SIMPATIA |
"Podem
dois seres, que se conheceram e estimaram,
encontra-se noutra existência corporal e reconhecer-se?"
"Reconhecer-se, não. Podem porém, sentir-se atraídos um para o outro. É frequentemente, diversa não é a causa de íntima ligações fundadas em sincera afeição" (O Livro dos Espíritos - Questão nº 386).
Era uma casa onde moravam apenas bebês - uns vinte, e onde, de dia, frequentavam mais de cem crianças pequenas.
A Diretora sabia que era seu dever distribuir atenção, afeto e amor, por igual, a todas, sem exceção. Diziam que ela o fazia muito bem ... até o dia em que chegou um menino, magro, que fazia dó. Tinha quase um ano e o peso, não chegava a quatro quilos. Tão fraquinho, que não agüentava engulir o leite da mamadeira. Alimentava-se através de sonda nasal. Vocês sabem como é: um tubo de plástico enfiado pela narina a dentro, que desce pela garganta a dentro, passa por todo o esôfago, até atingir o estômago. Então, através de uma seringa, injeta-se o leite pela sonda, o qual logo cai no estômago.
Foi quando a Diretora resolveu aplicar-lhe a "Técnica do Amor".
Como se isso não bastasse, o estado de fraqueza gerado pela fome crônica diminuira-lhe tanto a resistência que contraiu pneumonia, o que obrigou um internamento na Santa Casa. As esperanças de que sobrevivesse eram mínimas. As preces eram constantes e os passes, sempre que possível, dados pela equipe mediúnica da Casa.
Ela sabia, pelos estudos feitos na Obra, às terças-feiras, que o afeto influi diretamente sobre as glândulas, sobretudo numa delas, chamada "hipófise". Passou então a levá-lo ao colo, de duas em duas horas, tendo o cuidado de pô-lo com a cabeça do lado do coração, para que dele ouvisse as batidas. Isso, ela aprendera de uma aula dada na própria Obra, por um neurologista, chamado dr. Rubens Metelo.
É claro que a pediatra da Casa, a dra. Eunice cuidava dele com a máxima atenção. Ninguém deverá supor que os espíritas fogem dos médicos e dos tratamentos deles ...
A verdade é que, em poucos dias, o menino se transformou a tal ponto e tão alegre passou a mostrar-se, que ninguém acreditava tratar-se da mesma criança.
A crise respiratória foi vencida e o menino teve alta, mas o quadro daquele corpinho esquálido no bercinho era desanimador.
No dia em que escrevo este relato, ele tem um ano e cinco meses. Já anda sozinho, com desembaraço, e está gordo até demais. A Dra. Eunice disse que essa gordura se chama "síndrome da desnutrição", que acontece entre aqueles que passam fome e depois se restabelecem.
Depois dessa transformação, nada mais natural que se firmasse entre ele e a Diretora forte vínculo de amizade recíproca, tão forte porém, que começou a preocupar. 0 encontro diário dos dois espelhava tanta felicidade que se tornou objeto de cuidados. Era necessário evitarem-se os excessos para que ninguém saisse machucado ... Foi necessário muito equilíbrio, o que era um dever.
A verdade porém é que a presença do menino provocou profundas alterações na vida da Diretora.
Os técnicos diziam ser consequência da transformação acontecida, dos contatos diários, mas outras crianças, igualmente tratadas, pois o processo da "técnica do amor" foi por ela generalizado, ajudou a reabilitar outras vítimas da fome e não lhe deixaram na alma, tão profundas marcas.
Foi quando o Altivo, Presidente do Centro Espírita Léon Denis, do Rio de Janeiro, de visita para uma palestra na Casa, médium de reconhecido equilíbrio, haurido da dedicação e do trabalho, esclareceu: - "Ele veio a você, minha irmã, para ajudá-la. Vocês são velhos amigos em reencontro".
Ninguém negará que os contatos diários geram amizades que se podem aprofundar, mas ninguém explicará porque elas se aprofundam com uns e não com outros.
Naturalmente a revelação trazia ressponsabilidades maiores, e não mero pretexto que justificasse exageros afetivos. É preciso que o amor promova o equilíbrio e não sirva de caminho para novas quedas ...
De mais a mais, foram testemunhados inúmeros outros casos, e que crianças que, a não ser pela fraternidade universal, nada significavam para uns, mas que eram objeto de apaixonado afeto para com determinada educadora da Obra. Diversas delas foram "vítimas" desses acontecimentos, que alguns classificariam de "instinto maternal". Verificou-se porém, que determinados relacionamentos eram espontâneos, imediatos e atingiam todo o grupo familiar da educadora.
Aliás isto acontece, cremos nós, em todas as Obras similares - que o digam seus dirigentes e trabalhadores em geral.
Não falta quem diga que a alma humana é povoada de mistérios, mas a verdade é que o Espiritismo reduz muitos deles ao nível da razão.
Demétrio P. Bastos