O POSTE DAS CULPAS

A queixa inicial deste irritado companheiro é dirigida ao que chama de (nossos) "métodos primitivos de trabalho", nos quais a incorporação ainda se faz com as dificuldades inerentes ao processo, com as suas "injunções magnéticas", diz ele, quando já existem métodos muito mais modernos e eficazes de comunicação entre os dois mundos. Em suma, estaríamos ainda na utilização de "carros ele bois, numa época de aviões supersônicos". Contraditoriamente, contudo, queixa-se também de que somos "uma pedra no caminho" deles, "um espinho em nossa carne", o que serve para demonstrar que os métodos, embora "primitivos", são igualmente eficazes. Mas, além das práticas, ele questiona as nossas "crenças", ou seja, o que pregamos e divulgamos, que, a seu ver, são "atavismos de gente que teima em não evoluir". Convidado a ser mais específico e objetivo, ele diz que não são propriamente as idéias que pregamos, porque, afinal de contas, toda idéia tem um conteúdo de verdade, mas que nossos métodos são completamente obsoletos. Mal decorridos alguns escassos minutos de conversação, já podemos perceber que ele faz parte da equipe que está procurando introduzir-se no contexto do Espiritismo como Doutrina e como movimento. Em outras palavras: aceitam provisoriamente os postulados básicos do Espiritismo ("toda idéia tem um conteúdo de verdade", diz ele), mas questionam os métodos - ou seja: as práticas mediúnicas habituais, a prece, o trabalho da caridade material e espiritual e começam por introduzir sutis variações e novidades, revestidas com uma aura de revelação de caráter científico que a muitos atraem e fascinam. Dentro em pouco passam a exercer funções de liderança, posando como guias e conselheiros ...

- Você sabe que os arqueólogos - diz ele - descobriram aquelas pinturas primitivas nas cavernas que falam do homem nos seus primeiros ensaios de arte, uma maneira de tentar transmitir informações ... Aliás, não era bem arte. O que chamamos de arte, para ele, era informação. Para transmitir informação de um que vai sair para outro que vai chegar ... É claro que, hoje, quando o arqueólogo estuda tais inscrições, dá-lhes o seu relativo valor. Elas tem valor ... Foram usadas na época e atenderam à finalidade, mas seria ridículo, meu amigo - você há de convir - que, hoje, as escolas modernas de arte fossem ensinar aos homens os mesmos métodos usados pelos seres das cavernas. Fossem dizer que pegassem pedras pontiagudas e as polissem e com elas tentassem gravar noutra pedra sinais inteligíveis. Você não, acha que isso seria absurdo e inadmissível? Tudo evolui. Assim também as idéias, meu amigo. Uma idéia de 500 anos, umas idéias de 35 mil anos, uma idéia de mil anos, não pode, ainda hoje, ser transmitida com aquelas mesmas garatujas ...

- Dá licença - propõe o doutrinador. Estou de pleno acordo com você. Acho muito válido o seu raciocínio, apenas com uma ressalva: estamos confundindo a mensagem com a maneira de transmitir a mensagem.

E continua dizendo que a mensagem da sobrevivência do espírito transmitida em remotas eras por meio de pictogramas tem que ser a mesma que hoje se transmite por sofisticados recursos eletrônicos.

Ele fica encantado com a nossa concordância, dizendo que o doutrinador foi muito feliz na sua observação, mas no mesmo fôlego acrescenta:

- Você tem que dizer ao homem hoje que ele dispõe de um poder, um potencial imenso, ou melhor, que ele é um potencial. É uma força, uma energia atuante, circulante, que precisa atuar em toda a sua capacidade energética na sua movimentação para que possa evoluir e possa caminhar "pari passu" com a sua época, meu amigo. Você tem que dizer ao homem moderno que, com o simples poder da sua mente, ele pode curar a si mesmo de todas as suas mazelas, de todas as doenças.

- Inclusive as espirituais?

