NOITE DE TREVAS NA CHARNECA |
Trabalhávamos àquela altura junto de ampla comunidade dita católica no plano espiritual (Ver a história: Frei Jerônimo). Viviam ali sacerdotes de vários níveis hierárquicos e de diferentes ordens, bem como freiras de muitas congregações. Surpreendidos pela desencarnação em pleno exercício de suas atividades religiosas na terra, partiam, contudo, sem o mínimo preparo para enfrentar as perplexidades da vida póstuma, na qual não encontram o céu a que se julgam com direito, e nem o inferno que muitos temem. É compreensível que se busquem uns aos outros, unidos que foram em vida pelo vínculo eclesiástico, e continuem unidos pelas póstumas.
Ali naquela instituição pelo menos podiam praticar um arremedo de culto, tal como estavam habituados na carne: os rituais, as fórmulas, as prédicas, os sacramentos, as missas, as novenas, os debates teológicos. Para isso haviam montado toda uma estrutura semelhante às da terra, com a sua hierarquia, seus formalismos, suas normas, bem como toda a parafernália exigida: igrejas, conventos, claustros e assim por diante.
Certa vez em desdobramento, um de nós foi levado lá. Via-se o nosso companheiro numa sacristia ampla, cujas janelas davam para um páteo interno em nível bem mais baixo do lado de fora. Podia ver ali alguns sacerdotes sentados nos bancos ou a caminhar de um lado para outro, sem perceber que estavam sendo observados. Nesse momento, chegou uma freira assustada, aflita mesmo, e disse, alarmada:
- O senhor não pode estar aqui !
Em suma, funcionava ali uma comunidade religiosa nos moldes das que existem na terra. Com que finalidade? A mesma de sempre: um esconderijo de irmãs e irmãos assustados, temerosos, decepcionados, perplexos, desencantados. Pelo menos ali, havia um arremedo de vida em cujo contexto, antigos prelados de condição hierárquica mais elevada continuavam a liderar, traçando planos misteriosos e procurando levá-los a termo com a ajuda da comunidade.
Já recebêramos em nosso grupo vários deles. Naquela noite que vamos agora relembrar, quem compareceu foi uma irmã.
Tinha a voz doce e pausada, cultivada e suave, própria mesmo para os sussurros do claustro, das sacristias, dos confessionários. Era muito inteligente, bem dotada na utilização da palavra falada. Não lhe faltava, sequer o toque sutil da ironia, quando julgava necessário. Certamente exercia ali alguma função de comando, pois falava com autoridade e segurança.
Declarou, logo de início, que preferia ouvir em vez de falar. Como viera a nós por alguma razão pessoal, apelamos para que falasse dos seus propósitos, mas ela insistiu em que preferia conhecer os nossos. Quando o doutrinador começou a falar sobre a possibilidade de entendimento e compreensão, ela comentou suavemente:
- O mundo é tão grande, não é? O céu não tem limites ...
Jesus veio para todos, não é verdade?
- Sim, claro. Especialmente para nós, aqueles que erram mais e mais se transviam nos caminhos da vida.
Embora disposta a ouvir e não a falar, ela vai mansamente tomando a palavra:
- Ele deixou os caminhos abertos para todas as criaturas, não é mesmo? Não vejo porque contendas. Estamos como que tentando conquistar um lugar no coração do Cristo. Não há necessidade para essa disputa!
Não é preciso conquistá-lo, pois já temos todos esse lugar ali.
É o que tenho dito - diz ela com evidente satisfação.
Digo a todos: Olha! estamos perdendo preciosíssimo tempo. Por que estamos disputando um lugar no coração do Cristo? Não precisamos disputar o que já temos.
Faz uma pausa e parece agora disposta a desenvolver a sua tese, a sua prédica, que ouvimos longamente com a atenção devida, colocando um ou outro comentário ocasional.
