O DISCÍPULO DE GALILEU

Concluíramos ainda há pouco uma de nossas habituais tarefas junto a uma instituição espiritual devotada ao combate sistemático à idéia religiosa, quando integrantes de outro grupo começaram a comparecer aos nossos trabalhos. Caracterizavam-se, como os anteriores, pela formal rejeição aos conceitos de natureza religiosa, mas deles se distinguiam em importantes aspectos. Os primeiros (Ver, a propósito, a narrativa intitulada REENCONTRO COM HONS), náufragos de colossais equívocos no campo religioso, no passado, traduziam sua ojeriza em ação, combatendo com indiscutível competência toda e qualquer seita religiosa, na esperança também equivocada de apagar da face da terra e do coração dos seres humanos as marcas deixadas pelos inúmeros tipos de crença. Já aqueles com os quais começávamos a 'negociar' os longos e difíceis entendimentos, também se apresentavam como anti-religiosos convictos, mas não estavam aparentemente empenhados em nenhuma campanha sistemática de desmantelamento de instituições religiosas da terra ou do espaço; limitavam-se a atuar junto a indivíduos, procurando atraí-los para seus postulados negativistas. Como viemos a descobrir, mantinham conexões um com o outro.

O Espírito do qual trata esta narrativa demonstrava o mesmo desencanto e desprezo pelas religiões em geral e pela católica em particular, mas seu pensamento apresentava-se com nuances que logo nos chamam a atenção. Não estava agitado ou colérico. Falava com segurança e inteligência, demonstrando conhecimento filosófico e científico. Via-se logo que suas preferências estavam dirigidas para as ciências físicas e matemáticas, para as manifestações materiais da vida.

Era o início de um longo debate que se estenderia por várias sessões. Para poupar espaço no livro e tempo ao leitor, limito-me a apresentar um resumo da nossa primeira conversa, a fim de que possamos dedicar maior atenção a certos aspectos da sua história pessoal.

Estava ainda muito viva na sua memória a existência que vivera junto do grande Galileu Galilei como um de seus discípulos e colaboradores mais chegados. Ajudava o grande físico e astrônomo em seus estudos, fazia cálculos e levantava mapas, gráficos e desenhos de variada natureza. Sua admiração pelo famoso cientista contaminara-se no entanto, de invencível desgosto ante a retratação de Galileu perante a Igreja para livrar-se das tenebrosas masmorras da lnquisição e, possivelmente, da morte. Achando que isso fora um gesto de acomodação, de covardia mesmo. O sábio tinha plena convicção da verdade que descobrira ao veríficar que, longe de ser o centro do universo em torno da qual giravam todos os corpos celestes, a Terra era apenas um diminuto grão de pó cósmico subordinado ao campo magnético do Sol que, por sua vez, não era um gigante estelar.

Por isso, guardava ele áspero ressentimento em relação ao grande homem. Mas havia outros aspectos a considerar. A convivência com um dos mais brilhantes gênios da sua época e os estudos em que se aprofundou, deram-lhe nova dimensão da vida e colocaram-no, pelo menos no seu modo de entender, muito acima da média intelectual da massa ígnara. Embora se empenhasse em disfarçar, de início, acabamos por identificar nele traços marcantes de uma vaidade doentia, uma supervalorização dos conhecimentos adquiridos. Ressaltava a crueza de tal postura no relacionamento com sua pobre e devotada mãe que considerava, ainda agora, uma mulher ignorante, beata e assustada. No desesperado esforço de preservar o envolvimento do filho com os temíveis agentes da Inquisição, ela não hesitou em incinerar seus documentos, desenhos e estudos científicos logo que se iniciou a pressão sobre Galileu. O jovem jamais perdoara esse gesto de amor e devoção da parte da mãe, pela qual conservava, mais de três séculos depois, um desprezo ainda não superado.

Tocado pela corajosa beleza daquela atitude, nosso doutrinador entreviu na memória do tempo a pureza e a doçura daquele coração generoso de mãe e disse ao seu interlocutor que se encontrasse juntos os dois - a mãe e o próprio Galileu - beijaria primeiros as mãos dela.

Ele riu. Achou bonita a frase, mas obviamente considerava aquilo uma tolice, homenagem desproporcional a uma pobre velhinha ignorante e tímida.

Quanto a Galileu, o doutrinador não estava suficientemente preparado para debater o seu gesto, ainda mais com alguém que conhecia o problema em primeira mão como testemunha privilegiada de uma dramática experiência humana, da qual participara.

Em suma: a mãe era uma tola, Galileu um grande homem acovardado e ele próprio, o nosso manifestante, um ser superior e esclarecido. Seja como for, a conversa foi mantida em nível satisfatório, com mútuo respeito e na tonalidade da cortesia. Despedimo-nos fraternalmente, prometendo ele meditar sobre as nossas observações, ao mesmo passo em que nos pedia que meditássemos sobre o que ele havia dito, o que prometemos fazer.

Após uma semana de meditações de parte a parte, ele voltou, ainda com as suas amarguras e desalentos, confirmado na sua superioridade. Não via condições de uma reformulação de suas idéias e de sua vida. Julgava talvez haver alcançado um "point of no return". Não havia como recuar mais. Adotara um tom áspero, receoso provavelmente de que certa cordialidade com o doutrinador lhe acarretasse um amolecimento na atitude, com todas as conseqüências que isso pudesse implicar. Era tudo uma enorme perda de tempo, achava ele, única coisa que, uma vez perdida, ninguém mais recupera. Cada um escolhe seu caminho e de nada adiantaria continuarmos uma conversa sem propósito e sem rumo.

O doutrinador, contudo, tinha propósitos e rumos a seguir.

Falou-lhe das conquistas já consolidadas no espírito dele, do privilégio que lhe fora concedido de conviver com figuras humanas de elevada condição. Ele fingiu-se surpreso. 'Como é que o senhor sabe?', foi a pergunta. 'Você mesmo o disse', retrucou-lhe o doutrinador. Parece que julgara ter ido longe demais nas suas confidências anteriores e tentara retroceder, mas acabou por render-se: Ah! sim, aquela história do Galileu. Eu poderia estar mentindo'.

Claro que poderia, mas não fazia muito sentido para o doutrinador que um espírito como aquele comparecesse ali para desenvolver uma gratuita impostura. Ele teve um sorriso sem graça e insistiu dizendo que ele poderia até não ser ele mesmo.

- E nesse caso, quem seria você? - pergunta-lhe o doutrinador.

Novo sorriso oblíquo. "O que teria a perder com uma mistificação?", perguntou.

- Nada - responde-lhe o doutrinador -, a não ser a sua dignidade.

Seu terceiro sorriso sem graça serviu para indicar que na ágil esgrima verbal, ele fora tocado. O doutrinador aproveita-se da momentânea pausa para seguir em frente com o roteiro de sua conversa. Como dizia ainda há pouco, o nosso irmão tinha conquistas importantes e recursos para dar continuidade à sua tarefa evolutiva. Galileu, por exemplo, uma vez no mundo espiritual, dera prosseguimento ao seu trabalho, sem descrer de Deus e sem rejeitar a mensagem de Jesus.

Ele se mostra novamente surpreso e apela para a ironia.

Teria o doutrinador mantido contacto com tais espíritos como Galileu? Sim, claro, pois há documentos mediúnicos subscritos pelo eminente cientista na Codificação Espírita.

- Eu também não nego a idéia de Deus - concede ele.

Só que a idéia que tenho dele é a de um Deus mais universal do que o seu. Porque é Deus de bons e de maus, de atrasados e de adiantados, enfim, um Deus que permite tudo. O senhor tem um Deus, digamos assim, mais preconceituoso, um Deus que. .. Como eu diria? .. que só aprova determinadas atitudes, quando, na verdade, se Deus é o criador, criou tudo, inclusive o mal. Tudo é criação divina ...

- Não. O mal é criação humana, meu irmão. Procedimennto nosso. Tanto é assim que as leis divinas nos corrigem para que possa ser mantido o equilíbrio universal.

Ele concorda com a existência de leis reguladoras, leis que o doutrinador até mesmo ignora, inclusive para reger o mal que, no fundo, não é mal, é um bem, segundo ele. Como, por exemplo, certas essências vegetais podem matar ou curar, dependendo da dosagem, sem que a planta tenha opção ou culpa. Sem desejar inibí-lo na manifestação do seu pensamento, mesmo porque é através do diálogo que eventualmente poderemos entender-nos, o doutrinador retoma pacientemente sua linha de raciocínio a cada interrupção, divagação ou digressão. Assim ocorre ao cabo de uma longa dissertação acerca da necessidade do mal por causa do seu efeito catártico, libertador, para os que sofrem. Hitler, por exemplo, não teria sido apenas um mal necessário, como se saiu muito bem da sua tarefa, pois trouxe a catarse da dor para muitos que, a não terem sofrido em suas mãos, estariam ainda presos aos seus compromissos. Filosofia essa que justificaria qualquer atrocidade... Falou-lhe o doutrinador da sua admiração pelo grande vulto de Galileu, que descobriu importantes leis cósmicas. Lembrou-lhe, porém, que tais descobertas, embora basicamente corretas, sofreram revisões significativas nos três séculos e pouco desde então: no entanto, as leis do amor que impulsionaram o generoso coração de sua mãezinha continuavam intactas, perfeitas, maravilhosas.

- Onde estaria ele, esse companheiro a quem você amou e respeitou? Você procurou saber o que ele anda fazendo, no que anda pensando? - pergunta-lhe o doutrinador.

- Provavelmente ainda acovardado.

- A única mensagem que o seu espírito tem para este ser é a de que ele foi um covarde?

- Não. Eu tenho respeito por ele, mas acho que ele acovardou-se.

No intervalo daquela semana decorrida o doutrinador procurara refrescar sua memória em relação ao episódio Galileu e descobrira nele aspectos interessantes e reveladores. O velho mestre rebelde, já muito doente e desalentado ante a intolerância da ignorância, resolvera atender ao apelo de uma filha amada, aliás, uma freira, que o convenceu da inutilidade do gesto de obstinação suicida. Não estava ele convicto da validade do seu achado científico? A sua verdade, portanto, haveria de prevalecer, ao passo que o obscurantismo era transitório. Por outro lado, não era com a sua morte que ele iria provar a validade das leis que desvendara no movimento dos corpos celestes. Que diferença faria um desmentido? O futuro rasgaria tranqüilo a sua 'confissão' e restabeleceria a verdade que não era sua, mas das leis que regem o fantástico mecanismo da relojoaria cósmica.

O nosso visitante daquela noite não podia ignorar esse episódio. Havia, porém, outro aspecto a considerar. A despeito da sua aversão pela atitude assumida pela Igreja, sobre a qual ele descarregava toda a sua revolta, a verdade e que a campanha contra Galileu partiu de denúncias formuladas pelos seus colegas cientistas, enciumados ante a sensacional descoberta. Diga-se de passagem, aliás, que Galileu não fazia muita questão de ser simpático e cortez. Seus biógrafos nos falam de um homem irascível e dotado de rude franqueza quando algo lhe desagradava. Seja como for, a Igreja não tomara a iniciativa da perseguição, embora não o deixasse mais, levando às suas últimas conseqüências o procedimento inquisitorial. Não se tratava, pois, de uma 'coisa de padres', como afirmava o nosso companheiro. Pelo menos assim não fora de início. Parece que, ao transferir todo o peso das suas acusações à Igreja, o nosso manifestante como que preservava a imagem dos cientistas seus colegas, aos quais tinha em alta conta.

