AS DIFERENTES LEITURAS DO EVANGELHO

A obra O Evangelho Segundo o Espiritismo explica assim o conteúdo do livro: "Contendo a explicação das máximas do Cristo, sua concordância com o Espiritismo e sua aplicação às diversas situações da vida."

O escritor e pesquisador espírita Canuto Abreu, na obra O Evangelho por Fora (LAKE), apresenta dez aulas da Escola de Aprendizes do Evangelho da Federação Espírita do Estado de São Paulo, há 55 anos, portanto em 1954, cuja primeira aula ocorreu em 18 de abril de 1953.

É uma obra rara. Na Introdução, o autor explica que o expositor espírita deve possuir conhecimento prévio de alguns termos técnicos do emprego de certos métodos e permissão para elaborar algumas considerações importantes. Estes termos e métodos consistem primeiro no esclarecimento do sentido literal e do sentido espiritual das palavras do Novo Testamento, notadamente das chamadas Revelações.

A propósito, tempos depois Emmanuel, pela psicografia de Francisco Cândido Xavíer, nos alerta, afirmando que: "Na Doutrina Espírita, não se dirá que Allan Kardec foi ultrapassado, uma vez que os nossos princípios avançam com o fluxo evolutivo da vida e, à maneira do edifício que para crescer não prescinde do alicerce, o Espiritismo não fugirá das diretrizes primeiras, a fim de ampliar-se em construções mais elevadas. Em razão disso, foi o próprio Codificador que definiu em nossa Doutrina não apenas o altar da Fé renovadora, mas também o acesso ao campo aberto da indagação filosófica e científica.

Contextualização - Neste ponto, o sentido literal (ao pé da letra) é aquele em que o leitor do texto bíblico, ou ouvinte de uma pregação evangélica, obtém de imediato o sentido da palavra escrita ou falada, sem qualquer esforço de raciocínio. Exemplo: Moisés abriu o Mar Vermelho para os hebreus passarem para o outro lado. O sentido espiritual é aquele que não decorre do sentido literal, mas é dado através de uma revelação. A revelação é, como sabemos, um ato mediúnico, pelo qual os Espíritos comunicam aos homens seus ensinos.

O autor mencionado admite que existem duas espécies de revelações: a universal e a particular. No primeiro caso, tem-se a revelação cristã, com suas subdivisões, como a católica, a protestante e a espírita. No segundo caso, tem-se as que são endereçadas a um determinado grupo humano, como a revelação hebraica (com Moisés); a maometana, islamita ou muçulmana, com Maomé; assim como as revelações do passado, como a egípcía, a hinduísta, a chinesa e outras. A revelação particular foi dada por Moisés e seus profetas, contidos no Velho Testamento.

A revelação cristã foi dada por Jesus de Nazaré seus apóstolos e discípulos. Portanto, o que se chama religião revelada resulta de uma comunicação (revelação) de conhecimentos antes misteriosos, ignorados pela população, mas de grande importância para a felicidade dos homens. Viria diretamente de Deus antepassados e indivíduos consagrados, como Akhenaton, Zoroastro, Moisés, Maomé, Buda.

A revelação cristã viria de Jesus de Nazaré, seus apóstolos e discípulos. Da revelação cristã surgiu o Cristianismo, o protestantismo, os ortodoxos. A Doutrina Espírita é uma revelação cristã que possui duplo caráter: é doutrina revelada (doutrina=ensinamento) revelado, isto é: Espíritos superiores ditaram, através de seus médiuns, noções relativas à vida espiritual e suas correlações com a vida terrena. Daí o movimento espírita tem o Evangelho como obra literária, é trabalho dos homens como o próprio Allan Kardec, que interpretou, codificando as parábolas de Jesus de Nazaré à luz da Fé raciocinada. E é, ainda, doutrina natural, porquanto os homens, instruídos como o próprio Allan Kardec, interpretaram as parábolas de Jesus de Nazaré, no Novo Testamento. Em síntese, é Doutrina natural, porquanto "os homens muito trabalharam e continuam trabalhando para a sua edificação, pelo esforço de pesquisa (no campo científico, filosófico e religioso), considerando os seres espirituais como membros da Natureza". (Carlos Toledo Rizzini, Fronteiras do Espiritismo e da Ciência, página 71).

Daí, é uma revelação cristã, em que Allan Kardec interpretou as parábolas de Jesus de Nazaré inspirado pelo Espírito de Verdade. Este Ser Superior, servindo-se de médiuns humanos e escrevendo para os homens, teve que aproveitar as palavras de uso corrente e sentido já consagrados em parábolas para expressar noovas realidades espirituais. Allan Kardec, interpretando as parábolas de Jesus de Nazaré através dos livros dos quatro evangelistas em seu ensinamento moral, bem como outros autores mais atuais, colocaram as parábolas num contexto atual, sem omitir o valor delas. É o exemplo máximo de Francisco Cândido Xavier com o Espírito Emmanuel, André Luiz e outros de valor incontestável, bem como outros autores inspirados, que aplicam os exemplos na atualidade da sociedade brasileira.

Conclusão - A propósito do O Evangelho Segundo o Espiritismo, o texto procura separar o conteúdo evangélico daqueles textos literais que pertenciam ao ambiente místico-religioso da época em que foram redigidos. Por esta razão, nos fornece a interpretação espírita da Fé religiosa, a chamada fé raciocinada, de acordo com a realidade histórica. Não obstante, Emmanuel, através da psicografia de Francisco Cândido Xavier, observa que "as religiões são degraus de ascensão à verdade, Todas as religiões são educandários do Espírito em processo de crescimento".

Finalmente, neste século 21, neste avanço tecnológico-científico e da globalização mundial, Francisco Cândido Xavier sinaliza: "Estamos convencidos, segundo as afirmações de nossos Benfeitores Espirituais, que a mais elevada função da Doutrina Espírita é a de restaurar os ensinamentos de Jesus, com as elucidaçõe de Allan Kardec".

Dulcídio Dibo - Jornal O Semeador