- Nem precisamos disputar as almas, se elas pertencem ao Cristo... Não é verdade, meu irmão? Elas pertencem ao Cristo. Então, nosso poder, nossa influência sobre elas é muito pequena, muito limitada, porque se o Cristo é dono de nossa própria alma, quem nos conduz a ele? Portanto, não vejo por que, meu irmão... Vamos terminar com essas desavenças, esses desencontros! Todos nós queremos a paz do Cristo e a paz do Cristo não é uma paz de contendas! ...
- Mas está havendo desavenças?
- Sim, está havendo. Ora, o senhor me perguntar isso! O senhor mesmo é um que defende certa maneira de conduzir as almas. Outros defendem outra maneira e assim vai e começam a falar e falar ... Um fala, outro fala ... quando na verdade, podemos trabalhar irmãmente, lado a lado. Numa necessidade, podemos até ajudar-nos. Porque é o que sempre digo: Cristo não teve Igreja, Cristo não teve religião, Cristo foi eclético, em termos de seitas, de religiões. Quando ele esteve na terra havia centenas de religiões, no entanto, ele não se filiou a nenhuma delas.
Mas isso não quer dizer que ele fosse eclético!
Não era por que? Tudo aquilo que era bom, ele aceitava!
Não, minha querida. Ele era tolerante com aquele que pensasse de maneira diferente da dele, mas eclético não.
- Ele não forçou qualquer alma, qualquer criatura. Deu a Pilatos o direito de lavar as mãos: não o criticou. Não censurou Barrabás por ter sido preferido pela multidão. Não castigou a multidão. .. amou-a do mesmo jeito. Pedro negou-o três vezes e, no entanto, o Senhor o escolheu para pedra angular da sua Igreja. Judas o vendeu e o Senhor o recebeu de braços abertos. Portanto, se o Senhor foi tão tolerante, se o Senhor jamais forçou qualquer criatura... Quando procurado por Nicodemos, esclareceu-o mas não o forçou. Nicodemos voltou para o Templo. Não é verdade? Não disse a ninguém que a sua religião ... a sua pregação; era a melhor em detrimento de outras. Apenas pregou a Verdade. Aqueles que o quisessem ouvir, ouvissem. E os que não quiseram ouvi-lo, tiveram o direito de viver ...
E você o aceitou?
- Meu irmão, o que estou querendo dizer é que há lugar neste mundo, neste espaço infinito para todas as Igrejas, porque na verdade, nenhuma delas é dona do Cristo. Eu por mim sou Católica Apostólica Romana, mas nem por isso jamais forço alguém. Mostro às pessoas, quando a ocasião se me oferece, que a Igreja Católica Romana é um dos caminhos, o caminho mais ... velho, digamos assim. E como mais velho, mais experiente e se mais experiente, é claro que conhece estradas mais fáceis, talvez, do que outras religiões. Porque a Igreja tem uma função maternal ... e pergunte a qualquer mãe, quando ela se vê na iminência de conduzir um filho: ela sempre procura facilitar as coisas para ele. Muitos criticam, dizendo que a Igreja é autoritária, que a Igreja cerceia o direito de pensar, que a Igreja exige uma fé cega. Ora! São calúnias! Estive esta semana ouvindo um pregador que se diz espírita, numa tribuna, repetindo essas coisas que estou dizendo. Dizia ele: "No tempo em que fui católico, eu era bitolado como um animal com antolhos. Eu não podia pensar porque estava ferindo os dogmas!!. Não é verdade. Calúnia. Calúnia antifraterna! Porque o que a Igreja faz, que sempre fez e continuará fazendo - porque se ela sair disso, deixará de ser a mãe - o que ela faz é conduzir o filho inexperiente pelo caminho que ela, que é experiente, sabe ser o melhor. Pergunte a qualquer mãe o que ela faz com o seu filhinho ainda inexperiente. Ela o toma pela mão e, muitas vezes, ela o conduz por esse caminho mesmo quando ele chora e diz: "Mas eu quero ir por aquele caminho!" Mas a mãe sabe que aquele caminho que ele quer seguir, embora lhe seja mais atraente porque ali na esquina ele vai encontrar um grupo jogando péla (Um tipo de bola especial para crianças brincarem) e ele vai querer distrair-se da caminhada para jogar a péla, ou mais adiante ele vai encontrar atrativos que o convidam a sair da estrada. Guloseimas! Então, o que faz a mãe sábia? Ela o toma pela mão e quando a criança reclama, ela diz: "Meu filho, mamãe sabe! Mamãe sabe o que é melhor para você," E se ela é uma mãe responsável, ela o levará pela mão até o destino. Quando ele crescer, e já houver aprendido o caminho com sua mãe, então ele poderá fazer a caminhada sozinho. E quando as almas crescem? Custa muito!
