OS SEGREDOS DO VATICANO

"SANTIDADE, ESCÂNDALOS E ARTICULAÇÕES POLÍTICAS MISTURAM-SE NOS LONGOS SÉCULOS
DE HISTÓRIA DA SEDE POLÍTICA E RELIGIOSA DO CATOLICISMO E REVELAM O LADO MUNDANO
DA MAIOR IGREJA CRISTÃ DO MUNDO."

Quem entra pela primeira vez no Vaticano, depois de atravessar suas muralhas, tem a sensação de entrar em um reino diminuto mas imponente. Da Praça de São Pedro, toda cercada por colunas, é possível ver a entrada da basílica de mesmo nome. Atrás dela encontram-se o Palácio Governamental e os belos jardins, famosos pela abundância de flores. Os prédios dos museus, da Capela Sistina e da biblioteca ficam à direita. O menor Estado do mundo, encravado na cidade de Roma, tem menos de meio quilômetro quadrado.

Mas abriga um banco, estações de rádio e televisão, outros pátios e palácios e, principalmente, o poder católico. Desde que se tornou o lar do papa e a sede da maior Igreja cristã do planeta, o Vaticano já serviu de palco tanto para intrigas seculares quanto para, no olhar dos católicos, decisões de inspiração divina. Para os fiéis, a Santa Sé - como também é conhecido o órgão máximo da Igreja Católica - representa um elo verdadeiro com a história de fé que remonta ao apóstolo Pedro e ao próprio Jesus. Por ali já passaram exatos 265 pontífices (se incluirmos o apóstolo na conta), uma sucessão de Pios, Bentos, Gregórios, entre outros.

Quem não comunga dessa crença, porém, vê na riqueza das obras de arte, na empertigada Guarda Suiça (o pequeno exército de uniforme renascentista que protege o local) e na suntuosidade das instalações mostra de que a sede católica já esteve sujeita, sim, às mesmas fraquezas que afetam qualquer outro centro de poder.

NASCE UM ESTADO

Houve uma época em que o Vaticano, uma das sete colinas da antiga Roma, não era a sede de um Estado nem da Igreja Católica. No entanto, entre os primeiros cristãos, a região despertava uma atenção singular: era o lugar onde o líder dos apóstolos, Pedro, a quem Jesus dissera: " a ti darei a chaves do Reino dos Céus", tinha sido executado.

A construção da Basílica de São Pedro começou em 1506 e terminou em1626.
Parte do dinheiro para erguê-la veio da venda de indulgências pelo papa Leão X.

O túmulo de Pedro virou local de peregrinação, e as comunidades cristãs de toda parte passaram a considerar seus companheiros de Roma dignos de respeito especial. Acreditavam que os bispos de lá teriam herdado, graças ao próprio apóstolo, autoridade sobre os demais.

Na verdade, porém, a situação era um pouco mais complicada. Por muito tempo não houve um só bispo em Roma, mas vários. Os seguidores de Jesus honravam a comunidade de Roma por abrigar as relíquias de Pedro, mas isso não significava que ela tivesse o direito de comandar as outras comunidades cristãs. Tudo começou a mudar quando o Cristianismo virou religião oficial do Império Romano e, mais tarde, tornou-se a única força capaz de oferecer segurança aos moradores da cidade quando os próprios governantes de Roma desapareceram no Ocidente. A primeira versão da atual basílica, que o imperador Constantino mandou construir sobre o túmulo de São Pedro, lentamente se tornou o centro de um novo domínio, que era tanto espiritual quanto terreno. Para todos os efeitos, do meio da Idade Média até 1870 a pequena colina romana era a capital de um reino que englobava uma fatia enorme da Itália.