Este, aliás, era um elemento a mais na montagem daquele painel aflitivo de equívocos. Nossa experiência no trato mediúnico sempre nos ensinou que nenhuma aversão dessas é gratuita ou inexplicável. Todas têm suas raízes, suas razões e suas motivações. É o que veríamos mais adiante. O nosso irmão, contudo, tinha de si mesmo conceito extremamente elevado. Punha-se como uma espécie de revelador do mal nas criaturas para que no expurgo - palavra sua - que se aproxima, fosse facilitada a tarefa da separação. Era um instrumento divino, um promotor da lei de Deus entre os homens. Considerava-se ainda uma espécie de 'free lancer' universal, sem compromissos com Sistemas religiosos ou filosóficos em especial. Num universo de estrelas, astros, satélites e galáxias regidos todos por rígidas e exatas leis matemáticas, ele era um meteoro solto no espaço, livre da ditadura dos roteiros predeterminados. Se, por acaso, se chocasse com a Terra, por exemplo, causaria um abalo de natureza negativa - isso reconhecia - mas, mesmo assim, necessário, pois até o meteoro que destroi é uma criação divina e, como tal, um instrumento, como insistia em afirmar. Quanto ao amor, entendia-o como uma energia, uma força, não manifestação de um pieguismo tolo, com o que tentava explicar, senão justificar, seu desprezo pela sua mãe daquele tempo. Curioso que, em vez de ajudar no resgate dos que se transviaram como ele, procurava, ao contrário, confirmar ou revelar aqueles que se haviam dedicado ao mal, a fim de serem expurgados, mesmo porque, no seu entender, o mal também é criação divina.

Como se vê, uma criatura de abordagem extremamente difícil, de vez que sua privilegiada inteligência tecera em torno de si mesma uma fina e resistente rede de justificativas e explicações inegavelmente engenhosas que lhe anestesiavam a consciência e o mantinham prisioneiro de si mesmo. Naquele pequeno universo particular, sentia-se seguro e à vontade. O mal era uma realidade no mundo, uma necessidade, tanto quanto o Cristo com a sua luz. "Temos de condenar a noite somente porque é escura?" - perguntava ele. Por isso, considerava-se um 'agente da vida', um ser necessário, um instrumento divino na promoção da catarse universal, tarefa essa, aliás, na qual não tinha de sair à cata de prosélitos porque os semelhantes atraem os semelhantes e por isso tanto se afinizavam com ele e com seus companheiros. Ele apenas os 'convidava'.

Essa a sua filosofia básica da vida. E daí, nem um passo para lá ou para cá.

No fundo, sentia até certa simpatia pelo que caracterizou como ingenuidade do doutrinador. Além desse ponto, nada mais tinha a dizer-lhe, pois tudo já fora dito e debatido. De sua parte, o doutrinador não via como prosseguir indefinidamente a conversa a girar em torno dos mesmos problemas e conceitos básicos que constituiam o núcleo do pensamento do nosso querido irmão visitante. Não havia argumento que o convencesse, não havia atitude que conseguisse vencer o bloqueio cauteloso de suas emoções, guardadas severamente por um sistema defensivo de ironias, de condescendência, de superioridade que ele mantinha com admirável coerência e aparente convicção. Em suma: não queria mesmo mudar o rumo dos seus pensamentos e das suas convicções, que lhe pareciam sólidas e insubstituíveis.

Restava o recurso final da regressão de memória.

O doutrinador começa a magnetizá-lo. Aos poucos ele vai cedendo, não sem antes dizer que nada seria conseguido com ele por ser conhecedor de certas leis, com as quais neutralizaria a magnetização que, a seu ver, iria apenas adormecer a médium, mas nunca ele próprio. Além do mais, na sua opinião, aquilo era um recurso à força, uma vez que os argumentos não conseguiram demovê-lo. Respeitamos integralmente sua opinião e o pleno direito de formulá-la e expressá-la. De alguma forma, contudo, era preciso tentar ajudá-lo, ainda que contra a sua vontade consciente.

Ao cabo de algum tempo, começou a bocejar e acabou por mergulhar no transe magnético por meio do qual nos seria possível conversar com a sua própria realidade última, em busca das razões mais profundas das suas aflições.

Com muita dificuldade de articulação, consegue dizer que deseja sair de onde se encontra. Parece estar aprisionado em alguma cela, em situação de penúria física e moral. Instantes depois, contudo, mergulhado mais fundo na revivescência do passado, já não consegue falar. Emite apenas sons guturais inarticulados, apontando desesperado para a boca aberta. É evidente que está sem a língua.

Cabe aqul uma pausa digressiva para algumas observações esclarecedoras.

Regredido no tempo, o espírito encarnado ou desencarnado recai em duas condições diferentes: ou apenas se recorda do passado, ou realmente revive com todo o seu impacto e realismo as situações desse passado recente ou remoto. Quando apenas se recorda, tem melhor controle sobre as emoções e conserva o suficiente da sua consciência presente para o trabalho crítico do que relata, embora perca um pouco na nitidez das evocações. Quando revive - situação que costumamos caracterizar como 'estar lá', no passado - aí, então, produzem-se fenômenos dramáticos. Ele passa outra vez pelas dores e alegrias, ocorrem-lhe minúcias esquecidas, emergem remotíssimas emoções não mais apenas rememoradas, mas revividas em toda a sua intensidade. Por outro lado, como observou o eminente Coronel Albert de Rochas (Ver meu livro A MEMÓRIA E O TEMPO, Edicel, S. Paulo), o perispírito do ser regredido vai assumindo as formas que teve em cada época revivida. Se atravessa a fase infantil, o perispírito é o de uma criança. Se tem uma deformação física, esta se apresenta no corpo espiritual. Se é uma mulher e está grávida, o ventre se mostra dilatado e assim por diante. Se alcança o estágio fetal, até o corpo físico assume a postura correspondente.

Nosso companheiro daquela noite regredira a uma situação na qual lhe fora extirpada a língua, como apuramos depois. Antes de mergulhar mais fundo nessa condição, ainda conseguiu articular seu desesperado desejo de livrar-se da prisão. Depois tornou-se impraticável qualquer forma de articulação da palavra falada.

É o momento em que necessitamos do passe magnético curador para concentrar sobre a parte períspiritual afetada os recursos ectoplasmáticos que os diversos participantes do trabalho possam oferecer. Eis a razão pela qual duas condições importantes devem ser aqui consideradas: a primeira é a de que grupos que realizam esse tipo de trabalho precisam de ambiente onde não haja luz mais intensa, principalmente luz branca, que dissolve instantaneamente as formações de ectoplasma necessário à recomposição do organismo perispiritual dos seres manifestados. A segunda observação consiste em lembrar àqueles que julgam não estar prestando serviço algum na composição do grupo mediúnico, uma vez que não dispõem de mediunidade ostensiva, que isso não é verdadeiro. Ofereçamos a nossa boa vontade e deixemos que os dirigentes espirituais do trabalho se utilizem dos nossos recursos na medida das necessidades do momento.

Restaria, ainda, um aspecto a especular. Por que e para que recompor um perispíriro deformado ou mutilado se a situação presente desse mesmo perispírito talvez nem guarde mais tais mutilações ou deficiências? Não pretendemos ter resposta para tudo. Supomos, porém, que estamos ali perante uma realidade viva e incontestável: recuado no tempo, aquele perispírito assumiu uma forma mutilada que o impede de comunicar-se pela palavra falada, como então o impedia. Se não o socorrermos com os recursos à nossa disposição, ele não conseguirá falar. Temos, portanto, de fazê-lo. Se depois disso, os fluidos se dispersam ou são reabsorvidos pelos circunstantes que o ofereceram, ou se fica com o Espírito manifestante, é questão que não tenho condições de solucionar.

Feita a digressão, voltemos ao fio da narrativa.

Vencendo suas compreensíveis dificuldades, o espírito começa a falar, sacando penosamente as palavras, sílaba por sílaba e explicando que lhe haviam cortado a língua.

- Que houve? pergunta o doutrinador.

- Por causa dos sermões que eu pregava - diz ele arrastadamente. Eu pregava e me mandaram cortar a língua.

Mas o que você pregava?

- Eu pregava (dizendo) que aquelas coisas eram todas erradas. Eu dizia que era errado vender aquelas indulgências. E que era errado proibir o estudo das coisas da vida (ciências). Que a mulher não era o pecado e que ela (também) tinha alma ...

- Você era um sacerdote ?

- Paolo Giovannini.

A palavra começa a soltar-se mais, vencendo inibições e bloqueios que resistem, mas ainda é lenta e penosa.

Nova e breve interrupção se faz necessária para lembrar que o pensamento mais obscurantista da Idade Média achava que a mulher não tinha alma, como o homem. Resultava essa postura da fria e rígida interpretação literal da Bíblia, segundo a qual Deus criara o homem do barro e soprara nele a alma. Somente mais tarde achou que o homem precisava de uma companheira. Resolveu, então, adormecê-lo, tomar dele uma costela e modelar a primeira mulher. O texto, contudo, não diz que também nela o Criador soprou a alma. Daí a conclusão de que somente o homem a tinha.

A narrativa, obviamente, simbólica, era tomada ao pé da letra e, infelizmente continua a sê-lo para muita gente ...

Retomemos o dialogo.

- Quem mandou cortar a sua língua? - pergunta o doutrinador.

O Senhor Arcebispo.

- Mas você não é um sacerdote católico?

- Eu era, mas eu pregava contra a Igreja. Não era contra a Igreja - corrige ele, a seguir -, era contra as coisas que estavam erradas. Como que a mulher podia não ter alma? Ela é uma criação divina: Por que o homem era um produto de Deus e a mulher tinha de ser uma costela? Eu não concordava com isso. Eu achava que o Evangelho não estava sendo pregado certo. E então falei nesse sermão contra as hierarquias da Igreja.

- Onde você vivia? Na Itália, sim, mas onde? Em Roma? -Não, não era Roma. Era uma pequena cidade e o povo me escutava e eu disse que não pagassem indulgências. E que não dessem as coisas.. (Donativos? Dízimos?). E, então, quando terminei fui para a minha cela. Depois, tarde da noite, vieram os frades com seus capuzes e me levaram a um lugar que tinha embaixo da abadia, um subterrâneo. E me puseram lá. E eu falei e praguejei. Eles traziam um crucifixo e botaram-no na minha frente. E diziam: -Sai, demônio!' Mas não havia demônio.

E eu não parava de falar e dizia que ele (o Arcebispo) é que era o demônio. E ele então mandou que me cortassem a língua para que eu nunca mais falasse aquelas coisas.

- E você ficou lá, preso?

- Fiquei. E com uma dor horrível. Cortaram a minha língua! Sangrou tanto que pensei que ia morrer, mas não morri. Fui a-ban-do-na-do pe-lo Cris-to - acrescenta ele com um estremecimento de horror.

