A HISTÓRIA DA VAQUINHA QUE MORREU

Conta-se que num vilarejo do interior, num casebre, vivia uma família muito pobre. Pai, mãe e oito filhos. Uma vida cheia de privações, sem nenhum conforto e pouca coisa para comer. Tinham uma vaquinha que dava uns bons litros de leite, parte utilizada para alimentar as crianças menores e parte vendida na vila, para ser transformada em dinheiro destinado à compra de alguns poucos gêneros. E assim ia vivendo essa pobre família.

Espíritos amigos, entretanto, estavam muito preocupados e tristes com a situação de penúria de seus protegidos encarnados. Por isso, esses Espíritos, certo dia, dirigiram-se a seus superiores hierárquicos, no plano espiritual, solicitando-lhes que interferissem para que fosse melhorada a situação dessa família. Isto é, solicitaram uma intercessão em favor de seus amigos. Os Espíritos superiores prometeram analisar a situação e tomar as providências que o caso exigia.

Foi assim que, passados alguns dias, a vaquinha morreu. Os Espíritos amigos, estupefatos com esse acontecimento infeliz, imediatamente voltaram a seus superiores, relatando o ocorrido. E obtiverem destes a explicação: "vocês pediram que ajudássemos essa família nós estudamos detidamente a situação e achamos que a melhor coisa ser feita era a retirada da vaca de cena. Agora a situação vai se modificar'"

E, realmente, sem a vaquinha que a mantinha na estagnação a família começou a pensar em novos meios de sustento. Acabou descobrindo, obrigada pelas circunstâncias, uma série de iniciativas o que levou a melhorar rapidamente de vida. Tempos depois, o casebre já era uma boa casa de alvenaria e, ao seu redor, tudo denotava trabalho e ordem. Mudara a vida da família, premida pela morte da vaquinha.

Não sei se esta é uma história verídica, mas tem todos os elementos para ser real. Desde a situação de penúria (e quantas famílias estão nessa situação) até o pedido de intercessão ao plano espiritual superior, para melhorar a vida pessoal. Pedido esse que é feito aos milhares e que os milhares de pedintes esperam ver atendido pela lei do menor esforço.

Realmente, muita gente tem uma vaquinha que passa a se constituir num verdadeiro ponto de acomodação. Só entendem a ajuda quando esta vem somar-se à produção da vaquinha, isto é, quando o auxílio vem apenas colaborar para a continuação de seu ritmo enferrujado. Aliás, essa forma de auxílio (que ajuda a manter a inércia) é o tipo de ajuda que jamais terá a concordância de um Espírito superior. Para os Espíritos elevados - que analisam a situação sob um todo e não apenas sob o aspecto do "hoje" - só é válida a ajuda que estimula a iniciativa, o movimento, de quem está sendo ajudado. É o que chamamos a caridade que ajuda a dispensar a caridade; é a caridade que liberta o indivíduo da miséria e não que o mantém sempre aprisionado à miséria. Que o mantém sempre aprisionado à vaquinha .

Temos numerosos exemplos de pessoas que, a partir do momento em que o auxílio passou a lhes ser prestado de forma a estimuular-lhes a iniciativa, começaram uma caminhada de progresso e jamais voltaram a necessitar de ajuda. Temos um amigo que, quando chegou a São Paulo vindo do interior, há 15 anos, ficou assustado em perder-se com o seu carro nas ruas da grande capital e, para ir ao serviço, fez um amigo precedê-lo em outro carro, durante muitos dias seguidos, até ele gravar bem o trajeto. Quando a rota estava bem fixada pelo meu amigo - e que só fixara sua atenção naquele caminho - ele dispensou o seu "guia" e passou a dirigir seu carro de casa até o serviço e vice-versa. sempre pelo mesmo caminho.

Acontece que um dia a Prefeitura resolveu tapar os buracos de uma das ruas do trajeto e interrompeu a via, desviando o trânsito para algumas paralelas e transversais. Meu amigo ficou desesperado, mas como tinha de chegar ao serviço na hora certa, foi perguntando aqui e ali, e chegou são e salvo ao escritório. A partir desse dia, ele descobriu que existiam muitas ruas que o levariam ao serviço e não apenas o trajeto tão penosamente gravado e que ele julgava ser o único.

Foi preciso um "acidente" no trajeto para que o meu amigo descobrisse dezenas de outras saídas. Isso é um procedimento normal do ser humano; temos uma tendência muito grande de nos acomodarmos e de achar que, fora de nossa rotina, nada nos será bom ou favorável até que chega a ajuda em forma de acidente ou de um fato desagradável, para nos alertar que temos muitas possibilidades em nós mesmos que não estavam sendo aproveitadas.

Valentim Lorenzetti