- Principalmente. Ele pode! Ele precisa aprender a fazer - digamos assim - um expurgo mental e tirar toda a matéria suja, deletéria que traz dentro de si mesmo em forma de culpa, de sentimentos múltiplos, todos de vibração intensamente negativa. Ele tem que aprender a livrar-se disso! A curar-se! O homem bem orientado, o homem consciente do seu valor, consciente da sua força não precisaria de um só médico! Ele poderia auto-curar-se. E não estou dizendo nenhum absurdo, porque está lá, o Cristo disse: "Vós sois deuses! O que eu faço, podeis fazer também e muito mais ainda". Por que, então, não capacitar o homem para que esta afirmativa do Cristo se materialize já e agora? Hoje é o tempo! Agora é o momento, meu amigo. Não se pode deixar para amanhã, não. É agora! Temos que libertar as consciências. Temos que libertá-las para que os seres gozem realmente do privilégio de serem filhos de Deus. Que adianta serem filhos de Deus se continuam todos mendigos? Se continuarem todos maltrapilhos, rasgados, feridentos e chagados! Não é possível, Deus não criou o ser para isso, não, meu amigo! É preciso curar o homem dessas feridas, dessas chagas, dessa lepra. Porque a lepra maior é o sentimento de culpa que vocês inculcam na criatura.

Inegavelmente o companheiro é eloqüente e seus argumentos podem até impressionar os desprevenidos ou desatentos. Sua voz vai num crescendo de entusiasmo e vibração, enquanto prossegue a dizer que os animais, por exemplo, não são expostos a problemas como o da obsessão e a outras mazelas espirituais.

- Porque não têm sentimento de culpa! - brada ele vitorioso. Porque ninguém incutiu neles tais idéias. Se um cão morder alguém que pisar no rabo dele, ninguém vai dizer-lhe:

"Olha, você assumiu um carma com isso; você, amanhã, vai receber outra mordida. Olha, quando você andar por aí, cuidado! Abaixe a cabeça e trinca os dentes para não morder os outros!

O sentimento de culpa é, a seu ver, o ponto crítico, o erro fundamental da filosofia doutrinária e todos os métodos modernos deveriam ser empregados para convencer ao ser humano de que ele deve expurgar a sua mente dessa verdadeira "nódoa preta que está lá".

- E, no entanto, vocês continuam escrevendo, falando e instruindo sempre sobre o mesmo aspecto. Não é possível!

Como vemos, portanto, não são apenas os nossos métodos que ele questiona, mas os conceitos também.

- E quando alguém se propõe a esclarecer essas consciências, a mostrar a esses seres que eles são importantes, que são importantíssimos na criação, que estão aqui para vencer, para serem grandes, para serem donos do Reino que Deus concedeu a eles, quando alguém chega para pregar isto, colocando o homem no seu devido lugar de criatura divina - criatura divina, que é isto que todos nós somos, Quando alguém chega disposto a fazer isto, esbarra com toda uma avalanche de incompreensão, que além de nos atacar por todos os meios, escrito, falado, televisado, enfim, seja lá do que for, até em conversa ao pé do ouvido, conversa ao telefone... Tudo isso para nos combater... E ainda não ficam satisfeitos de pregar só aí junto de vocês encarnados; ainda vêm pregar aos nossos companheiros que estão se levantando, que tiveram a "chance" de nos encontrar, que tiveram a grande "chance" da vida deles, de, por uma vez, ouvir alguém dizer: "Você é importante, Você é grande! Você não precisa crescer, não. Você já é grande hoje!"

Em seguida, informa que tem uma "Academia", onde ensinam e fazem suas pregações, evidentemente, em torno do tema central da "superação do carma", da grandeza intrínseca do homem, que precisa como que despoluir sua mente do desagradável negativismo do sentimento de culpa, a fim de manifestar-se nele toda a grandeza de Deus, pois o próprio Cristo ensinou que somos deuses.

Sua filosofia, contudo, não nos impressiona da maneira que ele desejaria, pois vemos por trás dela o negro vulto do desespero ante a enormidade das faltas cometidas. Que bom seria se pudéssemos ignorá-las todas, como se jamais tivessem existido! Mas a lei suprema de respeito à vida pede-nos a reparação, depois de nos ensinar a doutrina da inalienável responsabilidade pessoal.

Na "Academia", prossegue ele.

- ... temos nossas reuniões, falamos, fazemos o que vocês chamam de doutrinar, não só aos desencarnados, como também aos encarnados que se. " (ligeira hesitação) se simpatizam com nossas idéias, que também vêm aqui e ouvem. Muitos estão sendo treinados para falar e já falam para os nossos aqui para amanhã chegarem aí e falarem para os de vocês. Isso é necessário! Temos uma Academia lá, meu amigo. Se você quiser visitá-la estará à sua disposição. Não temos preconceitos, não temos prevenções. Queremos apenas O DIREITO (muita ênfase nesta palavra) de servir. Só isto, mais nada. Temos lá os nossos jovens para preparar, porque são os jovens que vão começar a surgir, que vão começar a pregar. Queiram vocês ou não, eles vão falar!

