FREI JERÔNIMO

Trabalhávamos àquela altura junto de uma comunidade organizada e mantida por um grupo de sacerdotes católicos desencarnados, de vários níveis hierárquicos. Segundo conseguimos apurar dos diálogos mantidos com seus representantes, era uma ampla e bem cuidada instituição "religiosa" que procurava duplicar nas trágicas regiões espirituais do desengano, estruturas semelhantes às da terra: igrejas, capelas, conventos, salas de estudo e reunião, parlatórios e tudo o mais, com seus ritos, práticas, posturas, cerimônias, sacramentos, tudo, enfim, para recolher pobres almas intimidadas pela enormidade de seus desenganos, desorientadas, inibidas por séculos de lavagem cerebral.

Naquela noite recebemos a visita de um indignado sacerdote que no decorrer da conversa identificou-se como Frei Jerônimo. Sua irritação levou-o facilmente à truculência e até a certas expressões um tanto rudes, mal condizentes com a sua condição e conhecimento. Viera ao nosso grupo para "botar p'ra quebrar". Não estávamos querendo problemas? Pois haveríamos de tê-los. E muitos, pois tínhamos as mesmas "podridões" que todos. E para o doutrinador especificamente:

- Arrume sua vida, porque qualquer dia desses vou lhe dar uma rasteira. Você vai cair de quatro! E fala mole comigo não resolve, não!

Que fôssemos seguidores do Espiritismo, ele não tinha nada com isso, mas que deixássemos que eles seguissem pelos caminhos de sua escolha. O Cristo convidara para segui-lo aqueles que o quisessem. Quem não quisesse que ficasse onde bem entendesse.

- Eu não quero! - disse firme. Quero ficar onde estou e vou ficar lá, está entendendo?

Em suma: não tínhamos o direito de nos metermos em casa alheia, pois eram uma comunidade de grande porte, composta de várias "irmandades". Se não éramos católicos, não acreditávamos nos sacramentos, não seguíamos a Santa Madre Igreja, e não aceitávamos o Papa, muito bem. Era problema nosso, mas tínhamos de deixar quem aceitasse isso aí, em paz, pois assim haviam escolhido.

- Sou católico - prossegue ele - Dentro da Igreja encontro o que quero. O senhor é espírita e não o estou questionando: fique lá. Lá o senhor encontra aquilo que quer. Siga a sua vida e pare com esse negócio de meter-se na seara alheia.

Nesse ponto - e isso aí é apenas o resumo de todo um difícil diálogo - ele faz uma pausa e se queixa de que se deu nele uma espécie de "desligamento" que descordenou seu pensamento. Daí em diante, fica um pouco mais contido, mas ainda está firme na sua postura e na defesa do seu ameaçado território.

Demonstrando conhecer bem os antecedentes do doutrinador, menciona, como que por acidente, um qualificativo pelo qual se tornou conhecido no seio da Igreja há um bom punhado de séculos. E prossegue, dizendo que o mal foi deles mesmo. Quando viram o que estava acontecendo em outras comunidades, por causa da ação de nosso grupo, deveriam ter "posto as barbas de molho" e tomado suas providências, cerrando fileiras na defesa de mútuos interesses.

O doutrinador lhe diz que se são do Cristo, como o dizem, não precisam estar assustados e em guarda, como que de armas nas mãos, pois nada há a temer. Mas não é assim que ele pensa. Os apóstolos não estavam com o Cristo? E como é que foram todos sacrificados? Não tinham de se defender? Paulo não perdeu a cabeça? Se não se defendessem, portanto, iria toda a instituição para o que chamou de "beleléu".

Já lhes basta os problemas com os "vigilantes" que, de vez em quando arrebatam um ou outro de seus companheiros, sem que possam fazer coisa alguma para evitá-lo. (Eles chamam de vigilantes, aos trabalhadores espirituais em difíceis tarefas socorristas pelas furnas mais hediondas, a recolher espíritos que começam a dar os primeiros sinais de recuperação). Com esses eles não podem, mas conosco é diferente, pois estamos em condições espirituais mais ou menos semelhantes às deles, ou seja, também vulneráveis, em razão de nossas falhas e imperfeições.

Quando pressentem a aproximação dos vigilantes, reforçam as guardas, concentram-se em vibrações defensivas, colocam capacetes fluídicos em certas pessoas para que não "ouçam" determinados apelos ou recomendações.

Além de tudo isso fazem prodígios para se defender do que classifica de "correntes mentais de gente que vive rezando".

E, afinal, o que queremos nós? Todos tem um ideal na vida.

Alguma coisa estaríamos procurando. Quem sabe poderiam chegar a um acordo conosco?