O doutrinador observa que, para quem veio apenas para ouvir, até que ela está indo muito bem com a sua prédica, mas ela não se altera. Responde educadamente:
- Já que o irmão não quis falar, eu, então, tomei a palavra. É preciso que compreendam a tarefa da Santa Madre Igreja, que é uma tarefa de mãe responsável, que não pode permitir que as almas que lhe são confiadas, inexperientes como são, sofram as tentações do caminho, abandonadas ...
O doutrinador pondera que ela ainda há pouco dizia que as almas são todas do Cristo, não havendo, portanto, necessidade de conduzi-las. Ela, porém, muito ágil, diz que "não somos donos das almas", mas que "recebemos do Cristo essa incumbência", havendo, portanto, que prestar contas do mandato confiado.
Como se vê, a querida irmã está se saindo muito bem de sua tarefa junto de nós, e é óbvio que fala para uma platéia atenta e deliciada de ouvintes, pois é comum, em tais casos, nossos dirigentes providenciarem para que o diálogo com o doutrinador seja como que retransmitido à comunidade de onde vêm os espíritos.
O doutrinador aproveita para perguntar-lhe se ela recebeu tal incumbência do Cristo, ou seja, a de conduzir almas pela mão. Mais uma vez ela está firme:
- Desde o momento em que decidi consagrar-me ao Senhor, a ser Esposa de Jesus - vê a aliança do compromisso? diz, mostrando a mão. - É uma aliança de compromisso.
- Mas essa é a única existência que você viveu?
- Que vida. meu irmão? Que diferença faz? Esse compromisso perde-se no tempo, porque quem se entrega ao Cristo uma vez, é para sempre. Aqueles que se consagram ao Senhor, aqueles que são sagrados e que um dia abandonam o compromisso traem os votos sagrados. Este, meu irmão, esta pobre alma terá muito que chorar!
A querida irmã é inteiramente merecedora do nosso respeito, ainda que, obviamente, não possamos concordar com as suas teses. Ela se preparou cuidadosamente para a entrevista conosco, colhendo informações, ordenando seu pensamento, estudando posturas e frases. Ela sabe muito bem por que fala nos que "traem os votos sagrados", pois não ignora que o doutrinador foi dos que viveram longos séculos a servir à Igreja e hoje está, a seu ver, completamente transviado. Se ela está preocupada com a nossa alma? De forma alguma.
- No estou preocupada com alma nenhuma, porque cada alma é responsável. Aquele que teve o conhecimento, que esteve no seio da Igreja e a abandonou, deverá assumir a responsabilidade correspondente.
Mas, afinal de contas, ela não está ali para julgar ninguém, nem para dizer em que estamos errados e sim para terminar com essas contendas tão desagradáveis. Tradução: que os deixemos em paz, se não for possível ou não quisermos segui-los ou aderir às suas convicções. O mundo é imenso: há lugar para todos, cada um na sua faixa de trabalho, "na eira que o Cristo deu a cada um de nós."
