COMER OU NÃO COMER CARNE?

87. A destruição recíproca dos seres vivos é, dentre as leis da Natureza, uma das que, à primeira vista, menos parecem conciliar-se com a bondade de Deus. Pergunta-se por que lhes criou ele a necessidade de mutuamente se destruírem, para se alimentarem uns à custa dos outros. Para quem apenas vê a matéria e restringe à vida presente a sua visão, há de isso, com efeito, parecer uma imperfeição na obra divina. É que, em geral, os homens apreciam a perfeição de Deus do ponto de vista humano; medindo-lhe a sabedoria pelo juízo que dela formam, pensam que Deus não poderia fazer coisa melhor do que eles próprios fariam. Não lhes permitindo a curta visão, de que dispõem, apreciar o conjunto, não compreendem que um bem real possa decorrer de um mal aparente. Só o conhecimento do princípio espiritual, considerado em sua verdadeira essência, e o da grande lei de unidade, que constitui a harmonia da criação, pode dar ao homem a chave desse mistério e mostrar-lhe a sabedoria providencial e a harmonia, exatamente onde apenas vê uma anomalia e uma contradição. (A Gênese - Cap. lII - Perg. 20)

Comentários: O corpo possui existência finita, enquanto o espírito é infinito. O corpo nasce, cresce, envelhece e morre, isto é, degrada-se e se desfaz para devolver à natureza os seus componentes ocorrendo uma reciclagem. Estes componentes, que anteriormente formavam os corpos físicos, que serviram de abrigo ao espírito, se reorganizam por força da natureza e voltam a formar novos corpos. Quando um ser destrói o corpo físico de outro ser, para se alimentar, os nutrientes, isto é, as partes dos corpos destruídos, são transformados em componentes que promovem a manutenção do corpo daquele que assimilou tais componentes. Por isso na natureza nada se perde, tudo se transforma. Para que não houvesse a necessidade de se criar sempre novos corpos, com componentes novos a cada nascimento físico, Deus permite que os seres "vivos se destruam entre si para "reciclar" os componentes disponíveis em nosso ambiente terrestre. Assim, os corpos físicos fornecem componentes para formar novos corpos, mas o espírito não morre e não precisa ser reciclado. Os sofrimentos decorrentes da destruição são passageiro, temporários e fazem parte do aprendizado evolutivo.

88. A verdadeira vida, tanto do animal como do homem não está no invólucro corporal, do mesmo que não está no vestuário. Está no principio inteligente que preexiste e sobrevive ao corpo. Esse princípio necessita do corpo, para se desenvolver pelo trabalho que lhe cumpre realizar sobre a matéria bruta.

O corpo se consome nesse trabalho, mas o Espírito não se gasta; ao contrário, sai dele cada vez mais forte, mais lúcido e mais apto. Que importa, pois, que o Espírito mude mais ou menos freqüentemente de envoltório?! Não deixa por isso de ser Espírito. É precisamente como se um homem mudasse cem vezes no ano as suas vestes.

Não deixaria por isso de ser homem. Por meio do incessante espetáculo da destruição, ensina Deus aos homens o pouco caso que devem fazer do envoltório material e lhes suscita a idéia da vida espiritual, fazendo que a desejem como uma compensação. Objetar-se-á: não podia Deus chegar ao mesmo resultado por outros meios, sem constranger os seres VIVOS a se entre destruírem? Desde que na sua obra tudo é sabedoria, devemos supor que esta não existirá mais num ponto do que noutros; se não o compreendemos assim, devemos atribuí-lo à nossa falta de adiantamento. Contudo, podemos tentar a pesquisa da razão do que nos pareça defeituoso, tomando por bússola este princípio: Deus há de ser infinitamente justo e sábio. Procuremos, portanto, em tudo, a sua justiça e a sua sabedoria e curvemo-nos diante do que ultrapasse o nosso entendimento. (A Gênese - Destruição dos seres vivos uns pelos outros - Cap. III - Perg. 21)

Comentários: Como foi dito, o Espírito é eterno e não se destrói, enquanto o corpo cuja vida é finita, é um instrumento de manifestação de nosso Espírito e serve também como uma vestimenta do Espírito se renova a cada encarnação do Espírito. É necessário que isso aconteça para que experimentemos diversas situações distintas em corpos diferentes. Se o corpo fosse também indestrutível, teríamos que já ser colocados, como espíritos, em um único corpo o qual teríamos eternamente.