Ao longo dos séculos 18 e 19, no entanto, o Vaticano começou a ser visto, cada vez mais, como um corpo estranho na Europa - um país cuja população não elegia seus governantes e que era comandado inteiramente por religiosos. Por algum tempo, pareceu que as idéias modernas do período estavam invadindo os domínios da Igreja, por obra e graça de um novo papa, Pio IX, cujo pontificado foi de 1846 a 1878. Leigos foram chamados a participar do governo numa assembléia consultiva, e um deles, Pellegrino Rossi, tornou-se até primeiro-ministro.

Mas a boa vontade do pontífice veio tarde demais. A população da Itália, na época uma colcha de pequenas nações, queria a unificação de seu país - e as regiões governadas pelo papa estavam no meio do caminho desse sonho. "Pio IX não se deu conta de que sua política, de certa forma, era suicida para o Estado papal", afirma Dom Zeno Hastenteufel, bispo de Frederico Westphalen (RS) e estudioso da História da Igreja. "A autonomia política do Vaticano era importante para impedir que os governos influíssem nas decisões de comando da Igreja" conta o padre Eduardo Pretto Moesch, professor da PUC do Rio Grande do Sul.

Ameaçado, o papa limitou-se a se agarrar a seus antigos privilégios. Assim, em 1870, enquanto os religiosos reunidos no Concílio Vaticano I proclamavam que o papa era infalível quando se pronunciava de modo solene sobre assuntos de Fé, as forças italianas tomavam Roma e acabavam com o Estado católico.

COSTURAS POLÍTICAS

Foi essa sensação de estar encurralado que passou a ditar as reações dos chefes da Igreja diante do mundo moderno a partir dali. De um lado, o Vaticano lançava uma série de condenações contra a democracia, a liberdade religiosa e o socialismo. De outro, para que houvesse alguma esperança de recuperar o antigo poder político, era preciso criar uma teia de relações com o novo mundo. Assim, a Santa Sé tornou-se uma máquina de produzir diplomas brilhantes, gente que tentava levar a influência dos papas aos quatro cantos da Terra.

Esse esforço finalmente permitiu que o Vaticano recuperasse sua soberania. Havia décadas que o papa e os funcionários da Cúria Romana, como é chamada a burocracia do pontífice, tinham adotado a política de assinar concordatas. Esses acordos estabeleciam o poder central do Vaticano sobre as igrejas locais e definiam sua relação com os governos de cada país. O Tratado de Latrão, firmado com o ditador fascista Benito Mussolini em 1929, foi um deles.

O papa tornava-se novamente reconhecido como "Monarca do Vaticano" e o Catolicismo se transformava na religião oficial da Itália. Mas havia um preço a pagar: a destruição do Partido Popular, um grupo de políticos católicos que se opunha ao fascismo. Os fiéis foram desencorajados a se engajar na vida pública, enquanto o pontífice de então, o papa Pio XI, saudava Mussolini como "enviado pela Providência Divina".

Não era um precedente muito animador para as relações do Vaticano com as ditaduras que estavam tomando conta da Europa no início do século 20. Naquele momento difícil, a diplomacia católica era comandada pelo cardeal secretário de Estado Eugenio Pacelli, que tinha servido como embaixador na Alemanha por muitos anos. Ele considerava legítimo aceitar algumas restrições à liberdade dos católicos em outros países, se isso permitisse, por exemplo, que o Vaticano nomeasse todos os bispos alemães sem a interferência do governo local.

A assinatura de uma concordata com a Alemanha tornou-se a obsessão de Pacelli, mas o momento não podia ser mais complicado: o Partido Nazista de Hitler era uma força em ascensão. Seu principal opositor era justamente o Partido do Centro, formado por católicos e liderado por um religioso, o padre Ludwig Kaas. Depois de muita costura política e reuniões sigilosas com Kaas em Roma, Pacelli conseguiu o apoio do padre para que a legenda católica votasse a favor de uma resolução que dava poderes de ditador a Hitler.

