A VIOLÊNCIA QUE PERDURA EM NÓS

Devemos empreender esforços para que nos tornemos melhores

Em um grupo de estudos, aberto o espaço para as perguntas dos assistentes, um companheiro refere-se à crescente violência na Terra e indaga sobre a origem desses espíritos que, encarnados, promovem a série de atos que nos repugna a todos, transformando a vida num desassossego interminável. Propôs ele: seriam, espíritos vindos de mundos inferiores, aqui arribados por força da lei de progresso, da evolução que arrasta todos os seres vivos?

A pergunta parecia trazer implícita a certeza de que tal conduta não é compatível com a natureza da nossa humanidade. Que semelhante comportamento não condiz com o nosso estágio evolutivo e nele não se enquadra.

Violência é ação ou efeito de violentar, de empregar força física contra alguém ou algo; ou intimidação oral contra alguém; ato violento, crueldade, força; cerceamento da justiça e do direito; coação, opressão, tirania... Sinônimo de fúria, é também exaltação de ânimo, delírio que se manifesta por ações violentas; procedimento precipitado, sem consideração por conseqüências. (1)

Por certo a violência é o prato do dia, servido quente nas telas das nossas televisões e nas páginas dos nossos jornais e revistas. Aparece travestida sob diferentes formas, ora calçando chinelos e escondendo o rosto, ora envergando terno e gravata. Aqui, faz valer seus pretensos argumentos no círculo familiar; mais além, emprega mal as facilidades que acompanham as posições de mando.

Pode assentar suas bases sobre o interesse econômico, envilecendo os que por este meio se tornam fortes. Pode aviltar os homens pela imposição do temor a um deus seguramente tão humano e insensível quanto os que o supõem representar.

Esta exaltação de ânimo, este delírio, esta raiva, esta precipitação sem considerar conseqüências têm diversas gradações: por vezes é contida no seu nascedouro e morre com o pensamento que lhe deu origem, infelicitando sobretudo o violento. Muitas vezes corporifica-se em palavras e gestos, cria vida própria e contamina tudo ao seu redor. Quase sempre parte para a ação que resulta no choque, na vergonha, no embrutecimento, na dor.

Sob qualquer forma, a violência produz resultados brutais quando praticada por gente pouco esclarecida, e mais brutais ainda quando nasce de consciências já iluminadas pela inteligência. Os dados estatísticos coligidos sobre o assunto não permitem afirmar, em nenhum momento, ser ela apanágio desta ou daquela classe social, deste ou daquele povo ou raça, deste ou daquele sítio geográfico, desta ou daquela faixa etária de vida.

Quem seriam os agentes desta onda que se avoluma e nos arrasta a todos? Espíritos provenientes de mundos inferiores ao nosso e para cá transferidos?

O nosso amor-próprio gostaria que assim fosse: pronto, está explicado; não se trata de nós. Estamos isentos dessa imputação. Entretanto, um olhar cuidadoso em direção ao passado da nossa humanidade terrestre (o que vale dizer para o nosso passado) melhor elucidaria a questão.

Somos, a população da Terra e do seu entorno, mais ou menos os mesmos espíritos que aqui chegamos num pretérito remoto, aptos a vivenciarmos as experiências que o planeta nos oferecia. Civilizados hoje, fomos nós, mais ou menos os mesmos, os protagonistas dos inúmeros episódios de selvageria, de barbárie, de atrocidades registradas pela História no decurso da nossa caminhada. Nesses registros, a tônica é sempre a violência, a se expressar sob a forma de escravidão, de dominação, de intolerância racial ou religiosa, de impedimento de acesso aos recursos mínimos necessários para a sobrevivência humana.

Fomos (ou somos) capazes disto, desde que as encarnações na Terra "não são as primeiras nem as últimas, mas as mais materiais e distanciadas da perfeição."(2). Os nossos traços distintivos possivelmente refletem muito as marcas do estágio nos "milênios de sombra e de sensação nas formas primárias", e mostram poucos sinais produzidos pelos "ensaios da emoção superior ou pelas conquistas da intuição".(3)

Impedidos ainda de deixarmos a arena em que ora nos debatemos, por não estarmos bastante adiantados, voltamos e repetimos experiências, dando curso à lei de causa e efeito. Somos mais ou menos vítimas de nós mesmos.

A violência é, por assim dizer, o mal em movimento. A personificação idealizada do egoísmo. A negação em mais alto grau do preceito de não fazer a outrem o que não queremos que nos façam.

Seria um disparate perguntar por que Deus se mantém em silêncio diante do sofrimento que nasce da aparente prevalência do mal sobre o bem. Com Kardec aprendemos que "todas as faculdades, todas as paixões, todos os sentimentos, todas as aptidões estão na natureza; são necessárias à harmonia geral, porque Deus nada faz de inútil; o mal resulta do abuso, bem como da falta de contrapeso e equilíbrio entre as diversas faculdades. Como as faculdades não se desenvolvem simultaneamente, disso resulta que só lentamente se estabelece o equilíbrio; que essa falta de equilíbrio produz os homens imperfeitos, nos quais o mal domina momentaneamente. "(4)

A doutrina que nos ditaram os Espíritos traz explicação e solução, situando-nos no quadro mais amplo da reencarnação, da solidariedade que liga todos os seres e todos os mundos, da origem igualitária e comum, do exercício do livre-arbítrio, do progresso inexorável, das penas e recompensas proporcionadas ao mérito (aplicadas por um juiz piedoso, mas justo). Tendo por fim essencial e único o progresso de cada um de nós (5) faculta-nos meios racionais de fazermos as escolhas certas. Cabe-nos empreender as ações requeridas para que nos tornemos melhores. Quando cada um for melhor, todos serão melhores.

Se o empenho para tal desiderato nos parece muito grande, recordemos a resposta dos Espíritos a Kardec quando este lhes pergunta se o homem poderia sempre vencer as sua más tendências pelos seus próprio esforços: "sim, e às vezes com pouco esforço; o que lhe falta é vontade. Ah, como são poucos os que se esforçam!" (6)

1 - Dicionário Houaiss da Lingua Portuguesa.

2 - Questão 172, O Livro dos Espíritos.

3 - Joanna de Ângelis, Estudos Espírita! Cap.6.

4 - Revista Espírita, abril 1862.

5 - Revista Espírita, dezembro 1861.

6 - Questão 909, O Livro dos Espíritos.

O autor é Brigadeiro-do-Ar RR (Reserva Remunerada da Aeronáutica), reside em Curitiba/PR.

Dalton L . Fraresso - Revista Internacional de Espiritismo I Agosto de 2006