- Estou aqui, me propus a vir, como porta-voz para vos dizer que, por favor, mantenhais vossos pés na trilha que escolhestes, mas, deixai aqueles que escolheram o caminho da Santa Madre Igreja sagrada pelo próprio Cristo quando a fundou ...
- Mas você não disse que o Cristo não fundou Igreja?
- Meu irmão, por favor. .. Não procure me levar para esse lado! (A voz permanece estudadamente calma mas ela faz uma pequena ameaça:) Poderia apontar aqui criaturas que conheço particularmente e pessoalmente. Poderia expor aqui pessoas que já estiveram dentro de nossos claustros e depois de tomados os hábitos ...
- Então você está pregando um princípio espírita, não é?
O da reencarnação. Como você explica que pessoas que estiveram no claustro estejam aqui agora?
Faz uma pausa. Pela primeira vez parece hesitar. Mas prossegue:
- Estou dizendo apenas que pessoas que estiveram no claustro estão aqui agora. Pura e simplesmente isso. Não estou dizendo mais nada. Não quero entrar em explicações. Quero sair daqui hoje com um compromisso firmado da parte do irmão e de seus companheiros de que a partir desta data nenhum emissário desta respeitável e respeitosa seita vai invadir os sagrados terrenos da Santa Igreja.
- Mas se os terrenos são sagrados por que estão sendo invadidos? Não há defesas?
Porque o Cristo nos disse que deixássemos as portas abertas.
Então, a porta aberta é para entrar. Que mal há em que nós entremos lá?
- Entrar. Não para invadir. Entra o convidado; invade aquele que penetra sem autorização. Invade aquele que penetra na horta do vizinho a horas mortas para arrancar suas couves, os seus repolhos, as suas cenouras. Este invade. Aquele que é convidado a comparecer a determinada hora, vai e recebe essas mesmas coisas.
Não adianta argumentar que as portas estão abertas para receber a todos os irmãos que os procuram. O problema é que alguns dos seus trabalhadores foram convencidos a se retirarem e eles começam a ficar alarmados. A solução buscada é a mesma de sempre - o acordo, se possível ou a hostilidade aberta. Daí as veladas ameaças.
Ainda calma e de voz pausada, ela começa a ficar um tanto abalada. Sua primeira queixa concreta é a de que não deseja ser tratada com as expressões carinhosas do doutrinador, tal como "irmã querida". Ela considera isso uma expressão ainda muito humana (terrena), não mais para ela.
- Não posso ser uma irmã muito querida ... Meu irmão, se há uma coisa que não tolero é a hipocrisia. Como pode ser irmã aquela que não é conhecida?
- Você disse há pouco que não queria julgar. Por que então me acha hipócrita?
- Porque o senhor está dizendo uma inverdade. Eu não o conheço. Nem sou deste país! Como posso ser para o senhor uma querida irmã?
Mas você não é filha de Deus, como eu?
- Filha de Deus e irmã, sim; mas não querida.
- Os irmãos não são para se amarem, como nos ensinou o Cristo?
Foi aí que ela parou, sem responder, pela primeira vez e mudou de assunto, ou seja, voltou para o tema obsessivo da sua conversa: se estávamos dispostos a ser companheiros deles. -Não, minha querida - insiste o doutrinador - Não fazemos negociações com o Cristo. Você está tentando vender ou comprar adesões.
Passa a falar de alguém em nosso grupo que foi outrora sua noviça e lhe ficou subordinada. Recebeu até o dote que, em nome da noviça, foi doado ao convento. E no entanto, essa pessoa também traiu seus votos, seus compromissos. Não importa que ela tenha vindo voluntariamente ou por escolha de alguém ...
Novamente o doutrinador interrompe para questionar. Pois não diz ela que cada um deve escolher livremente seu caminho? Ela para e faz a seguinte prece:
- Senhor Jesus! Dê-me a fraternidade e a força necessária para não falhar.