E prossegue, gaguejando desesperadamente e sacudindo-se de aflição:

- Ele deixou que fizessem aquilo comigo. E o Arcebispo ficou com. .. com. É horrível falar disso. Eu não acredito. .. Eu defendia a verdadeira religião e me fizeram isso. E os meus escritos, eles queimaram tudo na minha frente para que eu visse que a Semente da discórdia que eu queria lançar não ia ter divulgação. Compreende ?

- Compreendo e lamento profundamente.

- E onde estava o Cristo, que eu defendia, que deixou fazerem essas coisas? Eu acredito que o mal é mais forte do que o bem. Eu sei. Eu sei que o mal é mais forte do que o bem. - Vamos conversar um pouquinho. Descansa um momento. Põe a sua mão aqui. (As mãos da médium pendiam ao longo do corpo, sem apoio na mesa).

Mas ele insiste:

- Não quero pensar. Minha cabeça ... Não quero. Não creio mais na bondade. Eu não queria que tivessem aquelas imagens.

- Sim. Escuta. Você é um espírito imortal. Aquela vida passou, você foi para o mundo espiritual. O que aconteceu lá depois disso? Você continua a viver.

- Tinha um homem que se chamava Huss, que depois de mim também falou as mesmas coisas. Foi depois que já tinham me matado e quando chegou o tempo dele, queimaram-no. Queimaram!

Continua a falar com enorme dificuldade, espasmodicamente, por meio de frases incompletas, mas o pensamento é coerente e lúcido. Só que ainda não consegue entender e nem aceitar por que passou por tudo aquilo por pregar a verdade óbvia que resultava da observação dos fatos da vida, nas suas longas e silenciosas horas de meditação. A perplexidade maior, contudo, era a aparente indiferença de Cristo pelas suas trágicas aflições pessoais. O mal então, era mais forte do que o bem e ele nunca mais acreditara na bondade. Pois se até o Cristo aparentemente lhe falhara no momento mais dramático da sua vida.

- Mas o Cristo é quem está errado nisso, meu irmão? pergunta o doutrinador. Foram culpas do Cristo essas atrocidades todas?

- A vida não vale o sacrifício de uma inteligência. Não se pode pensar! É proibido pensar. Não se pode ... 'Eles' não deixam a gente pensar! Não se pode pensar.

A voz vai-se apagando, enquanto ele repete essa frase desalentadora.

É evidente, porém, que ainda não estão ali as origens daaquele terrível processo emocional e mental que o levou à elaboração de uma implacável filosofia de rejeição sistemática do amor, da bondade, da verdade da ética religiosa, da própria vida, enfim.

Na trágica existência como Paolo Giovannini, o pregador rebelde e destemido, ele sofrera as conseqüências de uma situação cármica anterior da maior gravidade que nos cumpria ainda pesquisar na sua memória integral se é que estávamos realmente empenhados em ajudá-lo. Ele fora vitimado pela intolerância mais estreita e cruel sofrera por pensar certo e expressar com clareza suas legítimas convicções. Que haveria por detrás de tudo aquilo?

Seguem-se os preparativos para nova regressão, ou seja, para novo recuo no tempo, em busca de memórias mais remotas ainda, onde quer que se encontrasse o núcleo daquela agonia multissecular. Após uma pausa mais ou menos longa, ele retoma a palavra, já agora com total facilidade de expressão, nenhum vestígio de gagueira.

- Eu conheço um homem - diz ele. Sabe? Ele é meio revolucionário, meio maluco, até!

- Conte.

- Contar? Mas quem é você? De que lado você está? Você vai para o Senado? Você também é do Senado?

- Sou um amigo seu. Não se preocupe. Você é um senador?

- Então voce não percebe? Você vive aqui? Então você não vê que este homem.. Ora, dizem que é um sábio, mas não é .. é um subversor da ordem. Ele vive pregando à juventude idéias de liberdade, de não sei que mais. E não se pode, porque não podemos deixar que os nossos jovens se guiem por uma influência dessas. Porque, afinal, concordo até com ele. Ele é contrário à aristocracia. Ele o disse, certa vez, em praça pública, num pronunciamento. Um amigo meu me disse. Conheço muito bem os regimes e conheço a natureza humana. Sei do que você é capaz de fazer com essas influências. Ele disse assim: -Homem, nada conhecerás enquanto não conheceres a ti mesmo'. Eu fui lá e ouvi.

Estamos novamente perante uma regressão total. Nosso manifestante encontra-se, de fato, pela magia fantástica da memória, em plena Grécia dos tempos áureos. É uma figura destacada na sociedade e na política locais, onde exerce mandato de senador. É óbvio. também que fala de Sócrates, o subversivo que prega aos jovens e, a seu ver, os corrompe. Não, porém, porque discorde das idéias do grande filósofo, mas porque elas são claramente perigosas e ameaçadoras ao seu ·status·.

- Temos de ter cuidado - prossegue ele. Amanhã seremos a velhice e essa juventude com essas idéias. Nós temos direitos adquiridos. Há legislação a respeito.

Você tem autoridade ..

Claro. Temos de manter os jovens sob controle. Bem, e como foi o diálogo com ele?

É isto que lhe estou dizendo. Ele falou e então, fomos, eu e mais um companheiro, visitá-lo e propor até que, se ele quisesse, com todo o prestígio que ele tinha ... Posso dizer que ele tinha? Porque já não tem mais ...

- Ah, não têm mais? Que aconteceu?

- Tivemos que dar um jeito, não é? Então... Nós lhe demos uma oportunidade para que ele se retratasse, que dissesse que aquelas idéias não eram. Onde já se viu? Mas ele não aceitou, não. Depois, como já era um velho, decidimos. Se o condenarmos, será um exemplo para outros. E aqueles discípulos todos dele que ficarem, sao inofensivos. Ele é que é um perigo!

- Mas que idéias eram essas? Não era somente sobre a liberdade que ele pregava, não é? Era sobre a existência da alma ..

- É, mas isso acabava com os deuses! Não podia. Não podia. Acabava com os deuses e com as oferendas. Que seria de um país sem deuses?

- E também a metempsicose ...

- Pois é, mas como se iriam castigar as almas se elas não viessem e não voltassem em seres que se chamam inferiores? (Era crença corrente naqueles tempos que um ser humano poderia reencarnar-se num animal para expiar suas faltas mais graves).

Como então, vocês resolveram? Debateram o assunto no Senado?

Ele foi condenado

- E você votou pela condenação?

- Ah, votei! Se ele se retratasse não faríamos nada, lhe daríamos a liberdade. Quer dizer .. talvez o exilássemos para uma das ilhas por aí, qualquer, onde ele ficasse por lá metido num canto. Até pensamos que poderíamos exilá-lo e que ele trocasse de nome e fosse aprender um ofício qualquer, mesmo porque um homem que não trabalha, que vive de ficar pensando, um homem que vive de pensar ..

- E te pregava contra as coisas existentes, contra o sistema predominante.

- Não estava certo! Foi o sistema que o alimentou. Ele já estava velho. Ele foi alimentado por aquele sistema. Foi sustentado, nasceu naquele sistema. Então, era uma ingratidão, uma injustiça. Ele não podia fazer isso! Pensa bem: ele podia fazer? Já imaginou você perder todas as suas regalias porque queriam um governo impossível, democrático? Impossível isso! Não podia! E onde fica a hierarquia? Já imaginou você perder todas as suas regalias de Senador?

- E vocês votaram, então, pela condenação, pela pena de morte.

- É. Votamos - diz ele algo hesitante, após uma pequena pausa.

E como era a execução da sentença? - Você não sabe? Você não mora aqui?

- Pela cicuta, não é?

- É uma maneira indolor. Olha, sabe que aquilo foi até uma coisa que fizemos com "relutância?" Eu particularmente preferia não ter tomado parte, mas eu também tinha de pensar na minha posição, na minha vida, na minha família. Eu achei: Vamos declarar o velho insano e vamos exilá-lo ... Mas ele era impossível!

- Ele não quis nem fugir, não é? A sentença não foi prontamente executada, Teve de esperar a volta do navio ...

- Ele não quis fugir.

- Você sabe que foi feita uma tentativa para que ele fugisse?

- Ah, soubemos.

- Você conhece a pessoa que foi lá falar com ele? Não, não sei.

Conhece, sim. Você sabe quem é? Ele faz um meio sorriso e prossegue:

- Soubemos, sim, mas ele não teria conseguido fugir.

Também se eie tivesse fugido teria até resolvido um problema para nós. Não teria sido executado e nos deixaria em paz, desde que mudasse de nome e esquecesse daquelas idéias. Como se pode viver numa sociedade sem hierarquia, sem regalias, sem privilégios?

E os discípulos não prosseguiram com as idéias dele? Olha, eu sei que pelo menos durante algum tempo eles ficaram calados. Também eram mais discretos. Bem mais.

Mesmo aquele que foi tentar libertá-lo?

- Nenhum deles tinha a influência que ele tinha. Ele tinha isso que se chama... Carisma?

Carisma, confirma ele.

Não era só isso: ele era um gênio.

Carisma e isso que se chama magneto: atraio. E não atraiu a você, com as suas idéias?

- Não. As idéias dele acabavam com todos os meus privilégios! Ele queria o povo no poder. Se o povo vai para o poder, o que será de nós? As outras idéias não eram tão importantes. Mais um deus, menos um deus, isso não faria muita diferença. E acreditar se você vai para o HADES (inferno) ou para outro lugar, se você fica aqui ou se fica ali, não faria diferença, nem ia mudar a nossa posição, nem alterar a nossa sociedade em nada.

Quer dizer que com a morte dele tudo se aquietou.

Não houve mais problema algum?

- Não. Não houve. Político, não. E se houve algum, digamos de caráter religioso, aí não importava ... Como lhe disse, mais um deus, menos um deus.

- Escuta. Você teve oportunidade de estar com os discípulos, com alguns dos amigos dele, depois que ele morreu?

- Não. E por que? Eles se desgarraram, eles não tinham aquela coragem.

- Você conheceu alguns deles pessoalmente?

- É. Conheci - admite ele com pouca vontade. Conheci.

Nós convivíamos ali, tínhamos de conhecer. - Cito, por exemplo.

- Ah, sim, Era um jovem sentimental, como todo jovem, um admirador... Se não fosse jovem.. Até se pensou em segregá-lo por algum tempo na prisão, porque ele tentou fazer um movimento, mas depois, deu em nada. No fundo.. nos disseram depois: "Ah, vocês mataram um grande homem". Mas o que é um grande homem? Grande é aquele que está lá no trono, que comanda.

- No Olimpo? - pergunta bobamente o doutrinador.

- Não. No Olimpo estão os deuses. Não estou falando dos deuses. Estou falando dos homens. Quem é grande aí? Até os deuses mesmos; eu acho que ter o poder aqui é melhor do que tê-lo lá no Olimpo.

- Mas, meu caro Senador. Qual é o seu nome mesmo?

- Ora, não importa. Se você não está me conhecendo, como vou dizer meu nome?

