ISABEL

Eu morava no Rio de Janeiro e tinha sete anos de idade quando percebi Isabel ao meu lado pela primeira vez.

A noite estava quente, a atmosfera pesava. Meus pais já se haviam recolhido, meus irmãos dormiam, profundamente. Nos fundos da casa Joana devia também estar ressonando alto. Apenas eu acordado. Sentado na cama examinava à luz do abajur revistas coloridas cheias de gravuras mostrando animais pré-históricos, planetas, peixes curiosos etc. Foi quando ouvi um estalido no guarda-roupa. Quase imperceptível. Olhei o móvel - e voltei a folhear as revistas. Segundos depois, outro estalido; agora no teto, como que a me chamar a atenção. Agucei os instintos, coloquei as revistas sobre o travesseiro e olhei, de alto a baixo, o guarda-roupa, o criado-mudo, a pequena estante com cadernos e livros. Tudo tranqüilo, sem vida; inclusive, o quadro do menino Jesus pendurado sobre a cabeceira de meu leito.

Lembrei-me, então, das palavras de minha professora: "com o calor a matéria se dilata". Certo. Era isso! Fazia um calor insuportável, nada mais natural que os móveis estalassem ... E, para provar a mim mesmo que não tinha medo continuei a olhar as revistas. Foi quando tornou a estalar o armário . Mas, tão forte, que num pulo saí da cama - o coração desabalado, as mãos frias, o olhar fixo no móvel.

- Quem está aí? murmurei, aflito, enquanto sentia estranho formigamento a me tomar o corpo inteiro.

- Não tenhas medo Chamo-me Isabel. Antes de nasceres já eu te conhecia .

De onde vinha a voz? Do teto? Das paredes? Da mobiilia? Não sei. E, imediatamente os objetos do quarto começaram a vibrar ao mesmo tempo em que uma onda de perfume me envolvia. Eu esperava que, de repente, todos os móveis estalassem com estrondo; mas, como isso não sucedesse, inexplicavelmente perdi o medo e, fascinado, vi uma pequena chama azul, muito luminosa, voltear por todo o quarto como que à procura de alguma coisa e parar no ar, a meio metro da minha cama.

- Se mostrares receio nunca mais virei aqui. Respondi:

- Não sinto mais medo.

E achei até natural o que estava sucedendo em meu quarto.

- Ainda bem. Foi difícil te encontrar. Mais tarde saberás porque te procurei.

Deslumbrado com a luz azul, seus movimentos em circulos, eu não ousava fazer perguntas.

Isabel, então, me disse:

- Eu te visitarei durante sete anos. Preste atenção. Quando completares catorze anos de idade, eu me afastarei. Ficaremos longo tempo sem nos ver. Mas, não te entristeças: o futuro nos unirá de novo. Seremos colocados um diante do outro; então, hás de reconhecer-me! Para isso, basta que me olhes no fundo dos olhos. Por ora, é o que te posso revelar.

Criança ainda, eu não podia compreender o sentido exato do que Isabel me dizia. Pensei em fazer perguntas, mas, de súbito, a chama azulada se foi sumindo e, aos poucos, o perfume evolou-se e o quarto voltou à normalidade.

A primeira coisa que fiz no dia seguinte foi contar o caso para mamãe. Mas, ela não acreditou.

- Bobagem. Foi um sonho, meu filho. Aliás, um sonho bonito, com perfume, luz azul...

Eu repliquei:

- Não foi sonho, mamãe. Tenho certeza! Eu estava acordado. Tinha os olhos abertos!

Meu pai dobrou o jornal, ergueu-se da cadeira e disse: - Sua mãe já explicou que foi um sonho. Então, não fale mais nisso.

Era inútil: eles jamais acreditariam. E guardei o segredo só para mim - porque Isabel, para mim, era um tesouro.

Durante sete anos Isabel me visitou: uma, duas vezes por semana. Ao aproximar-se, não mais provocava nos móveis estalidos nem fazia vibrar os objetos do quarto. E nem tomava a forma de uma chama azul. Revelava-se, apenas, pelo seu perfume suave. Ao senti-la, no corredor ou na sala, eu corria, feliz, para o quarto, e lá conversávamos, horas e horas; às vezes, ela se despedia de madrugada.

- Fica ainda mais um pouco, pedia eu.

- É tarde. Agora deves dormir.

E eu sentia que seus lábios espirituais me tocavam a testa.

Um dia, pedi que me deixasse vê-la. -Uma vez só, Isabel.

- Não te basta ouvir minha voz?

- Por que não deixas que te veja? Tenho certeza de que não és feia ...

Ela riu.

- Não, não sou feia. Mas, já te disse que só mais tarde poderás me ver. Quando eu tiyer um corpo como o das outras mulheres. De carne e osso. Bastará, então, que me fites no fundo dos olhos e logo me reconhecerás; e eu a ti...

- Está bem. Eu esperarei ...

Numa noite, fiz importante descoberta: Isabel me amava. Eu tinha doze anos de idade e não era um menino tão ingênuo ...

Meu pai me havia dito:

- Amanhã você irá para o hospital tirar o apêndice. Já combinei com o médico.

Passei um dia horrível com a notícia. A noite, quando todos já dormiam, Isabel veio me ver. Notei que estava apreensiva, irrequieta. Falamos de coisas várias e, de súbito, ela teve uma crise de choro.

- O que foi? perguntei.

- Nada, respondeu-me.

- Mas, por que choras? insisti, também já me sentindo aflito.

- Não quero que sofras, é isso.

- Está bem. Eu até já havia esquecido da operação!

