A HERANÇA


- "Quero fazer caridade"
Dizia Júlio das Graças,
Estou cansado de ver
Tanta penúria nas praças;
Vejo mães abandonadas,
Cujo estômago jejua,
Crianças esfarrapadas
Em tristes bandos na rua ...
Se Jesus me der recursos,
Farei com muita alegria
Um lar onde os pobres tenham
O pão para cada dia.
Tanto Júlio falou nisso
Que o difícil sucedeu:
Júlio ganhou grande herança
De um tio que faleceu.

Era antigo solteirão
Que não mostrava riqueza
E o povo considerava
Sovina por natureza;

Ao morrer, viu-se-lhe a vida,
Revelou-se-lhe o caminho ...
Tinha mais de dois bilhões
E deixou tudo ao sobrinho.
Após reter a fortuna,
Alguns irmãos da cidade
Vieram a ele indagando
Dos votos de caridade.

Que faria, enfim, agora?
Perguntou-lhe a comissão:

- "Um lar para os enjeitados
E velhos sem proteção?"
Respondeu Júlio, entretanto,
-"Meus amigos, o dinheiro
Que o tio me destinou
Não dá para um galinheiro.
Mais tarde, conversaremos,
Somos amigos leais ...
Os dois bilhões de meu tio
Vêm a ser pouco demais."

Jair Parente