NAIM VIU A LUZ E PREFERIU AS TREVAS

Naquela noite de 29 de setembro manifestou-se, pela segunda vez, um dos integrantes de novo núcleo espiritual que nos reservava dramáticas surpresas, profundas emoções e lições inesquecíveis, Na semana anterior não tivéramos oportunidade de entendimento mais amplo, porque parte considerável do tempo fora consumida com a irmã espiritual que o antecedera, O Grupo do qual ele fazia parte não era composto de espíritos maldosos, agressivos e essencialmente perturbados, embora às vezes bastante veementes na exposição de suas idéias, Eram extremamente cultos e inteligentes, dotados de boa agilidade mental e de impressionante habilidade na manipulação da palavra. Incumbiam-se, segundo apuramos, da tarefa de trazer para os meios espíritas menos vigilantes novos conceitos e maneiras de apresentar o Espiritismo, cujas estruturas e práticas julgavam obsoletas e necessitadas de ampla reformulação.

Essa, contudo, era apenas uma tarefa particular, específica, dentro de um plano geral bem mais vasto, como viemos a descobrir mais tarde, Em verdade, nossos queridos irmãos mantinham uma espécie de Universidade do espaço, na qual mestres de muito saber filosófico e científico ministravam cursos, faziam conferências, cultivavam a própria mente, desenvolviam teorias, reexaminavam os velhos problemas humanos de todos os tempos. Afora uma equipe de servidores menores que se incumbia de afazeres mais prosaicos - contatos, segurança, execução de tarefas previamente estudadas e decididas pelos dirigentes - dedicavam-se os demais ao culto da mente, da inteligência. Segundo teríamos oportunidade de apurar, os líderes dessa estranha comunidade eram remanescentes da Grécia Antiga: filósofos, escritores, artistas, pensadores, cientistas, poetas, cristalizados todos numa cômoda e trágica postura mental que os mantinha no contexto de sofisticado materialismo teórico, ainda que conscientes da condição espiritual de cada um dos seus componentes.

O companheiro daquela noite, por exemplo, era um tremendo argumentador, senhor de lúcida dialétíca, brilhante, seguro, um tanto impaciente ante as nossas posições que considerava retrógradas e superadas. Começou queixando-se do próprio mecanismo da mediunidade que considerava um método primitivo de comunicação. Como o doutrinador cortezmente agradeceu a sua presença alí em nosso modesto grupo, ele retrucou prontamente que não tínhamos nada que agradecer e sim pedir desculpas por submetê-lo àquele verdadeiro vexame, mesmo porque estava alí muito a contra-gosto, pois éramos um "espinho na carne", uma pedra no sapato de sua comunidade. Somente mais tarde na conversa, viríamos a descobrir por que razão, logo de início, empregou essa expressão tipicamente pauliniana: o espinho na carne. No decorrer do nosso diálogo - quase um monólogo a despeito dos esforços do doutrinador - ele revelou verdadeira fixação na personalidade de Paulo de Tarso.

Sim, reiterava ele, os nossos métodos eram primitivos. Estávamos como que empregando carro de bois, quando já havia aparelhos supersônicos, Vinha mais para colher observações que instruíssem as decisões que certamente tomariam contra nós. O Planejador, aliás, já estava trabalhando no assunto. E outra coisa: não tinham o menor interesse em se envolverem conosco, O envolvimento resultara de um risco calculado a que resolveram expor-se ao oferecerem ajuda a outro grupo, junto ao qual estivéramos trabalhando. Embora não o confessasse, naturalmente esperavam resolver com presteza e eficácia a dificuldade e retomarem suas tarefas normais. Infelizmente para eles, os acontecimentos tomaram rumo inesperado e eles se viram envolvidos conosco. Lamentavam sinceramente o ocorrido, porque não eram homens de ação e sim intelectuais. Quanto à sua presença ali, fora também de certa forma imprevista, pois viera apenas para acompanhar e assessorar alguém - não estando programado para falar-nos. Nada tinha contra o doutrinador e não desejava nenhuma questão com ele. Demonstrava, contudo, certa apreensão quanto ao desenrolar do diálogo.

- Você - diz ele ao doutrinador - usa a palavra como uma arma. E como você maneja bem essa arma !

Achava ele que aquela voz pausada e inalterável ia abrindo caminho, penetrando sorrateiramente. Declarou, com honestidade, que não tinha rancor algum - apenas divergia no campo das idéias, ou melhor ainda, dos métodos. Apelava para o mútuo respeito e propunha que cada um seguisse seu caminho. (Aliás, nem deveria estar ali porque tinha outro compromisso para aquela noite). Achava que mesmo o Cristo fizera algo parecido: veio, pregou, mostrou o caminho e "foi embora". Nunca exigiu de ninguém que o seguisse. Não exigiu nem mesmo fidelidade, pois admitiu a traição de Judas e a negação de Pedro! E mais: não chamou ninguém para ouví-lo. Ia quem assim o desejasse. Seguia-o quem quisesse.

