QUEM AMA CHEGA PRIMEIRO |
A noite de 24 de novembro guardava novas surpresas e emoções. E isso pudemos observar logo que se apresentou um segundo companheiro integrante da mesma instituição espiritual em que estávamos atuando - a fantástica comunidade cultural grega do espaço.
Logo em seguida à nossa saudação inicial, passamos-lhe a iniciativa da palavra, intercalando aqui e ali nossos comentários. - Diante de tudo que ouvi aí - começa ele pausadamente:
- que poderia eu dizer?
- Não sei, irmão. Você é livre de dizer aquilo que pensa.
Ele esboça um sorriso contrafeito e diz:
- Eu já não penso mais. Já não quero nem pensar mais, diante de tudo isso que ouvi e que se passou. Não temos mais nada a dizer, não é?
Não, meu caro. Temos muito a dizer. Agora é que temos. - Fazer o que agora? Defender o que? Que ideais defender se eles foram provados todos estarem distorcidos, numa perspectiva completamente errada?
Eu não diria que estava totalmente errada ... Uma perspectiva totalmente diferente ...
Sim, mas isso não impede de formularmos outros.
É como se você traçasse um triângulo certinho e quando você fosse traçar a hipotenusa, não dava, não caía no lugar. Você estava certo de que ia cair e não caiu no lugar previsto.
- É porque a emoção não é geométrica. O amor não é uma hipotenusa.
- Você já imaginou a perplexidade? Você traça um triângulo com todas as normas e todas as medições e na hora que você vai traçar a hipotenusa ...
- Pois é, mas o triângulo em si terá sempre o mesmo número de graus.
- É, mas de alguma forma, algo saiu errado. Isso é que é inexplicável.
- Sabe por que? Num dos ângulos deixou de ser considerado o fator muito importante da emoção. O erro está no ângulo abandonado, esquecido, sufocado. Por isso é que a hipotenusa não dá. Mas, permita-me novamente voltar - Não concordo com você ao dizer que nada temos mais a fazer ou dizer. Agora é que temos muito a dizer e muito a fazer. Você estava aqui quando o companheiro falou, não é? Você viu que há realmente uma perplexidade muito grande no espírito dele, mas ele captou com muita lucidez toda a amplidão e complexidade de suas responsabilidades, e está disposto a retomar a caminhada.
- É como se, meu amigo, você estivesse adormecido uns 500 anos ou mais e, de repente, você acordasse e estivesse tudo errado, e tudo fosse incompreensível para você, seus valores estivessem todos trocados. Como se você estivesse usando uns óculos que produzissem uma visão totalmente distorcida, e quando você tirasse os óculos você estivesse vendo ... tirasse os óculos ou botasse os óculos. . . não sei muito bem.
- É. E você tem o senso crítico bastante lúcido para saber que aquela visão não estava boa. Logo, é possível partir para uma reconstrução.
E o tempo, meu amigo? E o tempo perdido? - Eu sei. Realmente não dá para recuperá-la.
- E o tempo? Você tem que abrir mão de tudo para voltar ao nada.
- Não. AÍ não posso concordar com você.
- Mas você tem que voltar. Tem que ser assim. O senhor ouviu quando o companheiro falou. Tem que voltar, largar tudo. É como se o senhor fosse um homem rico, riquíssimo, milionário e, de repente, o senhor acordasse assim com o seu criado lhe dizendo isto: "Olha, o senhor não tem mais nada. Se o senhor quiser comer hoje, tem que sair p'ra rua e trabalhar".
- Sei, mas tem o trabalho, tem o sol, o dia, a noite ...
- E acontece que o senhor nem sabe o que é trabalho!
Nunca trabalhou na sua vida. Trabalhar como? P'ra ganhar o pão? Não sei, é uma coisa dificílima. Ou então, o senhor está usando uma moeda totalmente desconhecida, que não tem valor. O senhor quer comprar; o pão está ali; o senhor tem a moeda: mas essa moeda não compra aquele pão. Como é que vou me alimentar, se a moeda que tenho não compra? Tenho que trabalhar para conseguir a moeda deles.
- Sim, irmão. A moeda virá a ter às suas mãos no momento oportuno, quando a fome chegar.
Mas terei que trabalhar com fome algum tempo.
- Não creio ... Você terá, talvez, a fome do intelecto ..
- Preciso que alguém me empreste, mas ninguém me emprestaria.
- Deus empresta. O Cristo empresta.
- Ninguém teria confiança de nos emprestar uma moeda, sabendo que não somos bons credores.
