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ABORTO |
O aborto provocado é uma carga psíquica cujo peso, para a consciência da mulher, ainda não foi suficientemente avaliado. É evidente que está excluído desta carga o aborto terapêutico, necessário muitas vezes para a preservação da vida da mãe. Referimo-nos tão-somente ao aborto provocado só para matar na raiz um ser que começa a lutar por um lugar ao sol. Um crime cometido nas sombras, e, infelizmente, às vezes em locais que não se envergonham de levar o rótulo de "consultórios" ou "enfermarias". Um crime que na maioria das vezes escapa à punição da lei humana, porque cometido contra um ser que não pode protestar: um ser ao qual não foi dada nenhuma opção.
Infelizmente, os homens acham ainda que se conseguirem burlar a lei humana, estarão quites com a própria consciência. Esquecem-se de que a consciência, a mente, é um registro poderoso de todas as nossas ações e pensamentos. Tão forte é o registro, que vemos muitos indivíduos com complexo de culpa embora inconsciente, só porque pensaram em fazer mal a alguma pessoa. Só pensaram; não chegaram a agir. E mesmo assim a mente registrou e criou o complexo de culpa, tão conhecido dos psiquiatras. Imagine-se então uma ação, como deve ficar gravada. E quanto mais uma ação criminosa, onde o inimigo não tem nenhuma possibilidade de defesa, como o feto que se arranca do ventre materno.
Para compreendermos quão grave é o aborto, precisamos rever algumas noções sobre o fenômeno da encarnação. Encarnação é o ato que se inicia quando o Espírito se liga ao ovo, logo após a fecundação; à medida que o ovo se transforma em feto e este se transforma em bebê, vão se estreitando mais os laços que ligam o Espírito ao corpo.
É esse Espírito que dará a personalidade ao futuro ser que, evidentemente, trará características orgânicas decorrentes da Lei da Hereditariedade. É esse Espírito que plasmará no corpo as características essenciais necessárias à sua vitória na nova encarnação. Às vezes, essas características compreendem até uma deformidade física: é necessária a prova da deformação para que o Espírito valorize a perfeição do corpo, que, provavelmente, numa vida anterior, não soube valorizar em si ou em outras pessoas.
Quando um Espírito está pronto para encarnar, busca sua futura mãe ou para junto dela é conduzido. Começa aí um processo de afinização entre o Espírito-candidato à reencarnação e a futura mãe. Na maioria das vezes, mãe e filho têm ligações do passado, de vidas anteriores. Ligações de amor ou de ódio. Pois, o ódio, como o amor, também estabelece laços entre os seres. Durante o tempo que durar essa aproximação entre Espírito-candidato e mãe, é muito provável que a mãe, durante o sono, seja apresentada ao futuro filho e lhe seja explicada - pelos Espíritos mentores - sua verdadeira tarefa quanto à maternidade. Diante desses fatos, a mulher acaba aceitando a tarefa.
É verdade que, às vezes, a contragosto, como remédio para seu reajustamento psíquico.
Feito esse acordo, aguarda o Espírito-candidato as condições essenciais para o retorno ao novo corpo. Processada a concepção, dada a partida de uma nova existência corporal, irreversível, que poderá ser interrompida - de ambas as partes, mãe ou filho caso de algum acidente grave colocar em risco a vida da mãe.
Portanto, o aborto é a quebra de um acordo demoradamente estabelecido. O rompimento de uma ligação exaustivamente acertada.
Geralmente ocorre à mulher praticar o aborto quando em seu consente afloram reminiscências do subconsciente, de que aquele ser que se forma em seu ventre não lhe nutre nenhum amor: foram inimigos no passado. Esquece-se a mulher da renúncia necessária à mãe; renúncia do amor do próprio filho. E de nada lhe adiantará adiar o reencontro com o velho inimigo, pois, permanecendo as ligações do pretérito delituoso, essas ligações só serão desfeitas com amor. Só o amor desfaz o mal: só o amor cura o ódio. Adiar esse reencontro, através da prática do aborto, será adiar e ampliar o sofrimento; será protelar para outra ocasião (com certeza bem mais difícil) a oportunidade de ajustar contas. A oportunidade de dar amor, de se reequilibrar perante si mesma.
Quando o Espírito reencarnante é expulso do corpo através da medida violenta do aborto, se for um ser ainda pouco esclarecido (como o são a grande maioria dos que ainda encarnam na terra) passará a perseguir a ex-futura mãe: poderá "colar-se" ao Espírito da mulher, pesando terrivelmente e levando-a para o desequilíbrio. Se, ao contrário, for um Espírito já voltado para o bem (que, muito provavelmennte, viria ao mundo para ajudar a mãe a suportar as provas da vida), fará com que a mulher passe a sentir uma sensação de vazio, um vazio interior. Como se uma parte de si tivesse sido retirada. Uma sensação que também poderá levá-la ao desequilíbrio, uma vez que, necessitada de um apoio, ela espontaneamente o repeliu.
Deve, portanto, muito meditar a mulher que esteja com intenção de praticar o aborto, que não seja o aborto terapêutico. Talvez o filho que ela pensa virá pesar em sua vida, seja justamente o contrário: seja o próprio esteio de sua existência de mãe incompreendida, se ela lhe ministrar o remédio do amor.
Valentin Lorenzetti