Isabel parou de chorar e, transbordando ternura como antes nunca o fizera, disse:

-Sabes? Tudo o que peço Deus me atende. Pedirei que a operação corra bem. Estarei contigo de dia e de noite. Em todos os momentos. Seremos como um só, entende? Tua alegria é a minha alegria, tua vida é a minha vida ... Ai, que não me entendes ... Não me entendes!

Fez uma pausa. Depois, menos triste, contou-me a história de um rei e de uma rainha que muito se amavam. Uma história linda, desenrolada em Portugal, que ela garantiu ser verdadeira. Ao fim da narração, acrescentou, sem poder esconder um laivo de angústia:

- Tu és esse rei e eu sou a rainha. A rainha, a esposa do rei, entendes? Compreendes, agora, porque venho visitar-te?

Eu havia compreendido muito bem. Já tinha doze anos de idade ... Sacudi a cabeça e senti que Isabel sorria, feliz; como antes jamais sorrira.

Mais tarde, quando fiquei só no quarto, debrucei-me no parapeito da janela e contemplei, demoradamente, as estrelas; como seria bom morar em uma delas, ao lado de Isabel! Sim, porque eu tinha certeza de que Isabel morava numa estrela - numa estrela maravilhosa que Deus criara, especialmente, para ela ...

Sete anos junto de Isabel. Sete anos inesquecíveis! Quando completei catorze anos de idade, ela veio ter comigo, tristonha.

- É chegada a hora. Não, por favor, não digas nada.

Irei agora renascer em uma cidade longe daqui. Mas, destino nos colocará um diante do outro. Foi-me prometido. Lembra sempre de mim. Sempre, meu amor, porque eu ... eu te amo!

E Isabel desapareceu. Não tive tempo de responder. Atônito, senti que a garganta se comprimia, os olhos se enchiam de lágrimas - e, inesperadamente, deixei-me cair na cama e desatei num choro convulsivo.

Durante três anos sofri, horrivelmente, sua ausência. Em silêncio. Tinha sonhos todas as noites. Sonhos desconexos, absurdos, alguns. Com o passar dos anos, porém, os momentos vividos com Isabel se foram tornando indefinidos, sem cor, som, sem poesia - eram como simples manchas no tempo.

Eu já era um homem, quando mamãe morreu e mudamos de cidade. O mundo dos negócios, então, absorveu-me, o nome de Isabel nada mais significava para mim, quando, em certa noite, no clube "Flamingo", fiquei conhecendo uma jovem que muito me impressionou ... Chamava-se Taís, era alta, esguia, estranhamente bela. Ao fitá-la, de relance, não sei porque me lembrei de Isabel. "Tolice ... Mas, por que me lembrei de Isabel?", refleti.

Quis conversar com ela; mas, logo se despediu e desapareceu pela alameda. E nunca mais voltou ao clube.

Meses depois tornei a encontrá-la. Eu estava em uma livraria, olhando as estantes, quando a vi assomar à porta. Fui, automaticamente, ao seu encontro - com uma naturalidade que mais tarde achei absurda, que sempre fui tímido, muito tímido.

- Lembra-se de mim? No "Flamingo?"

Começava a anoitecer, os lustres da livraria se acenderam. E pude vê-la com detalhes. Como era bela! Os olhos semiorientais, o nariz afilado, como o de uma estátua grega, os lábios finos escondendo dentes magníficos. Contemplei-a, sem poder evitar uma perturbação momentânea. Seria Isabel?

- Estou lembrada do clube; mas, do senhor, não ... Estávamos, agora, bem próximos; e eu a olhava nos olhos, no fundo dos olhos negros e amendoados, cheios de fascínio.

- Por que me olha assim? perguntou sem desviar, no entanto, o olhar.

Eu esperava que ela mesma descobrisse. E continuei a fitá-la, sem responder. Então, como se temesse que alguém a ouvisse, tornou a perguntar, à meia-voz:

- Por que me olha assim? Fale ...

- Não se recorda de mim? Olhe bem nos meus olhos ...

- Não me recordo. Mas, não sei ... Tenho a impressão de que não somos estranhos ... É uma impressão forte que sinto agora ...

De súbito, como que voltou a si. E, imediatamente, parecendo nervosa, começou a examinar alguns livros expostos sobre o balcão.

O livreiro, solícito, interferiu.

- Que livros procura? Quer romance ou poesia?

- Nenhum. Afinal, nem sei por que entrei na livraria ...

E, já à vontade, riu-se.

O livreiro afastou-se e eu a olhei com grande espanto.

Seu riso! Era igual ao de Isabel! Riso franco, cristalino, como as águas de uma cascata batendo sobre as pedras. Não havia dúvida: eu estava diante de Isabel! Sem perceber que me tornava ridículo, pedi-lhe que risse de novo.

- Como?

- Ria. Ria de novo!

- Rir, por que?

- Não sei. Mas, ria!

Tornou-se séria, franziu as sobrancelhas. - Você é louco? Por que hei de rir?

Percebi que estava insistindo demais, desculpei-me. Ela, então, consultou o relógio de pulso e dirigiu-se à entrada da livraria.

- É tarde. Vou-me embora.

- Posso acompanhá-la?

- Até o ponto de parada do ônibus. Mas, por favor, não me peça para rir, senão ficarei com medo de você ... Eu gosto de rir, mas, é claro, somente quando tenho motivos!

Sorriu e, vendo que eu também sorria, expandiu-se em nova risada - risada de Isabel, que eu ouvira na infância e que agora, de novo, ecoava forte dentro de mim como um chamado.

"NÃO TE MARAVILHES DE EU TER DITO QUE É NECESSÁRIO NASCER DE NOVO". (JESUS)

Jorge Rizzini