DE VOLTA DO "BERÇÁRIO NOVO"

Mãe, abençoe seu filho. Sou eu mesmo, de volta.

Prometi pintar por aqui sempre que o pano fosse descoberto para a estrada, e venho desejar ao seu coração querido a paz que vem do Alto. Pano descoberto recorda os meninos de circo de que o pai falava em outros tempos. O que há, "Véia", é que não me sinto com matrícula neste colégio das mensagens. Falha o merecimento, mas estou na sua, de irmão dos que sofrem. Não por mim, o acesso a que me refiro, mas pela remuneração à professora que é você. Agradeço por tudo.

Nosso ambiente está mais sereno, como seu Henrique desejava.

A princípio, aquele tumulto quase me enlouquecia, porque, por aqui também se perde o equilíbrio. Não seria paúra, mas uma espécie de chuva magnética dos raios mentais que me eram atirados. Foi assim e não foi assim. Henrique estava daquele modo e não estava. Que teria acontecido por trás das portas? E o negócio era esse aí. Barulho e perturbação. Movimento inútil de ondas que pareciam sempre longe da crista. E a ventania esquisita de forças me envolvia de todo, como se estivesse perdido numa estrada perdida, escutando seus chamados e vendo as suas lágrimas, na condição das pessoas que enxergam outras, quando algum relâmpago rompe as trevas.

Depois ... a tranqüilidade. A tranqüilidade que você me deu e pediu a todos os nossos, para mim.

"Véia", é isso. Não deixe a cabeça esquentar. Existe um Poder sobre nós que nos socorre sempre mais depressa quanto mais depressa se manifeste a nossa aceitação e a nossa paciência. Afinal de contas, a morte, como pessoa que ninguém deseja na Terra, caminha nas estradas do mundo todos os dias.

Aquilo que me sucedeu, devia suceder. Uns chegam à experiência física para tempo curto; outros dobram as fieiras dos dias e varam um século. Hoje, compreendo. A idade por si não vale, porque deste lado vale apenas aquilo de bom que colocamos no rio do tempo. Cada dia é momento de se entregar algo de melhor à embarcação das horas. Por isso mesmo, deixar o corpo cansado ou vigoroso, bonito ou feio é cousa somenos. Estamos juntos. Agora é a ocasião de pegar em seus instrumentos de fé e caridade, e seu filho vem fazendo o possível para atender às novas obrigações. Fazer o bem aos outros é o melhor investimento nas menores atividades do campo empresarial.

A gente por aí lutando com tanto empenho por alguns mangos na poupança, e aqui reconhecemos que se perdeu muito tempo nisso, quando poderíamos acumular outras espécies de benefícios. Câmbio estranho o câmbio de Deus. De um lado, ele sugere ganhar e de outro indica o servir para ganhar com razão. Mas, toca prá lá. Isso é com a filosofia.

Estou aqui em nosso recado para dizer que temos recebido os seus votos de paz e de encorajamento.

Um neto, "Véia" querida, é um tesouro. A chegada do Luiz Henrique (muito obrigado pela lembrança de meu pobre nome) foi para nós todos, mesmo aqui, uma felicidade muito grande. Pedimos a Deus para que o menino cresça até que se faça um gigante de bondade e compreensão, trabalho e progresso. Isso entre parentes, que garantem o corujismo na tradição, não é desejar de mais.

Agora, a fala da gratidão pelas flores do seu aniversário que as suas mãos nos levaram à terra que nos guardou a roupa em desgaste. Luta-se para não se falar em "cemitério", em nossos papos daqui, mas a pessoa acaba na referência mesmo sem querer. Inventaremos ainda outra palavra para essa imagem inadequada, como, por exemplo, "Berçário Novo". Estamos gratos. Aqui estão comigo o Izídio, o Jurandir, o Guimarães e o Oscar, todos muito reconhecidos às suas preces e às suas pétalas perfumadas. E outra notícia, temos recebido - digo eu, seu filho, - muito auxílio nas orações do nosso querido amigo Nicolau, o "São Nicolau" de nossa casa. "Véia", é isso que digo. Não nos falta proteção.

Trabalho aqui, temos nós na dose que se deseja. E o trabalho no bem gera sempre mais alegria. Aí, tínhamos nós dois dias de que não me esqueço: o 28 de agosto para chorar o Papai e o 8 de outubro para a nossa alegria no bolo de seu natal, bolo que você recusava e que, na verdade, não deixávamos para trás.

Agora, Mamãe, não deixe que a luz da alegria esmoreça em nosso grupo. As nuvens passaram. Queremos alegria e paz, porque ninguém aí na Terra esteja na ilusão de escapar. O reencontro é fatal porque a morte é certa. Mas não faço o apontamento por nota de menosprezo a ninguém. É só apelação para que você esteja calma e paciente, aguardando o dia diferente dos outros.

Envio muitas lembranças para Eduardo, Márcia e Ângela, Mário Lúcio, Luiz Antônio e um beijão aos sobrinhos.

Dona Lélia, receba o nosso respeito e reconhecimento. Nossos amigos Antenor de Amorim e Alvicto Nogueira estão presentes e rogam-lhe confiança no coração de filha e esposa.

Mamãe, eu queria terminar esta carta com um poema, no entanto, ofereço a você aquele nosso do violão. O "Menino da Porteira" fica sendo a canção de seu Henrique para você. Já varei a porteira da vida espiritual, mas continuo sendo o seu menino de sempre. Deixe que lhe beije as mãos. Mamãe, você sabe que um beijo de filho saudoso e reconhecido para as mães vem a ser uma estrela. A estrela de seu filho é tão pálida, mas é sua, porque o meu beijo é seu.

"Véia", fique com Deus e me dê sua bênção. Trouxe flores também, mas com uma diferença - elas são lágrimas de alegria e gratidão a Deus, por ser sempre mais seu. O pai Gastão e o Vovô Manoel estão comigo e deixaram um abraço.

Receba, querida Mamãe, o coração inteirinho de seu filho, sempre mais seu por dentro do coração.

Seu sempre

Henrique