PREPARAÇÃO PARA A MORTE

Antes que passemos ao estudo da mensagem a que demos o tíítulo de "Sonhos de Noivado Desfeitos na Terra", vejamos o que diz a questão 936 de O Livro dos Espiritos (Allan Kardec, O Livro dos Espíritos) :

"- Como as dores inconsoláveis dos sobreviventes afetam os Espíritos que lhe são objeto?

- O Espírito é sensível à lembrança e aos lamentos daqueles que amaram, mas uma dor incessante e irracional o afeta penosamente, porque ele vê nessa dor excessiva uma falta de fé no futuro e de confiança em Deus e, por conseguinte, um obstáculo ao progresso, e, pode ser, ao reencontro."

O Espírito, estando mais feliz no Além que na Terra, naturalmente dispensa lamentações.

Dois amigos são prisioneiros e encerrados no mesmo cárcere - prossegue Kardec - ambos devem um dia readquirir a liberdade, mas um deles a obtém antes do outro. Seria caridoso, àquele que fica, descontentar-se porque o amigo seja libertado antes dele? Não haveria mais egoísmo que afeição em semelhante atitude?

Em seguida, anotemos um capítulo da Revista Espírita - Primeiro Ano -- 1858 (Allan Kardec. Revista Espirita - Jornal de Estudos Psicológicos (Primeiro Ano - 1858, trad. de Julio Abreu Filho, Editora Cultural Espírita Ltda. - EDICEL - São Paulo, 1964 - pp. 16-17) - "Evocações Particulares" -, ao qual Allan Kardec deu o título de "Mamãe, aqui estou!":

"A sra. xxx havia perdido, meses antes, a filha única, de quatorze anos, objeto de toda sua ternura e muito digna de seus lamentos, pelas qualidades que prometiam torná-la uma senhora perfeita. A moça falecera de longa e dolorosa enfermidade. Inconsolável com a perda, dia a dia a mãe via sua saúde alterar-se e repetia incessantemente que em breve iria reunir-se à filha. Informada da possibilidade de se comunicar com os seus de além-túmulo, a sra. xxx resolveu procurar, na conversa com a filha, um alívio para a sua pena. Uma senhora de seu conhecimento era médium; mas, pouco afeitas uma e outra a semelhantes evocações, principalmente numa circunstância tão solene, pediram-me assistência. Éramos três: a mãe, o médium e eu. Eis o resultado dessa primeira sessão.

A Mãe: "Em nome de Deus Todo-Poderoso, Espírito de Júlia, minha filha querida, peço-te que venhas, se Deus o permitir."

Júlia: "Mamãe, aqui estou!"

A Mãe: És tu, minha filha, que me respondes? Como posso saber que és tu?

Júlia: Lili. (Era o apelido familiar, dado à moça em sua infância. Nem o médium o sabia, nem eu) pois há muitos anos só a chamam Júlia. Com este sinal a identidade era evidente. Não podendo dominar sua emoção, a mãe rebentou em soluços).

Júlia: Mamãe, por que te afliges? Eu sou feliz, muito feliz. Não sofro mais e vejo-te sempre.

A Mãe: Mas eu não te vejo! Onde estás?

Júlia: Aí a teu lado, com a minha mão sobre a sra. x (o médium) para que escreva o que te digo. Vê a minha letra ( A letra era realmente a da moça).

A Mãe: Tu dizes: minha mão. Então tens corpo?

Júlia: Não tenho mais o corpo que tanto me fez sofrer; mas tenho a sua aparência. Não estás contente porque não sofro mais e porque posso conversar contigo?

A Mãe: Se eu te visse reconhecer-te-ia então?

Júlia: Sim, sem dúvida; e já me viste muitas vezes em teus sonhos.

A Mãe: Com efeito, eu te revi nos meus sonhos; mas pensei que fosse efeito da imaginação; uma lembrança.

Júlia: Não; sou eu mesma, que estou sempre contigo e te procuro consolar; fui eu quem te inspirou a idéia de me evocar. Tenho muitas coisas a te dizer. ( .... )

A Mãe: Estás entre os anjos?

Júlia : Oh! ainda não: não sou bastante perfeita.

