A EXISTÊNCIA DE DEUS

Freqüentemente o Espírito humano se vê à frente de uma indagação grave e que tem provocado muito desentendimento entre os homens: o que é Deus? O Espiritismo não poderia fugir a essa indagação, pois de sua resposta depende o desenvolvimento do corpo doutrinário. O Livro dos Espíritos, base da Codificação Espírita, dedica seu primeiro capítulo às chamadas causas primárias, a Deus.

A pergunta número um desse livro, que resume o ensinamento dos Espíritos Superiores, é direta: o que é Deus? A resposta também é incisiva: "Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas".

A partir dessa resposta, Kardec formulou novas perguntas dentro do mesmo tema, as quais os Espíritos foram respondendo de forma lógica e ordenada, sem contradições. Surge, dessa forma, Deus como Causa Primária de todas as coisas. Todas as coisas - matéria e Espíritos - têm em Deus sua origem. Um Deus universal e não mais deuses particularistas e dogmáticos, propriedades de seitas ou religiões. Um Deus criador e não um Deus criado pelos homens e, em conseqüência, arrastando todos os vícios e virtudes dos homens. Deus criador do plano da vida e das leis do Universo, de infinito amor, que se ocupa com a essência do homem e não com a forma, nem com variadas formas de o homem se dirigir a Ele.

Mas, onde encontrar a prova da existência de Deus? Os Espíritos respondem: "num axioma que aplicais às vossas ciências: não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem, e vossa razão vos responderá".

É necessário, contudo, que a razão não esteja presa a preconceitos.

É chocante esta afirmação mas é preciso convir que existem homens de grande saber em um determinado ramo do conhecimento humano, que teimam em ser intransigentemente irracionais no tocante a outros ramos. São homens preconceituosos. Como preconceituoso é também aquele que tudo subordina à ação dos Espíritos. A razão aqui invocada pelos Espíritos para análise da existência de Deus é aquele sentimento que faz com que, por exemplo, sugere o físico dizer: "não encontro na Física elementos que provem a existência de Deus, mas façamos indagações às outras ciências para que possamos tirar alguma conclusão racional". Não estará utilizando a razão aquele que quiser subordinar tudo ao ponto de vista de sua especialidade.

Além do mais há um sentimento intuitivo que todo homem traz, da existência de Deus. Em nosso íntimo, embora muitas vezes o orgulho e o amor-próprio digam o contrário, sentimos a existência de Deus, a existência de um ser superior. Muitos poderão achar que tal sentiimento seja uma decorrência dos ensinamentos religiosos da infância, o efeito da educação, enfim, produto de idéias adquiridas. Se assim o fosse não existiria entre os selvagens e não seria um sentimento universal. Se a idéia de Deus fosse criação particularista de algum povo, ela existiria somente entre esse povo ou entre aqueles indivíduos que tiivessem tido contato cultural com esse povo.

Quando examinamos um relógio, não nos ocorre a idéia de que aquela precisão cronométrica do mecanismo tenha sido obra do acaso, isto é, que todas as peças se tenham juntado ao acaso e dado forma, funcionalidade e precisão ao relógio. É claro que o bom senso nos indica a existência de um relojoeiro, de um construtor de relógios - de uma inteligência superior ao relógio. E se olharmos para o Uniiverso e meditarmos sobre os bilhões de sóis que nele giram em movimentos harmoniosos e precisos (muitos dos quais são medidos pelos astrônomos), como atribuir isso ao acaso? Seria muito mais fácil o acaso construir um relógio e, no entanto, até hoje o relojoeiro é imprescindível- é a causa primária - da construção de todo relógio .

Portanto, deve o Universo ter uma causa primária, um Ser inteligente que estabelece as leis pelas quais os mundos se regem. E um Ser que não é estático, contemplativo; um Ser que trabalha sempre, pois que a cada dia, surgem novos astros "envelhecidos" que se deterioram.

Deus é a base de todas as religiões. Não pode haver Cristianismo sem Deus, nem o Espiritismo poderia existir como Doutrina se não o admitisse. O próprio Cristo se referia ao "Pai que está nos Céus" e se dizia um agente da vontade do Pai. Deus é o elo mais forte que liga as criaturas, que estabelece a fraternidade, que nos lembra a origem comum; todas criaturas de um só criador. Todos são irmãos, independentemente de credo religioso, cor, nacionalidade ou convicções políticas. Uma religião sem Deus é mais uma das muitas criações do homem: um ato particularista de egoísmo. Um ato de separação dos homens, incentivador de lutas e inimizades. A idéia de Deus une mais as criaturas; a negação de Deus estimula o amor-próprio, estimula o homem-deus que é a mais opressora de todas as criaturas.

Valentim Lorenzetti