírito, corpo espiritual que é
inseparável da alma.
Segundo
o Espiritismo, a idéia de alma é inseparável da idéia
de uma forma que a envolve. Assim como o corpo carnal é parte integrante
do homem, o corpo espiritual é parte integrante da alma. O perispírito
não é uma concepção filosófica para remediar
complacentemente as dificuldades da investigação; é uma
realidade física, um órgão que não se conhecia e
é hoje constatado até pela chapa fotográfica. A noção
do perispírito vem esclarecer o fenômeno da memória, pois
ele se nos apresenta como o local dos estados de consciência passados,
o armazém de lembranças, a região no qual se faz a fixação
menmônica. Pois bem, o ser pensante continua a existir depois da morte
com esse corpo que é inalienável.
Hipnotismo e Magnetismo
"Em todos os países civilizados, os jornais e as revistas médicas
têm-se ocupado dos fatos maravilhosos produzidos pelo Hipnotismo, novo
nome com que revestiram o Magnetismo. Esta ciência compreende fenômenos
diversos, que poderíamos dividir em duas categorias: os que se relacionam
com a Terapêutica, e os que vêm em apoio da existência da
alma.
Milhares de experiências, confirmadas em atas assinadas por nomes dos
mais honrados e conhecidos, descrevem fatos extraordinários, em geral
catalogados sob os nomes de sugestão, sonambulismo, êxtase, catalepsia,
exteriorização da sensibilidade, e que vêm confirmar a existência
do Espírito, independente do seu corpo material e revestido desse corpo
que constitui o perispírito. De todos esses fenômenos, sem dúvida,
o mais importante, e o que torna as nossas conclusões solidamente baseadas,
é o da transposição dos sentidos, isto é, a faculdade
que possuem certos indivíduos, quando em estado sonambúlico, de
verem sem a intervenção dos olhos, cheirarem sem o órgão
do olfato, ouvirem sem que lhes seja necessário o ouvido.
Estas
estranhas faculdades denunciam forçosamente um poder que se manifesta
fora das condições da vida habitual." Para maiores esclarecimentos
os leitores devem consultar as obras de Gabriel Delanne, cujos ditames lógicos
e racionais muito nos têm orientado nesta "Exposição
Preliminar."
O Testemunho dos Anestésicos
Os anestésicos, como o clorofórmio e o éter, produzem nos
pacientes analogias notáveis com o Sonambulismo magnético e o
Hipnotismo. O Dr. Velpeau, que em 1884 apresentou, à Academia de Ciências
de Paris, um relatório, concluindo pela adoção do clorofórmio
em todas as operações dolorosas, relata a seguinte experiência,
feita por ele em uma senhora a quem operara de um câncer no seio:
"Depois de ter adormecido pelos processos ordinários, efetuava a
operação, quando ficou muito admirado ouvindo a doente dizer que
via o que se passava em casa de uma das suas amigas, moradora perto dali. Não
ligou muita importância, entretanto, a esta comunicação,
tomando-a por efeito de imaginação. Mas qual não foi a
sua surpresa, quando a senhora em questão, tendo vindo informar-se da
saúde de sua amiga, declarou que fazia exatamente o que a doente vira
durante o sono."
Os anestésicos, como se vê, determinam um certo desprendimento
da alma que, transpondo as distâncias, e revestida dos seus atributos,
se pode pôr, independente do seu corpo físico, e em condições
especiais, em relação com o mundo material. Podemos concluir este
lado da questão com a afirmação de que a alma existe, quer
a estudemos em face da Ciência, quer o façamos perquirindo os fenômenos
do Magnetismo, do Hipnotismo e da Anestesia.
O método da indução nos leva, forçosamente, à
crença na existência, em nós mesmos, do princípio
anímico, ao passo que
nenhuma probabilidade oferece para a negação desse princípio.
Lógica, raciocínio, fatos abstratos e concretos, tudo vem em apoio
da nossa tese, que não pode ser repudiada senão pelos ignorantes
contumazes. Passemos agora ligeiramente a comentar sobre as manifestações
póstumas.
As manifestações póstumas
O Espiritismo é um campo vasto de estudos; é um repositório,
um manancial de sabedoria, único capaz de solucionar todos os problemas
da Vida e da Morte. Pena é que a opinião pública, mal orientada,
não veja nele o que, de fato, ele é. Quanto à Moral, o
Espiritismo é o protótipo, o fac-simile da Doutrina de Jesus;
como Filosofia e Ciência, é um sistema maravilhosamente erguido
sobre fatos escrupulosamente observados e constatados pelos sábios de
maior nomeada e dos mais circunspectos do mundo.