Nesse ponto, atacou o velho e persistente problema da culpa, tema quase inevitável em todos estes veementes diálogos. A mesma doutrina de sempre, exposta, contudo, com o seu incrível poder verbal e sua fascinante dialética. O sentimento de culpa enfraquece e paraliza o indivíduo, pois em vez de franquear à pessoa o uso da sua liberdade, põe-lhe a canga ao pescoço. Veja-se, por exemplo, o caso de Pedro. Negou a Jesus três vezes e, no entanto, o Cristo fez dele um pilar na difusão do seu pensamento, em vez de ficar a lembrar-lhe a culpa. Do contrário, Pedro ficaria a lamentar-se e nada teria feito.

- Errei, sim - teria pensado - mas vou em frente! Enquanto isso, nós, espíritas, fazemos do carma um grilhão que prende a uma bola de ferro pelos pés e impede de caminhar. Não sua opinião, o Cristo não libertou ninguém - limitou-se a mostrar o caminho. Quem quisesse que o seguisse. Não que ele tivesse algo contra o Cristo. Não.

Outro exemplo: o de Paulo. Paulo era um homem terrível.

Declara tê-lo conhecido muito bem. Terrível, repete. Rancoroso, cruel, incapaz de dobrar-se ante a compaixão. Quando, ainda como Saulo, perseguiu os cristãos, não hesitou em recorrer a métodos de extrema crueldade, o que é verdadeiro.

- Segundo a sua teoria - diz ele ao doutrinador - Paulo ficaria ali, parado a pensar: "Matei cristãos, falei mal do Nazareno. Como posso agora pregar a sua doutrina?" Nada disso - teve que ignorar tudo e seguir em frente!

Atacaram-no na sinagoga porque sabiam com quem estavam lidando. E no entanto, foi o primeiro pregador do Cristianismo.

- Onde fica a sua teoria da culpa? - pergunta ele, vitorioso, ao doutrinador.

E prossegue: quando Paulo retornou a Jerusalém, já convertido, foi recebido com as maiores desconfianças e reservas pelos seguidores de Jesus. Viu-se preliminarmente recusado, mas afinal de contas, era um doutor da Lei, orador notável, grande manipulador da palavra. Quando começou a trabalhar, quis logo a tribuna, a pregação. Quanto à assistência social, Pedro que cuidasse dela, pois, na sua opinião a caridade "alimenta a inércia".

Embora com uma ou outra deformação evidentemente tendenciosa e proposital, observamos que o Espírito manifestante está bem familiarizado com homens e eventos daquela época. Identificamos, também, nele, uma curiosa fixação na figura de Paulo.

Após os exemplos com os quais ilustrou seu raciocínio, prosseguiu na exposição de suas idéias. Considera-se um cultor da mente: é o intelecto, a seu ver, que imprime direção ao ser humano.

- O coração - acrescenta enfático - é apenas uma válvula hidráulica destinada a fazer circular o sangue. Só. Para que atribuir-lhe sentimentos?

Entendia que, se o coração fosse a sede da emoção, os doentes mentais deveriam ser criaturas maravilhosas, pacíficas, doces, boas, pois, uma vez danificado e bloqueado o cérebro, o predomínio do coração seria inquestionável. E, no entanto, são agresssivos, e até maus. "Sem a mente - insiste - o homem é um mero monte de carne!" Por isso combatia o sentimentalismo, que, a seu ver, prejudica o desenvolvimento dos aspectos científicos do Espiritismo. Diz mesmo já haver conseguido excluir muita fantasia da cabeça de muitos. Reuniões baseadas na fé, podem ser bonitas, mas não são inteligentes. No exercício da mediunidade, o sêr fica apassivo, sujeito a vibrações negativas. Admite até mesmo a fé, que não será prejudicial, se for inteligente. Quanto ao doutrinador, tem-lhe até alguma simpatia pessoal - para não dizer piedade - lembra um Dom Quixote romântico e anacrônico em pleno século 20. Um horror! Quando "Dom Quixote" propõe orar, ele faz um apelo para que não faça uma prece-petição: que seja ela uma força.

- Devo, então, dar ordens a Deus? - é a pergunta. Por que você não ora, você mesmo, para a gente ver como é a sua prece-força?

Recusa-se. Oramos e, em seguida, damos início à indução magnética, visando à regressão da memória. Dentro de alguns momentos ele se queixa de calor. Como estamos em uma sala refrigerada, não é difícil depreender que ele começa a mergulhar em um contexto diferente. Ainda reage, porém, à indução e resiste ao aprofundamento da magnetização, mas é evidente que vai cedendo e inexoravelmente. Ele próprio o admite, ao dizer que o doutrinador o está dominando através do instrumento mediúnico. Esta, aliás, é uma observação até certo ponto aceitável, pois, seria muito difícil, senão impraticável, magnetizá-Io senão incorporado ao médium. Não, porém, que haja domínio. sujeição, imposição.