Os dois criaram juntos o esboço de uma concordata que concedia liberdade de culto aos católicos alemães, permitia o controle direto das escolas religiosas pelo Vaticano, mas, de novo, determinava o fim de qualquer associação entre Catolicismo e política. O Partido do Centro acabou se dissolvendo. Segundo o jesuíta Robert Leiber, secretário do cardeal, ao saber do fato Pacelli teria dito: "Uma pena que isso tenha acontecido agora." E não porque tivesse mudado de idéia, mas porque o fim do partido veio antes que a concordata fosse assinada - o que diminuiu o poder de barganha do Vaticano. O tratado foi firmado em 8 de julho de 1933. "A história mostrou do que Hitler era capaz. O Vaticano cedeu muito na esperança de conseguir alguma garantia, afirma padre Eduardo Moesch.

Pacelli tornou-se o papa Pio XII em 1939, e poucos pontificados foram marcados por tantas contradições. Há relatos de que, nos longos anos da guerra, o papa costumava realizar uma cerimônia de exorcismo em sua capela pessoal para expulsar o Demônio que ocuparia o corpo de Hicler. Permitiu que as instalações da Igreja em Roma abrigassem os judeus que fugiam da perseguição, mas nunca se arriscou a condenar em públiico o Holocausto. Tinha fama de autocrata, embora todo o seu dia-a-dia fosse controlado pela irmã Pasqualina Lehnert, uma freira alemã que cuidava de sua casa na Alemanha e o acompanhou, mesmo sem ser convidada, quando ele se mudou para Roma.

O Vaticano voltou a caminhar numa corda bamba ética, parecida com essa que Pio XII enfrentou, durante o período mais sombrio da Guerra Fria, nos anos 1960 e 1970. A Igreja esforçou-se para não condenar nenhum regime, inclusive o comunismo, mas milhões de católicos eram perseguidos na ex-União Soviética e no Leste Europeu. Entre as vítimas estava o bispo de Kiev (atual Ucrânia), Joseph Slipyj, que foi solto graças à diplomacia do papa João XXIII. Em política internacional, contudo, nada sai de graça: a condição era que Slipyj nunca mais voltasse à Ucrânia. Ao chegar a Roma, ele desabafou: "Fizeram-me partir como um bandido que salva a própria pele."

SIGILO E MISTÉRIO

A habilidade para se movimentar nos bastidores da diplomacia também se reflete no clima de sigilo que, muitas vezes, reinou na Santa Sé. Em parte, issso é conseqüência da condição de Estado: é preferível manter certas decisões em segredo por questões de segurança. Mas a tendência parece ter ido longe demais quando o Vaticano criou seu próprio serviço secreto durante o pontificado de Pio X, que começou) em 1903 e foi até 1914.

Nessa época, diversos pensadores na Europa e nos Estados Unidos estava tentando reconciliar a Igreja com o século 20, sugerindo uma interpretação não literal para a Bíblia e a participação dos fiéis católicos na política democrática. Foi para combater essas idéias que nasceu a rede de espionagem, cuja missão era investigar as atividades de membros da própria Igreja. Seu chefe era o monsenhor Umberto Benigni, oficialmente funcionário do Departamento de Assuntos Extraordinários da Secretaria de Estado do Vaticano - de manhã. À tarde e nos fins de semana, Benigni comandava o Sodalitium Pianum (Sociedade Secreta de Pio), que distribuía propaganda antimodernista e recolhia informações do mundo todo.

Benigni tinha sua própria linguagem de código - Pio X, por exemplo, era chamado de "Mammà' - e uma rede de delatores. Conta-se que, quando Bento XV tornou-se papa, sucedendo a Pio X, um dos primeiros papéis que encontrou na mesa de trabalho do pontífice era uma denúncia contra si próprio. Não perdeu tempo - desmantelou o Sodalicium Pianum, e Benigni terminou seus dias como espião de Mussolini.