- Não, meu querido. Não tenho a moeda e não tenho condições de emprestar, mas o Cristo tem. Ele confiou em nós. Ele nos deu tarefas para executar, não porque sejamos perfeitos, mas sabendo de nossas imperfeições. Portanto, ele confiou. E se falhamos aqui e acolá - é claro que falhamos - nem por isso ele nos abandonou.
- O senhor nos leu uma lição interessante. - (Trata-se de texto mediúnico lido durante a semana com o pensamento voltado para a comunidade dos queridos companheiros gregos, aos quais nos ligamos por laços de profunda afeição e respeito). - E aquilo foi a maneira de mostrar o que teremos que fazer. Não há outro caminho. Já fizemos os dois caminhos anteriores e falhamos. Mais de dois ... os caminhos todos, os caminhos da sua lição.
- Mas falhou o caminho do amor?
- É o único que não fizemos. Por isso estou dizendo: fizemos os dois caminhos anteriores. Não fizemos este ...
- Pois é. Este não é tão difícil assim, porque o amor é uma força, uma energia.
- Não tenho mais argumentos para debater com o senhor.
Não tenho mais nada a dizer.
- Não, meu querido. Não estamos aqui para debater e sim para levar ao seu coração a nossa mensagem de profundo respeito por essa perplexidade, a nossa vibração de amor fraterno, de gratidão pela oportunidade que vocês nos concedem de trazer aqui, a nós, antigos companheiros de lutas intelectuais, esse testemunho. Muito obrigado. Não se desespere, não desanime. Há um trabalho realmente muito grande a fazer.
Isso é muito, talvez, confor... tativo? Como deverei dizer?
Confortador .
- ... confortador. É possível que seja. Na prática, meu caro, quando tivermos que colocar na prática ...
- Eu sei. Não estou tentando iludir. Você sabe da sinceridade da nossa maneira de ser.
Estamos muito condicionados a uma determinada conduta.
Sim. Vai ser difícil, mas não impossível. O trabalho é longo, um trabalho de reconstrução íntima, mas vocês terão todos os elementos, contarão com a colaboração de companheiros muito esclarecidos. O resto ... você sabe. É uma nova fase importante da vida espiritual de cada um de vocês. Sempre costumo dizer que a ave tem que quebrar a casca do ovo para sair para a vida. Ela não pode ser quebrada de fora. E esse esforço pessoal que colocamos naquilo que é preciso fazer é que nos define como seres humanos. Você diz que não tem nada a dizer. Eu também, querido companheiro, não tenho nada para ensinar-lhe, a não ser essa mensagem de amor.
- Pois é essa que não entendemos ainda. A esta é que não estamos habituados.
- Você não sente essa linguagem inarticulada do afeto em todos nós? Precisa expressar? Isso tem que ser colocado em determinados pontos da Filosofia? O amor simplesmente é, ele não precisa explicar-se.
- Que fazer agora? É isso que cada um de nós se diz. Não queríamos nos separar. Nós nos estimamos muito. Que faremos? Que faremos? Um olha para o outro e diz: Que faremos?
- Começar a vida, em nova fase. Já se recomeçou tantas vezes, por que não se pode recomeçar mais uma? Isso de você dizer que vão se separar, não é verdadeiro.
- Somos um grupo que vem unido há muito tempo. Podemos ter muitos defeitos, mas temos essa coisa boa entre nós.
- Meu querido, neste grupo ... deste grupo faço parte eu também. E não me considero separado de vocês.
- O senhor já seguiu mais na trilha que nós ainda nem começamos.
Sim, mas não estamos juntos? Como juntos?
Não estamos aqui a conversar? Não estamos unidos pelo pensamento, pelo aprendizado, pelas oportunidades. ..
- Sei ... sei ... mas vamos recomeçar sozinhos, sei lá ...
- Não. Ninguém está sozinho neste universo, meu querido irmão. Por favor, vamos começar a alijar esses conceitos dogmáticos, É uma outra visão da vida.
- Mas eles também são reais. Podem ser dogmáticos, mas são reais.
- Se você considera real um dogma, você não está ainda - e é compreensível que não esteja - não está ainda tendo a visão mais ampla, Como disse a você e repito: somos todos companheiros. Aquele companheiro maior que temos lá no mundo espiritual continua a ser do nosso grupo. Somos um só grupo, não apenas pensadores, trabalhadores do pensamento na Grécia antiga, mas nós, filhos de Deus.
- Segundo disse nosso companheiro, ele se transformou numa luz e nós não somos ainda nem um pavio. Nem um pavio somos ainda! Nem um pavio apagado...
- Não é tanto assim. .. Há muita conquista que vocês já conseguiram.
