EM TORNO DO BOM LADRÃO

"Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso." (Lucas.23:43)

Uma educadora católica fez uma preleção num grande Colégio de São Paulo, procurando justificar a unicidade das existências do Espírito, na carne, usando como tema as palavras proferidas por Jesus Cristo e pelo chamado Bom Ladrão, quando ambos estavam suspensos na cruz.

O Bom Ladrão, cujo nome é Dimas, certamente arrependido de sua vida desregrada e vendo a pureza de Jesus, fez ardoroso apelo: "Senhor lembra-te de mim, quando estiveres no teu reino", tendo o Mestre respondido: "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso".

No modo de ver da ilustre educadora, isso significa que não existe a Reencarnação, pois, nesse caso. Jesus teria dito que Dimas entraria no Reino dos Céus somente após ter novas vidas na Terra.

Há, no entanto, uma falha nessa interpretação. Ela não aquilatou a diferença da elevação espiritual entre Jesus Cristo e Dimas. O primeiro, o mais elevado Espírito que já desceu ao nosso mundo, e o segundo, até então era um ladrão, um facínora. Como poderiam ambos, com índices de elevação tão díspares, entrar juntos no Reino dos Céus?

Aqui cabem várias indagações:

- Jesus afirmou que a cada um seria dado segundo as suas obras. Quais foram as boas obras de Dimas?

- Dois dos Dez Mandamentos estipulam: Não furtarás e não cobiçarás as coisas alheias. Dimas praticou as duas coisas.

- Na Justiça Divina não cabe a promoção sem mérito, nem pela graça, nem pela fé, mas somente pela prática das boas obras. Somente elas são suscetíveis de impulsionar a criatura para a frente e para o Alto, aproximando-a cada vez mais de Deus.

- Um Espírito jamais poderá galgar em uma só vida física, na Terra, todos os degraus da evolução. Para que isso se concretize, torna-se necessário que tenha muitas vidas em novos corpos.

Ninguém desconhece que o Céu e o Inferno são estados conscienciais. O indivíduo, dependendo do rumo que emprestar à sua consciência e ao seu modo de vida, tanto pode viver num estado infernal como num estado de paz, de serenidade.

Entrar no gozo do Paraíso equivale a ter a consciência límpida, bem como estar a salvo de qualquer coisa que venha a acarretar arrependimento.

O arrependimento é a antecâmara da redenção espiritual. Jesus Cristo sentindo o arrependimento que se aninhara no coração de Dimas, prometeu-lhe a mudança do seu estado consciencial, significando isso que aquele arrependimento era o marco inicial de um processo de Reforma Íntima que ocorreria dali por diante, no decurso das reencarnações, colimando o ingresso de Dimas num estágio impregnado de paz e amor.

Se houvesse a possibilidade da solicitação de Dimas ser acatada no quadro da Justiça Divina, como ficariam os casos de milhões e milhões de pecadores de todos os matizes que existem no mundo? Haveria, nesse fato, um imerecido privilégio concedido pela Justiça de Deus, e ninguém desconhece que essa Justiça é eqüitativa, reta por excelência.

Paulo A. Godoy