RETROGRADAÇÃO
DA ALMA |
147. O terem os seres vivos uma origem comum no princípio inteligente não é a consagração da doutrina da metempsicose ?
R: Duas coisas podem ter a mesma origem e absolutamente não se assemelharem mais tarde. Quem reconheceria a árvore, com suas folhas, flores e frutos, do gérmen informe que se contém na semente donde ela surge? Desde que o princípio inteligente atinge o grau necessário para ser Espírito e entrar no período da humanização, já não guarda relação com o seu estado primitivo e já não é a alma dos animais, como a árvore já não é a semente. De animal só há no homem o corpo e as paixôes que nascem da influência do corpo e do instinto de conservação inerente à matéria. Não se pode, pois, dizer que tal homem é a encarnação do Espírito de tal animal. Conseguintemente, a metempsicose, como a entendem não é verdadeira. (O Livro dos Espíritos - Perg. 611)
148. Poderia encarnar num animal o Espírito que animou o corpo de um homem?
R: Não. Isso seria retrogradar e o Espírito não retrograda. O rio não remonta à sua nascente. (O Livro dos Espíritos - Perg. 612)
Comentário: A reencarnação de um espírito humano em um corpo de animal é crença comum no Oriente, onde crêem que, por castigo, um ser humano pode reencarnar nesta condição inferior para expiar erros que cometeu. No entanto, este conceito de reencarnação de espíritos superiores em reinos primitivos não é confirmado pelo Espiritismo.
Kardec pergunta ao Espírito da Verdade, em nossas palavras: Tendo os espíritos de todos os seres vivos a mesma origem do ser humano, e tendo o homem resquícios de sua fase primitiva, não poderia ser isso a confirmação de que poderíamos reencarnar como animais ou vegetais novamente e retrogradar na escala evolutiva?
O Espírito da Verdade responde que, pelo fato de termos vividos na fase primitivas dos seres inferiores, não significa que haja necessidade de voltar à aquelas fases. Seria como um professor universitário que cometa um delito qualquer seja obrigado a deixar de ser professor para assistir aula entre as crianças do pré-primário. Qual seria a utilidade disso, já que o professor sabe de tudo o que uma criança em tenra idade poderia saber? Seria perda de tempo precioso de evolução. Isso então não acontece.
Este professor já não sendo mais criança, apesar de já ter sido algum dia, não guarda mais em si as características da criança que já foi, pois amadureceu. Ele não é mais uma criança, mas nada impede que ele jogue bola com os amigos ou videogame com o filho pequeno e se divirta com isso como uma criança, mesmo não sendo mais uma. Assim, o ser humano não estão mais na fase animal, mas, sim, hominal; no entanto, ainda guarda algumas vontades animais de suas fases passadas, mesmo não sendo mais um.
Até mesmo os corpos animais não são mais compatíveis com o nosso estágio mais adiantado que dos animais. Adequar nosso espírito a um corpo primitivo demandaria muito trabalho para pouco aproveitamento. De que adiantaria um adulto tentar vestir uma roupa que usava quando era uma criança, se as roupinhas nem servem mais?
149. Embora de todo errônea, a idéia ligada à metempsicose não terá resultado do sentimento intuitivo que o homem possui de suas diferentes existências ? Nessa, como em muitas outras crenças, se depara esse sentimento intuitivo. O homem, porém, o desnaturou, como costuma fazer com a maioria de suas idéias intuitivas. (O Livro dos Espíritos - Perg. 613)
Comentários: Em outras palavras, embora não sendo uma idéia real, a metempsicose, ou seja, a idéia de que o ser humano possa reencarnar em um corpo de algum ser inferior como animal ou vegetal, não seria conseqüente aos resquícios que o ser humano ainda possui de suas vidas anteriores nas fases primitivas da natureza?
A resposta, em outras palavras, do Espírito da Verdade: Nesta como em outras crenças, o homem encontra sensações semelhantes às que sentiam, quando era um ser inferior da criação, pois ainda possui instintos. Porém, os seres humanos em suas crenças, que não se baseiam na realidade, deturpam-na e a transformam naquilo que sua imaginação quer crer.
Assim criamos realidades falsas para satisfazer nossas imaginações.