- É que você me conhece.

- Você acha que isso foi uma coisa errada? O que fizemos?

- Não, meu querido. Não estamos condenando ninguém.

Compete a você decidir. O importante é você saber que ele morreu porque pensava.

- É. Pensava. E agora, já que estou falando disso, vou lhe falar de outra coisa. Eu era uma pessoa que estava muito interessada em que esse movimento morresse porque eu tinha possibilidade de subir ... E depois disso, tive um amigo que era também aficcionado desse ... desse homem, desse pensador.

(É óbvio que evita pronunciar o nome do grande filósofo) Pensador, nada! Esse amigo ensaiou um protesto e quis me.. praticamente me desrespeitou, me desacatou e fez uma série de coisas ... Eu lamentei. Tínhamos sido amigos de infância e como é que um amigo faz isso com outro, não é? Por outro lado, ele passou a ser uma ameaça para mim. Então ... houve uma noite que ... Primeiro falei com uns amigos do Senado: 'Fulano está fazendo isso e está promovendo uma rebelião. Temos de ter cuidado. Ele está aliciando pessoas. Então, nós o silenciamos.

- É? Como foi isso? Também com a cicuta?

- Não! Pagamos alguém que o eliminou de forma que parecesse ...

- Um acidente?

- Não. não. Acidente nenhum. Naquela época, voce era assaltado em qualquer lugar. E, pronto! Ele foi assaltado .. - Quem era esse amigo seu? Pode dizer o seu nome?

- Não. Era um amigo. Os mortos não tem mais existência.

Não preciso dizer. Deve estar lá pelo hades ...

Faz-se uma pausa. O doutrinador se prepara para despertá-lo, trazendo-o de volta, finalmente, à sua realidade presente, sugerindo que conserve a lembrança desses dois episódios dramáticos de suas vidas - a existência na Itália de Frei Paolo Giovannini e a remota existência como Senador grego ao tempo de Sócrates.

Mas ele ainda tem algo a dizer:

- Sabe que uma vez me disseram que eu... Não sei quem, nem quando, nem onde, mas isto é uma coisa que está aqui dentro de mim, me disseram que eu tinha perdido a oportunidade de aprender com um grande homem. Que tinha convivido com um grande homem e não soube. Não sei quem me disse. É alguma coisa aqui, na minha cabeça.

- Você vai lembrar-se de tudo. Por favor, conserve isso na sua memória. Vamos despertar.

- Lembrar? Como lembrar? Que quer dizer lembrar-se?

Onde você está? Que quer você dizer com lembrar? Que quer você dizer com voltar? De repente voce me diz ... Vem cá, para onde? Para onde?

Perdeu-se no tempo e no espaço e na identidade. Faz uma pausa, na qual se percebe grande perplexidade. Baixinho, pergunta-se a si mesmo:

- Para onde ele quer me levar?

Um momento depois, está completamente despertado.

- O que é isto aqui que me está incomodando? Parece que a minha língua estava paralisada. Que coisa estranha! Ela foi cortada. Você se lembra?

Ela foi cortada .. Aqueles desgraçados!

Você se lembra do outro episódio também na Grécia? A Grécia ! Eu lá não matei ninguém. Não mandei cortar a língua de ninguém.

- Mas paralisou a língua de um que tinha idéias.

- Eu paralisei! Você sabe o que é cortar a língua de alguém só porque está falando a verdade?

- Você sabe melhor do que eu porque mandou paralisar a de alguém só porque estava falando a verdade.

- Ora, você.. Está satisfeito agora, não, não? Você queria me apanhar em falta. Então, me apanhou. - Não, meu querido. Não é isso.

- Como não é isso? Você queria me apanhar em falta e me apanhou, isso não justifica e nem modifica nada porque ... Não tinham o direito de cortar a minha língua. E prenderem-me naquele calabouço e queimarem meus escritos na minha frente. Aquilo foi pior do que cortar a minha língua. Eram as minhas idéias que estavam sendo queimadas, compreende? Eram o fruto das minhas meditações, dos meus estudos ... Eu queria tanto publicá-las em livro e não consegui. Queimaram tudo. Sabe o que?É como um filho seu. Estava ali tudo. E eles queimaram ... E você não diz nada? Eu não tenho razão?

- É hora de você dizer a si mesmo o que acha. Não eu. - Agora ninguém mais vai cortar a língua, nem vai queimar os meus escritos.

Nem te darem cicuta?

- Ninguém me deu cicuta e eu não a dei a ninguém.

- Mandou dar. Embora tivesse um momento de piedade, de compaixão, você subscreveu a sentença de morte.

Não foi subscrever. Nós votamos.

- Meu caro irmão. Como você vê, nossas ligações são bem antigas. Estamos juntos tentando seguir em frente. Quando lhe dizia que éramos irmãos e companheiros, você rejeitou a idéia, mas como você observa, está tudo aí: os reencontros, as esperanças, as retomadas ...

E a vida continua a mesma coisa, não é? - Não, não continua a mesma coisa.

- o tempo não passou.

- Perdemos já muito tempo ... Você tem aí dois mil e trezentos anos, ou dois mil e quatrocentos e que adiantou?

- A única diferença é que já não se queimam mais os Jan Huss, já não se matam mais os Sócrates e não se cortam mais as línguas dos pregadores. O mundo continua o mesmo.

- Meu querido, é melhor morrer pela verdade do que viver pela mentira. Você não acha? Você é um homem inteligente e sabe que isto é verdadeiro. Você próprio disse aí que conviveu com espíritos grandiosos e perdeu oportunidades. Não foi só lá na Grécia. Foi depois também.

- Lembro-me muito de Galileu. Um homem, realmente um homem..

- Sim, mas a única palavra que você tinha para ele até há pouco era a de que ele fora um covarde.

- Sim, poderia ser um covarde, mas ter valores outros.

Ou o senhor acha que os covardes não têm o seu valor? Continuo achando que ele deveria ter-se defendido. Eu perdi a língua porque defendi minhas idéias. Ele não poderia ter perdido a vida?

- Sócrates também perdeu a vida pela cicuta porque defendeu idéias. -Não se trata de ser covarde ou não. Galíleu atendeu a um apelo sentimental. Não por covardia, por amor.

- A humanidade até hoje ainda não está preparada para o verdadeiro conhecimento, a verdadeira ciência. Sempre haverá Galileus, inquisições...

- Você não acha que já é tempo de acabar com isso, de arrancar línguas e matar os seres com a cicuta só porque pensam? Não acha que basta?

- (Pausa) É. Talvez você tenha razão. Mas o que fazer se não fizermos alguma coisa?

- Você acha que o nosso irmão Sócrates, na sua posição, tomaria as atitudes que você está tomando? Você votou pela sua condenação, meu querido amigo e companheiro ... Isso não está sendo atirado contra você. Você não está aqui em julgamento, não está sendo condenado.

- Está tão longe e ao mesmo tempo está aqui, agora.

- Os amigos que viviam lá, seus companheiros, estão por aí também. Alguns caminharam um pouco mais, outros resolveram parar. Você não acha que é tempo de fazer uma revisão nisso tudo, repensar essas coisas? Você me dá essa alegria de fazer um reexame?

- Sabe de uma coisa? A humanidade não vai mudar.

- Nós podemos mudar. Não digo a humanidade. Nós, você, eu ..

Os homens vão continuar assim. -VOCÊ pretende continuar assim?

- Sei. Continuo achando que há necessidade de um instrumento punitivo ...

- Meu querido irmão, você diz isso depois de ter tido a sua língua arrancada? Acha que continua a precisar punir aqueles que pensam? Que pregam que a mulher tem alma? Você acha isso certo?

Aquilo não foi punição, foi um ato bárbaro. -Por que fugir das palavras, meu irmão?

- E tudo porque eles tinham medo. Medo da minha língua que podia retirar-lhes os privilégios.

- Você teve medo, na Grécia, daqueles que também ameaçavam seus privilégios. Exatamente igual. Não somente a ele, mas você mandou matar o outro também. É preciso que você saiba que aqueles que, por sua participação, morreram não lhe detestam, não lhe odeiam: pelo contrário, estão estendendo as mãos a você.

- Hoje, pensando bem, acho que poderíamos ter deixado Sócrates viver.

- Tanto faz ter deixado como não, as idéias dele estão aí, meu querido. É um ser imortal, como você o é também. Só que ele cresceu e nós ficamos com as nossas miudezas, com as nossas insignificâncias.

- As ironias da vida! Depois que eu morri, fui verificar que as idéias dele estavam certas. Não se ficava preso no hades toda a vida com o cérbero ali à porta impedindo a passagem. Fui ver que não havia isso.

- E o outro amigo, também você o encontrou por lá?

- Não? Nunca mais?

- Não. Para que desencavar essas coisas?

- Isso é importante para que compreendamos nossas próprias dificuldades e problemas. Para saber que o amor está ali, e a afeição e o respeito, o desejo de servir.

- Cérbero, o cão com muitas cabeças. .. Sabe que teria sido muito mais simples se as nossas lendas fossem verdadeiras?

A observação tem a sua razão de ser e sua inesperada profundidade. Se fosse verdadeiro aquele tipo de expiação, ele não estaria hoje tão desencantado, perdido, aflito.

- Nossas fantasias - comenta o doutrinador - são sempre engendradas pelo comodismo.

- Seria mais simples. . . Pesavam-se as almas e umas iam para um lugar e outras para outro. E estava resolvido.

- De certa forma, as lendas são válidas, porque há um peso nas nossas ações no tribunal da consciência e a gente responde por aquilo que fez. O fato de cortarem a sua língua é uma sentença que a lei aplicou em você. Mas a lei lhe concedeu novas oportunidades, junto a outros espíritos também extraordinários.

- Acho que Galileu veio daquela época. (Reencarnação de um grego sábio).

Sem dúvida alguma. Também acho.- Não me lembro dele lá, mas ele veio de lá. Era um homem simples.

- A grandeza é simples.

- Eu o admirava, mas revoltei-me contra a atitude dele, porque matou tanta coisa que se poderia fazer. Eu mesmo queria fazer um nome com as (suas) idéias, com o desenvolvimento, enfim. (do que ele iniciara).

- Mas isso, meu irmão, ainda é conseqüência da sua dificuldade na Grécia. Você não teve a língua arrancada dessa vez, mas teve dificuldade em divulgar suas idéias, porque de outra vez você as sufocou no próximo. Agora não. Agora isso passou. Você pode fazer a opção do conhecimento ...

- Hoje ninguém me impede de divulgar as idéias que quero divulgar.

- A sua consciência, sim, reclama: agora, impedir, não.

Ela diz que não está bem isso aí, mas dizer que não faça, ela não diz. A decisão tem de ser sua.

- Sabe? Se não encontrássemos aí no plano de vocês tantas pessoas vaidosas, talvez fosse mais fácil para nós nos desligarmos de determinadas coisas.

Concordo com você.

- ... mas encontramos veículos e então nos lembramos de que há qualquer indício dentro da gente que mostra que você quer veículos para divulgar o que pensa. E você os encontra, as pessoas querem. Assim, fica difícil ...