É uma realidade, meu amigo ...
Há muito trabalho a fazer, de fato, mas nada é impossível.
Ainda temos que construir o pavio para depois poder acendê-lo ...
- Sim, é claro, Não há dúvida alguma, mas não sozinhos, .. Deus está em nós.
- ... isso para sermos uma vela! Ainda ... A primeira etapa para começar qualquer iluminação, Primeiro o pavio. É verdade, mas a luz está em nós.
Sim, mas se falta o pavio, não podemos nem acendê-la. Quando o nosso Pai colocou em nós a fagulha da consciência, da sua essência divina, nos deu uma luz inextinguível. Ela está aí no fundo do seu ser, tanto quanto está no meu. É preciso apenas...
- É preciso fazer como o selvagem, não é? Esfregar as duas pedrinhas, esfregar os pauzinhos para poder produzir a faísca.
- Não estamos falando de fogo e sim de luz. A luz está em nós. É preciso cultivá-la dentro de nós.
- O fogo é luz.
- O fogo queima, a luz ilumina.
- É ... meu amigo. Estamos assim ... Todos nós. Os que restamos ainda. Sentamos em volta daquela mesa. .. Antes gostávamos de sentar para produzir a força, para provar a cada um de nós ... um provar ao outro - o quanto tinha ampliado o seu raio mental. E agora nos sentamos assim ... e nos perguntamos:
"Que faremos?" Pela primeira vez, nenhum tem resposta. Nenhum de nós sabe o que dizer. É lamentável. .. Tá dispensamos todos os nossos subalternos. Eles seguiram aí os companheiros seus. Todos se foram ... são boas almas. E ainda ficaram preocupados conosco. "E os senhores?" Dissemos: "Ainda vamos ficar algum tempo". Precisamos pensar, precisamos re-coordenar ...
- Mas, por favor, irmão. Com toda essa angústia, esse sofrimento, nesse contexto difícil do momento, lembre-se de que não somos máquinas de pensar, somos criaturas de Deus. Voltemos nosso pensamento para Deus. De todas essas experiências na Terra, em várias existências, todos fomos expostos à luz do evangelho do Cristo. Retomem para exame, sob nova visão aqueles ensinamentos que ali ficaram.
- É. . . uma dificuldade ...
- Sim, é difícil. Mas ali está o caminho. Apanhem mais um livro e aprendam o b-a-bá do amor, o amor fraterno, sem interesses subalternos, sem paixões.
- Não estamos nem pensando nisso. Aquilo que vimos lá é outra coisa. O que o nosso companheiro viu não é amor-paixão, não é nada disso.
- O que é então?
- É algo transcendente. Não estamos pensando em termos paixão, de nada disso.
- Sim, meu querido. Onde começou a desenvolver-se aquele amor que ele viu lá? Não foi nas primeiras tentativas de compreensão, de fraternidade, de serviço ao próximo? De, pelo menos, tolerância. Tem que começar nalgum ponto. Tem que começar modestamente ... A árvore não sai pronta da semente.
- É uma coisa que talvez o senhor ache interessante. Não somos pessoas voltadas para paixões materiais, para os sentimentos e sensações da carne ...
- Mas a paixão não é só a carne.
- Buscávamos outra coisa. Buscávamos o saber, buscávamos resposta para os enigmas da vida. Queríamos penetrar o Universo para nos sentirmos parte dele. Penetrar nos mistérios da vida, as leis ... Enfim, tudo isso ...
- Sim, meu querido. A força que sustenta o Universo não é uma energia cega, é uma energia amorosa. Aí é que estaria o erro de avaliação em que vocês permaneceram por mais tempo do que teria sido necessário, mas, por favor, não me excluam do seu grupo. Conheço o pensamento de vocês, sou um de vocês, também. Espero que assim me considerem e continuem a considerar.
- E o que é mais lamentável, meu senhor, é que a maioria dos que estão aí do seu lado .. .(encarnados).
- São companheiros ...
- ... Companheiros todos nós somos. Estamos agora entendendo isso. Mas o que quero dizer é que a maioria dos que estão aí, ainda pensam também como nós, ainda buscam as glórias. Nós, pelo menos, não buscávamos a glória, a não ser a glória do saber. Isso buscávamos. Saber cada vez mais. E foi uma surpresa para nós perceber que quanto mais sabíamos, não sabíamos ainda. Não tínhamos chegado lá. " Isso era um incentivo para continuar buscando. Mas muitos aí ainda querem a glória da admiração do homem pelo homem.
- E o poder, o mando. Isso, é claro, vocês não buscaram.
- O poder, sim; porque a mente é um poder, a inteligência ... o poder da inteligência.