Pensam, naturalmente, em termos de uma barganha de interesses, algum conchavo ou pacto satisfatório a ambas as partes envolvidas, mas a resposta do doutrinador é um tanto desconcertante para ele:

- Queremos buscar amigos que temos lá. Você, por exemplo ...

Ele faz uma pausa, como que tomado pela surpresa do inesperado e deixa escapar um riso seco e curto. Em seguida, refeito, volta à carga: Não respeitamos o livre arbítrio de nossos próprios familiares, deixando-os fazerem o que bem entenderem? Por que, então, também não os deixamos em paz?

O doutrinador justifica-se pacientemente, dizendo que qualquer um de nós ao ver um filho ou um amigo em dificuldades, em apuros, dá uma palavra de alertamento, embora não possa impedir que ele prossiga na direção desejada, se assim entender.

Mas o problema para ele é outro - é o "sentimento de culpa" que "criamos" com as nossas técnicas ardilosas, colhendo os incautos em nossas "malhas".

- Suponhamos, diz ele - que eu tenha escolhido o pecado? O pecado me agrada mais do que a prática do bem. É direito meu!

O doutrinador propõe que, como ele é um servidor do Cristo, que diga isso, com essas mesmas palavras, a Jesus. E em seguida oramos.

Ao retomar a palavra, diz-lhe o doutrinador que somos, sim, imperfeitos. Perdemos a paciência, nem sempre estamos vigilantes e em harmonia. Somos também criaturas em luta. Desejamos também a paz, mas não estamos pretendendo obtê-la aos gritos.

E ele insiste que o seu problema com o Espiritismo é, basicamente, o conceito do carma, da culpa, que considera extremamente negativo. Por isso prefere a Igreja Católica, que, a seu ver, "dá muito mais à criatura".

E acrescenta:

- Vou lhe dizer com franqueza: não interessa se, o que ela ensina é verdade ou mentira. É bom que a criatura acredite que tem uma só existência. E que assim vive, e quando morre é julgada e vai para o céu, ou para um lugar onde vai purgar suas faltas, ou recebe uma condenaçao completa. E pensa: "Só tenho essa vida. Minha oportunidade é esta". E trata de fazer tudo certinho: penitência, oração, promessas, tudo, para se melhorar, porque está convencida de que no dia em que morrer terá sua situação definida. Agora, vocês aí ficam com esse negócio .. "Ora, se vou viver outras vidas, então está bem ... Não há castigo!" Quer dizer, vocês tranquilizam a criatura.

Contraditoriamente, porém, diz no mesmo sopro:

- A Igreja não desassocega ninguém. Essas almas que estão lá, por exemplo (na instituição deles) sabem que não estão no paraiso, mas estão "cavando" o paraiso. As que tem pecados estão fazendo penitências, rezando a via sacra. Tem gente que faz isso de joelhos. Outros rezam o rosário - Não é terço, não. Não sei se você sabe que o terço é uma terça parte do rosário. Terço é comodismo - Sabe o que é rezar um rosário inteiro de joelhos? lá imaginou? Só um terço tem cinquenta ave-marias. A pessoa faz aquilo com confiança. É um clima diferente. Vão à capela e fazem as abluções ... É um clima de maior pacificação, lá vi coisas lá nas quais vocês têm muita culpa. Vocês ficam rezando e falando do passado, dizem que têm culpas, mas também contam com o perdão de Deus. Alguns não se deixam impressionar, mas outros.

Nesse ponto ele transmite uma curiosa informação, que precisa de um esclarecimento prévio. É comum encontrarmos na linguagem doutrinária espírita a expressão "sintonia vibratória" ou "envolvimento em determinada faixa", ou, ainda, "elevação do teor vibratório·' Nunca havíamos, contudo, encontrado um exemplo tão claro e preciso do que isto significa.

Como observamos há pouco. Frei Jerônimo discorria sobre a influência das preces lá na instituição em que vivia, dizendo que elas criavam uma "corrente" à qual alguns conseguim subtrair-se. Se, porém, a pessoa tivesse o "azar" de cair numa delas começava a questionar-se. E prosseguiu, narrando:

