A MULHER LIVRE

As transformações sociais da atualidade, que são um fenômeno normal dentro do campo da evolução da humanidade, se estão fazendo sentir com maior intensidade junto à mulher. Talvez porque a mulher represente a figura do subordinado, pelo menos simbolicamente, e as transformações visam justamente acabar com todas as formas de subordinação.

Não vamos analisar, neste artigo, o mérito ou demérito da forma com que está sendo conduzida a presente transformação; esta análise ficará para outra oportunidade. Procuraremos dar algumas noções que a Doutrina Espírita faculta no tocante ao papel do Espírito encarnado como mulher. Inicialmente, entretanto, um alerta para as mulheres: se estão certas de estarem se libertando, que prestem atenção: mais uma vez estão entrando no caminho aberto pelos homens, pois as transformações atuais foram iniciadas e são conduzidas por homens.

Há necessidade da compreensão e vivência do seguinte postulado: homem e mulher têm direitos idênticos, porém deveres diferentes. Portanto, a mulher será mais livre à medida que se tornar mais feminina, mais mulher. Alcançará a libertação quando conseguir realmente completar o homem e não quando conseguir ombrear com ele nas tarefas evidentemente masculinas. Enquanto ela lutar por conseguir a "liberdade" do homem, permanecerá confusa e indefinida, escrava dos "libertadores" que dela se utilizarão simplesmente como instrumento. Liberdade é realização interior; e realização para a mulher é ser feminina. A partir do momento em que ela eleger a posição do homem como objetivo a atingir, estará fatalmente se escravizando numa posição masculina. O Espírito não tem sexo; portanto, pode encarnar como homem ou mulher. O sexo pertence à conformação física, ao corpo físico. É, portanto, como o próprio corpo, instrumento de elevação ou estacionamento do Espírito encarnado. Ora, se um Espírito encarna como mulher é porque achou extremamente necessário para sua evolução passar pela experiência feminina; deve procurar integrar-se o mais que puder nas características femininas. Do contrário, se encarna como mulher e acaba querendo conquistar a posição do homem, de que lhe vale a encarnação? Tempo perdido, simplesmente.

Existem muitas mulheres que têm realmente grande dificuldade de se adaptar à vida feminina e procuram distanciar-se de toda atividade que possa lembrar tarefa de mulher. Realmente essas mulheres sofrem de frustração, embora possam aparentar felicidade por uma questão de orgulho. Deveriam ser mais humildes e tentar, ainda nesta vida, iniciar algum exercício que pudesse auxiliá-las a se adaptarem à vida feminina. Pois, é evidente que se o Espírito achou necessária sua encarnação como mulher, é porque existem facetas de seu caráter que só podem ser alteradas com uma vivência feminina. E, se são alterações de caráter, realmente não são fáceis de ser realizadas; é necessário um grande esforço da pessoa.

Se a mulher realmente compreendesse sua posição e sua missão, a transformação social serla mais segura e pacífica. Seja ela, dentro do lar, a âncora moral a despertar responsabilidade nos filhos. Responsabilidade imprescindível para a efetivação de qualquer transformação que pretenda durar.

Os movimentos de "libertação" da mulher, geralmente inspirados por homens, visam inicialmente a vencer a barreira do sexo. "Amor livre" é a expressão mágica, a senha para a entrada no mundo maravilhoso da "liberdade". Chegam ao farisaísmo de afirmar que realmente o sexo livre não é o objetivo principal, mas, como o sexo significa tabu para a mulher, é necessário que ele seja vencido em primeiro lugar.

Trata-se de uma forma de atingir liberdade pela degradação do indivíduo, como se indivíduos degradados pudessem valorizar, ou entender, a liberdade.

Antes diziam que a "religião é o ópio do povo"; hoje não há afirmação teórica: querem transformar o sexo em ópio da mulher. Uma fumaça tóxica que, levando-a à degradação, retardará fatalmente sua verdadeira libertação. É claro que a religião deixou muito a desejar no campo da educação, mas a evolução da ciência obrigou a adoção de crenças mais lógicas e racionais, e até a transformação das religiões mais antigas. O Espiritismo, como doutrina baseada na experimentação e na interpretação do Evangelho sem simbolismo, pode oferecer subsídios para a libertação da mulher.

Pode o Espiritismo oferecer caminhos que conduzam a mulher a avaliar com seriedade a responsabilidade de sua participação na evolução da humanidade. Uma responsabilidade que não se limita ao campo passivo do sexo, mas que influi em todos os setores de atividade, fornecendo bases psicológicas estáveis para as grandes modificações. A mulher realmente feminina é a grande revolucionária de nossos tempos.

Valentim Lorenzetti