A Mãe: Entretanto, não te conhecia nenhum defeito; eras boa, meiga, amorosa e benevolente para com todos. Então isto não basta?

Júlia: Para ti, mãe querida, eu não tinha defeitos, supunha eu, pois mo dizias tantas vezes! Mas agora vejo o que me falta para ser perfeita.

A Mãe: Como adquirirás essas qualidades que te faltam? Júlia: Em novas existências, que serão cada vez mais felizes. A Mãe: É na Terra que terás novas existências?

Júlia: Nada sei a respeito.

A Mãe: Desde que não fizeste o mal em tua vida, por que sofreste tanto?

Júlia: Prova! Prova! Eu a suportei com paciência, pela minha confiança em Deus. Hoje, sou muito feliz por isto. Até breve, querida mamãe!

Ante fatos que tais, quem ousará falar do nada do túmulo, quando a vida futura se nos revela, por assim dizer, palpável? Essa mãe, minada pelo desgosto, experimenta hoje uma felicidade inefável em poder conversar com a filha; entre elas não mais separação; suas almas confundem-se e se expandem no seio uma da outra, pela troca de seus pensamentos.

A despeito do véu com que cercamos esta relação, não a teríamos publicado se não tivéssemos tido autorização formal. Aquela mãe nos dizia: Possam todos quantos perderem suas afeições terrenas experimentar a mesma consolação que experimento !

Acrescentaremos apenas uma palavra aos que negam a existência dos bons Espíritos. Perguntamos como poderiam provar que o Espírito desta jovem fosse um demônio malfazejo?"

Servindo-nos das notas que acompanharam a publicação da mensagem sob nossa análise, na Folha Espírita de novembro de 1976, com o título "Mensagem de João Jorge para o Pai" (Folha Espírita, São Paulo, novembro de 1976), concluamos este já longo capítulo.

1. "Maria José, nossa querida Zezé": Sra. Maria José Lima dos Santos, irmã do missivista desencarnado, cujo apelido familiar, de fato, é o citado na mensagem - Zezé.

2. "Meu bom irmão Antônio Garcia": Antônio Garcia dos Santos, cunhado de João Jorge.

3. "Mãezinha Laura": Sra. Laura Martins Pereira Lima, genitora do comunicante.

4. Mogi-Guaçu: cidade paulista, local do acidente.

5. Itapira: cidade do Estado de São Paulo, onde trabalhava João Jorge de Lima.

6. Vovô Manoel: Trata-se do Sr. Manoel Cândido de Lima, desencarnado a 22 de janeiro de 1926, avô paterno do autor da mensagem.

7. Vovó Gabriela: O Espírito se refere à sua avó paterna, Sra. Gabriela Inocência da Conceição, desencarnada a 01 de abril de 1973.

8. "Em verdade, os nossos sonhos de noivado se desfizeram na Terra, mas acima de tudo, somos irmãos. Nossa querida Regina é uma criatura admirável e logo que eu estiver tranqüilo, tentarei colaborar para vê-la feliz". João Jorge faz alusão àquela que lhe fora noiva na Terra: Srta. Regina Yara Di Giorgio.

9. Nome do pai do comunicante: Sr. João Cândido de Lima, residente em São Joaquim da Barra, Estado de São Paulo.

Concluindo, convidamos a atenção do leitor amigo apenas para dois pontos da mais alta importância.

a) a mensagem psicografada pelo médium Xavier, ao final da reunião pública do Grupo Espírita da Prece, na noite de 23 de julho de 1976, em Uberaba, alerta-nos quanto à necessidade da preparação para a morte, já "que a falta de conhecimento coloca noventa por cento de dificuldades nos problemas que a morte do corpo nos obriga a aceitar" ;

b) necessidade da conformação, da confiança em Deus, por parte dos que ficam. Depois de tantas considerações, numa tentativa de compreender a mensagem de João Jorge e revesti-la do valor que merece, não nos furtamos ao prazer de encerrar nosso estudo com um trecho que sempre nos oferecerá motivo para meditações profundas:

"Nossos familiares nos auxiliam em nossas doenças e provações do mundo... Por que não nos auxiliarem na renovação em que nos vemos, nós, os que perdemos uma estrada para entrarmos em outra?"

Fco.C. Xavier