A MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES

No chamado "milagre da multiplicação dos pães", há um ensinamento que tem passado desapercebido da grande maioria dos homens. Trata-se da necessidade de ordem e calma para solução dos problemas aflitivos.

Recordemos, inicialmente, como se processou a multiplicação dos pães, segundo o evangelista João (cap. 6, versículos de 1 a 15). Os apóstolos estavam preocupados como alimentar a multidão faminta de cinco mil pessoas, que acompanhava Jesus para assistir aos milagres que vinham sendo feitos. Filipe, um dos discípulos, disse a Jesus que o dinheiro que possuíam não era suficiente para compra de pão para todo aquele povo; André apresentou ao Mestre um moço que trazia cinco pães de cevada e dois peixes. Parece que a confusão era geral; a preocupação era patente entre os apóstolos.

Jesus, no entanto, calmamente, tomou em suas mãos os cinco pães e os dois peixes e ordenou aos apóstolos: "Mandai assentar a essa gente". E todos comeram pão e peixe.

O Espírito Emmanuel, através da mediunidade de Francisco Cândido Xavier, tira precioso ensinamento desta passagem. No livro Caminho, Verdade e Vida, no capítulo intitulado "Tende Calma", assim se expressa:

"Esta passagem do Evangelho de João é das mais significativas. Verifica-se quando a multidão de quase cinco mil pessoas tem necessidade de pão, no isolamento da natureza. Os discípulos estão preocupados.

Filipe afirma que duzentos dinheiros não bastarão para atender à dificuldade imprevista. André conduz ao Mestre um jovem que trazia consigo cinco pães de cevada e dois peixes. Todos discutem.

Jesus, entretanto, recebe a migalha sem descrer de sua preciosa significação e manda que todos se assentem, pede que haja ordem, que se faça harmonia. E distribui o recurso com todos, maravilhosamente. A grandeza da lição é profunda.

Os homens esfomeados de paz reclamam a assistência do Cristo. Falam n 'Ele, suplicam-lhe socorro, aguardam-lhe as manifestações. Não conseguem, todavia, estabelecer a ordem entre si mesmos, para a recepção dos recursos celestes. Misturam Jesus com as suas ansiedades loucas, seus desejos criminosos. Naturalmente se desesperam, cada vez mais desorientados, porquanto não querem ouvir o convite à calma, não se assentam para que se faça a ordem, persistindo em manter o próprio desequilíbrio".

Vê-se, portanto, que o verdadeiro milagre, o fato de maior importância, foi a harmonia que se fez no ambiente. O pão e o peixe foram uma decorrência deste fato principal. Não queremos com esta interpretação insinuar que Jesus não multiplicou os pães; pretendemos, isto sim, demonstrar que se Ele se tivesse limitado apenas a multiplicar o alimento, teria somente saciado a fome daquelas cinco mil pessoas. No entanto, foi além: mostrou o que se pode conseguir quando procuramos estabelecer harmonia e silêncio. Deixou, com esta multiplicação de pães, um exemplo que não se restringiu a contentar estômagos famintos; ensinou-nos que o desespero não é aliado que deve ser cultivado se pretendemos realmente saciar nossa fome.

Quando todos gritam ninguém se entende. Não há possibilidade de ser cultivada a harmonia que dá origem a todo tipo de alimentação necessária à sobrevivência do homem; o alimento natural e o espiritual, intelectual. É possível que muitos afirmem que a gritaria é uma forma de comunicar. Discordamos: fazem confusão entre comunicação e ruído. Na comunicação, levamos a alguém uma idéia ordenada e concisa; no ruído, levamos apenas sons desarticulados ou idéias desconexas. Quem quiser multiplicar entendimento terá de oferecer o campo da harmonia. Esta é a lei, este é o sentido da multiplicação dos pães.

Nos dias atuais, onde o desespero e a angústia batem à porta de muita gente, seria oportuno que os desesperados e angustiados meditassem um pouco e pudessem oferecer brechas de harmonia em seus Espíritos revoltados, para que pudessem receber algumas migalhas do alimento pacificador.

Valentim Lorenzetti