TESOUROS EM CUSTÓDIA

Na noite de 8 de dezembro recebemos mais um daqueles companheiros amados que durante tantos séculos mantiveram na sua comunidade do espaço o mesmo clima intelectual da Grécia Antiga e até a reprodução ambiental em que viveram, nos remotos tempos, cujo clarão enorme ainda hoje pode-se vislumbrar quando os nossos olhos se debruçam sobre as vastas paisagens da história.

Eles nos evitaram a todo custo - como um deles confessou - não porque nos temessem ou nos odiassem, mas porque temiam ser dissuadidos a abandonar toda aquela estrutura de vida que haviam recriado. Não é difícil entendê-los nos seus temores. Aquele era o seu universo, o abrigo, onde realizavam as coisas que sempre desejaram fazer: cultivar a mente, estudar os mistérios da vida, conviver com seres igualmente inteligentes e que se estimavam há muitos e muitos séculos. Não estavam empenhados em nenhum projeto sinistro de domínio do mundo, nem de subjugação de mentes alheias. Mantinham-se abertos a todos aqueles que desejassem aproximar-se para aprender, pois eram mestres milenares, tinham prazer em ensinar tanto quanto em aprender. Viviam um sonho, ignorando o mundo áspero que sabiam existir além dos limites "geográficos" do seu pequeno universo. Estavam agora ante uma realidade nova e chocante: desfizera-se o sonho bom, ruira o abrigo, tão penosamente edificado, e pairava sobre todos a melancólica certeza de que terminara para todos uma era de comodidade que subitamente adquirira os contornos de um programa de lutas e aflições para as quais não se sentiam preparados. Era, contudo, esta a realidade que lhes cumpria agora enfrentar. E eles se portaram com uma dignidade e uma firmeza de caráter comovedoras.

Vejamos o que tem mais este amigo a dizer do que lhe vai nas profundezas do ser:

- Está tudo acabado...

- Não. Não está. Estamos começando e não terminando.

Estamos concluindo uma etapa, uma fase .

- Está tudo acabado, meu amigo.. Eu vou sentir falta.

As alamedas não existem mais. As esculturas ... tudo ruiu! E ruiu de maneira estranha, se bem que esperada. Não restam resíduos, porque eram formadas de substância mental. De forma que foram destruídas. E por mais que estejamos convictos - pois estamos convictos - de que os senhores têm a verdade, têm a resposta, que não quisemos ver ou não soubemos procurar - não sei - não lamento o que criamos. O que vivemos foi bom, enquanto estava lá. Mas tenho que lamentar que estivéssemos tanto tempo parados. A vida é um movimentar constante e nós paramos. Paramos dentro do tempo que é eternidade. Não que o tempo tenha passado à nossa volta ... Isto é mais ... é mais ... como direi? é o que mais nos deixa perplexos, porque, de certa forma, o tempo não passou. Não foi o tempo que passou e nós ficamos; os outros se foram; foram os outros que caminharam na mesma estrada que continua lá, parada, no mesmo lugar. Só que nós não caminhamos. .. Só que nós ficamos atrás porque não fomos.

Ouvimo-lo em recolhido silêncio, em respeito à sua dor, ao seu aturdimento. A sua voz é quebrada e lenta, pois é evidente que sentimentos poderosos a sacodem até às estruturas do seu ser. É um espírito habituado a pensar claro e alto, bem como um artista consumado, como ainda se verá. Lamenta a desintegração das belezas "materiais" que haviam criado, pois estavam habituados a conviver com o belo.

- Nossos companheiros estão partindo - retoma ele, após uma pausa - Os outros que aqui estiveram já partiram. E nós tínhamos haveres ... não haveres materiais - tínhamos livros, tínhamos ... coisas e todos eles têm deixado tudo. Trocam até a túnica. Aquele jovem, a quem todos aprendemos a amar, porque tem uma alma límpida e um coração generoso, estava feliz quando se despiu de tudo e nos disse: "Hoje estou nascendo de novo.

Hoje as Parcas me recebem, me fazendo um novo homem". Compreende o que estou dizendo?

- Sim, claro. Compreendo perfeitamente.