(Permita-nos o leitor chamar sua atenção para a importância desta surpreendente confissão. Ela nos alerta para insuspeita dos aspectos de nossas paixões que nos faz co-responsáveis pela cristalização de muitos em seus lamentáveis equívocos precisamente porque oferecemos campo para tentações ainda incontroláveis naqueles que do mundo espiritual, nos observam).

E você - continua o doutrinador - toma o veículo que vai para o buraco, para o abismo, em vez de tomar outro que vai para cima? No século 12 ou treze, por aí ... Quando foi? Você tinha idéias tão bonitas a respeito do Evangelho: que a mulher era um ser criado por Deus tal como o homem, que estavam traindo o Cristo e você morreu por essas idéias. Você tem uma estrutura filosófica limpa, decente, desde aquela época. Por que agora você opta deliberadamente por iludir-se a si mesmo? Tá não é tempo de mudar?

- Vivi anos com aquela língua cortada. E sabe o que alguns deles faziam? Vinham, aos domingos, ler para mim os sermões que tinham feito. E me diziam que haviam perguntado por mim - o povo - e diziam que eu tinha adoecido e que o Senhor me tinha levado. Que ironia! O Senhor me manteve ali preso!

- Mas o Cristo não lhe abandonou, meu irmão.

- Como ele permitiu que me tivessem cortado a língua quando eu o defendia?

- Não. A LEl o permitiu, porque quando você mandou calar aquele outro, ninguém lhe impediu que o fizesse.

- Nós não lhe cortamos a língua - insiste ele.

- Silenciaram a língua que dizia todas aquelas belezas. É a mesma coisa.

- Disseram aos fiéis que apagassem de suas mentes tudo aquilo que eu falara porque eu estava possuido pelo demônio.

- Sim, mas isso não impede que as teses que você então defendeu fossem verdadeiras e continuem verdadeiras hoje. Aquilo foi um episódio no qual você respondeu por um compromisso espiritual seu. As idéias eram legítimas e continuam legítimas. Você tem condições de realizar o trabalho da reconstrução do seu espírito.

- Você tanto fez que conseguiu me pegar, heim?

- Não fui eu que lhe peguei. A sua própria consciência está exigindo de você alguns reparos ao seu modo de ser. Estou apenas tentando falar com você aquilo que sua consciência também fala, do que seus sentimentos falam. O Amor é uma chama que não se extingue em nós. A amizade e a afeição que uniram em outros tempos, continuam válidas hoje, como também o amor da sua mãezinha do século XVII. Somos seres dotados de razão, sim. Nada impede que prossigamos na busca do conhecimento.

- Eu não tinha desrespeito por aquela velhinha, não.

Compreendi até o seu gesto de queimar as minhas coisas, porque, numa inspeção, se alguém encontrasse meus papéis, ela sabia que eu talvez não negasse e ela temia por mim.

- Meu caro irmão. Sou muito grato a você por ter vindo até aqui e ter trazido esse depoimento ...

- Por duas vezes minhas idéias foram queimadas ...

- Você devia muito perante a lei. Você fez calar um homem que teria revolucionado toda esta civilização talvez, se fosse ouvido mais. se vivesse um pouco mais. Sua responsabilidade foi muito grave. A lei lhe deu oportunidades para mostrar-lhe como é grave fazermos calar aquele que diz a verdade. E você, daí em diante, acostumou-se com a mentira, meu irmão.

Você não acha que foi uma punição severa demais? A lei não cobra NADA que não devamos.

E me cobrou por duas vezes?

Da segunda vez não lhe arrancou a língua, nem lhe fez calar.

Mas me queimou as idéias. Amordaçou-me.

A essa altura do diálogo, nosso tempo esgota-se e o doutrinador dirige-lhe algumas palavras finais.

- Agora, meu caro irmão, não temos mais tempo nesta noite. Quero agradecer a você por ter vindo e ter-se tranqüilizado em relação a nós. Leva o nosso carinho, o nosso respeito e o nosso apelo. Vamos trabalhar juntos para reconstruir esse mundo e não contribuir para que ele vá cada vez mais para as profundezas do abismo. Esse expurgo de que você falou, realmente poderá ocorrer ...

- Já está ocorrendo ...

- Está, mas a misericórdia divina nos concede a oportunidade de chegar até você para que possamos dizer-lhe que você não deve ir para lá, que precisa ficar conosco. Há o que fazer aqui, na reconstrução do mundo que vem aí. É este o apelo que lhe estamos levando. Você não está sendo obrigado, meu irmão, está sendo convidado. Entende?

- Entendo.

- Aceite o meu carinho fraterno, meu respeito, meu afeto.

Lembre-se de mim com uma expressão de tolerância.

Diga-me uma só coisa: Qual o seu interesse em tudo isso?

É porque nós lhe amamos, meu irmão. Só isso. Cada vez que ganhamos um companheiro, alguma coisa acontece de bom entre nós.

- Você me lembra um beduino que estivesse no deserto com a única função de dar água aos passantes. Seria isso? Sem interesse nenhum?

- É uma bonita imagem.

- É difícil hoje alguém fazer qualquer coisa sem interesse nenhum.

- Estamos aqui com o nosso grupo quando você achar e se achar que deva voltar. Aqui estaremos. Você será recebido com o mesmo respeito pelas suas idéias, pela sua maneira de ser. Isso não impede que a gente conteste um ponto ou outro. Eu o admiro e o amo.

- Alea jacta est! - é a sua palavra final.

Embora sem compreender muito bem as nossas motivações, que lhe pareciam inexplicáveis, resolveu apostar no amor. Seja como for, pelo menos revelou indiretamente que tinha sede e reconheceu que ali estava alguém disposto a dar-lhe um pouco de água fresca.

Retirava-se, portanto, disposto a certas reformulações na sua filosofia de vida. Estava lançada a sorte. Sabia muito bem que nada seria fácil, nem haveria atalhos para encurtar caminhos ou anestesias para a sensibilidade para atravessar espinheiros e cruzar terrenos pedregosos. Não nutria ilusões e não estava fortalecido pelo otimismo. Tinha, não obstante, à sua disposição uma riquíssima experiência humana. Cometera, sim, o equívoco lamentável de ajudar a promover a eliminação de Sócrates porque o 'Pai da Filosofia' pregava idéias que punham em risco regalias e privilégios seus. No fundo, bem sabia ele que tais idéias eram justas, como acabou por confirmar no mundo espiiritual após o processo inexorável da desencarnação, que não respeita nem senadores com as suas mordomias ou reis com as suas prepotências.

Não negava a existência de Deus, apenas procurava 'acomodá-la' às suas conveniências pessoais, ou seja, àquilo que entendia ser de seu interesse particular. Não desconhecia o Evangelho de Jesus, antes conhecia-o muito bem, tão bem que certa vez mandaram cortar-lhe a língua porque proclamava destemidamente que a mensagem do Cristo estava sendo aviltada de mil maneiras diferentes, precisamente pelos que juraram divulgá-la e defendê-la na sua integridade e pureza.

São incontáveis, em longos anos no trato com problemas desta natureza, as vezes em que testemunhamos a fantástica precisão das leis divinas na caprichada elaboração pos programas de reajuste. É sempre com a mesma renovada surpresa e profunda reverência que contemplamos o perfeito arranjo das simetrias retificadoras. Sabia muito bem do que falava o Cristo em tudo quanto nos ensinou, como ao advertir-nos de que 'não sairíamos de lá' (da dor) enquanto não tivéssemos pago até o último ceitil e de que seria ferido pela espada aquele que a usou para ferir o irmão, onde quer que seja, no tempo e no espaço. Estava ele absolutamente certo, preciso, verdadeiro, até o último dos pormenores e o mais sutil dos matizes.

Repassemos resumidamente o caso do nosso querido senador.

Votou pela condenação de Sócrates para fazê-lo calar-se, porque sua palavra destemida ameaçava instituições consagradas pela tradição interesseira, bem como prestígios e privilégios e contestava estruturas hierárquicas dominantes. Não era possível deixar falando alguém que pensava daquela maneira subversiva e perigosa, mesmo sabendo que ele pregava a verdade.

Volvidos os séculos, é a vez do antigo senador enfrentar situação simetricamente idêntica. Como sacerdote católico, prega destemidamente a verdade evangélica tal como a vê, e como contesta hierarquias e põe em risco instituições que proporcionam prestígio e privilégios a muitos, arrancam-lhe a língua e queimam-lhe os escritos para que não germine no coração dos outros a semente daninha da 'subversão' dos princípios ditos religiosos da época. Acharam que também ele não deveria continuar falando daquela maneira.

Parece, contudo, que a lição não foi assimilada, de vez que não houve aceitação da sua parte. Convicto das suas posturas filosófico-religiosas, entregou-se à revolta, acusando ao Cristo que, a seu ver, abandonara-o à sanha criminosa de seus companheiros de hábito.

Uns poucos séculos adiante, novamente o nosso irmão se vê envolvido nas dobras escuras da intolerância. Desta vez a disputa gira em torno de questões científicas com implicações religiosas. Proclamando que o Sol era o centro do sistema planetário, Galileu, seu amigo e mestre, foi considerado perigoso herético que punha em xeque milenares estruturas, nas quais viviam acomodadas verdadeiras multidões de parasitas do Evangelho.

Mais uma vez, a lei vai à minúcia, ao ceitil que faltava.

O antigo senador grego que tentou levar Sócrates à retratação, agora fica indignado porque Galileu retratou-se. Seja como for, algum progresso se realizara no episódio da tenebrosa abadia medieval e, por isso, desta vez, a lei coloca junto dele o espírito amoroso de uma generosa mãe que o protege das garras dos inquisidores e da tortura certa e da morte provável.

Mas ele continua a rejeitar as lições que a lei lhe proporciona. Daí em diante, sua programação de vida consistirá em ser um promotor de Deus, um 'free lancer", um revelador autônomo do mal nos outros, certo de que estava colaborando com a divindade no 'expurgo' final, na grande separação anunciada. Se ele caíra, por que não poderiam outros tantos cair com ele nos abismos do desespero? Achou que se tornara impossível a conciliação entre conhecimento e fé, entre saber e amar, entre ciência e religião. Optou pelo conhecimento sem sabedoria e sem amor.

Decorridos mais alguns séculos, ainda nos pergunta se não achamos que a lei fora severa demais com ele. Nota-se, porém, que começa a ver as suas experiências de um ponto de vista renovado. Algo mudou dentro dele. Chega mesmo a achar o que o doutrinador é um beduino incompreensível que fica ali no deserto a oferecer água aos viajores. E de graça! Será que isso é mesmo possível e verdadeiro? Gente que serve sem tomar nada da gente?

Em um dos seus muitos momentos de indiscutível lucidez chega até a reconhecer que seria mais fácil para ele e outros tantos companheiros, tão transviados como ele, desligarem-se de determinados equívocos se não encontrassem 'aí, no plano de vocês, tantas pessoas vaidosas'.