Há gente em preparo para sacudir o que ele chama de "marasmo", numa doutrina cheia de dogmas, de verdadeiros cânceres doutrinários".

A essa altura, o caríssimo irmão está falando em altas vozes, em crescente estado de exaltação, como se estivesse pregando a um vasto auditório.

E hora de tentar "esfriar" um pouco o seu entusiasmo. Por isso, o doutrinador fala com voz pausada e tranqüila:

- Em primeiro lugar, acho que quem discute idéias não precisa gritar. Ou o seu argumento é válido e pode ser dito em voz civilizada, ou então ...

Ele interrompe para dizer que não está esbravejando, mas sim levado pelo entusiasmo natural pela sua causa.

- Se a idéia é válida, retoma o doutrinador, o tom da voz tem que estar à altura da idéia: tranqüila e serena ...

- Meu amigo, você quer ser um super-homem.

- Não, não ... O Cristo sabe muito bem o que faz e não é com a minha colaboração modesta aqui que vamos mudar as coisas. Ele sabe o que faz.

- Ele sabe, mas você ... tenho minhas dúvidas ...

- E possível que eu não saiba, realmente. Admito isso.

Como é que a gente progride, como é que a gente aprende coisas novas? E' pondo em questionamento aquilo que sabe. Eis aí uma sugestão que posso oferecer a você também. Parar um pouquinho e questionar-se: "Estou bem? É isto mesmo? Estou de acordo com o pensamento que vem do Alto? Ou estou apenas promovendo meus interesses pessoais? Estou buscando o que? Ele perguntou para nós: "Que buscais?"

O manifestante procura manter elevada a temperatura do debate com a continuidade da sua irritação, mas começamos a sentir que caiu um pouco a densidade do seu entusiasmo. Mostra-se ressentido com o tom algo conselheiral do doutrinador, a quem acusa de tomá-lo por uma criança, um aprendiz inexperiente.

- Não, meu querido. Você nunca mudou de idéia? Claro que mudou e graças a Deus que mudou, pois a gente só cresce espiritualmente mudando de conceitos, substituindo conceitos antigos por novos.

Isso ele não pode contestar porque é da essência de sua própria tese, mas põe em dúvida a isenção do doutrinador em suas posturas que, a seu ver, estariam influenciadas pelos seus preconceitos pessoais.

- Você não estará, por acaso, influenciado por seus próprios preconceitos? Você é um homem muito preconceituoso, diz ele.

- É possível ... Todos nós sofremos a influência de nossos preconceitos. Todos nós, não é, meu querido? Você também ... Mas, o fato de nossas idéias divergirem não quer dizer que não sejamos irmãos, que não nos respeitemos, que não nos estimemos ...

O debate prossegue nesse rumo por mais algum tempo, porque ele acha que a influência que seu grupo exerce é alcançada através daqueles que vão lá, espontaneamente e aceitam livremente suas idéias e se incumbem de divulgá-las entre os encarnados, enquanto que nós saímos em busca de prosélitos, " armando barracas" junto de suas instituições para atrair seus companheiros. O doutrinador concorda com ele, contudo, em que é um homem falível cheio de pontos fracos, mas não que seja temerário, porque deposita sua confiança no Cristo.

A certa altura do diálogo ele não sabe ao certo se o doutrinador é um "débil mental rematado, ou uma raposa astuciosíssima". Aproveitando uma pausa, o doutrinador retoma o esforço de conduzir a conversação para o terreno pessoal, mas ele sente bem o risco que isso representa. E reage:

- Meu amigo, acontece o seguinte: se estou no trabalho, não interessam minha vida e meus problemas pessoais - interessa a causa geral. É isso que está em jogo, não a minha vidinha particular, com meus problemas ou não-problemas, minhas dificuldades ou não-dificuldades.

- Sim, mas por que, então, você invocou as minhas dificuldades, as minhas fraquezas e imperfeições?

- Ah!, mas não é possível ... - suspira ele desalentado.

Será que eu estou maluco, ou vocês todos estão ouvindo a confusão que este homem está tentando fazer?