Analisando-se com espírito inteligente, imparcial, mesmo prevenido, os
fenômenos de aspectos múltiplos, chamados supranormais, sejam os
casos de materializações, transportes, levitações,
fotografias (que constituem os fenômenos objetivos), sejam as comunicações
faladas ou escritas pelos médiuns (que constituem fenômenos subjetivos),
não se pode deixar de chegar à conclusão da sobrevivência
da alma, com todas as suas prerrogativas e aquisições.
Seria mesmo estultícia negar tais fatos ou lhes querer dar explicação
diversa da que eles mesmos exprimem. A constância, a persistência
dessas manifestações, o caráter que exprimem, tudo nos
induz a crer que o EU subsiste à morte do corpo, assim como persiste
às renovações contínuas das substâncias que
o mantêm durante a influência vital, que não permite a desagregação
das suas células.
Assim,
pois, o método indutivo, que é a regra geral para o estudo dos
fatos que se verificam em todos os ramos da Ciência, confirma categoricamente
o que o Espiritismo ensina sobre a existência e imortalidade do Espírito.
Encaremos agora nossa tese sob outro prisma: a dedução. Comecemos
do maior para o menor; do grande para o pequeno; do Macrocosmo para o Microcosmo;
do ômega para o alfa; da causa para os efeitos; do princípio para
as consequências; do geral para o particular.
Ao contemplarmos os vastos horizontes que cobrem as imensas paisagens, o céu
infinito recamado de estrelas, é que notamos quão insignificantes
somos neste conjunto da Criação! Entretanto, nos sentimos presos
a essa criação, sentimos fazer parte dela; admiramo-la, estudamo-la
e aumenta nossa ansiedade por conhecermos os seus enigmas. É então
que, sejam quais forem nossas crenças, seja qual for nossa posição
social, sentimos a necessidade de nos conhecer intimamente e de saber as leis
que regem nossa existência. Quaisquer que sejam nossas preocupações,
sentimo-nos invencivelmente levados a nos ocupar do nosso destino e de saber
as leis que o regem.
É no contato com a Natureza, essa sublime criação de Deus
que a alma se eleva, que a razão se aclara, que o sentimento se abre
para se aprofundar nos mistérios da existência. Se no meio das
cidades populosas essa necessidade domina muitas vezes nosso espírito,
com quanto maior força ela se apodera de nós ao nos encontrarmos
perante a Natureza eterna! O que é a Terra? O que é esse firmamento
marchetado de estrelas que cintilam sobre nossas cabeças?
Esses
sítios que perlustramos e que já foram calcados por multidões
de homens que, de sua passagem, não deixaram mais
que o vestígio do pó dos seus ossos; homens que viveram como nós,
que amaram, que sofreram; esses sítios que se vão engrandecendo
todos os dias com o trabalho inteligente das gerações, representarão,
porventura, uma vasta cloaca onde o progresso, palavra sem significação
literal, ergue escolas, edifica monumentos, faz cruzar redes aéreas e
subterrâneas para unir os povos e desenvolver civilizações;
para logo depois, após alguns anos, fazer desaparecer nos báratros
do nada, nos hiantes sorvedouros das trevas, sem aproveitar a quem quer que
seja, nem fazer prevalecer a sua obra, para formação, engrandecimento
e persistência das inteligências submetidas aos seus ditames, ao
seu império dominador?
Por que e para que todo esse movimento contínuo de trabalhos, de lucubrações
modernas, de galas e esplendores, de consecução de um ideal, se
de todo esse harmonioso conjunto não resulta ao menos uma luz para esclarecer
nosso futuro? Se tudo é matéria e não passa de matéria;
se a sabedoria não é mais que uma função do cérebro
e a virtude uma vibração do coração, vamos abrir
bancarrota à Moral e continuemos a caminhar ao léu da sorte avara,
aos marulhos do acaso, sem Deus, sem alma, sem religião, visto que tudo
não passa de mera convenção humana!
Para que a vida, se não existe alma? Para que a verdade, se tudo é
falsidade? Para que a luz, se as trevas virão dominar até seus
últimos reflexos? Existem, no infinito, globos como o nosso, que obedecem
a regras invariáveis e cuja harmonia é tão admirável
que não podemos deixar de reconhecer uma profunda sabedoria presidindo
a sua disposição! Como admitir sem autoria de uma Inteligência
Suprema e Permanente no Universo, essa complicada máquina celeste, que
liga em suas órbitas milhões de mundos, com uma regularidade tão
poderosamente estabelecida, que a mais fértil imaginação
somente com muito esforço pode descobrir as suas leis mais elementares?
Quem não fica maravilhado e não estremece de emoção vendo as miríades de estrelas, sóis gigantescos, centros de outros sistemas planetários, pairando no espaço?! Quem não se sente admirado pensando no astro em que pousamos, que desliza no éter com a velocidade superior à de uma bala de canhão, e sem outro ponto de apoio que não seja a atração de um astro longínquo?! Quem não compreenderá que a harmonia não pode nascer do caos, e que a casualidade, a força-cega não pode engendrar a ordem e a regularidade?! A Ciência moderna nos veio abrir novos horizontes à inteligência.