- Sim, mas não para dominar. Ele suspira desalentado.
- Esse recomeço é realmente difícil - diz o doutrinador
- Compreendo.
Ele faz uma pausa e diz: - Não sabemos orar ...
É a sua maneira de sugerir que façamos uma prece juntos e é o que fazemos a seguir. Terminada a prece, ele suspira e diz: - É... a vida pregou-nos uma grande peça. E o pior é que não temos nem ninguém a quem culpar. Não podemos nos culpar nem uns aos outros, porque estamos todos metidos nisso.
É. Foram opções livremente feitas. Estamos juntos nisso.
E vamos continuar juntos.
- É isso que o companheiro diz. Um deles disse: "Estamos juntos nisso e vamos sair juntos. Temos que sair juntos".
- É. Sair para outras opções. Não é necessário permanecer eternamente preso às nossas ilusões, às maneiras de apreciar as coisas unilateralmente. Vocês são espíritos habituados a aprender. Temos agora, uma nova lição para estudar. Não há nisso nenhuma humilhação, pelo contrário - aprender é sempre válido.
- Temos um dos nossos muito otimista. Ele tem dito isso.
"Não vamos ficar assim, não. Vamos sair. Estávamos numa trilha errada; temos que voltar e pegar outra".
- Acho até que nem é aprender - é reaprender, é realinhar o pensamento, reordenar as idéias. Já nos diziam na Grécia antiga que aprender é recordar.
- Agora compreendemos porque tínhamos tanto receio do senhor. Acho que intimamente devíamos saber que o senhor ia provocar tudo isso. E não queríamos enfrentar. Por isso, queríamos passar ao largo, não queríamos ...
De fato, os líderes da comunidade evitaram-nos enquanto foi possível, preferindo enviar ao nosso encontro servidores, digamos, mais neutros.
- Acho que vocês estão me supervalorizando. O fruto estava maduro.
Não. Não é supervalorização. O senhor provocou isso tudo.
Meu querido, levamos a vocês a nossa mensagem. Vocês resolveram aceitá-la. Foram atraídos, sim, mas não forçados, não arrastados.
- Não é isso. O senhor não entendeu. Não queríamos estar envolvidos com o senhor. É porque devíamos imaginar, devíamos saber que algo parecido ia acontecer. Não queríamos acabar com tudo o que tínhamos.
Insisto em dizer que não vai acabar. - Já acabou meu amigo.
- Meu querido, acabou aquela estrutura de pensamento, mas as idéias estão aí. Estou dizendo a você: precisamos apenas reordená-las, mudar o nosso enfoque. A cultura adquirida não se perde. Nenhum esforço próprio de construir alguma coisa em nós é perdido. Seja como for, não me reconheço com todas essas virtudes, a ponto de levar ...
- Não estamos dizendo que é virtude. O senhor não precisa se auto-defender, minimizando a sua posição. Não estamos dizendo que sua posição é esta ou aquela. Só estamos tentando entender por que, de início, tínhamos tantas reservas; não queríamos estar em contacto. É isso que queremos dizer. Não envolvimento. Procuramos evitar de todas as maneiras. É isto.
- Sim, fugindo do amigo e do irmão, que, afinal, tanto os admira e os respeita e os ama. Não é isso? Mais uma lição que ficou.
- O senhor faça por nós, ainda, o que for possível.
- Certamente o faremos. Obrigado. Conte comigo e com os nossos irmãos naquilo que for possível. Você sabe que temos limitações quanto a nós mesmos e temos também limitações quanto às leis divinas, que não nos podem permitir fazer aquele trabalho que compete a cada um de vocês. Mas vocês levam a mensagem do nosso respeito e de nossa ternura mais profunda e a certeza de que haveremos de nos encontrar todos lá na frente, para nos lembrarmos destas horas de dor, é certo, mas que também são renovadoras. Para recordarmos a nossa velha Grécia querida.
- É Que assim seja! Adeus. Até um dia, talvez, não sei quando .
- Até logo!
Não é preciso enfatizar - porque o leitor facilmente percebe - o quanto o nosso doutrinador se sentiu inadequado, insuficiente e até mesmo incompetente para tratar com esses companheiros singulares, que um caprichoso conjunto de circunstâncias colocou diante dele. Além de tudo, assaltaram-lhe o espírito as mais agitadas emoções da sua carreira de modesto interlocutor de tantos companheiros espirituais ao longo dos anos.
Não há, pois, o que acrescentar. Deixemos que o diálogo fale por si mesmo e que cada leitor encontre nele as suas próprias emoções, as lições de vida, e motivos para sua própria meditação.