- E se foi, sabendo que vai caminhar para os espinheiros, a dor da dificuldade. (Longa pausa). O fator mais afligente para um coração não é nem a perspectiva das próprias dificuldades que terá que enfrentar, mas sim, antever as dificuldades por que terão que passar aqueles que por nós foram induzidos, e que não podemos evitar. É como se nós criássemos aquela dor.

- Sim, mas certamente será concedida a vocês, mais adiante, a oportunidade de trabalhar junto deles, para ajudá-los a saírem das situações que foram criadas. Você não acha?

Ele parece ponderar sobre essa observação e retoma:

- Tivemos uma reunião dos remanescentes, antes que os dois partissem. Eles estiveram aqui (no recinto do grupo mediúnico) um dia. No outro dia voltaram para a hora da prece (hora em que o doutrinador tem o hábito de orar, à noitinha) e depois juntaram-se a nós porque ... o senhor esteja certo de uma coisa: nós erramos juntos, mas nos amamos.

- Sem dúvida alguma. Entendemos perfeitamente isso.

- Nós nos estimamos. .. E cada um está procurando ser forte para sustentar o outro. Cada um está procurando ser alegre para não ver o outro triste. É como se fôssemos uma família que, de repente, vê-se desmembrada e nada pode fazer para reter o irmão junto de si.

- Acho que realmente a hora é difícil para vocês e como tenho repetidamente dito aos demais irmãos, os meus irmãos gregos, se tivesse sido possível fazer isto sem toda esta dor, o teríamos feito. Mas esteja certo, meu querido companheiro, que apreciamos muito, do fundo do coração, a nobreza, a dignidade, com que vocês se portaram nesta situação difícil, que reconhecemos ser muito difícil bastante triste mesmo. Como você sabe, não é fácil contemplar assim o passado e verificar - como você diz - que os outros foram e nós ficamos. Mas tenho procurado também levar a vocês, além desta palavra de respeito e esta vibração de muito afeto, a certeza de que vocês todos têm um potencial maravilhoso de trabalho a realizar. Perdeu-se tempo em relação ao cultivo do amor, é verdade, mas o tempo não foi desperdiçado na conquista do conhecimento que vocês adquiriram. É questão agora de mudar o rumo da aplicação desse conhecimento, para servir à causa do Nosso Pai.

- Eu também voltei à Atenas destes dias. À Atenas interior. E só encontrei ruínas ... É como o belo templo de Apolo, que era o símbolo da beleza que cultuávamos. É como o belo templo de Apolo que já não existe mais senão em ruínas e escombros e eu sei que se fôssemos reconstruir o templo teríamos antes que acabar de derrubar todos os escombros, porque você não pode por remendo no que está errado. É preciso derrubar tudo para começar de novo. Então, tem que haver um tempo para derrubar os escombros que faltam, para só depois começar a reconstruir. E eu tenho escombros, meu senhor, na minha vida.

- Quando você começa a remover os escombros já está no período da construção.

Ele ouve, faz uma pausa e retoma. A voz vai-se quebrando cada vez mais com os estilhaços da sua emoção, da nossa emoção, pois todos ouvimos no mais respeitoso silêncio:

- Eu, quando na terra fui abençoado com família, mas esqueci que a família era um dever e eu só via a arte; a família eu usava como seres que estavam ali para servir ao grande senhor, quando eu é que fui colocado ali para servi-los.

- Você vê que tudo isso são lições muito preciosas que aprendemos todos pelo processo às vezes difícil da dor, mas são as que mais se gravam em nosso coração, porque vocês precisam, como todos nós, dessas matrizes para não falhar de novo.

- É interessante ... Nós que sempre meditamos os ensinos do Cristo, que os analisamos, que os estudamos - é claro que, se lidamos com idéias, não podemos ignorar uma idéia  Mas na verdade, nunca os sentimos. E agora parece que a cada passo que temos de dar, estamos vendo ... Não é pensando, é vendo ... É como se seus escritos, que antes estavam na nossa cabeça, agora estivessem materializados ali.

- Você se lembra da passagem em que ele diz que se os homens se calassem, as pedras falariam ...