Prossegue depois, dizendo que pensou mesmo em reconduzi-la ao aprisco porque "o senhor sabe melhor do que ninguém que uma vez que uma alma passa por nossas mãos, é a nós confiada, nos sentimos por ela responsáveis."
- E você se sente também responsável por mim? - pergunta o doutrinador.
Não, porque ele não teria sido confiado a ela, mas como ela fala em nome da Igreja, é difícil responder e ela sai por outro atalho:
- O senhor também já recebeu almas que lhe foram entregues, e algumas que se entregaram ao senhor para serem conduzidas. O senhor carregou muitas almas consigo.
- Erradamente.
- Não erradamente. Na época, o senhor achava ou pensava que a Santa Madre Igreja era digna. O senhor que teve uma devoção tão entranhada à Santa Virgem ..
- Teve, não. Tenho.
Mais uma vez ela sabe muito bem de que fala. Trata-se de uma existência vivida pelo nosso doutrinador na Idade Média, como monge.
- O senhor recebeu almas - retoma ela. Almas se lhe entregaram totalmente. Famílias até se revoltaram porque o senhor seduziu almas, seus filhos, como se dizia, para retirá-las da vida, e criticaram o senhor. O senhor sabe. .. Continuamos sempre responsáveis pelas almas (que nos foram confiadas).
- Então a Igreja é responsável pela minha alma também.
Não você, especificamente, mas a Igreja. Como explicar isso?
Longa pausa e, em seguida:
- Parece que, infelizmente, não vamos chegar a um acordo. .. porque o senhor está recusando toda proposta sensata e fraternal.
- Se a proposta consiste em cada qual seguir seu caminho, como que pode a Igreja continuar responsável pelas nossas almas? Irá desistir de nos reconduzir ao aprisco?
Ela manifesta o desejo de recuperar pelo menos a alma da sua antiga pupila.
- Por que você quer reconquistá-la? - pergunta o doutrinadar. Acha que ela está perdida? Que vai para o inferno? Você está no céu, como Irmã? Como Esposa do Cristo?
Nova resposta brilhante:
Como posso ir para o céu, que é meu lugar, quando ainda tenho aquelas almas espalhadas por aí? Tenho de recolhê-las. Temos o nosso convento. Temos recolhido ali muitas companheiras. Muitas já se dedicaram a penitências severas.
Vê-se, portanto, que a querida irma e muito inteligente e tem a serviço dos seus desenganos toda uma estrutura filosófica muitíssimo bem cuidada, com respostas prontas para situações e interpelações embaraçosas, embora aqui e ali seja confrontada com alguns becos sem saída.
Vejamos por exemplo esta situação. Ela toma o rosário nas mãos e começa a falar sobre ele, dizendo tratar-se de uma peça feita .. Interrompe, contudo, subitamente, creio que temendo alguma revelação indiscreta. O doutrinador aproveita a oportunidade para falar-lhe carinhosamente que compreende o valor sentimental daquela peça, mesmo ignorando suas razões.
- Respeito sua posição - diz o doutrinador , - mas gostaria de ver você em outro contexto, porque você sabe, filha, que essa realidade que você tem diante dos olhos é falsa.
Por que é falsa a minha e não a sua?
Minha filha, o Cristo não está ali com vocês. Como não? Não está o Cristo em toda parte? Não no coração daquele que o nega.
E quem o nega?
Aquele que mente diante do Evangelho, filha. Não preciso dizer. Você sabe. Aqueles que constroem organizações para impor a vontade, aqueles que querem conduzir almas pelo jeito que acham que deva ser.
- Não acha o senhor que o irmão maior deve orientar e conduzir o irmão menor?
- Mas não arrastar. E você acha que podemos nos julgar maiores dos outros? Você, por exemplo, é uma irmã maior?
- Eu tenho mais experiência. Tenho vidas e vidas em claustro, em meditação ...
- A Igreja ensina a doutrina de vidas e vidas, a reencarnação?
Não há resposta.
- Você vê, minha filha. Por isso é que digo que você expõe uma realidade e vive outra ...