Isso implicaria em sermos criados especialmente para habitar, eternamente, um único tipo de corpo, o que determinaria uma falibilidade para Deus, que seria injusto com aqueles seres que hoje, por exemplo, consideramos como inferiores, isto é, Deus seria parcial. Ainda não experimentaríamos a vida nas fases primitivas, nas quais estivemos, não conheceríamos as situações em diferentes sexos, nem o que é ser fraco, ou doente, ou qualquer que seja a experiência que se diferencie daquela estabilidade inútil, que teríamos eternamente, caso nosso corpo não se destruísse. Se assim fosse nossa evolução não existiria e seria sempre incompleta.

89. Uma primeira utilidade, que se apresenta de (destruição) utilidade, sem dúvida, puramente física é esta: os corpos orgânicos só se conservam como auxílio das matérias orgânicas, matérias que só elas contêm os elementos nutritivos necessários à transformação deles. Como instrumentos de ação para o princípio inteligente, precisando os corpos ser constantemente renovados, a Providência faz que sirvam ao seu mútuo entretenimento.

Eis por que os seres se nutrem uns dos outros. Mas, então, é o corpo que se nutre do corpo, sem que o Espírito se aniquile ou altere. Fica apenas despojado do seu envoltório. (A Gênese - Destruição dos seres vivos uns pelos outros - Cap. III- Perg. 22)

Comentáríos: Nossos corpos são formados basicamente por seis elementos químicos principais, além de outros, que surgem em menores proporções. Os principais são: carbono, oxigênio, hidrogênio e nitrogênio. Estes circulam pela natureza para formar os corpos orgânicos dos seres vivos. Para manter a estabilidade da manutenção destes no meio ambiente é preciso que aqueles que estão nos corpos vivos sejam devolvidos, depois de algum tempo, à natureza para que se formem outros novos corpos, que poderão abrigar os espíritos que necessitarão retornar ao mundo físico para continuar o aprendizado.

90. É necessária a luta para o desenvolvimento do Espírito. Na luta é que ele exercita suas faculdades. O que ataca em busca do alimento e o que se defende para conservar a vida usam de habilidade e inteligência, aumentando, em conseqüência, suas forças intelectuais. Um dos dois sucumbe; mas, em realidade, que foi o que o mais forte ou o mais destro tirou ao mais fraco? A veste de carne, nada mais; ulteriormente, o Espírito, que não morreu, tomará outra. (A Gênese - Destruição dos seres vivos uns pelos outros)

Comentáríos: Sendo o Espírito uma entidade eterna, a experiência por que passa na carne se constitui em aprendizado que lhe servirá posteriormente na sua elevação moral. Quando tal Espírito destrói outro para a sobrevivência do seu próprio corpo, ele aplica táticas de ataque e de defesa; desenvolve meios para tornar mais eficiente tal manutenção por meio de associações entre semelhantes, estimulando a formação de comunidades que, em conjunto, favorecerá uma sobrevivência mais fácil.

Indiretamente favorece não somente a própria sobrevivência, mas também a evolução social entre os seres, que precisarão se entender entre si para tornar cada vez mais eficiente o trabalho de sobreviver.

De qualquer modo, mesmo sobrevivendo mais que a vítima, o caçador também, cedo ou tarde, terá de devolver o seu corpo à Natureza, liberando o Espírito, que terá um novo corpo para prosseguir em suas experiências evolutivas.

91. Nos seres inferiores da criação, naqueles a quem ainda falta o senso moral, nos quais a inteligência ainda não substituiu o instinto, a luta não pode ter por " senão a satisfação de uma necessidade material. Ora. uma das mais imperiosas dessas necessidades é a da alimentação. Eles, pois, lutam unicamente para viver isto é, para fazer ou defender uma presa, visto que nenhum móvel mais elevado os poderia estimular. (A Gênese - Destruição dos seres vivos uns pelos outros - Perg. 24)

Comentários: Quanto mais primitivo o ser, maiores serão as manifestações instintivas, que implicam em maior necessidade de luta para a sobrevivência do corpo e da espécie animal, pois sendo seres que ainda não tiveram experiências reencarnatórias suficientes para lhes dar maior inteligência e discernimento moral, possuem por maior objetivo apenas a sobrevivência.