- Você me domina através dela - diz ele com a voz sonolenta.

Em seguida, mergulha, afinal, no passado e começa a

revivê-lo:

Preciso preparar-me - diz. Preparar o quê?

Minhas lições.

O que você está estudando?

Os textos sagrados.

- Que Escola você freqüenta?

- Sai daí, bicho! (Parece escorraçar um animal. Cão? E comenta: Estou impaciente hoje, muito impaciente. Não vou conseguir este lugar.

- Ah! você está estudando, então, para obter um lugar? Claro!

- Onde é esse cargo?

- No templo ... Onde mais você pensa? No templo. Você é, então, um sacerdote?

- Não sou um sacerdote - quero ser. Quero ser um doutor da Lei.

- É um templo da Lei Moisaica, então? Da Lei Antiga?

- Claro! - diz ele ainda mais impaciente. O que você pensa que é?

E onde você vive?

- Onde é que você está que não sabe das coisas?

- Desculpe. Preciso perguntar para poder lhe ajudar. É em Jerusalém?

É.. Isso mesmo ... - diz com evidente má vontade.

E hoje tem um debate. Com aquele presunçoso ... ! Com aquele ... Esse presunçoso que acha que só porque ele tem parente lá ele vai conseguir o lugar. Aliás, não deveria ser permitido isso: um deixar o lugar para outro.

- Mas de quem você está falando? Não estou entendendo. - Ora! Você não sabe de quem? Esse frangote aí, de quem todo mundo fala porque ...

- Mas você quer ser o que? Quer ser o Sumo Sacerdote?

Ele deve estar impressionado ante a ignorância do perguntador.

- Quero o meu direito de defender a lei, ter um lugar entre os doutores!

- Sim, mas você não me disse quem é o jovem. Você está se preparando para debater com ele, não é?

- É. Não gosto dele. Não gosto, porque ele é muito presunçoso.

- Mas voce tem receio de dizer o nome dele?

- Não. Mas pra que? Você pode ser amigo dele ... Não quero confusões porque não confio nele.

- O debate é só entre voces dois?

-Não, não. Tem lá os outros, os sacerdotes, os doutores, os conhecedores.

- Vão examinar vocês? Há mais de um candidato?

- Tem eu, tem ele ... O que é um estudante, que é um candidato? você parece que não conhece as coisas! Tem que conhecer bem os textos.

- Se conseguir passar nesse exame o que você vai ser?

-Qual a posição que vai ter?

-Vou ser admitido no Conselho de sacerdotes. -Ao Sinédrio? (1)

- Claro que é! Claro que é o Sinédrio! Onde mais você pode exercer o poder, pode defender a lei, pode conhecer os textos? Onde mais?

-Mas você já tem idade suficiente para isso?

-Tenho vinte e quatro anos.

-Vinte e quatro anos e já está ambicionando o Sinédrio?

-Já estou sim.

- Com quem você estudou? Qual o seu Mestre?

- Tem vários mestres aí.

- Diga o nome de um deles.

- Não vou dizer nada. Por que você está me. .. me... inquirindo? Quem é você? Por que não posso?

- Pode sim. Claro. E esse companheiro é também daí de Jerusalém?

-É, ele é daqui ... (E noutro tom:) Olha, não me interessa. .. Não vou pesquisar a vida de ninguém. Me deixa. A gente não é ... Você não conhece as leis. Você não é logo admitido ao templo, mas pode participar, ter credenciais ...

- Mas não tenho conhecimento de um sacerdote tão jovem participando do Sinédrio.

- Sou jovem. Não sou um sacerdote ainda! - diz ele num crescendo de impaciência e mau humor. Sou um estudante da lei. - Sim, mas você com vinte e quatro anos está mencionando o Sinédrio!

- Mas, meu amigo, se eu não fizer os contatos, não fizer as amizades, não impressionar com o meu saber, não poderei mais tarde ... Isso é uma coisa de tradição. Você não chega num dia e toma o lugar. Você tem de chegar lá e eles lhe observam. Você fica sendo observado sempre. E é chamado quando tem as questões. É chamado a opinar e eles observam como você está agindo.

- E você também estuda com Gamaliel?

Pausa, e noutro tom, algo mais brando, respeitoso e até admirado:

- Você o conhece?

- Sim. Claro. Quem não conhece Gamaliel? (2)

Silêncio mais prolongado. Parece meditar. E inteiramente mudado:

- Ele é um senhor respeitável! É venerável! Ele é venerável! Mas é ele, é justamente ele que tem um parente e eu não tenho parente lá dentro ...