Há uma pausa, mas ainda aqui ela está preparada com a velha tese de que é necessário ensinar as coisas de acordo com a compreensão dos discípulos. "Nem tudo as pessoas podem saber no momento em que não estão preparadas". Pode-se até "perturbar" uma alma dando-se-lhe uma informação para a qual ela ainda não esteja preparada. "A igreja é sábia".
Não seria necessário dizer mais para caracterizar um espírito extremamente difícil de abordar. Não por causa de maldade intrínseca, pois não se apresentava belicosa e agressiva, a despeito de uma ou outra observação mais severa. Víamos nela a irmã querida encastelada na ilusão, sustentada por uma bem urdida filosofia, longamente amadurecida na experiência do sofisma, da fuga, do temor. Como chegar à profunda intimidade da sua problemática pessoal? Como descobrir o núcleo da sua dor? Pois dor certamente havia ali, e muita. Esgotáramos todos os recursos da argumentação. Para tudo tinha ela a resposta adequada, e dentro da sua lógica particular, oportuna e inquestionável. O único jeito possível de contornar o bloqueio e chegar à sua motivação verdadeira seria buscar-lhe na memória as razões determinantes daquele contexto, as causas daqueles efeitos que ali presenciávamos. Claro que nisso está implícita a dor da operação em si mesma, a ser feita na sensível intimidade da consciência adormecida sem a anestesia da mentira.
Não nos restava alternativa. Induzimos o estado propício por meio da magnetização, à qual, aliás, ela resistiu o quanto pode, recorrendo até à prece, à sua maneira, enquanto o próprio doutrinador também orava. Terminadas as preces e ainda consciente, ela virou-se para alguém ao seu lado e disse com firmeza:
- Irmã Gertrudes, abra o missal, na página marcada, por favor. Leia em voz alta. (Longa pausa. Parece ouvir recolhida e contrita). Não. Leia tudo, toda a página. Não pare aí não. Leia toda a página. Onde está aquela noviça? Não deixe que ela ouça isso. (Nova pausa). Não se respeitam mais as esposas de Jesus. Mande que ela se confesse. Padre Jerônimo vai dar a confissão.
E voltando-se para os participantes (encarnados) em torno da mesa, repetiu:
- Padre Jerônimo vai dar a confissão. Alguém aqui quer confessar-se?
Você quer, irmã? - pergunta o doutrinador. E ela:
- Eu tenho o meu próprio confessor. Ele vem uma vez por semana.
O diálogo prossegue por algum tempo, nas linhas que já conhecemos. As vezes ela para para cantar seus cânticos sacros. Enquanto isso, o magnetizador prossegue com seus passes que, aliás, ela percebe, mas parece ignorar, segura de que ele não conseguirá magnetizá-la. E realmente resiste com firmeza, dirigindo uma ou outra observação ou comando à Irmã Gertrudes e à noviça, que começam a ficar um tanto assustadas com o procedimento que presenciam. Pretende mesmo "dar uma lição" no doutrinador ', ao qual chama ironicamente de "hierofante", na expectativa de que ele fracasse, o que é perfeitamente possível, pois não há infalibilidade em nosso meio.
Aos poucos, contudo, começa a ceder e vai ficando um tanto sonolenta, o que se nota pela voz pastosa e os gestos mais lentos. Subitamente deixa tombar a cabeça sobre os braços estendidos. Mergulhou, finalmente, no transe magnético.
- Minha querida irmã - diz-lhe o doutrinador com voz pausada e carinhosa - Deus nos abençoe. Jesus esteja em nossos corações, e nos permita um entendimento de pacificação, de amor fraterno. Desejo reafirmar meu respeito pelo seu Espírito, meu profundo sentimento de afeição, pedindo a Jesus que tenha paciência com as nossas imperfeições e que nos ajude a chegar ao seu coração.
É, então, induzida a regressão. Passam-se alguns minutos em silêncio e expectativa.
