A RAÇA NEGRA

Pedem-me para falar acerca da origem da raça negra na Terra, ou melhor, a opinião da Doutrina Espírita sobre a raça negra. Trata-se de assunto intimamente ligado ao preconceito de cor, que, infelizmente, ainda alimentamos. Mas, esperamos que o Espiritismo vá aos poucos fazendo luz sobre esse preconceito até desfazê-lo totalmente.

Vamos nos reportar para O Livro dos Espíritos, codificado por Allan Kardec e que contém os fundamentos da Doutrina Espírita. Diz essa obra no capítulo VII do segundo livro (Retorno à vida corporal item 367: "A matéria não é mais que o envoltório do Espírito, como roupa é o envoltório do corpo. O Espírito, ao unir-se ao corpo, conserva os atributos de natureza espiritual"·. E nesse mesmo livro, capítulo I, item 76, temos a definição de Espírito: "Podemos dizer que os Espíritos são os seres inteligentes da Criação. Eles povoam o Universo, além do mundo material".

Ora, como Ser inteligente que é, incorporado e sutil, o Espírito não tem cor. Não é negro nem branco, nem amarelo. É um ser inteligente e basta. A cor é atributo do corpo e do organismo. E o corpo é apenas a vestimenta do Espírito: um instrumento de trabalho e aperfeiçoamento do Espírito. A Genética, por leis já conhecidas, tem capacidade de explicar a diversidade de cores ou de determinadas características físicas - como os olhos amendoados, por exemplo. Suas racterísticas ou cores de pele estritamente ligadas ao corpo físico. São regidas por leis fisiológicas.

Diante disso salta aos olhos o absurdo das teorias discriminatórias de cor ou raça. O terrível materialismo de uma teoria como o "arianismo" hitlerista, por exemplo. São teorias, ou preconceitos que dão importância tão-somente à forma exterior e não à essência -- o Espírito. Este, o Espírito, pode reencarnar em corpo que melhor o ajude a evoluir, ou a pagar suas faltas pretéritas. Um mesmo Espírito pode encarnar várias vezes como negro, outras tantas como branco e algumas como amarelo. Isto é, pode dar inteligência a corpos negros, brancos e amarelos, em encarnações sucessivas.

O preconceito de cor, contudo, é capaz de prestar a maior reverência a um indivíduo branco, e, suponhamos, cem anos depois, espezinhar esse mesmo Espírito só porque encarnou em corpo negro. Questão de formalismo. Vaidade humana, sem fundamento racional.

Sabemos, por exemplo, que nos séculos XV e XVI, milhares de Espíritos que, na Roma antiga, como legionários brancos, haviam infligido dor e provações a milhares de escravos negros, pediram para reencarnar como negros no seio da Africa. E como negros foram vendidos aos portugueses para virem trabalhar como escravos no Brasil! Aqui, em nosso País, portanto, esses Espíritos vaidosos de legionários vitoriosos aprenderam a valorizar a vida e a liberdade de seus semelhantes, sentindo na própria carne a dor e a provação de uma existênncia sob a canga da escravatura. Aprenderam - em espírito - que ninguém pode escravizar ninguém sem receber em si próprio o peso da servidão. É a Lei Divina - sublime Pedagogia - que ensina o bem aos homens mediante o exemplo em si próprios. É claro que esse exemplo é facultado tão-somente quando o indivíduo se recusa a aprender racionalmente; a aprender com humildade. A Lei se encarrega de fazer os vaidosos baixarem a cabeça.

Portanto, é preciso que fique bem claro: o espírito, que é a essência, não tem cor. A cor é do corpo físico, que é morada transitória do Espírito. Os preconceitos sociais, contudo, servem como prova para o Espírito, pois encarnado como negro num país em que essa cor é considerada inferior, o Espírito aprenderá humildade. Aprenderá quanto custa considerar-se superior aos outros. Aprenderá a respeitar no homem o espírito e não a forma física transitória.

Que isto sirva de lição para os brancos orgulhosos. A cor que hoje consideram inferior pode, amanhã, em nova encarnação, servir de corpo a seus próprios Espíritos.

Valentim Lorenzetti