- Um dia desses veio uma irmã para mim e disse: "Frei ... (A gente lá - explica ele à parte - tem um parlatório. Ficamos ali em determinados dias e quem quiser ir lá, pode ir conversar. Não para confessar! Se tem alguma dúvida vai ao parlatório e a gente esclarece). Então, foi lá essa irmã. "Frei Jerônimo". "Pois não. Fala irmã". "É que eu estava um dia fazendo uma novena e fiquei pensando muito na Virgem". Até ela disse (a irmã) que não foi só na Virgem que pensava, pois ela tem uma devoção com Santa Clara. "Eu estava pensando tanto em Santa Clara e pedindo ... ,. E aí, de repente, ela disse que escutou assim um barulho passar pela sua cabeça, um negócio como se fosse uma música. Quando ela me disse isso, eu já fiquei desconfiado. Eu já sei o que é: uma "corrente". Aí eu disse: "E a senhora logo pensou noutra coisa, não é?" "Não: aí é que eu pensei mais em Santa Clara", "E veio com aquelas coisas que "passaram" na corrente. '

- "Que é isso. Frei, que estão dizendo que eu escutei nessa "coisa" que "passou" quando eu rezava para Santa Clara? Que a gente tem muitas vidas ... Como é que o senhor nunca disse isso? A gente não tem que ficar aqui rezando ... Não adianta eu ficar rezando o rosário, porque isso não vai acabar com meus pecados."

E prossegue Frei Jerônimo para o doutrinador:

- E disse uma porção de coisas. " O senhor pode imaginar o que eu tive de fazer para poder esclarecer aquela criatura? E não esclareci, o pior foi isso. Quer dizer, eu esclareci, mas ela não ficou esclarecida. Eu disse: "Foi quando a senhora estava rezando para Santa Clara? Então não reze mais para ela".

- Mas isso não é uma organização religiosa? - pergunta o doutrinador.

- É, mas isso estava prejudicando.

- E a prece prejudica? - insiste o doutrinador numa pergunta que ele ignora.

- Eu disse para ela: "Cuidado, que isso são noções negativas, são correntes negativas que vêm e a senhora estava invigilante. Cuidado que qualquer dia a senhora cai na mão de um vigilante," (Eles morrem de medo dos vigilantes. Eu digo que os vigilantes torturam as pessoas.) "A senhora vai cair nas mãos dos vigilantes! "

- Mas você não prestou juramento de dizer somente a verdade?

Pausa.

- Que juramento? Olha aqui: o próprio Cristo adaptava a verdade às criaturas!

- Você, então, .. "adaptou" a verdade a essa irmã ...

- Tem que adaptar ... O senhor sabe o que aconteceu a ela? Ela caiu na mão de um vigilante. Continuou rezando para Santa Clara e um dia viu um clarão. Está vendo?

Ele sabe muito bem que o "clarão" fora produzido pela presença de um Espírito superior que, aproveitando-se do clima positivo criado pela prece, conseguiu resgatar a freira, mas a "versão oficial" para consumo interno na comunidade é a de que ela se deixou envolver numa faixa vibratória "negativa" e foi como que raptada pelos temíveis vigilantes, a fim de ser torturada pelos seus pecados ...

O objetivo é sempre o mesmo, ou seja, manter aquelas pobres criaturas ali num clima de temor e ignorância dirigida para que se submetam à autoridade dos dirigentes que, com isso, também ali se mantêm prisioneiros de si mesmos, por não se conformarem com a inexorável realidade de que precisam abandonar seus erros, suas posições, suas vaidades e seus próprios temores, a fim de enfrentar corajosamente o penoso mecanismo da correção que a lei impõe aos recalcitrantes.

Veja-se, por exemplo este fragmento de diálogo:

- Você, então, acha que a gente só tem uma vida .. diz-lhe o doutrinador.

- Olha aqui - responde ele -, não interessa quantas vidas a gente tem, mas se o senhor fica falando que temos muitas vidas, a pessoa acaba se acomodando: "Ah! seu eu tenho muitas vidas, para que vou correr nesta?"

- Então, por que seus sacramentos, sua Igreja, suas missas não o levaram para o céu, se a primeira parte do seu raciocínio está certa? O que você acha que falhou aí?

- Não falhou nada. É porque nós somos responsáveis por essas almas. A gente tem que ajudá-las, tem que trabalhar com elas.

- E essa Irmã? Como é que você não conseguiu retê-la com a sua verdade "adaptada"?

- Por isso é que eu digo: é a invasão dessas "correntes".

Temos que ficar mais vigilantes. Agora, por exemplo, eu dei uma ordem lá: Quem for rezar, seja na capela, seja nos nichos, (A gente tem lá umas grutas, sabe?), ponha o capacete.

Para rezar precisa capacete?

- Eu disse que o capacete é para defender-se dos vigilantes.

Quando se sente acuado, porém, ele sai com a mesma frase de sempre: "Isso não interessa". Mais adiante, acrescenta:

- Vocé está cansado de saber que há coisas que a gente diz e coisas que a gente faz. E que nem sempre uma coisa é necessariamente a mesma.