- Estamos vendo! Estamos ouvindo ... E cada vez mais nos certificamos de que a inteligência e a mente podem formar, podem modelar, mas só o amor dá o sopro da vida!

- É verdade. E é por isso que aquela região de vocês se desmaterializou. Faltou ali o ingrediente do amor. Mas, graças a Deus, vocês não usaram o ingrediente do ódio. Vocês são seres sem ódio. Isso nos permitiu chegar mais rapidamente ao coração de vocês. E foi mais ... não digo mais fácil, mas foi mais possível despertá-los.

Os senhores tem sido muito bondosos conosco. Achamos que está intercedendo por nós aquele ser a quem tanto amamos (Sócrates), e, porque cada companheiro está sendo levado ao lugar com o qual suas idéias se afinizam melhor. E eu fui levado a um lugar que não sei como delimitar na geografia do espaço, em que via peças que pareciam vivas. Que estavam vivas! Porque foram feitas com ... com amor. Há qualquer coisa ali, na expresssão, que faz com que as nossas esculturas sejam estertores diante daquela beleza. Há uma luminosidade, algo que transcende. E o senhor sabe? Que nesse parque as esculturas curam! Existem quadros, mas não quadros estáticos numa parede. .. São quadros vivos, são paisagens criadas para onde eles levam os doentes e os deixam repousar. Não sei entender o que é isto ... Nunca pensei que isto fosse possível. .. O senhor acha que isto é possível?

Claro, meu querido. É possível.

Que se possa criar com a mente quadros VIVOS que curem?

Em tudo aquilo em que você coloca o amor, o amor se irradia dali também. Naturalmente, a finalidade foi a de mostrar que você também um dia vai fazer aquilo. Como você sabe, a arte é uma coisa só - ela se manifesta em cada vida de uma forma: na escultura, na poesia, na música ...

- Eles nos disseram que no Universo nada é criado sem um fim útil. Que enquanto o homem criar apenas para satisfazer o objetivo do seu próprio orgulho, ele não será capaz de criar a vida (Criar vida é atributo de Deus, mas é certo que a Divindade delega a seres superiores a faculdade de modelar e dirigir as correntes da vida). Ele não será capaz, oh meu Deus! ... ele não será capaz de servir realmente. A minha mente, que eu julgava tão poderosa, não me permitiu apreender tudo o que eu vi, todas as lições que me foram ministradas. E posso até estar transmitindo para o senhor algo distorcido, porque é algo tão grandioso que sinto a pequenez do meu cérebro para guardar e apreender tudo.

- Você observou ainda que mesmo aqueles que estão construindo essas obras maravilhosas, também tiveram de passar pelo aprendizado por que você passou, realizando suas obras aqui na pedra, na tela, na pauta musical. Nada do que você aprendeu é para desperdiçar-se, nada é perdido.

- Sim, mas eu poderia ter usado isso tudo com um fim útil. Eu cultuava a beleza, mas não era o belo, era ... Eu queria mostrar a beleza que eu era capaz de criar! Eu queria que através das minhas obras, vissem o quanto EU era belo! O quanto eu era poderoso, por poder transmitir tanta beleza numa forma estática. Eu esqueci que sou ... sou uma criatura ... Querendo criar, me julguei criador e esqueci que sou uma criatura ...

- Sim, mas você aproveitou o aprendizado. Você acumulou. Você sabe que em todas essas nossas vidas utilizamos nossos talentos de maneira imprópria ou totalmente errada, muitas vezes; mas o conhecimento ficou em todos nós ... Também já usei a palavra da maneira mais imprópria possível. Estou tentando agora acertar. O dom de criar com a palavra é o mesmo: depende daquilo que você põe ali.

- Sim, mas se você não cria com um fim útil, a sua palavra morre, é vazia e passa a ser um peso inútil na economia da vida.

- É. Até que seja compensada pela palavra criativa, que consola: a palavra do amor.

- Disseram-me já: "Vocês se esquecem de que a natureza é uma eterna doação de Deus". Senhor! Há mais sabedoria numa árvore que deita seus galhos para o passante sem perguntar quem ele é, sem cogitar se está até sacrificando a postura dos galhos - ela apenas se contenta em dar a sombra - do que na tola fantasia de um homem que se arvora racional, achando que está no mundo para que todos sejam árvores para ele. O senhor me perdoe, mas é que, juntos, nenhum de nós pode expressar-se assim. Nenhum de nós tem coragem. E sinto uma opressão tão grande! Eu precisava tirar essa amargura de dentro de mim.