Quando o doutrinador se prepara para magnetizá-lo, ele vai logo avisando que é um bom magnetizador, conhecedor de todos os segredos e trâmites do processo e, portanto, dotado de defesas pessoais que o tornam fora do nosso alcance. A seu ver, será um esforço inútil e exaustivo.

- Não tente nada comigo! Não estou ameaçando; estou apenas prevenindo. Se você tentar alguma coisa, claro que vou me defender e tenho métodos que você não conhece. Posso provocar ruturas seríssimas num cérebro humano.

Sua intenção é retornar ao terreno neutro da argumentação meramente filosófica, o debate de idéias, onde ele se sente mais seguro, mais preservado de qualquer envolvimento pessoal. Nesse sentido, o doutrinador lhe fala das responsabilidades pelos nossos atos e questiona o processo preconizado por ele de eliminar com o mero poder da mente o sentimento de culpa causado pelas faltas cometidas. Acha, por exemplo, que ele pode bloquear as memórias e tentar esquecer os seus erros, mas não conhece nenhum processo pelo qual possamos eliminar a culpa com um mero impulso da vontade. Eis a sua contestação:

- Olha aqui, meu amigo. Suponhamos que você se mude para uma casa.. ou melhor que você não se mude, porque aí você vai dizer que carrega a sua sujeira. .. Você mora numa casa muito tempo e não é uma pessoa muito limpa. Então, acumulam-se detritos de toda natureza. A casa está cheirando mal. .. Daí, em vez de você dizer: "Bem, agora tenho que agüentar esse cheiro, porque fui eu que juntei esse lixo e tenho que sofrer as conseqüências desse lixo que fica exalando aqui." Ou, chega alguém e diz assim: "Você é forte! Levanta e você pode, num instante, botar esse lixo todo lá fora." E o "cara" se levanta e varre o lixo todo para fora. E fica com a casa limpa! Você diz para ele: "Você não tem que ficar aí inalando essa pestilência ...

- E onde você joga esse lixo?

- No primeiro terreno baldio que encontrar, você o joga.

Varre tudo para fora da sua casa. Não interessa para onde, desde que sua casa fique limpa! Um dia o lixeiro vai passar e vai recolher aquele lixo.

- Que lixeiro?

- O lixeiro, meu amigo, o lixeiro. .. Ah! não é possível ... Eu de-sis-to ... É impossível fazer essa criatura entender qualquer coisa.

Nesse ponto interrompemos o diálogo para orar. Quanto à magnetização, esperamos uma longa batalha, mas insistimos docemente, enquanto lhe falamos continuadamente, embora ele reitere suas ameaças. Após resistir e protestar por muito tempo, resolve desafiar a capacidade do magnetizador e deixar que ele dê seus passes à vontade. Dali a alguns momentos começa a ceder, demonstrando certa sonolência e a bocejar. Fala, em solilóquio, dos companheiros que "aliciamos" lá na sua instituição. A perda de um deles lhe foi particularmente penosa - era um rapaz brilhante, apto já a "assumir uma cátedra". Considerava-o mesmo um filho e ele tinha tudo quanto um pai pode desejar e esperar de um filho. E, no entanto, foi-se ... Outro, era um homem de ação, corajoso, competente, dinâmico. Foi-se também ...

A certo ponto mergulha fundo no sono magnético. Reagiu e resistiu bravamente. Ainda nos últimos momentos reclama, enfático:

- Tira essas patas de cima de mim, seu cão danado!

Como costuma acontecer, pelo menos em nossa experiência, a narrativa em regressão começa a desdobrar-se a partir de uma palavra-chave, uma espécie de código de arquivo morto. No caso deste irmão, a chave é:

- Sacrílego! E prossegue:

- Anda por aí, dizendo coisas que são todas contra os livros da Lei. A Lei é de Justiça. Se há uma adúltera, ela tem que ser punida. Tem que ser. A Lei manda apedrejar, então a gente tem que apedrejar. Claro, a Lei é que manda.

- Tem de apedrejar? Mas você não pode decidir não apedrejar?

- Temos de obedecer à Lei. A Lei foi feita por nossos maiores e deve ser respeitada. A Lei não pode ser afrontada dessa maneira. Todas as adúlteras agora vão atrás desse homem. Ele deve ser um adúltero para poder mancomunar-se com elas.