A história propriamente dita termina aqui. Há, contudo, lições tão sugestivas e aspectos tão curiosos em outro encontro que tivemos, que julgamos oportuno dar notícia a respeito. É que, decorridos alguns dias de meditação e reexame, nosso querido companheiro espiritual voltou a falar conosco. Sua postura ante a vida era ainda de profundo desencanto e amargura. No entanto, algo mudara nele. Logo após a saudação habitual com a qual acolhemos todos os manifestantes, falou com voz pausada e grave, como se medisse bem as palavras que, obviamente, resultavam de extensas e cuidadosas reflexões.

- Quero agradecer as vibrações de simpatia que os senhores me enviaram - começou ele. Estive pensando naquilo tudo que conversamos aqui, mas tenho muitas mágoas, compreende? É difícil voltar a crer em algo sobre o qual você perdeu completamente a fé.

Concordamos com ele, pois de fato compreendíamos sua dificuldade. Como voltar a cultivar uma fé ou aderir a uma comunidade religiosa que no passado ficou tão vivamente identificada com a injustiça, a opressão, o obscurantismo dogmático, as técnicas de tortura moral e física e de verdadeiro terrorismo?

Achava ele, ademais, que mesmo com um componente de vaidade, o cientista é uma pessoa basicamente interessada no bem estar da humanidade. Por que desconfia tanto a Igreja da ciência, do conhecimento, da pesquisa?

Durante a semana, voltara aos seus gráficos e mapas, desta vez para projetar visualmente o roteiro de suas vidas pregressas, incluindo as que haviam sido há pouco resgatadas da profundeza esquecida da sua memória integral.

- É verdade - disse ele - que as linhas vão dar num ponto.

Aceitava, portanto, o que lhe havíamos dito. Conjugando os incidentes da existência que vivera ao lado de Galileu com o que agora sabia de sua participação na vida (e morte) de Sócrates, descobriu um estranho paradoxo - o de que sempre admirara Sócrates - 'o Sócrates que via por trás de Platão', acrescentou. Algo lhe dizia existir ali uma vinculação qualquer, um envolvimento pessoal seu que ele não conseguia caracterizar e muito menos definir. E o admirava. Tinha agora na consciência 'aquele quadro triste' a mostrar-lhe que ele contribuira para que 'um homem daquele porte' se calasse porque dizia a verdade incômoda.

Ainda questionava, porém, a proclamada simetria das leis cármicas, porque a condenação de Sócrates fora um caso político, enquanto que o dele, na abadia medieval, fora um caso religioso. Reconhecia sua culpa agora e se arrependia do que fizera, mas, sem tentar justificar-se, lembrou que vivia num contexto social, político e econômico que pelo menos explicava as situações.

- Nós o víamos como uma ameaça - observa. Ele queria o povo no poder e isso era inconcebível naquela época. Se o povo subisse ao poder, para onde iríamos nós?

O doutrinador argumenta que não importa muito se a motivação do processo tenha sido política ou religiosa; o que importa é a lição que ficou, ou seja, a de que ele contribuira para que Sócrates fosse eliminado para calar-se. Ambos falavam a verdade. Além do mais, o problema medieval era ainda político, de vez que os senhores dignitários da Igreja viram seu poderio ameaçado, tal como ele o vira na Grécia ante a pregação de Sócrates. Lá era a política do estado laico, aqui a política do estado eclesiástico sediado no Vaticano.

Fora tão intensa a revolta que experimentara com o horrendo castigo medieval que ficara fixado ali, como que prisioneiro daquele contexto, detestando qualquer coisa que tivesse o mais tênue vínculo com aquele período da história.

- A Idade Média - disse - foi uma fase negra. Tudo o que fizemos na Grécia ficou perdido. Depois dessa amaldiçoada Idade é que foi renascer tudo, recomeçar tudo. E nesse recomeço perdeu-se muito do original, muito do autêntico.

É verdade que o grupo de estudiosos que ele integrava sob a liderança de Galileu, não acreditava na divindade de Jesus, mas não sairam a pregar isso. Estavam fascinados pelo estudo do universo, uma coisa concreta, não um princípio teórico, uma concepção abstrata.

- Não éramos ateus - acrescenta. Galileu não era ateu.

Só não éramos religiosos.

Acontece que ninguém podia pensar, era proibido. O pensamento tinha de ser vigiado, policiado. Até a simples investigação ou pesquisa estava sob severa suspeita. Bastava estar a pessoa na posse de um papel, um documento misterioso ou incompreensível para correr riscos imprevisíveis. Descobertas as grandes verdades, ou leis importantes da vida universal, o brado de alegria tinha de morrer na garganta do descobridor.

- Sorrio agora quando vejo, desta posição, - diz ele - a Igreja querendo reabilitar Galileu, declarando que ele estava certo. Digo-lhe uma coisa: ainda é por motivo político.

Idade Média, obscurantismo e Igreja parecem sinônimos para ele, um só jogo de sombras, fundidas numa só nuvem de trevas.

Quando o doutrinador declara que mesmo essa tardia revisão ainda é um gesto de certa grandeza, ele treplica, candente:

- Sim, e esses anos todos de atraso da humanidade de que ela é responsável? Ela se retratou? Que fez ela? Que faz ela hoje? O senhor sabe que há pouco tempo um padre, um sacerdote, só porque teve o que eles chamam de audácia de falar, nas entrelinhas, da sobrevivência, da reencarnação o senhor sabe ... teve de ser calado, excomungado, sei lá .

Refere-se ao eminente e genial Padre Teillard de Chardin, obviamente, que, sem ter chegado aos extremos da excomunhão, de fato sofreu pressões implacáveis e viveu o tempo todo sob suspeita, com livros, teses e estudos engavetados porque não conseguia licença para publicá-los.

Segundo o nosso visitante, a religião continua, pois, contra a ciência. Chardin fora um homem de ciência que 'estava lá dentro'. Chegara o momento de dizerem: (Pára subitamente neste ponto e acrescenta em voz baixa: 'estou me exaltando'). E prossegue em tom normal, observando que chegara o momento de usar aquele homem para promover uma renovação, publicar seus escritos, dar-lhe o apoio de que ele precisava e merecia.

Eram essas as coisas que lhe suscitavam desencanto. O doutrinador propõe-lhe uma opção:

- Use sua inteligência o seu talento para construir. Não há conflito algum entre ciência e religião. Vamos construir uma religião que pensa, que ama, que ajuda, que serve, que caminha.

Seu pensamento, contudo, segue o roteiro pré-traçado.

- E quanto amávamos as estrelas! E quanto queríamos penetrar os mistérios do universo! Galileu era um grande homem! Alma de criança... Era puro de sentimentos. Não mereceu aquilo que fizeram com ele. Ficou naquela hipócrita prisão domiciliar e nem os amigos podia receber. Não podia ver ninguém, não podia sair. E não é só isso. A Igreja também atingiu a mim, indiretamente, através de amigos e parentes. Até uma noiva que eu tive foi queimada na fogueira. O senhor há-de convir que tenho mágoas legítimas, que a Igreja estava errada, pois o Cristo não pregou nada disso, não autorizou o assassinato, nem a tortura, ou a opressão. Não poderíamos esquecer, contudo, que isso faz parte de um contexto de responsabilidade pessoal nossa.

- Alguma coisa no seu passado explica essas perdas, essas agonias e angústias. Nada disso nos acontece gratuitamente. Tudo faz parte de um esquema.

Entende ele, ainda, que para mudar e reconstruir é preciso antes destruir. 'Como pode o senhor construir em cima do que está errado?'

- Não é em cima - diz o doutrinador!. É começar tudo de novo, em outras bases, com outros propósitos.

Seja como for, a semana de meditação lhe fora proveitosa e ele nos agradecia. Sua mente abria-se como um leque: 'Não via apenas o passado de erros, mas também, as coisas boas que realizei. Vi de novo as nossas reuniões com Galileu. Vi nossos gráficos. Vi meus papéis que a minha mãe queimou, tudo como se nada tivesse perdido".

Conversara com o companheiro espiritual que dirige os nossos trabalhos e que observara que ninguém poderia apagar o universo. Tudo está no seu lugar, mesmo que o homem o negue. Tudo o que você estudou e pregou continua lá à sua espera para que você continue. As estrelas estão nos mesmos lugares ... '

E o doutrinador acrescenta:

- Muitas coisas estão à espera de explicações e entendimento. Estamos precisando de gente para penetrar os segredos da vida. Deus não sonega a informação. Tudo está à nossa disposição. A natureza é um livro que podemos ler. Precisamos de inteligência e de conhecimento para lê-lo. Precisamos utilizar esse conhecimento com amor, para servir, para fazer o homem caminhar. Por que esmagar os que estão errados? Vamos ajudá-los.

Diz ele, a seguir, que teve muitas esperanças no Espiritismo nascente, que se propunha a reabilitar a ciência, colocando-a no seu devido lugar, mas acha que a realidade tem sido outra. Teme, talvez, que recaia tudo no antigo equívoco dos dogmas e na estruturação de um poderio político.

- Que dogmas? - pergunta o doutrinador. A reencarnação? A imortalidade?

E ele, convicto e lúcido: 'Não. Isso são verdades!

- Se o ser sobrevive - insiste o doutrinador -, se é responsável pelos seus atos, se ele se reencarna, então não existe aí uma estrutura de pensamento religioso? Que é religião, então?

Ele parece aceitar a argumentação e suscita com brilhantismo e propriedade outro aspecto do maior relevo:

- Diga-me uma coisa com toda sinceridade - pede ele. Embora nunca tenha sido religioso, estudei o Evangelho e realmente não vi como o Evangelho contrariasse a ciência. E por que os homens a combateram em nome desse Evangelho?

- Uma boa pergunta - retruca o doutrinador !.

- O Evangelho nunca teria condenado Galileu, nunca teria queimado meus papéis, ou cortado a minha língua.

Mais uma vez o doutrinador está de acordo e lembra que o que está errado, portanto, não é o Evangelho, mas as pessoas que agem em nome do Cristo, os profissionais da opressão, aqueles que desejam reter a humanidade em estado primitivo de ignorância. E uma pergunta final:

- Vamos ficar presos a isso, em vez de construir um mundo melhor ao qual todos aspiramos?

O nosso visitante acha ainda que se a ciência houvesse ocupado sempre o lugar que lhe compete, talvez a juventude 'do mundo dos senhores de hoje, não fosse tão desajustada'.

- O Evangelho é uma ciência, - diz ele pouco diante - mas o jovem quer saber. Ele quer conhecer e não lhe ensinam a conhecer o Evangelho: fazem-no repetir e engolir todo, como a um remédio amargo. Engula, aceite... Mas não mostram ...

- O Espiritismo não pensa assim - diz o doutrinador. Queixa-se ele de que no mesmo equívoco recaiu a Reforma Protestante: 'não fez que o povo conhecesse o Evangelho, fez que o povo o repetisse e o decorasse, mas não mergulhou nele, compreende ?'

- Não havia chegado o momento de fazer esses desdobramentos que você, por exemplo, está em condições de fazer - replica o doutrinador. É fácil criticar o que está errado no passado. E nós? Que estamos fazendo? Você tem uma belíssima doutrina e estou de acordo com ela. O Evangelho é ciência e precisa ser desdobrado como tal, porque a doutrina do amor é científica. Então, meu Deus, se sabemos disso, porque vamos ficar olhando para trás, para aqueles que estavam errados? Os que estão em erro precisam de ajuda, não de crítica.