- Eu sugeri a um de nossos irmãos e companheiros que esteve aqui que, ao voltar para lá. vocês todos se reunissem e fizessem esse desabafo. Seria mais uma atitude de nobreza, de coragem. Por favor, não pensem que estão se fragmentando. Esta ligação, assim, visível, permanente: a presença de uns perante os outros é claro que, por algum tempo, vai ficar quebrada, mas ...

- O senhor já imaginou? Para que o senhor tenha idéia de como estamos nos sentindo, o senhor pode imaginar um pianista que ama a música mais do que tudo e que é levado a um lugar onde encontra pianos transcendentais, capazes de emitir sons que ele jamais ouviu e ele sente a alma tocada, mas quando quer sentar-se ao piano, não pode, porque ainda não tem leveza suficiente e terá que voltar para recomeçar no instrumento primitivo. É assim que vejo as minhas mãos. .. Terei que transformá-las em instrumentos rudes ...

- Lembre-se de uma coisa, meu querido. É exatamente a profundidade dessa emoção, dessa frustração que você, de certa forma, colheu ao comparar isso com o que você ainda vai alcançar, que vai fixar no seu espírito a certeza de um ideal que você precisa atingir quando estiver aqui na carne.

- Mas eu podia estar lá ...

- Sim, meu querido. Eu sei. Todos nós podíamos estar muito mais à frente. Todos nós. Acho que você está sendo um pouco rigoroso demais consigo mesmo. Claro que todos nós podíamos estar muito mais à frente, mas o tempo não foi todo desperdiçado.

- De repente me dei conta que sinto saudades, que tive amores, que tive família, e simplesmente estou perdido no universo, como uma gota de chuva no oceano.

- A gente nunca deve dizer que teve amores; o amor a gente tem, porque ele é. Aqueles a quem você amou não desapareceram. São espíritos.

- Sim, mas eu os perdi no caudal do tempo.

- Não. Você não os perdeu. Eles se afastaram porque seguiram outros caminhos. Como você diz. "os outros passaram" e você ficou. Mas eles não deixaram de te amar. Você já se encontrou com alguns deles, a não ser aquele nosso pai espiritual?

- Não, senhor. Não encontrei ninguém.

- Ainda não. É certo que vai estar com eles. Você sabe que enquanto vocês estiverem lá, todos esses irmãos, esses companheiros maravilhosos, tinham um desejo muito ardente de chegar até vocês e ouvir palavras como essas que você acabou de dizer - que tem amores ...

- Falo como mendigo que diz: "Tenho tesouros mas não sei onde estão. Não posso movimentá-los e por isso ando em andrajos".

- Os nossos tesouros de amor estão no coração. E nessa fase em que vocês cultivaram a inteligência, o coração não regrediu, e se o amor esteve lá antes, continua ali. A chama do amor é inextinguível em nós, porque é uma doação direta do nosso Pai.

- Meu Deus! Por que alguém não plantou o Cristo em nosso coração?

- Meu querido irmão. Todos nós tivemos oportunidade de ser expostos à sua doutrina. Quando o nosso Paulo levou a mensagem a Atenas, talvez não houvesse entendimento. Eu disse uma vez que os gregos eram muito felizes e o cristianismo medrou mais facilmente no coração dos que sofriam. Você vê que temos, às vezes, que passar pela dor para entender o amor.

- O senhor sabe? Às vezes penso que ... vivemos uma cultura milenar, onde o homem se confundia com os deuses. Acho que isso foi um mal, porque nos movimentávamos tanto no meio das divindades que acabamos achando que éramos parte delas, que éramos também divindades. E que por isso éramos seres de exceção.

- É verdade isso. Também penso assim. Aquilo induziu um certo modo de pensar em todos nós.

- Acho que no fim nos julgávamos filhos dos deuses, como nas lendas ... Tínhamos tantas lendas sobre os deuses ... Eles se casavam com as mortais. Nós nos julgávamos também deuses.