150. Seria verdadeira a metempsicose, se indicasse a progressão da alma, passando de um estado a outro superior, onde adquirisse desenvolvimentos que lhe transformassem a natureza. É, porém, falsa no sentido de transmigração direta da alma do animal para o homem e reciprocamente, o que implicaria a idéia de uma retrogradação, ou de fusão. (O Livro dos Espíritos, - perg. 613).
Comentário: Transmigração é semelhante a dizer que seja possível ocorrer a migração de um espírito que habita um determinado corpo a outro corpo, no qual já há um Espírito que o habita, havendo uma fusão de dois espíritos. Isso não acontece. Os Espíritos são individualidades eternas, e isso não muda no decorrer de qualquer fase que seja da sua evolução.
Se o espírito de um animal pudesse abandonar o corpo que habita para se transmigrar para um corpo humano, que já está ocupado por um espírito humano, eles, segundo a tese da metempsicose, se fundiriam em um só espírito. Isso não ocorre. Do mesmo modo que o espírito de um ser humano não pode abandonar o seu corpo para ocupar o corpo de um animal, como não poderia nem mesmo que recebesse um corpo novo recém-nascido, que não seja ocupado por nenhum espírito ainda, também não seria algo real, pois isso seria retrogradar, ou seja, isso seria voltar atrás na evolução.
151. Ora, o fato de não poder semelhante fusão operar-se, entre os seres corporais das duas espécies, mostra que estas são de graus inassimiláveis, devendo dar-se o mesmo com relação aos Espíritos que as animam. Se um mesmo Espírito as pudesse animar alternativamente, haveria, como conseqüência, uma identidade de natureza, traduzindo-se pela possibilidade da reprodução material. (O Livro dos Espíritos - Perg. 613)
Comentários: Assim como os corpos físicos de diferentes espécies não podem se unir para reprodução, os Espíritos de mais elevado grau de evolução não podem se encarnar em um corpo compatível com Espíritos de menor evolução.
152. A reencarnação, como os Espíritos a ensinam, se funda, ao contrário, na marcha ascendente da Natureza e na progressão do homem, dentro da sua própria espécie, o que em nada lhe diminui a dignidade. O que o rebaixa é o mau uso que ele faz das faculdades que Deus lhe outorgou para que progrida. Seja como for, a ancianidade e a universalidade da doutrina da metempsicose e, bem assim, a circunstância de a terem professado homens eminentes provam que o princípio da reencarnação se radica na própria Natureza. Antes, pois, constituem argumentos a seu favor, que contrários a esse princípio. (O Livro dos Espíritos - Perg. 613)
Comentários: Em outras palavras, a reencarnação, do homem, ocorre dentro de uma mesma espécie, isto é, dentro da espécie humana e não animal. Pois a reencarnação dentro da própria espécie visa à progressão e evolução do espírito. O que diminui o ser humano frente a si mesmo é o mau uso de sua inteligência, que deveria ser usada para o progresso. Seja como for a antiga idéia de que almas humanas podem reencarnar em corpos de animais ou vegetais, como diz a crença oriental, mostra na verdade a crença básica reside na crença da reencarnação, que é uma crença natural, ainda que esteja deturpada. Crer na metempsicose, afinal, é o mesmo que crer na reencarnação, sem o saberem.
153. O ponto inicial do Espírito é uma dessas questões que se prendem à origem das coisas e de que Deus guarda o segredo. Dado não é ao homem conhecê-las de modo absoluto, nada mais lhe sendo possível a tal respeito do que fazer suposições, criar sistemas mais ou menos prováveis. Os próprios Espíritos longes estao de tudo saberem e, acerca do que não sabem, também podem ter opiniões pessoais mais ou menos sensatas. É assim, por exemplo, que nem todos pensam da mesma forma quanto às relações existentes entre o homem e os animais. (O Livro dos Espíritos - Perg. 613)
Comentários: Este enunciado é muito importante, pois mostra que nem todos os espíritos que deixaram as mensagens que compõem a Codificação estão de acordo em alguns tópicos, porque alguns deles também os desconhecem em sua totalidade. Isso é perfeitamente compreensível, já que são espíritos de pessoas que viveram entre nós e nem todos eram espíritos extremamente superiores a nós que trouxeram as informações contidas na Codificação. Isso pode ser bem percebido em uma entrevista com o espírito de Charlet, publicado na Revista Espírita de 1858, em que o espírito traz informações a respeito dos animais no mundo espiritual. Charlet se contradisse várias vezes, mas, secundado por espíritos superiores, se corrigiu.
Marcel Benedeti