À medida que tal espírito, ao longo de inúmeras reencarnacões adquire maior bagagem emocional intelectual e moral, ele vai necessitando cada vez menos da intervenção dos instintos, pois sua evolução lhe fornece corpos cada vez mais sutis e menos instintivos. São nesses momentos que o espírito se sente mais livre para exercer seus dotes espirituais e morais com menos restrições, como aquelas que foram impostas pelos antigos corpos densos.

92. É nesse primeiro período que a alma se elabora e ensaia para a vida. No homem, há um período de transição em que ele mal se distingue do bruto. Nas primeiras idades, domina o instinto animal e a luta ainda tem por móvel a satisfação das necessidades materiais. Mais tarde contrabalançam-se o instinto animal e o sentimento moral; luta então o homem, não mais para se alimentar, porém, para satisfazer à sua ambição, ao seu orgulho, à necessidade, que experimenta de dominar. Para isso, ainda lhe é preciso destruir. (A Gênese - Cap. III)

Comentários: Nestes exercícios de sobrevivência que o espírito aprende sobre a vida no mundo físico e conhece os aspectos da vida em sociedade. Na luta pela sobrevivência, os seres encarnados se superam ao se associarem e passam a viver em categorias espirituais mais elevadas à medida que consegue controlar seus instintos. Neste período, o espírito angaria experiências para se habilitar a entrar para a fase de humanidade.

Ao passar para esta nova fase evolutiva, humanidade, o espírito, recém-chegado não perderá seus instintos animais por se tornar humano, pois eles persistem por prolongado tempo ainda. Isso é importante, pois mesmo os seres humanos ainda são animais que precisam se defender de predadores, sejam eles predadores morais ou físicos. Mesmo que a sociedade humana tenha forças multiplicadas no que se refere à sobrevivência da espécie, os instintos persistem No entanto, há uma maior influência de sua inteligência sobre os instintos e com isso o ser humano encontra os meios de dominar os mais fracos e impor-se orgulhosamente. Por isso surgiu a indústria animal, por exemplo que satisfaz o desejo de ambição e de dominar.

Com isso o ser humano ainda destrói e destrói de modo mais danoso a si próprio e ao mundo físico em que vive.

93. Todavia, à medida que o senso moral prepondera, desenvolve-se a sensibilidade, diminui a necessidade de destruir, acaba mesmo por desaparecer, por se tornar odiosa. (A Gênese - Cap. III - Perg. 24)

Comentáríos: Esta fase em que estamos vivendo atualmente, fase de humanidade, em que a destruição está em momento de exacerbação, certamente terá fim, pois esta fase é passageira e perde forças à medida que o senso moral ganha forças. À proporção que o senso moral cresce na humanidade, crescem o respeito pela natureza e pelos seus seres, que tem tanto direito à vida quanto nós. Quando este sentimento de solidariedade com a natureza se tornar unânime, a destruição de outros seres para se alimentar ou para outros fins se tornará odiosa.

94. O homem ganha horror ao sangue. Contudo, a luta é sempre necessária ao desenvolvimento do Espírito pois mesmo chegando a esse ponto que parece culminante, ele ainda está longe de ser perfeito. Só à custa de muita atividade adquire conhecimento, experiência e se despoja dos últimos vestígios da animalidade. Mas nessa ocasião, a luta, de sangrenta e brutal que era, se torna puramente intelectual. O homem luta contra as dificuldades, não mais contra os seus semelhantes. (A Gênese - Cap. III)

Comentários: Quando o ser humano perceber que ele próprio faz parte da natureza, não mais a verá como uma subordinada da sua vontade primitiva de dominação. Com isso o respeito a todos os seres será grande o suficiente para que considere os outros seres da natureza como semelhantes e não mais destruirá nem para se alimentar, nem para satisfazer o desejo de dominar, nem para satisfazer o seu orgulho, mas preservará a vida e terá horror a matar ou ser conivente com a morte premeditada de outros seres. A partir deste ponto, o ser humano deixará de ser o ser primitivo de outros tempos e terá horror até mesmo ao simples pensamento de ingestão de carne.

No entanto o ser humano, que ainda terá necessidade de reencarnar ainda terá as dificuldades inerentes à sua evolução, mas não terá mais que lutar contra outros seres ou contra outros seres humanos como fazia nas fases prímitivas de sua existência, como a que ainda hoje vivemos. A luta evolutiva será apenas intelectual e moral.

Marcel Benedeti