AJUDA OFICIAL |
Periodicamente os meios espíritas ficam alvoroçados porque esta ou aquela autoridade chega a afirmar a excelência do trabalho assistencial exercido pelos espíritas e, evidentemente, tocada por sentimentos cristãos, promete maior ajuda governamental ao setor assistencial da Doutrina.
Quando tal euforia chega às hostes doutrinárias, será útil e prudente adotarmos duas atitudes. A primeira, é claro, agradecer a promessa de apoio, que, mesmo se não for concretizada, representa um estímulo para aqueles envolvidos no trabalho assistencial. A segunda atitude, e esta é a mais delicada, é aquela de não perdermos de vista os verdadeiros objetivos da assistência social espírita: ajudar o próxiimo elevando-o, e, ao mesmo tempo, trabalhar pela iluminação de nós mesmos, para que não nos façamos profissionais da Caridade e sim servidores conscientes da Caridade.
Nunca esquecer que a obra social é também grande ajuda para aquele que nela trabalha, talvez muito mais do que para aqueles que são por ela assistidos. Obra social é suor e humildade de quem se propõe a executá-la. Muitas vezes o cooperador de uma obra social recebe negativa de todos a quem vai pedir colaboração, mas essas negativas são as aulas mais vivas de seu aprendizado: elas lhe mostram, na própria carne, quais os caminhos que deverá indicar ao assistido para se elevar da condição de pedinte para a condição de doador.
O cooperador da assistência social que só espera ajuda oficial coloca-se na mesma posição do assistido, e, dessa forma, não terá condições morais e psicológicas de ajudá-lo a reerguer-se. Só se ensina aquilo que aprendemos. E no campo da assistência social, em que o ensinamento se traduz em trabalho, só poderemos ensinar aquilo que aprendemos trabalhando. Evidentemente, trabalhando lastreados em uma teoria, mas trabalhando sem teorizar.
Ainda nos lembramos de um fato marcante de que fomos testemunhas em Uberaba. Visitamos, num domingo de manhã, o Hospital de Pênfigo Foliáceo daquela cidade, guiados pela sua benemérita fundadora, dona Aparecida Conceição Ferreira. Quando entramos na pobre cozinha do hospital, Aparecida nos indicou alguns frangos assados sobre uma mesa, e informou:
"Acho que ontem deve ter havido uma festa numa casa de gente rica da cidade e eles nos mandaram estes frangos hoje de manhã. Mas, quando íamos aproveitá-los para a comida dos doentes, verificamos que já estavam se deteriorando. Isso contudo, não tem importância: nós vamos utilizá-los para fazer sabão, porque gastamos muito sabão aqui para dar banho nos doentes".
Uma lição dada por quem já se integrou na assistência social, Aparecida valorizou a migalha estragada, talvez até doada com sarcasmo. Não se perturbou: alegrou-se com a perspectiva de ter algum material para fazer o sabão tão necessário à limpeza de seus doentes.
É com gestos desse tipo que se constrói a estrutura de um trabalhador no campo da assistência social. Uma estrutura capaz de suportar as incompreensões dos críticos e de dar estímulo e exemplo para os de estrutura mais frágil, ajudando-os a se fortalecerem.
O auxílio oficial, portanto, deve ser encarado como uma parcela das necessidades de toda obra social. Isto porque a parcela maior deve caber realmente aos seus próprios cooperadores. Não permanecermos aguardando leis ou decretos oficializando obras espíritas, colocando-as sob a proteção de verbas oficiais, mas ir à frente, colocando a obra espírita a serviço da evangelização do serviço social governamental. Não desdenhar o auxílio oficial, pois que ele também é bênção do céu para as aperturas normais de uma obra social espírita, mas não fazer do auxílio oficial o único esteio da obra.
Não devemos retirar da obra social espírita seu caráter sacrificar, o mérito do trabalho árduo. Não nos esqueçamos de que, Espíritos imperfeitos que somos, poderemos ser tentados a descansar esperando que o governo nos auxilie. Portanto, mesmo que grandes ajudas governamentais sejam carreadas para as obras espíritas, devem os adeptos da Doutrina continuar sua luta na cata das migalhas, porque é nessa luta que adquirem estrutura moral para a administração dos bens maiores. Que a ajuda oficial possa ser utilizada na multiplicação das obras, mas que fique a manutenção das mesmas a cargo do suor de cada um.
Valentim Lorenzetti