- Mas isso não tem importância. Se você souber direitinho os textos não precisa de parentes, não é?

- Mas é difícil conseguir lugar lá. Tem que esperar a vida inteira. Até que vague um lugar.

-Esse outro rapaz é que é parente dele? É. Estuda com ele e com os outros. Então você o conhece há muito tempo. Ele é muito brilhante !

-E de onde ele é?

-Você sabe de onde ele é, não sabe? Não quero dizer, mas ele agora está aí. .. Não importa. Não importa onde ele tenha nascido. Não importa que ele seja meio grego ...

. . . meio romano ...

. .. meio romano. Não importa. Ele é um oportunista. Mas ele não pertence à raça judaica legítima?

Sim, é da raça, mas é um estrangeiro. Não nasceu aqui.

Eu teria mais direito: nasci e me criei aqui. Fui alimentado aqui. Fui ungido no templo, quando era pequeno.

- Sim, meu querido, mas a disputa é pelo valor intelectual, não é pelo direito de nascimento. Você pode provar o seu valor. Mas. .. Como é que você se chama?

- Naim.

- Naim, vamos, então, para frente, para que você me diga o que aconteceu depois disso.

- Mais para frente? Para onde?

- No tempo. O que se passou depois disso.

- Depois disso?

Outra pergunta "cretina". Como pode alguém saber do que passou depois daquele momento que está vivendo? Ele está evidentemente algo aturdido. Apesar do absurdo da situação, acaba entendendo a pergunta e, após uma pausa, prossegue:

- Ora! Depois disso... Ora! quem que estivesse em Jerusalém não saberia do que se passou? Todos sabem. Aquele Carpinteiro. .. Aquele Carpinteiro que agitou a placidez das nossas cidades, do nosso povo ... Aquele Carpinteiro maldito!

Eu o abomino ... !

-Você o conhece pessoalmente?

-Conheço os efeitos da maléfica presença dele. Você já o ouviu pregar!

-Fui uma vez a uma praça porque eu queria saber usar os termos dele para combatê-lo, mas ele me ... Mas ele carregou consigo a minha velha mãe. Ele a enlouqueceu.

- E porque ela foi procurá-lo? Ela estava doente ou com algum problema?

- Coisas de velhice. .. Ela disse que tinha visões. Via um jovem que chamava por ela e pedia que ela O procurasse. Que "ele" era o Enviado (Messias) ... Ora! Onde já se viu um Enviado que não vai nascer no nosso seio?

- Você então, tornou-se um sacerdote? Tornei-me um sacerdote menor.

E aquele outro companheiro com o qual você disputou?

Como foi aquela história?

- Bom. .. Há males que vêm para bem. O Carpinteiro me causou um grande pesar, me levou a velha mãe. Ela reuniu os nossos haveres. distribuiu-os e foi embora. E eu ainda tive que dizer que ela havia partido para a casa de parentes, porque não podia ... Você sabe, eu deveria denunciá-la, mas não podia denunciar minha própria mãe! Corria o risco de perder tudo, ser excomungado, ser expulso. Mas, depois ... depois que passou um tempo, eu disse que recebi uma carta contando que ela havia morrido lá. Mas esse maldito Carpinteiro por um lado me beneficiou, porque depois desse jovem estar já prestes a assumir, ou já havia assumido, não sei ... Um dia ele foi em viagem e parece que ... Ele tomou muito sol na cabeça compreende? Pelo menos foi isso que disseram os criados que voltaram ... (Os que foram com ele, cameleiros ... ) Que ele tinha tomado sol na cabeça. Você não sabe o que é o sol daqui do deserto! ... Pode enlouquecer, pode cegar ... ! E parece que ele teve uma miragem e na miragem, ele ... não sei. Naturalmente ... Porque o sol naquela areia e o reflexo podem cegar uma pessoa. .. Você já andou por alí? A gente sempre usa protetores nos olhos. E ele parece que não usou nada. Ele ficou doente e depois parece que enlouqueceu e acabou virando-se para o lado ...

- Do Carpinteiro .

- Exatamente. E isso foi bom para mim, porque então, eu assumi o lugar que lhe estava reservado ...

- Sim, mas de qualquer maneira você tinha condições ...

- Sim, mas eu não tinha influência. Você não sabe o que é isto aqui! É uma casta terrível. Terrível! Se você é de uma família de sacerdotes, isso influencia ... Eu não era.

E você foi, então, escolhido para o Sinédrio? - Fui. Eu também sou brilhante.

- E que notícia você me dá de Gamaliel, seu mestre? O que aconteceu com ele?

- Coitado ... O velhinho ... Não vou dizer o que aconteceu, porque eu o respeito muito. Sei que ele ... ele estava muito velho, você sabe. Ele foi embora ... Quando poderia, na velhice colher todos os louros. . . Ele era muito respeitado!

