APRENDIZES
DO EVANGELHO |
Havendo publicado, em 1967, um opúsculo denominado Para os Aprendizes do Evangelho — e reconhecendo agora a conveniência de desdobrar o assunto para documentar, detalhadamente, a criação da "Iniciação Espírita", ocorrida em 1950, na Federação Espírita do Estado de São Paulo, e orientar, de forma objetiva e clara, as várias escolas desse tipo, que se vêm criando em vários lugares do País e do estrangeiro, e, ainda, para satisfazer os pedidos de interessados, publicamos este novo trabalho, para o qual transferimos alguns períodos do referido opúsculo, que melhor se enquadram no texto.
Por outro lado visamos, com este trabalho, reafirmar o caráter liberal e universalísta da Doutrina dos Espíritos, que nos obriga a todos estarmos atentos para não se fazer do Espiritismo uma seita fechada, adstrita com intolerância aos limites da Codificação — seu precioso fundamento estrutural — considerando-se que a Doutrina é de grande projeção, e muito ampla e geral vinculação cósmica. Por isso é que sua base moral é o Evangelho de Jesus, na sua expressiva, porém, racional significação redentora, não condicionada. Jesus, o Espírito de sublimada condição, governador espiritual do planeta que habitamos, é condutor de sua humanidade e não de parte dela e qualquer tendência de caráter sectarista é uma diminuição dessa grandeza.
Nesses termos é que Ele proclamou seus ensinamentos determinando, ao final, que a Boa Nova fosse levada a todas as nações do mundo, sem restrições. É por isso, também, que a Doutrina oferece três diferentes setores de atividades, e o que neles houver de filosofia e de ciência comparticipa dessa universalidade, pois que, sendo a filosofia o amor ao conhecimento, este não se pode restringir a uma parte somente do todo; e, sendo ciência, esta, de igual forma, não pertence senão à humanidade toda, sem delimitações ou fronteiras.
O
Espiritismo, como não poderia deixar de ser, incorporou verdades preexistentes
de natureza universal difundidas pelas doutrinas orientais, e reafirmadas pelo
Divino Mestre no seu Evangelho, dentre as quais, entre outras:
- a) da Reencarnação;
- b) de Causa e Efeito, conhecida como Carma;
- c) da Pluralidade dos Mundos Habitados, que por si mesma expressa projeção
ilimitada;
- d) do Intercâmbio entre os mundos materiais e espirituais, de ação
também indefinida;
- e) da Ascensão humana pela espiritualização.
Como, pois, imaginar a Doutrina com feição restrita, com reservas
de conhecimentos que já existiam antes dela? Restringi-la a uma inspirada
e liberal Codificação que, em si mesma, condena a limitação
e proclama a universalidade dos conhecimentos? Restringir é diminuir,
e só o podem desejar aqueles que têm segundas intenções,
ou não lhe penetram a essência e as sublimadas finalidades redentoras.
A glória, pois, do Espiritismo está principalmente:
- a) na ampliação do conhecimento sobre o mundo espiritual adstrito
à Terra;
- b) na popularização do intercâmbio espiritual entre seres
encarnados e desencarnados;
- c) na efetivação da promessa messiânica do Paracleto e
do Consolador;
- d) na retomada da mística da redenção, iniciada pelo
Cristianismo Primitivo nos dois primeiros séculos de nossa era.
De outra parte, como o Espiritismo é considerado
a Terceira Revelação, numa sequência que vem de Moisés,
com o Decálogo, ampliando-se, com Jesus, pelo ensinamento da universalidade
do amor — fraternidade dos homens na paternidade de Deus —
é certo que a Doutrina dos Espíritos, para ser realmente a terceira,
confirmando e testificando o anteriormente ensinado, deve provar que está
à altura do título, revivendo o Cristianismo Primitivo, confirmando-o
em seus enunciados e práticas e exigindo dos adeptos a vivência
dos ensinamentos, como natural prioridade.
Mas se não exigir essa vivência, nestes termos, como poderá
honrar a filiação, considerando-se que as revelações
antecessoras, das quais se intitula e realmente é glorioso prolongamento
no presente, revelaram-se altamente iniciáticas, transformadoras do ser
humano, eliminadoras de inferioridades morais que, em mais funda análise,
outra coisa não foram que agentes dessa redenção pela vivência
desse amor universal e eterno?
Esta é a maior justificativa da criação desta Iniciação
Espírita, nas bases em que foi feita e com as características
que lhe foram dadas em 1949, porque reviver o Cristianismo Primitivo significa
ensinar o que Jesus ensinou, pregar o que Ele pregou, viver dentro das regras
morais que Ele estabeleceu para a redenção do homem terreno.
Considere-se, pois, que os esforços individuais desenvolvidos para isso
devem possuir um determinado sentido místico, não de crer cegamente
em algo, mas de formar, de maneira racional, um ideal religioso, um elo material
que congregue fortemente os adeptos e os leve a realizações altas
e definitivas, no campo da vida espiritual superior.
Temos a esperança de que esta publicação,
apesar de transcrever alguns conceitos e instruções já
formulados anteriormente, possa tornar-se útil à orientação
da conduta pessoal, valha como estímulo para aqueles que se resolvam
a lutar pelo seu auto-aperfeiçoamento, com vistas a uma evangelização
não convencional, pragmática ou aleatória, mas verdadeira,
definitiva e fecunda de realizações espirituais, indispensáveis
ao apressamento da evolução de cada um.
São Paulo, dezembro de 1970
Guia do Aprendiz - Edgard Armond