O tempo destinado ao diálogo vai-se esgotando e o doutrinador previne do fato o nosso irmão. Ele se torna mais nostálgico:

- Gostaria de saber onde está Galileu. Gostaria de ouví-lo de novo. De saber o que mais ele descobriu, o que mais ele ampliou, que sistemas delineou.

- Uma coisa imagino - diz-lhe o doutrinador - Ele não deve estar preocupado em combater a Igreja que o fez sofrer. Deve estar cuidando de criar alguma coisa nova. Continuar investigando o universo para que o futuro seja melhor do que o passado. Você estava até agora muito cristalizado no passado. Vamos olhar para frente.

- Acho que eu estava muito faminto, porque a mente que se dedica à ciência real, ao saber pelo próprio saber, acostumava-se a alimentar-se do conhecimento.

- Não é necessário que você abdique dessa busca. Ao contrário, quanto mais você souber, mais útil será à sociedade humana, desde que utilize esse conhecimento com sabedoria.

- Veja que ironia! Galileu foi condenado por estar - segundo os cânones da época - criando uma teoria contrária ao Evangelho e foi justamente o oposto. Ele provou que o universo é muito maior, que Deus era muito mais poderoso do que se acreditava.

Encerramos neste ponto nosso diálogo. As palavras finais foram de afeto e mútuo respeito. A conversa fora franca, um tanto veemente, aqui e ali, com algumas divergências, mas concordante nos conceitos básicos.

Com este companheiro querido, vivemos estimulantes horas de emoção. Dele nos separamos com otimismo e esperança. Como bons amigos que há muito não se viam e que tiveram de 'botar a conversa em dia'. Amigos que se despedem por algum tempo, em seguida, um tempo talvez breve, porque estão sempre a encontrar-se aqui e ali. Pois não estão seguindo juntos para a mesma destinação? Não foi precisamente isso que ele acabara de observar no traçado dos gráficos e mapas que levantara a partir da sua própria história espiritual?

GALILEU GALILEI

Foi a partir das oscilações de um candelabro na catedral de Pisa que Galileu começou a revelar a pujança de seu gênio altamente dotado para matemática e ciências físicas, bem como de acurado poder de observação acoplado à faculdade de deduzir inventos práticos de suas experimentações. Por ocasião do episódio na catedral, em 1581, tinha apenas 17 anos, pois nascera em 15 de fevereiro de 1564.

Era filho de Vincenzo Galilei, representado em suas biografias como um nobre arruinado que vivia de vender tecidos na sua loja. Também ele muito bem dotado para matemática, entendia, contudo, inúteis tais conhecimentos e como o filho manifestasse semelhantes inclinações, ele resolveu empregá-lo na loja, na esperança, talvez, de fazer dele um bom comerciante.

Alguns autores gostam de dizer que Galileu herdou da mãe o temperamento colérico e sarcástico e do pai o talento para a matemática. A verdade é que não herdamos tendências e disposições, embora elas possam ser cultivadas e até desenvolvidas sob supervisão e influência dos pais e dos mestres. É certo, porém, que Galileu Galilei não era de trato muito ameno, o que lhe granjeou não poucos inimigos, especialmente entre seus colegas cientistas e professores.

Com a intenção de fazê-lo médico, o pai matriculou-o na Universidade local, mas o jovem preferia pensar com a sua própria cabeça e começou logo a contestar a filosofia de Aristóteles que, foi, era e seria ainda por muito tempo, uma espécie de sagrada escritura nos meios universitários. Galileu queria comprovações experimentais para as formulações teóricas do respeitado filósofo, o que chegava quase a cheirar a heresia. E deu logo início às suas muitas e importantes invenções. Seus estudos são cheios de desenhos e projetos, aos quais se refere o Espírito cuja história é aqui contada.

Em 1589, com apenas 25 anos, era tal o seu prestígio que foi nomeado professor de Matemática da Universidade e não hesitou em servir-se da cátedra para continuar suas críticas às idéias de Aristóteles. Inaugurando, por assim dizer, a era da pesquisa. Galileu preferia partir da observação para as leis, em vez de limitar-se a formular teorias.

Chocava-se, dessa maneira, com o 'establishment' da época. Seus adversários não o perdoaram e acabaram conseguindo prejudicá-lo, o que não foi muito difícil por causa do seu temperamento desinibido e sarcástico. A gota dágua foram seus irônicos comentários acerca de uma engenhoca dispendiosa, complicada e inútil inventada pelo meio-irmão do Duque da Toscana para dragagem de portos - o salário de Galileu foi reduzido e ele resolveu demitir-se e ir ajudar o pai na loja, mas seus amigos conseguiram-lhe nova cátedra na Universidade de Pádua.

Durante os próximos 18 anos ele teria mais liberdade e paz para prosseguir com seus estudos. Projetou fortificações e instrumentos bélicos, bem como pontes e outras construções. Inventou uma regra de cálculo, ainda primitiva, é certo, mas com a qual extraia raízes quadradas e cúbicas, bem como um transferidor de ângulos. Combinando esses instrumentos, conseguiu aperfeiçoar consideravelmente a bússola astronômica. Foram tantas as encomendas de seus inventos, especialmente destes últimos, que ele teve de contratar gente para produzí-los em mais larga escala. Objetos desses, construidos com indiscutível competência e precisão, existem até hoje em vários museus.

Sua fama atraía tantos alunos de toda a Europa, ansiosos por ouví-lo discorrer sobre os enigmas da física e da astronomia, que suas aulas passaram a ser dadas ao ar livre.

Informado de que alguém na Holanda havia observado que um objeto qualquer parecia muito mais perto quando visto através de duas lentes colocadas a certa distância uma da outra, montou rapidamente um pequeno telescópio, por meio do qual as autoridades locais puderam contemplar maravilhados as ruas de Veneza, do alto da famosa Igreja de São Marcos. Quando o jovem cientista virou o seu instrumento ótico para a amplidão dos céus, a astronomia moderna começou a nascer. O que fora apenas uma suposição mais ou menos intuitiva de Copérnico e Giordano Bruno, aos poucos se confirmou como verdade demonstrada aos olhos de Galileu: era a terra que girava em torno do sol e não o inverso como estabelecia a ciência oficial da época, com todo o apoio da Igreja. Durante 16 anos Galileu obedeceu à proibição de ensinar essa verdade, o que pode considerar-se surpreendente para um temperamento rebelde e contestador como o seu, ainda mais quando sustentado pela pesquisa, pela evidência do fato observado. Em 1632, contudo, publicou ele o livro DIALOGO SOBRE OS DOIS PRINCIPAIS SISTEMAS, no qual apresentava um estudo comparativo das teorias de Ptolomeu e Copérnico. A defesa do sistema ptolomaico coube a uma personagem chamada Simplícío, que invocava argumentos tolos e ridículos. Não faltou quem fosse soprar aos ouvidos do Papa Urbano VIII que Simplício era um mero disfarce para ridicularizar Sua Santidade.

A Igreja condenou prontamente o livro e mandou suspender a sua venda. Galileu, já idoso (70 anos) e vitimado por mazelas orgânicas mais ou menos graves, foi chamado a depor perante uma comissão de cardeais. Ou retratava-se das suas idéias inaceitáveis ou seria torturado. Após quatro meses de prisão, cedeu e assinou o documento de retratação que tamanha revolta suscitou no discípulo que iríamos conhecer quatro séculos depois, na personalidade do Espírito de que cuida este relato.

Não deve ter sido nada fácil para este ver seu venerando mestre ajoelhar-se e ler em voz alta e depois assinar, o documento no qual 'confessava' ser falsa a teoria de Copérnico e de comprometer-se a nunca mais ensinar ou falar dela, sob pena de morte. Em suma: para os 'cientistas' e para os senhores cardeais da época permanecia tudo em paz porque a terra continuaria a girar obedientemente em torno do sol.

Ainda assim, Galileu não escapou à prisão e nem o seu livro ao lndex, do qual somente iria ser retirado em 1835. Por interferência pessoal do Duque da Toscana, o velho e alquebrado gênio deixou, afinal, o cárcere e foi vegetar durante os últimos anos de vida em prisão domiciliar, vigiado por espiões como um perigoso bandido.

Mas o velho cientista continuou escrevendo e remetendo seus estudos clandestinamente para onde pudessem ser publicados, pois a vista começava a falhar também e ele temia ficar cego antes de concluir as tarefas que a si mesmo propusera. Seu último livro DIALOGOS SOBRE DUAS NOVAS CIÊNCIAS, é considerado o marco inicial da moderna física experimental.

Galileu morreu em 1642, aos 78 anos de idade. Temiam tanto suas idéias geniais e revolucionárias que tudo fizeram para destruir sua herança cultural e perseguir tenazmente seus discípulos.

Esse foi o homem, um gigante espiritual, ao lado de quem viveu e sofreu o companheiro com o qual mantivemos movimentados debates. O nosso caro irmão amou tanto o seu mestre e tanto o admirava que não lhe perdoara ainda pelo que considerou uma indignidade: ajoelhar-se perante um poderoso grupo de fanáticos ignorantes para dizer que se enganara naquilo que sabia muito bem ser verdadeiro.

PS. Chamamos a atenção do leitor para A GÊNESE, de Allan Kardec, especialmente para o Capítulo VI - Uranografia Geral, extraído textualmente de uma série de comunicações ditadas à Sociedade Espírita de Paris, em 1862 e 1863, sob o título ESTUDOS URANOGRAFICOS, e assinados 'Galileu'.

Funcionou como médium dessas comunicações ninguém menos que o famoso astrônomo Camile Flammarion.

É a esses textos que se refere o doutrinador no seu diálogo com o Espírito.

SÓCRATES

Se aí pelas décadas finais do século quinto antes do Cristo, o amigo leitor chegasse a Atenas e começasse a andar pelas rua da bela cidade-estado e lá encontrasse um sujeito feio, de baixa estatura, atarracado, nariz curto e chato, calvo, barbudo, mal vestido e descalço, provavelmente estaria na presença de Sócrates, que a si mesmo considerava-se apenas uma pessoa 'interessada' em filosofia. Como, porém, os espíritos sabem das coisas, ao serem interrogados por alguém, em Delfos, quem era o homem mais sábio da Grécia, responderam pela pitonisa e para surpresa de muitos, que era Sócrates.

O Filósofo não se deixou impressionar pelo valioso testemunho mediúnico. Limitou-se a comentar que era considerado sábio apenas porque tinha consciência da sua ignorância.

Em verdade, não tinha ele o hábito de fazer longas e verbosas preleções sobre os grandes temas da filosofia; preferia fazer perguntas, técnica que ficou para sempre ligada ao seu nome - o método socrático. Dizia modestamente que não conhecia as respostas, pois somente sabia fazer perguntas, mas não se contentava com meias resposta, nem meias-verdades; desejava conclusões claras, firmes, inequívocas, ainda que contrariando convicções mais ou menos consagradas e tradicionais.