- Mas você não está dizendo o principal. É que ele também aceitou ...

- Não. não! Ele não faria isso! Aquilo é coisa de ... Isso é da idade! Velhice, senilidade ...

E no Sinédrio? O que você fez lá de importante?

Meu amigo! - exclama ele com evidente desdém. Você estava lá quando o Carpinteiro foi trazido a julgamento?

- Não. Isso foi antes de eu assumir.

- Mas você o teria condenado também?

E ele muito enfático e com presteza:

- Claro! Eu teria ... Eu participei de debates. Não estou dizendo que fui assisti-lo numa praça pública? Foi para poder usar as palavras.

- E o que foi que ele falou naquele dia em que você foi ouví-lo?

- Ora, ele estava dizendo que podia curar, e que o Pai o enviava. Ora! Onde já se viu isso? Um simples mortal! Não pode! Temos que cortar esta praga pela raiz, porque isto se enraiza por Israel inteira. Não é só Jerusalém - é Israel. Compreende?

- E sua mãe? Você teve notícias dela depois?

- Não. Eu não podia procurá-la? Poderia? E a minha posição? E o meu cargo?

-Claro, Mas ela nunca mais lhe procurou? Não, Nem ela faria isso,

-Então você não teve mais notícia alguma dela?

Ela morreu para nós. Não quis saber! (E já irritado:) Não poderia! Como é que eu poderia procurar uma aproximação? Ia botar por terra tudo que eu almejava. Não, meu amigo. Essas coisas, não. Foi uma escolha que ela fez. Eu ainda fui muito bom em não denunciá-la.. .

- Você tinha outros irmãos?

- Não. Éramos só eu e ela. Meu pai já havia morrido.

- Meu querido Naim. Vamos para frente. Foi uma vida muito longa?

- Foi longa .. longa. Eu vi a volta dele. E então fizemos um processo para ele.

- Como assim? A volta? Como?

- Claro! Para o Saulo! Eu participei. Fizemos um processo... Porque se ele tivesse admitido a loucura, ou se tivesse admitido a influência de um demônio qualquer, ele teria sido salvo, Mas ele, não... Aquela boca maldita que falava. " Ele falava muito bem! Você não sabe como ele fala!

- Mas ele não foi executado. Por que?

- Não. Não foi. Ora, não foi por causa dos conchavos políticos. Ele tinha influência, tinha amigos ...

- Ele foi para Roma ...

- Foi, mas depois que ele voltou, não. Ainda ficou preso. .. Depois eu não me interessei mais por ele, porque eu queria defender a causa. .. A causa nossa.

E você foi falar com ele? Fui à prisão.

Sobre o que vocês conversaram? Você foi fazer algum apelo?

Me disseram que, como tínhamos sido jovens juntos, que eu talvez pudesse ajudá-lo.

- E o que foi que ele lhe disse?

- É!. .. foi um espetáculo lamentável! Lamentável .

Ele era um rapaz elegante, que se trajava bem, muito altivo .

E estava outro. .. A mesma altivez! Mas diferente. .. Não a altivez com orgulho, mas aquela altivez ... Não sei lhe dizer ...

- Mas o que foi que ele disse a você?

- Ele disse pra mim que fora cego e agora via. E que eu continuava cego.

Você não entendeu aquilo, não é?

- Entendi que era loucura dentro dele. Só podia ser!

- Naim, vamos, então, mais para frente a ver como terrminou essa existência aí. Você como sacerdote, membro do Sinédrio, respeitado. Vamos em frente ...

Respeitado, sim. Respeitado.. Eu queria muito isso. Vamos em frente?

Em frente para onde, meu amigo?

Para o mundo espiritual, onde você compareceu como Espírito, não como sacerdote encarnado. Você sabe disso. Como você foi recebido depois da sua morte?

Pausa. Parece consultar os arquivos e depois retoma a palavra algo hesitante:

- Eu tive ... eu tive ... Eu encontrei a minha mãe, mas ela ... Estava linda! Estava jovem! Usava uma túnica linda azul, à moda das mulheres. . Você sabe com as mulheres usavam ... Aquela túnica, linda, que se prendia à cabeça e descia pelos ombros.

- E que foi que ela disse a você?

- Ela estava triste. Ela disse: "Meu filho, você viu a luz e preferiu as trevas". E eu não entendia e perguntei: "Como, minha mãe? O Talmud era a luz. A Lei era a luz. A Lei, os profetas." E ela disse: "Mas veio um profeta que era a luz e este você não aceitou".

- E então? O que você resolveu fazer?