Uma conspiração bem diferente ameaçou manchar a reputação da Santa Sé no fim dos anos 1970, já no pontificado de João Paulo I. Dessa vez o problema estava no IOR (Instituto para as Obras de Religião), banco que gerencia as doações feitas ao papa. Guiado de forma muito pouco transparente por seu presidente, o arcebispo Paul Marcinkus, o IOR tinha se tornado o acionista principal do Banco Ambrosiano, uma organização italiana. Acontece que o Ambrosiano (e, por tabela, reuniões dos bispos, eles traduziam seus discursos para todas as línguas"), afirma.

Além disso, não é improvável que uma razão filosófica também esteja por trás do apoio mútuo. É idéia do grupo de que é possível alcançar a santidade por intermédio do trabalho digno - um tema que sempre tocou João Paulo II. Sob essa luz, não admira que, em 1982, ele tenha escolhido transformar o Opus Dei numa prelaia pessoal- um órgão que responde diretamente ao pontífice.

AVANÇOS NA FÉ

A atuação da Santa Sé no comando dos rumos da Igreja mudou um bocado ao longo dos séculos. Ficou longe o tempo em que perseverava o exemplo do papa Leão XIII (1878-1903), que respondia às menores objeções gritando Ego sum Petrusl ("Eu sou Pedro").

O grande ponto de virada veio com a morte de Pio XII em 1958. Quando os cardeais se reuniram para eleger um novo papa, havia uma indecisão tremenda quanto ao que fazer. Depois de cinco dias de conclave - como é chamada a reunião a portas fechadas que aponta os pontífices -, escolheram o italiano Angelo Roncalli. Na época, com 77 anos, foi chamado de "papa-tampão". Ninguém esperava que fizesse muita coisa. Por isso mesmo, a Cúria ficou horrorizada quando ele convocou o vigésimo primeiro concílio da Igreja - e o segundo tendo como palco o Vaticano - em 1959.

"Os funcionários do Vaticano tentaram assumir de antemão o controle dos procedimentos", escreve Eamon Duffy em Santos e Pecadores - História dos Papas. "A Cúria tentou atrapalhar João XXIII de todas as maneiras", diz o teólogo alemão Karl-Joseph Kuschel, da Universidade de Tübingen. Não adiantou: a esmagadora maioria dos 2.500 bispos que compareceram ao Concílio Vaticano II, derrubou os documentos preparados pela Cúria e apoiou a abertura da Igreja para o diálogo com outras religiões, com a democracia e até com o comunismo. Mais ainda: afirmou que a responsabilidade de guiar o Catolicismo vem de todos os bispos e fiéis.

Os rumos que a política do Vaticano tomou desde que João Paulo II assumiu o poder parecem confirmar alguns dos princípios do Concílio e reorientar outros. Nunca a Santa Sé buscou com tanta coragem a reconciliação com o Judaísmo e com a Igreja Ortodoxa, por exemplo. Mas a Cúria voltou a ter um controle mais rígido sobre as igrejas do planeta e sobre os debates teológicos e sociais dos quais um católico pode participar. "Há uma contradição profunda entre política externa e política interna, afirma Kuschel.

Só será possível saber se a abertura iniciada pelo último concílio continuará quando chegar a hora de escolher um novo pontífice - e lá estará o Vaticano, com suas portas abertas aos cardeais e fechadas aos curiosos olhares do mundo. Nos quase vinte séculos de uma história atribulada, a sede do poder papal já foi cenário de disputas e deliberações puramente mundanas, bem distantes dos princípios do Evangelho. Fora do L'Observatore Romano, o órgão de imprensa oficial, correm relatos de que articulações dessa natureza continuam sendo feitas nos bastidores, longe dos olhos de João Paulo II. O fecho, porém, da promessa bíblica de Jesus a Pedro também é uma convocação à esperança: "Tu és Pedro e sobre essa pedra edificarei a miinha Igreja. E as portas do Inferno não prevalecerão contra ela." (Mateus 16, 18) Para quem tem fé, uma promessa assim não deixará de se cumprir.

Reinaldo José Lopes - Revista das Religiões