Ela
nos diz que, desde o tempo em que a Terra não era mais que uma porção
de matéria cósmica, efetuaram-se nela infinitas metamorfoses,
até produzir-se o resultado que nos é dado conhecer na época
atual. Não se pode, pois, negar o desenvolvimento da vida, através
dos períodos geológicos; e, em virtude dessa progressão,
desse aperfeiçoamento contínuo, ininterrupto do nosso mundo, que
vai do simples para o concreto, do mínimo para o máximo, da fealdade
para a beleza e harmonia, poderemos negar a arte denunciadora da Inteligência
que tudo modela, que tudo aperfeiçoa?
Seja no plano físico, seja na esfera animal, seja na manifestação
espiritual do ideal, não há que negar as fases transformativas
que precederam o estado atual do nosso mundo considerado um dos compartimentos
da Casa de Deus, e que se vai tornando digno de ser habitado por Espíritos
de maior progresso moral e espiritual. Onde estão as ruas e praças
de então, os veículos terrestre e marítimos que tanto serviço
prestaram a nossos avós? Aonde se foram as candeias que os alumiaram,
as máquinas medievais de que se serviram, como auxiliares do seu trabalho,
com instrumentos dos seus esforços nas lutas cotidianas da aquisição
do pão e das vestes?
Nada
desapareceu, mas tudo se transformou, tudo melhorou, tudo se aperfeiçoou!
Tudo evolui, tudo progride no Mundo, no Universo, na Natureza! A própria
Natureza é testemunha e dá testemunho do progresso, da evolução
que constitui a Lei Suprema de Deus. Partindo do mínimo para o máximo,
nós vemos traçadas com letras indeléveis, no plano da Natureza,
a palavra: Evolução ! Começando do máximo para o
mínimo, salienta-se com exuberância a sentença que inspirou
o filósofo, para em altos surtos do pensamento glorificar a Deus: Semper
ascendens!
Pelo exposto podemos confirmar que a razão, a inteligência, o entendimento,
seja pela indução, seja pela dedução, não
se podem deixar de curvar à idéia mater da Imortalidade, que embalou
as gerações passadas e abre, atualmente, novos e ilimitados horizontes
às gerações futuras. A Imortalidade é a base única
e inamovível, sobre a qual se deve erguer o edifício social e
religioso. Portanto não poderia o Cristianismo fundar-se em outra qualquer
rocha, ou sobre outros quaisquer alicerces.
Na análise indutiva da alma e sua sobrevivência, partindo dos efeitos
para as causas, todas as razões, todos os fatos vieram em favor da nossa
tese, proclamando o Espírito como o fator de todas as ocorrências
que se desdobram diariamente às nossas vistas, como que despertando-nos
para uma idéia mais nobre, para um ideal mais puro do que aquele que
limitava nossas ocupações e prazeres.
Na análise dedutiva, do Macrocosmo ao Microcosmo, do Universo ao Homem,
tomando como premissas as grandes causas da Verdade Eterna, do mesmo modo, chegamos
à conclusão da existência de Deus, como o Grande Fator Primordial
de tudo quanto existe, e da existência da alma, base elementar da vida
e autora dos fenômenos espíritas e metapsíquicos de que
fala a História de todos os tempos.
O
estudo do Cristianismo, digno de toda a atenção observação,
está intimamente ligado ao estudo da alma, do Espírito. Não
se pode compreender as leis morais e sua razão de ser, sem se haver desvendado
os mistérios da Psique em suas mais esplendorosas formas.
De fato, o que nos valem os ensinos de Jesus, os exemplos que nos legou de uma
vida de pureza, as maravilhas que produziu se não temos a crença
na Imortalidade, se julgamos que tudo se finda com a morte, se o nosso Saduceísmo
vai ao ponto de crer que Deus é só para esta existência?
O Apóstolo dos Gentios dizia: "Se cremos em Cristo só para
esta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens." A Doutrina
do Ressuscitado é a manifestação viva da Sobrevivência
que já começou a explodir no mundo todo e que se cumprirá
em todo o orbe como o Pentecoste no cenáculo de Jerusalém que
repercutiu por toda a Judéia. Escrevendo, pois, este livro, quisemos
concorrer, de certa forma, para que a Idéia Religiosa se estreite cada
vez mais com a Idéia da Imortalidade, para que o Evangelho mereça;
um lugar de destaque no nosso coração e aí possa o Espiritar
de Jesus Cristo erigir a sua cátedra. Oxalá que nesta humilde
obra possam os estudiosos encontrar a Luz que ilumina, a Fé que orienta,
a Verdade que alegra e felicita!
Cairbar Schutel