- Bom. Eu, então, pensei que ela fosse ficar comigo, mas ela disse que não podia. Que só tinha podido me dar aquela palavra. E eu disse: "Minha mãe, você não está no seio de Abraão?" Ela disse! "Meu filho o seio de Abraão não existe. Não há seio de Abraão". Ela falou de coisas que eu não entendia. Ela falou de mundos, de esferas, de ... E eu não entendia isso. Não sei o que ela quer dizer. Sei que ela saiu caminhando e, de repente, era como se ela subisse por uma escada que eu não via. E aí, depois que ela saiu, foi uma coisa terrível. Eu comecei. .. Fiquei no escuro. Ouvia gritos. Comecei a ver ... Oh.. tanto sangue! Tantas cabeças cortadas. E eu estava com uma espada, mas nunca cortei cabeça de ninguém! Mas eu via a espada na minha mão. As pessoas se ajoelhavam e diziam:

"Sou cristão". E eu passava a espada.. Coisa horrível' Uma alucinação louca! E não sei quanto tempo fiquei aqui assim. Até que um dia me disseram que era o Cristo que tinha me levaado para ali. E eu pensei: ·'Ah, então ele está se vingando, não é?" E saí como um louco atrás dele, procurando-o. Queria estrangulá-lo com as minhas mãos. Foi uma loucura! É uma loucura! Uma coisa horrível!

- E você nunca mais se encontrou com a sua mãe? Em outras vidas, no futuro ?

Não sei. Eu combati o Cristo por muito tempo. Combati a luz.

E o nosso Saulo? Você o viu em outras oportunidades? Vi uma vez. Acho que era ele.

No mundo Espiritual?

Não. Eu estava em Roma, vivendo .. Depois daquele ... daquele horror que passei. Havia uns cristãos e eu vivia em perseguição e um dia eu estava caminhando. .. Eu era um centurião. Então encontrei ... Agora que você me diz ... Agora eu sei, mas na ocasião eu não sabia. Eu estava caminhando para dar uma batida num lugar (catacumba) e numa curva do caminho vi. Eu ví. .. uma coisa aterradora ... ! Vi, assim de repente, surgir uma bola, uma bola luminosa e aquela bola foi ficando como um ovo que crescia ... crescia e esticava. .. Uma forma elíptica e de repente, parei assustado e meus soldados pararam atrás e então eu vi aquele moço que eu não sabia quem era. E ele disse: "Naim ... - (Eu não entendia. Eu não era Naim!) Disse: ·'Naim, lembra-te da luz? Lembra-te de Sara?" Eu não sabia o que era a luz e quem era Sara.

- Sara é sua mãe?

- Devia ser. Eu disse: "Quem é Naim, senhor'?" Fiquei com medo. E ele: "Naim és tu. Procura e saberás. Não combata a luz". E mostrava com o dedo assim, coisas que eu não entendia. Eu via um livro aberto e o livro era iluminado, tinha uma cruz que brilhava mais que o livro. Eu não entendi aquilo.. E voltei dalí. Fiquei muito perturbado. Tinha medo de contar. Naquela noite, então, sonhei e vi Naim e via muito sangue que Naim tinha feito correr. E Naim era eu ! E vi de novo o jovem, mostrando para mim que aquela era minha oportunidade. Acordei, mas não se podia, Roma! Roma era uma cidade para se viver, não para renunciar. Eu queria viver. E vivi muito, com o sangue dos cristãos. Sei que vivi. Mas eu precisava sobreviver.

E encontrou o amor também? - Encontrei.

- Meu querido, você nao precisa dizer mais nada

Mas ele prossegue:

- Encontrei o amor (suspira) numa cristã que eu vi sacrificar."Eles" tinham coisas horríveis. Você sabe. Eu não posso ter sentimentos. (Retoma neste ponto o fio do seu pensamento de antes da regressão). Você tem que ter uma mente lúcida para sobreviver. Precisa.

- Então você não sentiu a morte dela?

- Eu não queria sentir. Tive febre durante três dias e no quarto dia me levantei e disse: "Hoje quero matar mais cristãos. Hoje me vingarei." E diziam aqueles que acreditavam no Cristo ... "Sabe quem é o Cristo?" Contavam a história que ele ... que tinha havido uma matança por causa dele e eu fui um dia num lugar onde havia muitas crianças cristãs ... (Oh! isto foi a coisa pior que já fiz ... Uma mulher as tinha recolhido, porque não se sacrificavam as crianças, pois diziam que elas não estavam contaminadas. Não podiam escolher. E eu naquele dia degolei vinte crianças. Degolei.. Você sabe o que é isso?

- Meu querido companheiro. Aí estão, pois, as suas dores maiores. Você nos perdoa ...

- Nunca entendi o que é Cristo. O que é isso? O que é, sentir?

- Você nos perdoa se foi necessário levantar isso tudo.

- Vamos agora voltar a este momento presente, para que, lembrando-se de tudo, você possa concluir com a sua própria razão o que significa isto para o seu espírito atualmente.

