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A ALEGRIA DO RELIGIOSO |
É incrível, mas temos encontrado muita gente que acha incompatível a coexistência dos sentimentos de religião e de alegria numa só pessoa. "0 indivíduo religioso é um desmancha prazeres", costuma-se pensar.
É claro que existem aqueles religiosos - de todas as crenças fanáticos e intolerantes. São indivíduos que "vestiram" a religião como uma grossa carapaça: quando, na realidade, a religião deve ser o sangue a vitalizar a personalidade, a projetar o indivíduo ao encontro de seu semelhante. Existem, sim, tais pessoas que se dizem religiosos. Pessoas cheias de amargura, que, a pretexto de uma falsa autosantificação, transformam num inferno a vida de seus familiares e amigos próximos. Egoístas, jamais religiosos.
Religião é, acima de tudo, transmissão de alegria. E, para transmitir alguma coisa, precisamos possuí-la em grande quantidade. Cada qual dá aquilo de que tem cheio o coração - é uma expressão evangélica pouco lembrada. Se cultivarmos a carranca, a amargura, jamais conseguiremos transmitir alegria. Se cultivarmos perenemente a censura à sociedade, nunca poderemos transmitir fraternidade e jamais poderemos transmitir valores nobres, já que só identificamos fatos censuráveis de acordo com a nossa moral particular.
Já ouvi alguém dizer que Jesus nunca foi visto sorrindo. Uma dedução particular para justificar a carranca própria ! Faço, então, uma ponderação: mesmo acreditando-se que Jesus nunca foi visto sorrindo, é muita pretensão nossa querer seguí-lo nessa particularidade. Pretensão ou infantilidade. Ou comodismo. Porque os carrancudos todos não são capazes de seguir a essência do ensinamento cristão: amar o próximo como a si mesmo. Uma vez que o sorriso faz parte da afabilidade, da doçura, do trato humano.
Mas, então, se Jesus não sorria, ele não externava amor pelas criaturas? Ora, mais uma vez voltamos à comparação inadmissível. Jesus é um Espírito de alta envergadura e seu amor por nós já é um sentimento natural e profundo, e não fruto do sorriso, Poder-se-ía dizer que o sentimento amoroso de Jesus, que abrange a Terra toda, é um sorriso permanente nos confortando e aliviando nossas tensões, o que se nota no homem carrancudo, entretanto, é expressão de amargura, reprovação por tudo o que é alegria, isto é, uma extraordinária incapacidade de amar. E uma extraordinária capacidade de estragar alegrias alheias.
O sorriso, a alegria, é um poderoso instrumento de comunicação com o nosso próximo, É uma arma de aproximação dos homens. Não significa isto que devemos ficar sorrindo sempre; é claro que há ocasiões que exigem rosto fechado para não sermos levados à conta de mal-educados. E não nos referimos, também, à alegria adquirida artificialmente, através de meios químicos que chegam até a provocar reações alucinógenas: nem, tampouco, ao deboche decorrente dos procedimentos indecorosos ou de anedotas chulas. Distinguimos a alegria espontânea e sadia, do sarcasmo ou da gargalhada debochada.
O religioso, e o espírita em particular, deve ser alegre. Deve cultivar a alegria. Deve eliminar de si aquela atitude de imagem de barro ou de louça, somos homens colocados entre outros homens. O cristão é o sal da Terra - disse Jesus. E o sal dá sabor aos alimentos sem perder as características próprias. Devemos, portanto, dar alegria de viver aos outros homens, sem, contudo, descermos ao abismo da imitação chula ou do exibicionismo barato.
Devemos cultivar alegria para transplantá-la em outros corações. Ou nos sentimos felizes como religiosos e nos esfoçamos por transmitir essa felicidade ao nosso semelhante, ou estaremos nos torturando e tentando dar aos outros uma idéia de religião baseada tão- somente no nosso fel interior.
Valentim Lorenzetti