OS SONOLENTOS

O Livro dos "Atos dos Apóstolos", capítulo 20, narra que um moço chamado Êutico ouvia prolongada palestra de Paulo de Tarso. Ele estava sentado em uma janela; ali adormeceu profundamente, enquanto Paulo prolongava o seu discurso; vencido pelo sono, caiu do terceiro andar e foi tido como morto. Descendo, para o socorrer, Paulo debruçou-se sobre ele e, abraçando-o, disse: "Não façais alvoroço, pois a sua alma está nele". Paulo subiu, partiu o pão e falou-lhes largamente, até o romper do dia, e depois se retirou. O moço foi levado vivo e todos ficaram satisfeitos.

Assim como Êutico, existem muitas criaturas que não sabem vigiar. Paulo fazia o seu discurso de despedida num ambiente todo iluminado, e o rapaz, que deveria ficar atento à palavra do Apóstolo, adormeceu sentado na janela e caiu bruscamente.

É de notar que Paulo, usando de grande acuidade, examinou o corpo do jovem e constatou que ele estava vivo.

A condição primária, para que Êutico continuasse a viver, seria que a alma se retivesse jungida ao corpo. Se os laços estivessem rompidos, Paulo não teria condições de fazer com que Êutico voltasse à vida, o mesmo, podendo-se dizer, das "ressurreições" narradas nos Evangelhos, tais como a de Dorcas, de Lázaro, da filha de Jairo e do filho da viúva de Naim.

Teria sido derrogação das leis eternas que nos regem, se houvesse ocorrido a volta de um Espírito ao seu corpo, após a ruptura dos liames que o ligava à carne.

Êutico se assemelha a certas pessoas que vão aos Centros Espíritas ou a outras Instituições Religiosas e ali dormem, com a diferença seguinte: não nos consta que essas pessoas atribuam a culpa a alguém, ao passo que alguns daqueles que dormem nos Centros Espíritas costumam acusar os Espíritos, dizendo: "Os fluidos estavam pesados", ou "a atmosfera estava brava". Ora, se estão num Cenáculo, onde imperam a boa vontade, o amor, a paz, é um contra-senso se afirmam que existem ali "fluidos pesados", ao ponto de fazerem adormecer os freqüentadores.

Conhecemos um confrade que, em qualquer conferência a qual ia, tão logo a reunião se iniciava, fechava os olhos e começava a cambalear, sonolento. No final da palestra, procurava o orador e dizia-lhe:

"Peço não reparar. Eu estava de olhos fechados, mas não dormia. Não sei o que acontece comigo, pois não consigo ficar com os olhos abertos durante as palestras. Deve ser influência dos Espíritos" (???).

Esse confrade, se estivesse como Êutico, sentado no parapeito de uma janela, também já havia caído.

Paulo A. Godoy