Faz um muxoxo e diz:

- O mundo é uma estrada que tem crateras ao longo. Se você não se defender, você cai. Você não pode cair lá dentro. - Mas escuta, meu irmão: defender-se matando crianças?

Isso é defender alguma coisa?

- Eu estava ferido .. ' Tive uma noiva massacrada.

- E para isso é preciso ferir? E as criaturas que você sacrificou?

- Eu pensava: "Quem sabe o Cristo não tenha renascido." Podia ser um deles!

- Depois disso, as vidas foram mais difíceis e sacrificadas, mais tormentosas.

- Sempre o Cristo se vingando em mim.

- E qual a sua decisão agora? Aqui, enquanto estamos falando? Você vai continuar fugindo? Há de haver outro caminho que não seja ... (hesita).

-A dor?

- Onde você pensa que vai me levar?

- Não posso levá-lo meu querido. Você tem que ir por suas próprias forças. Se pudesse eu lhe levaria. Não posso ...

Tenho uma mente lúcida, vigorosa ..

Não bastante lúcida, senão você já teria visto a luz. Que luz, meu amigo? Não estou em trevas. Que é a treva?

Não está ..

Vivi com o Profeta (Maomé). Você ouviu falar nos sarracenos? Sabe o que eles faziam? Sabe? Era tudo em nome de Profeta, em nome da Lei, que a gente queria defender.

- Antes foi em nome do Talmud, depois em nome de Roma, em seguida, em nome do Profeta. E quando você vem falar e agir em nome de Deus, de seus interesses espirituais" -Mas o homem é um joguete nas mãos das forças .. a gente não controla.

- Não controla porque não quer. Como é que o seu amigo?

-Saulo controlou?

- Você é levado pelos seus sentimentos, pela sua força, pelo que você é ... pelas circunstâncias, por tudo!

Que sentimento: Você diz que não existe sentimento. Você é levado pela força mesma das coisas.

Não. Isso é desculpismo. O nosso irmão Saulo - que você conheceu tão intimamente - também teve uma tomada de posição, uma decisão e mudou o rumo da vida. Por que você não pode mudar o seu: (Pausa). Meu irmão, nós lhe amamos muito. Você é um companheiro ..

- O Profeta - interrompe ele - pelo menos era mais centrado no homem, na terra, no ser.

- E também se deu mal, não é? Você sabe.

- Você não pode viver num plano ideal. Quando voce e homem tem instintos, tem sensações, tem sentidos, tem uma vida pra viver.

- Mas tem amores, também. Tem ideais, tem sonhos. Meu querido irmão, não quero forçá-lo a nenhuma decisão. Por favor ... Nosso tempo está terminado e queremos que você, por favor, nos aceite.

- O homem é uma presa indefesa de seus próprios instintos.

- Não. Não é verdade. Indefesa, não. Deus está conosco e está em nós, como você nos disse aqui mesmo.

- Eu sei, mas ...

Por que você não quer, então, tentar algo melhor? Vamos fazer uma coisa: fica conosco para revisar tudo isso e depois você tomará sua decisão livremente, como quiser. É claro que você pode continuar seguindo esse caminho, mas aceita o apelo de amigos, companheiros espirituais de sua mãe, daquela a quem você amou em Roma... Como se chamava ela: (Silêncio). Escuta: você me conheceu também lá:

- Em Roma, não. Nem na Palestina ...

- Em outras oportunidades, por certo. Nossas vidas estão todas entrelaçadas. Somos todos espíritos em luta contra suas próprias imperfeições. Fica conosco, então.

- A gente está no mundo não é para viver no mundo?

- Não precisa viver loucamente, não é? Sem respeitar as normas da vida, degolando, matando. roubando, mentindo. Esse não é o caminho ..

- Veja bem: o Criador nos cria e aí está a fatalidade.

- Eu não discutiria os objetivos do Criador, diz o doutrinadar, que prossegue: Não. Não é uma fatalidade. Ele nos cria a todos simples e ignorantes. Nós é que fazemos o nosso destino. Mas, caro irmão. Não podemos conversar mais com você. Fica com nossos companheiros e se você quiser, voltaremos a nos falar. Agora você deve adormecer e repousar. Vamos lhe ajudar a adormecer.

Este querido companheiro, tão bem dotado intelectualmente, não mais voltou ao nosso grupo, mas afastou-se das tarefas que vinha realizando no mundo espiritual junto ao seu núcleo de trabalho. Outros viriam também para protestar, para ameaçar, propor acordos impossíveis, tréguas inaceitáveis, mesmo porque não estávamos em guerra com eles.