- É. Aquela mitologia toda tem um simbolismo muito bonito, muito autêntico, muito instrutivo. Um dia construiremos outra Grécia, outra Atenas ... com os ingredientes do amor. Espero merecer a alegria de estar junto de vocês todos. Graças a Deus foi possível chegar a vocês antes que venha a hora da separação.

- Vou dizer ao senhor um fato que me aconteceu. Quis uma vez esculpir um Cristo para adornar uma de nossas alamedas. Mas eu não queria um Cristo na cruz. E o mais estranho é que toda vez que eu ia trabalhar naquele Cristo, não conseguia. Ele saía sempre meio Apolo, meio Zêus, meio qualquer coisa, mas não conseguia. .. Às vezes achava que estava muito boa, chamava um companheiro e dizia: "Você está vendo?" E ninguém via o Cristo. Faltava uma cruz, faltava uma coroa de espinhos, sei lá ...

- Você sabe que vemos o Cristo assim como você tentou reproduzir. Não o vemos pregado na cruz.

- Sim, mas acontece que eu acho que era o meu orgulho que assim fazia.

- Você está sendo muito rigoroso, meu irmão. Vamos construir em cima disto alguma coisa, alguma esperança. Você viu os ideais, as metas, nas realizações daqueles companheiros maiores. E isso não lhe causou inveja e sim estímulo para crescer também. Vamos utilizar dessas marcas que ficaram tão fundas na sua memória espiritual para que sobre elas você possa construir aqui, encarnado, conosco, as coisas com que você sonha. Aquele que traz a beleza no espírito, fatalmente terá que trazer também o amor no devido tempo.

- Tive também esta semana uma entrevista com o senhor que dirige os trabalhos e lhe perguntei: "Nós lemos tantas vezes os escritos dos Apóstolos ... Procuramos tanto penetrar na filosofia das idéias, por que não vimos estas coisas?" E ele nos disse: "Ah, meu irmão, infeliz daquele que acredita que precisa apenas ler, pesquisar, e estudar os escritos do Cristo, porque estas coisas os olhos só vêem vivendo-as. Não são os olhos da carne e sim os do espírito. E só vivendo as lições poderá um dia o homem chegar a penetrar a sua real significação". Isto tudo é bastante traumatizante.

- Mas como lhe disse e insisto: É exatamente por causa disso a que você chama de trauma que você vai fixar melhor os seus objetivos, porque aqui na carne a gente esquece. Com esse impacto você vai ter condições de manter acesa essa chama do ideal que está agora bem fixada na sua mente.

- Sempre pensei que o Cristo era grande. Tinha que reconhecer. Mas nunca imaginei que fosse tão grande! Só um ser tão grande poderia, com tanta simplicidade, mudar o mundo.

- E não mudou mais porque relutamos até hoje.

- Esse senhor me disse também, quando lhe perguntei isso: "A raiz da verdade está nas coisas simples, não nas complexas."

- Por isso Ele dizia que a verdade se revelava mais facilmente aos pobres e ignorantes, porque ela chega diretamente, através do coração. É por isso que nunca podemos compreender a Deus, mas somos capaz de amá-la.

- E agora, meu senhor? E agora?

- Agora, é o trabalho. Você não tem medo do trabalho nem de recomeçar e de reconstruir.

- Não. Não tenho medo de nada!

- Pois é. Só o tempo passado, que realmente foi mais do que teria sido necessário: mas a natureza continua aí, como disse aquele outro companheiro, para que, na sua doação constante, nos ensine as lições que nos levem a fazer alguma coisa. A presença da gente no mundo só se revela quando o modificou melhor depois que por aqui passamos, por menor que seja a nossa contribuição de beleza, de amor, de realização humana.

-É. O senhor tem razão. A prova está na nossa própria e amada Grécia. Não existem mais as obras grandiosas do homem, todas ficaram no tempo e perderam-se.

- Pois é, mas muitos daqueles espíritos seguiram à frente e estão em condições de, um dia, reconstruir esse mundo, quando chegar a época certa, que não tarda ...