Apenas um esclarecimento final que tornará inteligível certa menção feita pelo Espírito manifestante. O doutrinador costumava, nas suas meditações e preces diárias, como que dialogar mentalmente com esses caríssimos irmãos e milenares amigos, mentalizando-os no seu grupo, em torno da mesa em que debatiam problemas e estudavam temas culturais. Passaram mesmo a se reunir à hora específica das preces, hábito antigo nosso. Naquela semana a que ele se refere, foi lida e como que retransmitida ao grupo a belíssima mensagem "O mensageiro do amor", que traz o número 9, no magnífico livro de Néio Lúcio "Jesus No Lar", psicografia do nosso caro Chico. Esse é o texto a que ele se refere em nossa conversa, e que, a seguir, transcrevemos:
O MENSAGEIRO DO AMOR
Falava-se na reunião, com respeito à preponderância dos sábios na Terra, quando Jesus tomou a palavra e contou, sereno e simples:
- Há muitos anos, quando o mundo perigava em calamitosa crise de ignorância e perversidade, o Poderoso Pai enviou-lhe um mensageiro da ciência, com a missão de entregar-lhe gloriosa mensagem de vida eterna. Tomando forma, nos círculos da carne, o esclarecido obreiro fez-se professor e, sumamente interessado em letras, apaixonou-se exclusivamente pelas obras da inteligência, afastando-se, enojado, da multidão inconsciente e declarando que vivia numa vanguarda luminosa, inacessível à compreensão das pessoas comuns. Observando-o incapaz de atender aos compromissos assumidos, o Senhor Compassivo providenciou a viagem de outro portador da ciência que, decorrido algum tempo, se transformou em médico admirado. O novo arauto da Providência refugiou-se numa sala de ervas e beberragens, interessando-se tão somente pelo contacto com enfermos importantes, habilitados à concessão de grandes recompensas, afirmando que a plebe era demasiado mesquinha para cativar-lhe a atenção. O Todo-Bondoso determinou, então, a vinda de outro emissário da ciência, que se converteu em guerreiro célebre. Usou a espada do cálculo com maestria, pôs-se à ilharga de homens astuciosos e vingativos e, afastando-se dos humildes e dos pobres, afirmava que a única finalidade do povo era a de salientar a glória dos dominadores sanguinolentos. Contristado com tanto insucesso, o Senhor Supremo expediu outro missionário da ciência, que, em breve, se fez primoroso artista. Isolou-se nos salões ricos e fartos, compondo música que embriagasse de prazer o coração dos homens provisoriamente felizes e afiançou que o populacho não lhe seduzia a sensibilidade que ele mesmo acreditava excessivamente avançada para o seu tempo.
Foi, então, que o Excelso Pai, preocupado com tantas negações, ordenou a vinda de um mensageiro do amor aos homens.
Esse outro enviado enxergou todos os quadros da Terra, com imensa piedade. Compadeceu-se do professor, do médico, do guerreiro e do artista, tanto quanto se comoveu ante a desventura e a selvageria da multidão e, decidido a trabalhar em nome de Deus, transformou-se no servo diligente de todos. Passou a agir em benefício geral e, identificado com o povo a que viera servir, sabia desculpar infinitamente e repetir mil vezes o mesmo esforço ou a mesma lição. Se era humilhado ou perseguido, buscava compreender na ofensa um desafio benéfico à sua capacidade de desdobrar-se na ação regeneradora, para testemunhar reconhecimento à confiança do Pai que o enviara. Por amar sem reservas seus irmãos de luta, em muitas situações foi compelido a orar e pedir o socorro do Céu, perante as garras da calúnia e do sarcasmo; entretanto, entendia, nas mais baixas manifestações da natureza humana, dobrados motivos para consagrar-se, com mais calor, à melhoria dos companheiros animalizados, que ainda desconheciam a grandeza e a sublimidade do Pai Benevolente que lhes dera o ser.
Foi assim, fazendo-se o último de todos, que conseguiu acender a luz da fé renovadora e da bondade pura no coração das criaturas terrestres, elevando-as a mais alto nível, com plena vitória na divina missão de que fora investido.
Houve ligeira pausa na palavra doce do Messias e, ante a quietude que se fizera espontânea no ruidoso ambiente de minutos antes, concluiu ele, com expressivo acento na voz:
- Cultura e santificação representam forças inseparáveis da glória espiritual. A sabedoria e o amor são as duas asas dos anjos que alcançaram o Trono Divino, mas, em toda parte, quem ama segue à frente daquele que simplesmente sabe.
Hermínio C. Miranda