Como percebe o leitor, seu drama, ou melhor, sua tragédia é a da inteligência farta acoplada ao escasso amor. Passamos a entender melhor a sua complexa psicologia após o penoso relato de suas angústias. Tentando demonstrar a superioridade do intelecto sobre a emoção, invocou o exemplo do alienado que - a ser verdade a doutrina do amor - teria que ser bom e manso e pacífico, porque a inteligência se calara nele. No fundo, porém estava tentando demonstrar-nos o reverso da sua própria medalha: ele fizera calar o coração - uma simples válvula hidráulica, disse - para que brilhasse a inteligência. Ou pelo menos assim pensava, mas em verdade, sufocava os apelos do coração porque tinha em suas memórias um mundo de horrores, de crimes inomináveis, de tenebrosos remorsos. Para fugir dessas aflitivas recorrdações. virou as costas aos apelos do amor e durante alguns séculos - que foram muitos - somente ouviu, falou e fez falar a inteligência que, realmente, tornou-se um prodigioso instrumento de trabalho que ainda mais o envolvia e comprometia com o lado negativo da vida. Quanto mais inteligente e culto, mais artificioso, mais ambicioso, mais duro e frio.

Interessantes suas informações sobre Paulo de Tarso, de quem teria sido companheiro de estudos. É fato que Paulo ainda Saulo - estudou com Gamaliel e que disputou com todo o seu ímpeto o posto no Sinédrio, pois era ambicioso e vaidoso. É certo que acabou substituindo Gamaliel, seu mestre, que renunciou o posto em seu proveito, como nos diz Emmanuel. Não há, porém, informação documentada, ao que se saiba, de que Saulo tenha sido parente de Gamaliel, o que não quer dizer que a informação seja falsa. É possível. Mas que admira seu rival é também evidente.

A narrativa tem coerência, uma seqüência racional e nao conflita com os princípios que aprendemos na Doutrina dos Espíritos: os reencontros no Mundo Espiritual entre uma vida e outra, os fenômenos mediúnicos, como a sua visão de Paulo, posteriormente complementada e explicada pelo que chamou de "sonho", ou seja, no desprendimento do sono fisiológico: as retomadas, as reincidências, e, por fim, a desorientação, a desarmonia, o desalento e, por sobre tudo aquilo, o temor, o medo, acovardado ante a dor que o resgate vai inexoravelmente suscitar.

- Meu filho - dissera-lhe a mãe - você viu a luz e preferiu atreva.

NOTAS

1 - SINÉDRIO

"O termo - aliás Sanhedrim - é uma hebraização da palavra grega synedrion (junta, sessão, assembléia, conselho, senado). Fontes rabínicas, no dizer da Enciclopédia Britânica, identificam dois conselhos - o Grande Sinédrio, com 71 membros e o Sinédrio Menor, com 23. Grande Si nédio era uma instituição permanente e funcionava como Corte Suprema em matéria legislativa e judicial. Era dirigido por uma dupla de sábios. Fontes não-rabínicas caracterizam o Sinédrio como instituição políticooe\ecutiva e judicial sob a chefia do Sumo Sacerdote. Em verdade, o que parece Clcertado é identificar a existência de dois corpos distintos: um de natureza estritamente religiosa e outro secularizado e voltado para o exercício do poder civil.

Segundo a mesma fonte. Jesus e alguns de seus discípulos foram julgados pelo Sinédrio sacerdotal, ou seja, religioso, e a sentença teve de ser sancionada ou referendada por Pôncio Pilatos. A execução do Cristo como "Rei dos Judeus" se caracteriza assim, juridicamente, como problema da lei romana e não do Grande Sinédrio, pois este, embora tendo condições para aplicar a pena de morte, só poderia fazê-la no âmbito da lei religiosa.

Cabia ao Grande Sinédrio expedir decretos relativos às práticas religiosas, bem como julgar as violações cometidas, na qualidade de Corte Suprema, e, ainda, supervisionar as cortes menores e controlar o cerimonial do Templo. Era, portanto, o organismo que velava pela santidade da lei tradicional, mesmo nas suas interpretações orais baseadas no escrito do Torá.

Como se pode observar, até nas suas funções secularizadas de naatureza civil, a predominância da Lei era indiscutível, o que reduzia qualquer orientação pública ou particular, bem corno decisões em disputas pessoais ou coletivas ao arbítrio da lei escrita. Os homens que compunham o Sinédrio e participavam de suas discussões e deliberações tinham que ser, pois, do melhor gabarito."

(Transcrito do livro A REENCARNAÇÃO NA BíBLIA. Hermínio C. Miranda, Edição Pensamento. S. Paulo)

2-GAMALlEL

"Ao cair sob o impacto da Visão de Damasco. Paulo reavaliou num segundo, os amigos que até então possuira. Não é homem de meias medidas: corta num só golpe suas amarras com o passado e projeta-se corajoso num futuro que desconhece, mas no qual pode entrever dificuldades e sofrimentos".

Hermínio C. Miranda