O 5º. MANDAMENTO |
Eram quase nove horas da noite, quando a campainha da porta soou.
Embora não fosse comuns as visitas no internato àquelas horas, Ivonete apressou-se a ver de quem se tratava.
Três homens se deram a conhecer:
-Somos do "Clube do Tiro ao Pombo".
Como foram mortas muitas aves na tarde de hoje, resolvemos doá-las a uma casa de caridade, e trouxemos três sacos, cheios delas. Os pombos estão fresquinhos e sadios. Sei que vocês são mais de cem crianças e moças aí e, certamente, amanhã terão à mesa um prato diferente e saboroso.
Os volumes foram conduzidos pelo longo corredor, que vai da porta de entrada, até o fim do casarão, lá na cozinha, onde foram deixados.
A maioria das internadas, as menores, já se havia recolhido ao leito, depois de um dia inteiro de intensa faina; amanhã cedinho, às seis em ponto, todas deveriam por-se de pé. Somente algumas dentre as maiores, ultimavam os serviços diários, inclusive no término dos deveres escolares. Eram cinco, as que se deitavam mais tarde. Naturalmente, além da "Tia" Elvira.
Na cozinha, olhavam para o lúgubre presente, indecisas quanto ao que fazer, até que a Tia Elvira quebrou o gelo:
- Vamos gente, vamos tratar de ajeitar as coisas porque, paradas não se vai resolver nada.
O conteúdo do primeiro saco foi despejado na grande mesa da cozinha e como era de se esperar, a consternação foi geral, ultrapassando o pessimismo da expectativa.
Cabia à Tia Elvira resolver o impasse.
"Se se come carne de vaca, de frango, e outras, por que não se pode comer de pombo ? - era uma ponderação intelectual.
- Será que resistirão ?
"Matar para comer, pode ser até muito natural, embora, a certas sensibilidades, possa mesmo repugnar. Comer, porém, o fruto de matança por simples divertimento, é fazer o que nem as feras fazem. Preferiria enterrá-los todos!" - era uma ponderação emocional.
Foram separados dos demais, lavados e colocados num caixote vazio, de verduras. Tentaram dar-Ihes água e comida, mas apenas um deles conseguiu bebericar o líquido, e nada mais aconteceu.
No intervalo daquela indecisão, a voz da Ivonete, uma das internadas, se fez ouvir aflita:
-Tem um se mexendo ! Está vivo !
E atirou-se sobre ele.
De fato. E não era o único. Três foram separados.
-Vamos ver os outros sacos'
Mais dois vivos foram encontrados.
Ao todo, cinco.
-Será que resistirão?
O tique-taque do relógio lembrou que já eram quase onze horas e, sob as emoções da noite, foram deitar-se. Nem é preciso dizer que tiveram enorme dificuldade para conciliar o sono e que a noite fora muito mal dormida.
Os astros porém, não tomaram conhecimento do drama do internato e, na hora cerrtinha, o sol nasceu de novo, espantando a noite e garantindo o dia.
Todos, desde as mais pequenas até as moças maiores, se puseram de pé, e um zum-zum diferente do das outras manhãs, denunciava que a novidade da véspera já era do conhecimento geral. Depois da higiene geral e do café, as tarefas de todo dia tiveram reinício acrescidas hoje de mais uma a fazer: depenar e limpar pombos para a refeição.
Ivonete, com algumas outras, correram ao caixote e foi declarando: "Apenas um pombo continua vivo. Que bom, está de pé. Foi tratado com as regalias de um bebê recém-chegado, alimentado a pão e leite, e pelas esperanças de vida. Afinal estava-se num lar espírita, cristão, e a dádiva divina era respeitada.
Com o gupo de meninas encarregado do almoço, as coisas não andavam bem. Era com nervosismo e enorme relutância que cumpriam a tarefa, que lhes parecia imensamente lúgubre.
O pior foi à hora de se servir a refeição: a maioria não comeu, nem pombo, nem coisa nenhuma.
Durante o dia, o sobrevivente, polarizava a atenção de todas. Não houve quem não lhe fizesse um carinho, não lhe dissesse uma palavra de amor, não o envolvesse com a aura do otimismo.
Alguns dias se passaram e o doentinho já arrulhava, como que a dizer às suas salvadoras:
"JESUS MORA NESTA CASA ! NUNCA SE ESQUEÇAM DE MIM ! OBRIGADO, MINHAS IRMÃS ! OBRIGADO !"
No domingo seguinte, após a prece matinal seguida do café, todas as residentes estavam no grande pátio.
Ivonete sustentava na mão, o "Mariano", como apelidaram o pombo, que voltava a ser ágil, esperto como todos os pombos sadios.
No ar, pairava um jeito de festa, fosse pela vibração espiritual, fosse pela conversação dos múltiplos grupinhos, até que Ivonete subiu sobre o caixote que havia sido posto no meio do pátio.
Nem um maestro conseguiria de sua orquestra tão pronto silêncio.
Erguendo os braços, mantendo a ave inocente entre as conchas da mão, deteve-se alguns momentos, como que a recitar muda saudade que já se avizinhava.
Súbito, acontece o gesto de espalmar, que se aguardava, embora não se desejasse tanto ... Sem egoísmo, deixa escapar aquele slmbolo da Paz, a que o Evangelho de Jesus, mais de uma vez, faz menção ...
Os vôos destreinados o levaram, aos poucos, até onde a vista não mais alcançava ...
Era mister recomeçar os afazeres.
O grande grupo se dispersou.
Com algumas lágrimas é verdade mas com a leveza da consciência tranquila e do coração aquietado.
Demétrio P. Bastos