Consta que herdou do pai - um modesto escultor - uma casa e aplicou em negócios diversos, com auxílio de seu amigo Crito, cerca de 70 minas. (Will Durant. em LlFE lN GREECE, estima que cada mina correspondesse a cerca de 100 dólares de 1945). O filósofo trabalhava apenas o suficiente para manter, com o mínimo possível do necessário, a família composta de Xantipa, a esposa e três filhos. Xantipa faz o tipo tradicional da mulher rabujenta e ranzinza, sempre a reclamar daquele marido "desligado" que somente queria saber de conversar sobre assuntos de que, provavelmente, ela não tinha a menor idéia. Os filhos do casal foram considerados intelectualmente medíocres. Sócrates trabalhava na pedra. Alguns dizem que foi escultor, como o pai, mas o mais provável é que tenha sido apenas um modesto oficial de cantaria, técnica hoje quase desaparecida.

Sem ter escrito uma só página, deixou a marca do seu gênio em quase tudo quanto se pensou depois dele e muita coisa sobre a qual ainda não se pensou a sério, como reencarnação, comunicabilidade dos espíritos e sobrevivência do ser, bem como conceitos outros, desse nível e importância. Ele próprio tinha um espírito-guia, severo nas eventuais reprimendas, mas que se recusava a dizer-lhe que atitude tomar entre as várias opções que se lhe apresentavam aqui e ali.

Como muitos, lamenta Will Durant que se saiba tão pouco e tão mal acerca do grande filósofo. No dizer do brilhante historiador americano, Platão compôs, na realidade (sobre Sócrates) dramas de imaginação, enquanto Xenofonte escreveu novelas históricas. Não se pode tomar por verdadeira história o que escreveram eles.

Ficamos, assim, com fragmentos esparsos de sua vida, certos, também, de que nem tudo que lhe foi atribuido é realmente seu, pois autores que discorrem sobre ele, atribuem-lhe, com freqüência, idéias e conceitos que o genial pensador jamais formulou.

Mesmo assim, ficou dele o suficiente para se tomar o pulso do gigante do pensamento universal e que a Doutrina Espírita considera acertadamente um dos mais importantes precursores do próprio Cristo e, por extensão, do Espiritismo. Em verdade, suas convicções eram nítidas, inequívocas e inteligentes acerca dos princípios hoje consagrados na Doutrina dos Espíritos.

A respeito de todo o seu reconhecido talento, Platão transmitiu-nos apenas uma imagem esmaecida e até distorcida de seu mestre. Em breve entrevista concedida, no mundo espiritual, a Humberto de Campos (Espírito) - (Ver CRÔNICAS DE ALÉM TÚMULO, Francisco Cândido Xavier, Edição FEB, 1975, pág, 151 e seguintes), Sócrates mostra-se, de fato, descontente com Xenofonte e com Platão: é de lamentar - declarou o entrevistado a Humberto - as observações mal-avisadas de Xenofonte, lamentando eu, igualmente, que Platão, não obstante a sua coragem e o seu heroísmo, não haja apresentado fielmente a minha palavra junto dos nossos contemporâneos e dos nossos pósteros,

- A História - prossegue ele, numa espécie de desabafo - admirou na sua Apologia os discursos sábios e bem feitos, mas a minha palavra não entoaria ladainhas laudatórias aos políticos da época e nem se desviaria para as afirmações dogmáticas no terreno metafísico. Vivi com a minha verdade para morrer com ela. Louvo, todavia, a Antístenes, que falou com mais imparcialidade a meu respeito, de minha personalidade que sempre se reconheceu insuficiente. Julgáveis então que me abalançasse, nos últimos instantes da vida, a recomendações no sentido que se pagasse um galo a Esculápio? Semelhante expressão a mim atribuida, constitui a mais incompreensível das ironias.

E certo que as idéias do filósofo chocavam-se com os cristalizados conceitos sociais, políticos e religiosos da época em que viveu. Sua contestação ao sistema não podia deixar de fascinar aos jovens e colocar na defensiva todos aqueles que se deixavam embalar pelas mordomias e privilégios que se haviam transformado em direito de poucos à custa da penúria de muitos, mesmo numa cidade regida por importantes princípios democráticos. Daí a perseguição que moveram as autoridades contra ele.

Há nisto, contudo, interessantíssimos aspectos que convém ressaltar em proveito do melhor entendimento do testemunho pessoal do nosso visitante espiritual. Duas acusações específicas foram formalizadas contra Sócrates: a primeira dizia que ele não acreditava nos deuses reconhecidos pelo Estado e a segunda declarava que ele corrompia a juventude.

Em um pequeno texto reproduzido em GRANDES VIDAS E GRANDES ORRAS (Edição Seleções, Portugal. 1974), Max Eastman declara que 'ainda hoje não está bem esclarecido o que os acusadores queriam dizer sob a forma da última acusação' (corrupção da juventude).

Não me parece que o mistério seja tão denso, principalmente depois que o nosso companheiro espiritual desta história fez os comentários que vimos ainda há pouco. Um grupo de jovens do melhor nível intelectual e até social interessou-se profundamente pelas idéias do mestre. Como nos assinalou o Espírito, aquela era a geração que, volvidos os anos, estaria no poder. Não seria surpresa para ninguém que, uma vez alcançado esse estágio, acabassem com regalias e privilégios de que seus beneficiários não estavam preparados para abrir mão.

Quanto ao problema religioso parece ter sido mais um aspecto meramente demagógico para obter apoio popular contra o filósofo, tido por 'demolidor' das estruturas religiosas locais. Isso porque os próprios formuladores da acusação também não ligavam a mínima importância às tais estruturas e crenças. Regredido no tempo, o nosso irmão deixou claro que eram úteis as crenças no HADES na metempsicose (reencarnação punitiva em animais), a fim de conter os mais desabridos e rebeldes.

O grande inspirador e promotor das acusações contra Sócrates foi Anitos, Méletos, que por sua instigação, deu corpo e voz às denúncias, era cidadão obscuro e medíocre. Anitos, ao contrário. era figura de destaque. Suspeitamos - sem que disto tenhamos tido qualquer evidência - que o nosso companheiro tenha sido precisamente esse Anitos, que ambicionava postos ainda mais elevados na política local, como o de arconte, que era praticamente um rei. Lembra-se o leitor que ele se identifica como membro do Senado.

Como nos assegurou o Espírito, os acusadores do filósofo não queriam sua eliminação a qualquer preço. Esperavam que ante a ameaça de uma condenação à pena máxima, Sócrates reecuasse e se retratasse. Sabemos do depoimento do Espírito que essa retratação foi formalmente negociada com o pensador, ou melhor, tentada, em visita que teriam feito a ele. Sócrates, contudo, estava convicto de que desempenhava uma missão divina junto dos atenienses (alguma revelação espiritual?) e estava disposto a autenticá-la com a sua própria vida.

Na verdade, declara ele, como Espírito, a Humberto de Campos que não condena ninguém pelo que lhe aconteceu:

- De modo algum - disse. Méletos e outros acusadores estavam no papel que lhes competia, e a ação que provocaram contra mim nos tribunais atenienses só podia valorizar os princípios da filosofia do bem e da liberdade que as vozes do Alto me inspiravam, para que eu fosse um dos colaboradores na obra de quantos precederam, no planeta, o pensamento e o exemplo vivo de Jesus-Cristo.

Foi condenado por 280 votos contra 220. O acusado tinha direito a apelar por uma sentença mais branda; mas recusou-se, de início, a fazê-la. A instâncias de vários amigos, inclusive Platão, resolveu, afinal, propor uma multa de trinta minas (3.000 dólares de 1945), mas em nova votação foi condenado com oitenta votos a mais do que na primeira. Restava a opção de evadir-se da prisão enquanto aguardava a execução da sentença. É certo que seus amigos armaram um esquema nesse sentido, como se lê no interessantíssimo diálogo que leva o nome de Crito. Este, subornando os guardas, introduziu-se na prisão durante a noite. Sócrates dormia como um anjo, sem cuidados ou problemas. Crito esperou pelo seu despertar ao amanhecere tentou, sem o menor êxito, convencer o mestre e amigo a fugir.

Discípulos, amigos e a esposa acompanhada dos filhos visitavam-no na prisão, pois um episódio fortuito forçara o adiamento da execução.

- Sua morte é imerecida - lamentou alguém inconsolável.

- E querias que eu a merecesse? - perguntou o filósofo imperturbável.

Debateu temas vitais à filosofia até o fim, sem vacilações e temores. Cumprira com dignidade sua missão e sabia muito bem que a morte é apenas a transição de uma forma de vida para outra bem melhor, para aqueles que têm a consciência em paz.

- Com a morte de Sócrates - comenta Durant - encerra-se a Idade de Ouro. Esgotara-se Atenas de corpo e alma.

Caracteristicamente, ao capítulo final do seu Livro III. Durant intitulou com muita propriedade e realismo O SUICÍDIO DA GRÉCIA.

Por tudo isso e com todos eses aflitivos problemas na consciência, o nosso querido irmão espiritual vivia por obrigação, desalentado e infeliz. Por isso atribuira a si mesmo a tarefa de 'promotor' de Deus, para revelar a maldade que julgava intrínseca nos seres humanos, a fim de que a humanidade se depurasse de todos, inclusive dele próprio.

Seu resgate de tal situação foi dramático e intensas as alegrias que vivemos ao ajudá-lo a dar um novo sentido à sua vida imortal.

PS. Quanto ao Senado, valho-me da autorizada palavra de Will Durant, no já mencionado volume LIFE IN GREECE:

- Os oligarcas Eupátridas, ou seja, os poucos e bem nascidos que governavam, exerceram o poder político na Ática durante quase cinco séculos. Sob esse regime, a população era dividida em três classes políticas: os hippes, ou cavalheiros, proprietários de cavalos e que podiam servir ao exército nas tropas de cavalaria; os dseugitai, donos de juntas de bois e que podiam equipar-se por conta própria para lutar como hoplitas, ou seja, na infantaria pesada; e os zetes, trabalhadores comuns que combatiam na infantaria ligeira. Eram considerados cidadãos apenas os membros das duas primeiras classes e somente os cavalheiros poderiam ser nomeados arcontes, juízes e sacerdotes. Concluido o mandato e mantida sem mácula sua honorabilidade, os arcontes se convertiam automaticamente, e em caráter vitalício, em membros do boulê, ou Conselho, que se reunia nas horas frescas do entardecer, no Areópago, ou colina de Ares. Eram estes os responsáveis pela eleição dos arcontes e pelo governo do Estado. Este Senado do Areópago já desfrutava de considerável importância no antigo regime monárquico, chegando mesmo a limitar a autoridade do rei; sob o sistema oligárquico, chegou a ser o organismo supremo do Estado, como o órgão equivalente em Roma.

Como se vê, gozavam os senadores de grande prestígio e exerciam substancial parcela de poder. Acima deles, apenas o arconte, espécie de rei, em regime parlamentarista, posto a que certamente ambicionava o Espírito, nosso visitante.

Já o organismo que julgou e condenou Sócrates era um tribunal popular denominado dikasterion, integrado, na época, por cerca de 500 membros, muitos deles das camadas mais importantes da sociedade como, obviamente, os senadores.

Hermínio C. Miranda