Quando volta a falar, a voz é seca e dura, dando ordens rispidamente a alguém que obviamente não vemos. A regressão é total e ela parece reviver tudo aquilo:
- Bem quente! diz ela. E traga os panos também. Ponha essa luz aqui, Anda logo! E pára você de gritar, sua ... desavergonhada! Vai ali, Gertrudes e amordace ela. Amordace, sim. Estou mandando! Desavergonhada! Não tenha piedade, não. É isso. Cria-se os filhos para isso ... Está na hora, está na hora! Vai buscar a água. Põe ali. Ali, naquele canto ali. Puxa pra cá esse banco. Amordace-a para que ninguém ouça. É preciso que ninguém saiba. Ninguém vai saber o que vamos fazer. Está na hora. Venha cá. Isso, fique ali naquela posição. E não faz essa cara. você! Você também ajudou, não é? Você também é uma sem vergonha, Vocês vão me pagar! Todas as duas vão me pagar. Vão me pagar caro. Uma sem vergonha assim na minha família ... Isso. Aí, aí, ,. Ah! teve um vágado. Ótimo, Assim não vai ver nem o que se passa. Pronto, Está tudo pronto.
- Já nasceu a criança? - pergunta o doutrinador.
- Quem me pergunta? Gertrudes, quem está aí? Não devia ter ninguém aqui. Corre lá. Voce já fez o buraco que eu mandei? E não faça essa cara! Se voce abrir o bico, mato você também. Vamos lá. Aproveita que é tarde, Tudo está nos ajudando, que está essa noite escura. Veja uma vela, que não chame a atenção. Não leve esse candieiro, E não trema tanto, mulher! Que coisa! Estou bem arranjada com estas criadas,. Anda, , Gertrudes. E pára com isso! Saia daí! Voces não prestam pra nada. Deixa, Eu resolvo. Pronto. Agora está resolvido, (Pausa), Daqui a uma semana chega o senhor e ele não deve saber de nada, Gertrudes, você vai passar duas semanas com a sua família. Vai amanhã, E bico calado ! Se você abrir a boca, se eu sequer desconfiar que você pensou alto, você sabe do que eu sou capaz! Deixa que eu arrumo o resto todo. Sai daqui que você já está me incomodando com essa ... Que raparigas frágeis!
- E a moça? - pergunta o doutrinador.
- Que moça, que moça? Quem me fala? Quem me está falando aqui? Isto são artes do demônio. Não há ninguém aqui, como é que alguém está falando? Deixa eu olhar na outra sala. Não há ninguém aqui. Quem é você? E por que me interpela e por que não aparece? Só fica falando ... Apareça! Não se prevaleça da escuridão.
- Irmã Marcela, por favor ...
- Não sou irmã Marcela! Que irmã Marcela? Não sou nenhuma Irmã Marcela. Quem é o senhor para me interrogar? Não posso contar nada e não vou contar nada. Ainda mais para um estranho.
- É sua filha?
- É uma desavergonhada. Por que? É, é, sim. E daí? Já foi feito o que tinha de ser feito. Não preciso mais de ajuda.
E a moça? Como ela está? Está melhor do que devia, Morreu também?
Antes tivesse ...
O doutrinador não estava entendendo a tenebrosa cena, por causa da presença de Gertrudes nos dois episódios, ou seja, como Irmã de Caridade que leu a página do missal quando a manifestante ainda estava, digamos, em vigília, e como a criada que presenciou o parto, o assassinato e o enterro da criança. Esclarecido esse ponto, ele volta a perguntar:
Por que você não queria que o filho nascesse? Porque é uma vergonha!
Mas não era seu neto?
Que neto!
Sim. Se é filho da sua filha, é seu neto.
Sim, sim! Um filho bastardo! De um sem vergonha, sem nome!
Mas é preciso matar?