- É estranho isso. Que enquanto as nossas obras finas da beleza, da perfeição da forma se perderam, em cada coração que ama a gente encontra a imagem do Cristo vivo, que não se perdeu.

Faz-se uma pequena pausa. O amado companheiro continua emocionadíssimo, mas está mais calmo.

- Gostaria tanto de apagar esse passado num instante, e acordar de repente do pesadelo.

- Por favor, não encare isso como um pesadelo, Vamos olhar para frente. Vamos levantar a cabeça. E, como tenho pedido muito a vocês, vamos fazer uma reavaliação, um reexame naquilo que o Cristo deixou como legado de sua sabedoria, para esse trabalho sobre o qual falou o nosso irmão - ver com os olhos do espírito - ver fazendo, realizando, empreendendo dentro das estruturas que ele nos deixou.

- É, eu lhe ouvi esta semana (Refere-se às meditações do doutrinador) .

- Lá estão espíritos de muito valor, companheiros nossos antigos que amamos e respeitamos pelos seus legados, não só de beleza material, mas também acerca das suas meditações, de sua cultura, que são válidas, muitas delas, até hoje, O nosso Aristóteles, por exemplo, deixou uma obra que até hoje é lida com respeito, apesar das suas conotações materialistas, mas que beleza de espírito, que nobreza de sentimentos! Tudo isso nos traz um grande respeito pelas tarefas que vocês todos realizaram. Infelizmente, como disse um de seus companheiros aqui, para o vagão que precisava de dois trilhos, apenas um foi usado.

- Foi isso que nós fizemos ...

- Mas, nesse trilho em que vocês se desenvolveram, o aprendizado ficou, o conhecimento ficou e será utilizado depois. No momento em que vocês se dispuserem à tarefa da reconstrução, já imaginou quanta coisa boa podem fazer?

- É, senhor, quando se tira de um homem uma perna, ele continuará a caminhar, mas não com tanta presteza. É isso que vai acontecer conosco. Ainda teremos que carregar conosco o peso da mutilação.

- É verdade, meu querido, mas o coxo pode ajudar o cego. Faz uma pausa e prossegue:

- O senhor tem no seu círculo familiar uma alma muito sensível aprisionada num contexto adverso aos seus anseios interiores. Tenha muito amor para com ele, porque uma alma sensível se alimenta de amor. Oh! a aridez da inteligência! É como um fogo frio, que não aquece ...

- É. Uma vez perguntei isso, lidando com alguns companheiros nossos daquela época: que estava fazendo eu no meio deles, de vocês ... Eu ainda não sabia das nossas ligações ... Um dia voltaremos todos para tentar arrumar o mundo, não é verdade? (Ele chora). Não se desespere.

- Se posso dizer-lhes alguma coisa das minhas experiências, o que vejo agora é que nunca vi maior sabedoria do que nas palavras que disse o Cristo: "Todo aquele que se exaltar, será rebaixado". O que se exalta nunca o faz por amor aos outros, e sim por amor a si mesmo. O que se exalta não quer subir para ficar mais forte e auxiliar melhor; ele quer subir para que todos vejam o quanto ele é grande. Por favor, ajude-me.

Neste ponto oramos de pé junto dele, e por ele, que ainda não sabe como falar com Deus e com o Cristo.

Depois da prece, nos despedimos:

- Leva o nosso afeto, nosso profundo respeito e carinho a todos aqueles irmãos outros ...

- Gostaria de deixar um recado para aquele companheiro (familiar do doutrinador). Diga-lhe, o senhor, que ele também perdeu a perna da arte, mas que é preciso caminhar com uma só com coragem e não se deixar corromper nas sombras do mundo, para não ter o desencanto de aportar na hora da chegada e ver que ainda não pode receber o tesouro que lá ficou em custódia. Eu sei que os tesouros das conquistas não são perdidos, mas ficam em custódia e ficarão até que demonstremos merecê-los.

- Muito obrigado. Você sabe o quanto estimo esse irmão. - Que o Senhor Jesus possa perdoar-me a insensatez.

Adeus, meu amigo e meu irmão.

E assim partiu o amado companheiro, deixando-nos uma fundíssima sensação de emocionada afeição.

Hermínio C. Miranda