Mas você estava lá também, quando foi apedrejada a moça?

Claro que não. Eu ia me misturar com essa turba? Mas você aprovou o pedrejamento?

Claro! Mas não estava lá para presenciar. Temos as pessoas encarregadas de executar essas coisas. Não vamos nós. A Lei foi afrontada.

-Mas, escuta, você conhece a moça? Ora, uma qualquer ...

Não. A resposta não me satisfaz e nem a você.

Por que não?

Você a conhece? Queremos mostrar o componente pessoal, humano. Ela é um ser humano também, como somos todos nós.

- É uma mulher adúltera. Pecou contra a Lei, pecou contra o seu marido.

- Você a viu pecar? Não importa? Então você não precisa antes comprovar que ela pecou contra a Lei?

- Ela foi apanhada em flagrante adultério. Fornicação. É isso que a Lei diz. O marido deu testemunho. Marido ultrajado.

- Você conhece o marido dela?

- Ora! o que interessa? Você não pode me questionar.

Eu sou um Doutor da Lei. Você não é meu igual. Se é, mostra suas credenciais. Eu não o conheço.

Ninguém pode conversar com um doutor da Lei?

Mas não questionar ...

Como vamos conversar sem fazer perguntas um ao outro?

Você não pode me questionar. Tem que ouvir o que eu digo. Quem faz perguntas sou eu.

- Para decidir um caso perante a lei você não tem que fazer perguntas?

Eu faço as perguntas, não você. Você ouve.

Como você vai me explicar o funcionamento da lei, se ..

Não tenho que lhe explicar nada ... Tenho que aplicar a Lei. Quem é você para botar em questão minha decisão? Se minha decisão foi tomada é porque era certa e você quer saber por quê?

- Ah, então foi você que decidiu pelo apedrejamento ...

Com base em quê? O marido foi a você para queixar-se?

- Claro. A gente tem um parlatório público, onde as pessoas vão e fazem as queixas.

Mas porque ele escolheu a você e não outro doutor da Lei?

Não é possível! Você não pode me inquirir.

Não, meu irmão. Quero saber apenas das motivações. Por quê? - Porque você é um dos adúlteros, não é?

- É possível. E você conhece, então, o marido?

Conheço. É meu amigo. De muito tempo. E ela também, de muito tempo.

- Você a acha bonita?

- Ela é uma adúltera. Não te interessa. Um ser humano que vende seus carinhos. Ela vende.

Sim, é uma fraqueza moral, na estrutura do seu ser, mas ...

Ela devia ser apedrejada até à morte. Tem que ser apedrejada. .. Ninguém pode fazer a apologia de uma adúltera. Ninguém pode dizer que as adúlteras não são criminosas, porque elas são criminosas.

- Mas não são criminosos também aqueles que praticaram o adultério com ela?

Não. Claro que não.

- Você acha isso certo na Lei ?

- Acho, acho... Principalmente porque se ela é uma adúltera ela não tem que escolher os seus... tem que aceitar todos eles. Por que ela vai recusar um determinado? Não pode recusar.

- Ah! Estou entendendo.

- Não pode recusar, sob alegação nenhuma. Se ela recusou alguém sob qualquer alegação temos que condená-la.

- Espera aí. Deixa eu ver se estou entendendo bem. O marido é que foi a você para pedir a condenação. Não é bem isso, não é? Conte-me a verdade.

- Ora, .. Ora... Eu sou um doutor da lei e você .. .

-Sim, você é um doutor da lei, mas é também um homem.

- Ela não podia recusar ninguém. Só porque esse homem anda pregando por aí, ela também achou que ...

Vamos, então, à verdade: ela recusou você? Ela foi apedrejada, até o fim!

Ela recusou a você, então?

Ela se atreveu! - disse ele após uma pausa maior. Como você explica que a lei seja aplicada à mulher e não ao homem? É assim que diz a lei?

A Lei diz A ADÚLTERA ..

Mas o adultério não pode ser cometido sozinho.

E daí? A Lei diz isso, a Lei exige assim. A lei está certa.

- Então, você escapou. Você, então, não participou do adultério?

- Eu não. Claro que não participei de adultério nenhum.

- Mas não foi porque você não quis ...

Ele faz uma pausa e sai com uma pergunta:

- Você sabe como se apedreja uma mulher dessas? Não?

Você precisava ver. É público!