Seria impraticável reproduzir aqui todo este interessante diálogo com Frei Jerônimo, mas creio oportuno referir mais alguns pontos curiosos. A certa altura, já bem mais razoável, diz ele, após longa pausa em que parece meditar:

- Em uma coisa eu concordo com o senhor. Acho que todas as instituições religiosas criadas pela Igreja - conventos, abadias e não sei mais quê - todas foram um grande engano, compreende? mas já que se criou tem de se dar uma finalidade àquilo. Não deviam ter sido criadas. Não precisava realmente, mas já que foram criadas, tinha que, em primeiro lugar, ter gente para estar ali e muitos iam para lá contra a vontade; outros iam para fugir de situações embaraçosas no mundo. .. O que o senhor quer?

- Você por que foi? E a resposta de sempre: - Não interessa!

Nesse ponto, contudo, a despeito de suas "defesas", capacetes e demais petrechos, começa a sentir-se sonolento ante a indução magnética, mas ainda reclama de Santa Clara que também criou uma ordem, seu convento e tudo o mais. Já não consegue falar articuladamente, vencido pela sonolência que se apodera de seu ser, enquanto boceja sem parar. Pouco depois está prostrado sobre a mesa.

Começa a regressão da memória, a fim de que possamos buscar ali a causa profunda das suas dores e desenganos, de sua fuga.

Quero sair daqui - diz ele - Estou aqui para uma Preparou-se para lutar com outro cavalheiro. Não são inimigos, trata-se apenas de um torneio, como costumava ocorrer na Idade Média. Ele é jovem e nobre de nascimento. Não está apenas se lembrando, pois se vê realmente ali, no amplo páteo de um castelo em dia de festa, perante uma pequena multidão.

- Estamos disputando a mão desta donzela. É um torneio.

O rei é que promove esses torneios. - O Rei está presente?

- Está.

Segundo informa, a cena se passa na Sérvia. E prossegue: - Não estou bem, porque aquele maldito sacerdote ... Ele é um mago e me deu esse remédio, porque o outro o comprou. Agora estou caído aqui. O outro me venceu, mas eu era o melhor. E agora não sei porque me arrasto. Dizem que estou morto, mas não estou. O outro me derrubou e dizem que me quebrou o pescoço, mas como? se estou vendo tudo aqui? Quero gritar mas não me escutam! Estou vendo este veneno ... Como posso estar vendo o veneno dentro de mim? Eu preciso me vingar .. Não posso deixar isso assim! ... Não posso deixar! Quero levantar mas não posso! Vejo os outros que gritam e que saúdam as bandeiras e saúdam o vencedor, mas vejo ... Sim, agora me levanto, mas não tenho mais a armadura. Corro para a tribuna para dizer que fui envenenado, que o torneio está invalidado. O Rei é justo, mas vejo lágrimas nos olhos da minha prometida.

- Ela gostava de você, então.

- Sim. Mas o Rei quis esse torneio porque éramos dois jovens de famílias respeitáveis no reino e ele não queria uma contenda; dando a mão da filha a um, ele iria magoar o outro. Entende?

- Mas a moça é filha do Rei?

- Sim. Foi por isso que houve este torneio, mas eles não sabem que caí por causa desta droga. Eu gritei e ninguém me ouviu. Todos saudavam e riam, compreende? E tomavam os canecas e ela chorava. Depois ... eu queria saber o que tinha havido. Por que eu estava assim? Eu não sabia ... Cheguei perto do vencedor, meu rival, para gritar a ele que ele não tinha vencido, e eu o vi trocando olhares com o sacerdote e naquele olhar eu li o que ele queria dizer. Então me lembrei que quando cheguei, e estava me preparando, chegou este menino que vinha da parte do sacerdote com uma ânfora e dizia para mim: "Senhor, manda-me meu senhor saudá-lo e refrescar-lhe com este vinho".

E eu agradeci e o tomei, Ainda molhei o meu lenço e passei-o na testa...

Sua narrativa interrompe-se neste ponto, como se ele fosse fulminado por um desmaio.

Quando voltamos a falar, já recuado para outra existência terrena, sua voz continua sonolenta e pastosa como a anterior. A primeira palavra, uma espécie de chave com a qual abre este novo e misterioso compartimento da memória, é alforge.

- Vou para essa viagem. Vou para a Sicília.

Parece não saber bem que atividade exerce, pois a pergunta que lhe é feita nesse sentido, evidentemente o embaraça, o magnetizador pede que ele descreva seus trajes.

Tenho estas pantufas ... começa ele, hesitante, Armas?

