2
- A PROPAGAÇÃO NO BRASIL |
Antes mesmo da descoberta, segundo revelam instrutores espirituais, e perdidas
as esperanças de que a nova Canaã terrestre voltasse a sedear-se
na antiga Palestina, decidiu-se no Espaço, com a inspirada assistência
do Divino Condutor, que fosse ela transferida para a região onde, mais
tarde, veio plantar-se o estandarte das quinas lusitanas, para formar aí
o grande país que é o nosso amado Brasil,
berço da futura espiritualidade.
Decorridos séculos, durante os quais o território foi preservado
de ambições estranhas, constituiu-se a nação liberal
e fraterna, que abrigaria no futuro levas inumeráveis de irmãos
nossos, oriundos de todas as regiões do globo. Mas, transcorrido o tempo
e não tendo havido evolução religiosa em condições
satisfatórias para a espiritualização da humanidade, foi
decidida a outorga de uma doutrina nova, realizadora das promessas do Paracleto,
isenta de dogmas e exterioridades, apta a encaminhar os homens à indispensável
evangelização.
Doutra parte, como não foi possível, por carência de recursos
humanos e ambientais, a eclosão da nova doutrina em nosso País,
nasceu ela na França, em meados do século XIX, com o concurso
precioso do missionário Hippolyte Leon Denizard Rivail, que adotou nos
seus trabalhos o pseudônimo "Allan Kardec", nome que possuíra
em encarnação anterior entre os celtas; a ele foi atribuído
o encargo delicado da necessária codificação, realizada,
aliás, de forma magistral e perfeita, sob o nome de Doutrina dos Espíritos,
pelo fato de não ser obra de um homem ou de um grupo de homens, mas de
entidades espirituais, porta-vozes do Cristo planetário.
O insigne codificador, ocioso será dizer, não foi escolhido à
sorte; além dos dotes intelectuais que possuía de educador emérito,
era homem amadurecido em conhecimentos espirituais, obtidos em vidas anteriores,
e altamente capacitado para a transcendente missão. E nem poderia ser
de outra forma, porque o Alto não delega tarefas importantes, de projeção
mundial, a indivíduos não capacitados ao seu desempenho.
Eis algumas datas a ele referentes :
Nascimento em Lion, na França........................ 1804
Contatos iniciais em Paris ............................... 1855
Investidura espiritual na tarefa ....................... 1856
1ª. edição de O Livro dos Espíritos....................
1857
Desencarne.................................................... 1869
Ao publicar-se na França esse primeiro livro, já em nosso país
surgiram os primeiros agrupamentos espíritas e a Doutrina iniciava seus
passos, enfrentando as dificuldades naturais a um empreendimento dessa espécie,
hostilidades sociais e religiosas, próprias do ambiente ainda retardado,
do ponto de vista espiritual.
Mas, apesar de nunca cessar de expandir-se e a Constituição Nacional,
após a República, assegurar a liberdade de crença e de
pensamento, o terreno foi sendo conquistado com extrema lentidão e, até
meados do século XX, sérias dificuldades ainda surgiam, embaraçando
o esforço dos abnegados servidores; médiuns eram processados,
adeptos prejudicados de várias formas, a difusão pública
se fazia com grande timidez, assim se refletindo até mesmo nos censos
decenais da Nação, onde o número exato dos profitentes
não vem sendo revelado em concordância com a realidade demográfica.
Para uns, o Espiritismo só cuidava de bruxarias; para outros, os fenômenos
eram provenientes de Espíritos malignos, porque os bons não se
manifestavam na Terra (aleivosia claramente ligada às crenças
católicas romanas de santos e demônios); ou as sessões se
limitavam a conversas tenebrosas com os mortos, sendo os médiuns feiticeiros
ou endemoninhados.
Grande era a ignorância do povo sobre a Doutrina e poucos, muito poucos,
mesmo entre os que se diziam espíritas (simplesmente o diziam) penetravam-lhe
a essência, atingiam-lhe a finalidade reformadora, perdendo-se em generalizações,
devaneios literários e filosóficos, ou pretensões de um
cientificismo que a Doutrina não tem como ação específica;
e somente agora, em nossos dias, essas qualidades vêm sendo alcançadas,
pois que o que faltou nos anos anteriores, foi justamente o esclarecimento adequado,
a orientação doutrinária conveniente, transmitida por dirigentes
hábeis, de visão aberta para o futuro, aptos à difusão
no seu sentido popular, dentro da mística da redenção.
Não havia nesses dias projeção exterior satisfatória,
as atividades, limitando-se a sessões mistas, em centros de direção
arbitrária e pessoal ou em grupos domésticos fechados e dirigidos,
via de regra, por pessoas não preparadas, conquanto animadas de muito
boa vontade, sentimentos apurados e inegável idealismo.
Essa situação inexpressiva foi ligeiramente abalada quando surgiram
as materializações da família Prado, em Melem do Pará,
que centralizaram o interesse por esse tipo de manifestações,
ocorrendo, então, um surto delas em muitos lugares, inclusive nesta Capital
(São Paulo), atraindo a atenção de milhares de adeptos
e curiosos.
Surgiram médiuns aqui e ali, produzindo materializações,
levitações, transportes, voz direta e outros fenômenos,
idênticos aos que caracterizaram o período pós-codificação,
quando cientistas de várias nações, sobretudo da Europa,
saíram a campo para examiná-los, no afã de desvendar a
falsidade deles, acabando, entretanto, em franca maioria, por autenticá-los,
prestando assim valioso concurso à difusão da Doutrina e sua consolidação.
Ao mesmo tempo, notadamente nas grandes cidades, seitas paralelas, de significação
doutrinária inferior, dedicadas, mais que tudo, às práticas
de terreiro, tiveram também larga expansão nesse período
e ganharam acentuada dianteira, dominando áreas populosas em várias
regiões do País, promovendo diversificações e
confusões no entendimento do povo inculto, já de si mesmo propenso
a tais práticas, pelo seu cunho utilitário e atraente aspecto
exterior.
Edgard Armond