- Ela é amarrada num poste?

- É. Junta muita gente ... Todo mundo... A família do marido ultrajado ... Toda.

Inclusive aqueles que praticaram com ela o adultério, não é?

Isso eu não sei.

Não sabe? Você não pode ignorar isso, pois você é um doutor da lei.

- Não sei. Eu não estava lá. Não sei os que foram. Vai quem quer ir.

- Mas qual foi a recomendação do Profeta? Ele não proibiu que ela fosse apedrejada, não é?

- Não é dessa mulher que eu falo. É da outra que simplesmente estava se fiando nessa pregação. Esse homem é um sacrílego! Ele é contra os cânones mais sagrados da Lei!

-Mas essa foi ou não apedrejada? Foi ... Foi ...

-E morreu?

-Como devia.

-O adultério é, portanto, uma traição ao marido.

-Claro.

-E como você quis trair o seu amigo? Eu falei alguma coisa? Não falei nada. Quer dizer que você está inocente? Estou.

-E você conheceu pessoalmente o Profeta? Você o ouviu pregar?

-Não.

-E por que você o detesta?

-Por que ele prega contra a lei antiga.

Pouco adiante ele retoma o fio da narrativa.

- Fui traído. Você sabe que a gente tem muitos inimigos. Muitos ... Essa populaça infecta! Principalmente essa populaça que ficou infectada por este homem louco e suas loucas idéias.

Acho que se esse homem tivesse tido o pescoço cortado no início, não teria acontecido nada. O mal corta-se logo; a uma serpente corta-se a cabeça.

- Como foi, então, essa traição feita a você?

- Olha, essa é uma história muito suja ... Você não vai querer saber. Quem é você para me obrigar a falar? Ninguém me obriga ...

- Não estou obrigando, meu irmão. Estou pedindo a você.

Claro que você não é obrigado a falar. Mas, me diga, você diz que é uma história ...

- É uma história suja. Mas o que está feito, está feito.

Não se pode voltar atrás. (Paula). Essa mulher era inocente. Foi uma vingança, a acusação. Eu, depois, já tinha feito, não havia jeito.

- Você se arrependeu?

- Não me arrependi, mas podia não ter feito. Esta mulher carregava no seio uma criança. E depois, alguém foi ao marido e contou a verdade. E este marido ameaçou-me de acusar-me publicamente de perjúrio perante a Lei. É uma acusação muito séria! Então, não tive outra maneira. Marquei um encontro secreto com ele para resolvermos o problema. Tive que eliminá-lo. .. E acusei um dos seguidores do. . . desse profetazinho louco. .. Ih! foi uma confusão danada! Confusão na qual eu me enleei todo. Tive de fazer isso e depois tive de acusar outros e tive de mandar executar outros. .. Foi uma cadeia ...

Você, continua dizendo que não se arrependeu de nada disso?

- De que me adianta isso agora? O que está feito, está feito. Você não pode desfazer.

- Mas, como terminou aquilo? Morreu tanta gente e você também. Como foi concluida aquela existência? Você viveu muitos anos?

- Vivi bastante tempo. Infelizmente vivi anos bastantes para ver a minha Jerusalém deteriorar-se cada vez mais, perder a sua realeza, cada vez mais perder a sua autenticidade, a sua cidadania.

- E você chegou a ocupar uma posição de relevo no Templo?

- Não, não. Eu era apenas um dos sacerdotes. - Mas um Doutor da Lei.

- Sim, todos nós somos doutores da Lei. Temos de ser.

- E ao chegar no mundo espiritual o que aconteceu? Você encontrou esses companheiros? - Que é mundo espiritual?

- Quando você morreu?

Pausa.

- Quando eu morri? (Pausa). Não ... só encontrei uma escuridão terrível, uma lama fétida em que eu pisava e que se colava em mim.

- Sim, mas você não defendeu a Lei? Não teve a proteção de Deus? Você não tinha direito a ... (um lugar melhor?)

Não sei o que aconteceu - interrompe ele. Não sei. - Como você explica isso? Você não é um doutor da lei?

- Não sei explicar isso. Não estava na Lei ... Não estava. Não está na Lei.

- Mas, segundo a lei, a gente responde pelos atos que pratica, não é? Como a adúltera respondeu. Então você também não responde pelos seus?

Relutantemente ele o admite, mas, em seguida, acrescenta:

-Mas ninguém soube do meu ato. E Deus? Não soube?