Não, a que você vai fazer na Sicília? Vou viver, .. vou trabalhar, a que você sabe fazer?

-Tenho um ofício, Sei trabalhar com metais, fazer utensílios, ..

Vai sozinho, pois é solteiro e não consegue localizar na memória o nome do local de onde está partindo para a Sicília. Só sabe que tem de caminhar e depois tomar um barco, o que parece indicar que parte do continente, pois a Sicília, como se sabe, é uma ilha ao sul da Itália.

- É muito longe, então, Por que você escolheu a Sicília?

- Porque minha mãe me mandou procurar um homem lá.

Levo .. Ela o conheceu... não sei ainda. Ele está numa dessas casas de religiosos (convento).

- Mas ele é conhecido dela? Irmão dela?

- Não sei, a minha mãe me deu esse crucifixo aqui quando estava morrendo e me disse para ir e entregar a esse homem. Cheguei lá e este homem. Sim, ele tomou o que eu levava (o crucifixo) e me deu água e me fez sentar e me deu pão. Eu estava com fome .. E depois fui dormir e tive um sonho horrível. Este homem me dava um copo de veneno. Ele tinha uma roupa estranha (antiga) e um cabelo estranho que vinha até os ombro. E eu acordei com o gosto daquele vinho horrível na boca e tive medo, mas este homem me disse que eu ficasse ali que eu teria a sua proteção. E fiquei. Eu não sei, mas não gosto desse homem ... Sinto uma raiva dele! Ele quer ser bom, mas sinto uma raiva dele, não confio nele ...

- Como sua mãe o conheceu? Ela nunca lhe falou nisso?

Ele era lá da terra de vocês?

Não sei; minha mãe nunca me falou nada. E ele reconheceu o crucifixo?

Sim, mas ele nunca falou.

Será que ele era seu pai?

Não sei. Eu tinha essa raiva dele ... Eu não queria viver ali, mas vivi. Ele era bom para mim, mas um dia eu quis fugir e apanhei esses valores, mas ele me surpreendeu e queria que eu fizesse uma penitência e me arrependesse e ele chorou; mas eu tinha aquela raiva e fingi que aceitava, mas não sei o que senti naquela noite ... Eu sempre levava para ele um pote com água para a noite. Não sei porque naquela noite eu levei o pote, mas coloquei algo na sua caneca.

- Então ele morreu envenenado ...

- Sim. E naquela noite eu tive outro pesadelo horrível.

Ele me agarrava pelos pulsos e dizia: "Meu filho, por que perdemos a chance de reconciliar?".

- É. Ele fez o possível, não é? Foi você que não o perdoou. - Odeio estas paredes escuras. Eu queria tanto a minha mãe! Sempre pedia a ela: "Faça-me um catavento". E ela me fazia um catavento para eu brincar. Estou cansado. .. Tão cansado ...

Aí estavam, pois, as raizes mais profundas dos angustiantes problemas de Frei Jerônimo. Vitimado pela traição de um sacerdote venal que manipulava drogas potentes, perdeu numa dispuuta, a mão da filha do rei, que o amava. Perdeu com ela, provavelmente, a oportunidade de uma existência de fausto e poder, e só depois de "morto" descobriu a trama sinistra que o eliminou.

Em outra existência - a que distância no tempo? - sob romanescas e misteriosas condições, vai ao encontro daquele mesmo sacerdote, novamente vivendo numa comunidade religiosa e ali consuma-se a tragédia da vingança. Ficara o seu espírito marcado com o ódio irracional à vida dita religiosa, aos claustros, conventos e igrejas (" Odeio estas paredes escuras"), mas por compulsão cármica inexorável, acaba também investindo-se da condição sacerdotal. Aquilo, porém, não era uma punição e sim uma oportunidade. Precisava vencer sua repugnância por tudo aquilo e poderia tê-lo feito, servindo à Causa do Cristo, estudando seus ensinamentos e vivendo a sua doutrina de amor. Saiu tudo errado novamente. Embora condenando aquelas estruturas, serve-se delas e nelas se perde outra vez. Tão fundo que, de regresso ao mundo espiritual, busca instituições semelhantes que ali continuam, teimosamente, a desenvolver a mesma tarefa lamentável de manipular almas temerosas e automatizadas, sob a mentirosa alegação de que precisa orientá-las e protegê-las. A mentira continua, e a fuga, a covardia ante os resgates dolorosos, os remorsos, o desalento. No fim, desaba sobre ele um cansaço opressivo, esmagador e ele se apaga num sopro para repousar e, afinal, repensar a sua vida ...

Hermínio C. Miranda