Matar o que? Não se matou nada! O que o senhor está falando? Não tem nada. Que é isto? Que história é essa? Não aconteceu nada disso!
- O que aconteceu, então, que você está tão aflita?
- Nada, nada, nada. Quem é o senhor, um estranho, para me indagar? Isto é uma coisa que não aconteceu!
- Você mora, então, aí nesse local? É uma casa, um castelo, o que?
- É uma charneca. Nós moramos aqui.
- Não. Você mora numa charneca? (Silêncio) Ninguém ficou sabendo disso?
- Claro que ninguém ficou sabendo. Esta desavergonhada está prometida para um senhor. Um senhor importante. Um senhor que vai levantar nossa casa da desonra. E ela me faz uma coisa dessas!
- E quem é o pai da criança?
- Um joão-ninguém qualquer aí do campo. Uma criança, mas não é uma criança!
- Ela se casou com esse senhor?
- Teve que casar. Eu a forcei. Depois, ora ... Depois ela foi para a cidade, para a capital. E matou-se lá!
- Por que? Não gostou do marido? - Por que era uma ingrata.
- E você? O que aconteceu com você? Você envelheceu, morreu?
- Nada disso. Não morri, não. Sou desgraçada. A Gertrudes. . . Bem que eu não devia ter confiado nela. .. Quando eu resolvi silenciá-la, era tarde demais. E aí foram todos a procurar (a criança) e a Gertrudes também.
- Tinha morrido!
- Não. Eu simplesmente quis silenciá-la. Era preciso que soubesse.
- Mas por que você insistiu em casar a moça com quem ela não queria?
- Oh, mas eu acabei de dizer. Ele ia levantar nossa casa, livrar-nos da desonra. Isso acabou com a minha vida. Desgraçou ... Primeiro me casei com um marido estroina, que trouxe a fortuna do pai e a acabou no jogo. E eu arranjei esse casamento. Que importa se esse homem não era moralmente sadio? Ele tinha dinheiro. E minha filha era bonita.
E depois disso tudo o que aconteceu ?
- Eu tive que fugir. Pedi asilo às religiosas. Fui para lá e elas me acolheram. E nunca mais vi a luz do mundo desde que entrei para lá.
- E você morreu aí nesse convento?
- Nesta prisão, neste cárcere imundo! Morri aí? Que é morrer: Olha, conheço tantas desgraças, tanta miséria, conheço tanta podridão, que nem sei mais o que é morrer. Se já estou morta ou se já estou no inferno. Parece que estou. Essas religiosas... Eu pensei que eram boas, mas elas eram tão podres quanto eu. Me obrigavam a fazer, porque já sabiam do meu passado, todos os seus trabalhos sujos. Eu que tinha de fazer! E eram tantos trabalhos sujos! Já não tenho nem mais coragem de olhar as minhas mãos, .. Tenho medo de olhar para elas e ver sangue pingando. Caí no inferno e estou dominada por mil demônios. Mil demônios! Mil demônios! Deixem-me! Quero sair e não posso andar porque meus pés estão nesta lama sangrenta e viscosa! Estou presa! Tira-me daqui! Ouço gritos ... Este cheiro terrível, este cheiro de sangue podre! Tira-me daqui! Tira-me dos demônios! (Contempla as mãos e fala horrorizada:) Estas garras ... estas lâminas! Não tenho mãos. Cortem-me estas mãos! Cortem pelo amor de Deus! Meu Deus! Tirem-me estas visões! Meu Deus, me salva !
Está realmente, literalmente, em pânico.
Nesse ponto é recolhida pelos nossos companheiros espirituais, deixando na médium o resíduo de um terrível pandemônio de gritos a reboar na cabeça.
Querida irmã! Bem desconfiávamos que era muito profunda a sua dor, o que explica também a inexpugnável (ou quase) armadura filosófico-religiosa que ela montara para defender-se de si mesma, para isolar as trevas que trazia no fundo dolorido da memória ...
Herminio
C. Miranda