-Ninguém o cobrou de mim.

-Nem Deus? Você não acredita em Deus? Deus? Quem é Deus?

-Não sei. Você é um sacerdote. Deus? Não conheço esse nome. Javé.

- Javé. Javé eu sei quem é.

- Então? Ele não lhe ajudou? Você não chegou até Ele? Não sei ... Não cheguei, não o encontrei. Não entendo isso. Não entendo o que aconteceu.

- Então a lei não lhe ensinou isso também ...

Diz chamar-se Isaac e o magnetizador procura projetar sua memória no que, para ele, como Isaac, é ainda futuro, a fim de que ele relacione uns com os outros os episódios que explicam sua atual condição espiritual e por que tão desesperadamente foge ele do reconhecimento dos erros cometidos.

Faz-se uma longa pausa e, em seguida, ele pronuncia nova palavra-chave, com a qual parece abrir outra urna secreta da memória:

- Um cálice ...

Ele vê diante de si um cálice, mas não está ainda compreendendo o que se passa.

-O que há dentro desse cálice? - pergunta o doutrinador.

- Dizem que é sangue. Acho que é sangue ou lágrima ... uma coisa assim. Não sei. .. É uma coisa confusa. Não estou entendendo bem.

Experimenta dificuldade em identificar-se, em saber o que está fazendo ali perante aquele cálice. Parece pensar. Quando o doutrinador lhe pergunta como ele está vestido, ele responde, após nova pausa:

- Sou um sacerdote. Onde? Na minha câmara.

Põe vinho no cálice. Pouco a pouco vão se desdobrando as lembranças.

- Alguém que conhece um segredo meu vai chegar por aquela porta ali. Eu preciso silenciá-lo.

- Vamos ver. A porta se abre, chega a pessoa e então ..

- Que segredo é esse que você não quer que seja revelado? Não precisa me dizer. O importante é que você saiba. Você sabe do que se trata, não é? Senão você não iria colocar o veneno nesse vinho. Você sabe porque está fazendo isso. (Pausa). Então, meu irmão, mais um crime aí, não é? Mais uma eliminação de um companheiro que se atravessou no seu caminho por ter descoberto algo que você não gostaria que fosse revelado. Como você também, no passado, revelou segredos e condenou várias pessoas por isso, baseando-se numa fantasia, numa mentira. Meu querido, não estamos acusando-o, nem lhe condenando, mas todas essas dúvidas, essas inquietações estão ainda depositadas na sua consciência.

- São essas jóias e bens do conde ... Eu quis. E havia, em especial, um crucifixo cravejado... Ele é todo de ouro, cravejado de pedras ... esmeraldas, rubis, diamantes ..

Eliminando o conde você ficaria com essas jóias?

- O conde era simpatizante do condenado do Santo Ofício.

- Ah! sim, você era um inquisidor, então?

Ele responde um tanto obliquamente, mas sem hesitação: - Mas em vez de arrolar os bens para a Igreja, eu os tirei para mim e disse que não havia nenhuma jóia, nada, no espólio; mas alguém sabia e ameaçou-me. Mas as jóias eram para uma ...

As jóias não eram para mim. Eram para uma. .. uma donzela. - De quem você gostava?

- É. Oh, mas que confusão! Vejo minha vida como se estivesse cheia de nós e nós e nós. .. Estou cercado de nós ... Ela era muito linda e eu queria as jóias para comprar-lhe os encantos.

- Mas você não era um sacerdote?

- Ora, mas que tem isso? À noite você tira o manto e é um homem.

-E você obteve as jóias? Claro que obtive as jóias. E também a moça?

- Sinto um mal-estar. Não sei ... Está confuso ... ! Esse que morreu era.. Ohl Deixa-me! Deixa-me!

- Está bem. Não quero forçá-lo, irmão, a dizer aquilo que você não quer dizer. Apenas aquilo que a sua consciência determinar, mas peço a você, por favor ...

- Matei o mesmo homem duas vezes. Duas vezes! O conde?

- Não: o outro. Eu não matei o conde. Foi a Lei que o matou.

- Um momento. Vamos agora, quando isso tudo está preesente na sua consciência, na sua memória, vamos concluir para que você possa ...

- Ah! - geme ele - esses nós à minha volta ... Tantos nós! Estes nós! E este cálice ... Sempre usei um cálice. Duas vezes. Ora, tirem esses nós que estão me atando, apertando ... Ai ... Ai ... ! Estou me sentindo mal, muito mal ... É uma teia à minha volta ... Que mal-estar! Os nós estão me apertando! Ai!

Começa a chorar e gemer em espantosa crise de desespero. - Me solta! Me solta! Estão apertando! Estou amarrado! Esses nós ...

Faz uma pausa e acrescenta em voz mais lenta:

- Estou amarrado ao poste da culpa. Estou amarrado ...

Quem vai me apedrejar? Estou amarrado. .. ai!... ai! Solta minhas mãos. Juro que nunca mais vou botar veneno na taça de ninguém. Você me levou a isso! Você me amarrou ao poste de culpas.

- Não, meu querido. As culpas estão na sua consciência.

- Fui eu quem inventou essas culpas?

O doutrinador começa a fazê-lo adormecer, enquanto ele é retirado, deixando a médium compreensivelmente aturdida por alguns momentos.

Eis a dramática história de um companheiro espiritual que de tal maneira enleou-se na trama de seus erros que julgou não dispor de nenhuma opção a não ser a de bloquear em algum compartimento da memória a lembrança dos horrores cometidos em mais de uma existência na carne. As recordações eram tão incômodas que ele próprio as compara a lixo mal-cheiroso, com o qual não poderia conviver sem repugnância intolerável. Para livrar-se disso, junta-se a uma comunidade espiritual cuja filosofia de vida é precisamente essa - a de ignorar os erros cometidos para suportar a convivência de cada um consigo mesmo. A técnica desenvolvida para alcançar esse objetivo consiste em convencer a criatura desarvorada de que ela é grande e divina, deve e pode levantar a cabeça e seguir em frente. Os apoios para essa estranha filosofia de vida julgam encontrar no Evangelho de Jesus, em passagens cuidadosamente escolhidas, de forma que, isoladas do contexto e deformadas na interpretação, sirvam para justificar a atitude adotada.

Não contentes com isso, procuram, ainda, inocular sutis dosagens de veneno no corpo vivo da Doutrina dos Espíritos, na desesperada tentativa de apossarem-se também das novas e emergentes estruturas de poder religioso que julgam encontrar no movimento Espírita.

No caso pessoal do narrador desta história vemos o Espírito desinteressado dos conceitos religiosos autênticos, mas certamente ávido de utilizar-se do poder que tais organizações proporcionam, exatamente para continuar no exercício de suas paixões. Ao tempo do Cristo é um doutor da lei. Sinceramente convicto da validade da lei? Sim, até o ponto em que os dispositivos legais não interfiram com suas paixões. A lei manda condenar a adúltera, diz ele, mas nada prescreve quanto àquele que leva a mulher ao adultério. No caso, ele é juiz em causa própria e a condena. Quando alguém descobre que o filho que ela trazia em gestação é dele, uma taça de vinho envenenado elimina não um homem, um ser humano, mas o que, para ele, é apenas um risco, um perigo.

Na situação que, a seguir, emerge das profundezas da memória integral, ele é novamente um sacerdote, desta vez na tenebrosa época da Inquisição. E outra vez o mesmo Espírito reencarnada se lhe atravessa no caminho: é alguém que sabe demais, ou seja, sabe que as jóias do conde foram escamoteadas para comprar os encantos de uma jovem. E ocorre nova e "providencial" eliminação do "risco", por meio de mais um copo de vinho envenenado ...

E assim, vai se desdobrando uma tenebrosa cadeia de erros e cada um deles é um nó que o acaba atando irremediavelmente ao que ele chama de o " poste das culpas".

Por algum tempo ele consegue iludir a si mesmo, pensando que já se livrou da lei, pois os crimes estão (temporariamente) esquecidos. Ele é grande, ele pode, ele é deus, como disse o Cristo: "Vós sois deuses. ." Até que, um dia, acontece o reencontro com a sua realidade indestrutível.. É hora de começar o resgate, não mais apenas dos crimes cometidos aqui, na carne, na ilusão da matéria, mas dos desacertos que cometeu e ajudou a cometer em razão da nova filosofia de vida na influenciação de companheiros encarnados e desencarnados que, como ele, também se transviaram.

A lei deu o "basta" e começa a viagem de volta ..

Hermínio C. Miranda