| TUDO É BÊNÇÃO DE DEUS |
Querido papai, querida Mamãe.
Abençoem o filho de volta, ansioso de entendimento e de paz.
Abraço as irmãs queridas e ofereço aos amigos a minha simpatia e apreço.
Estou entre pessoas que desconheço, mas sinto-me em casa. A bondade está brilhando em todos. E através da luz que me cerca, posso escrever qualquer coisa.
Papai, primeiro ao senhor.
Venho pedir sua resignação qual o doente que solicita remédio.
Preciso disso, papai, a fim de viver aqui. Este viver aqui significa ajustar-me, compreender-me, aceitar as ocorrências e ser útil. Suas lágrimas formam um laço tão forte como aqueles nós nos quais prendíamos as reses no campo. Quero sair do círculo fechado em que me encontro e não consigo. Estou parado sem forças. Papai, a morte não é o fim. A vida continua. Lembre o pasto morto quando a chuva chega de monte e tudo que parecia secura e poeira torna a reverdecer. Assim é a vida quando termina no corpo. Rogo ao senhor e à Mamãe, tanto quanto às meninas, que não me lembrem hospitalizado nem morto. Aquilo se foi. Estou firme e refeito, mas estou fraco e doente, porque o pranto e especialmente agora o seu, meu pai, me revolve as entranhas do coração.
Às vezes melhoro, tenho esperança, a oração que vou aprendendo com calma me escora os pensamentos e consigo ouvir os mestres daqui com desejo sincero de lhes aproveitar as lições, mas logo me levanto por dentro, ouço, papai, os seus chamados ...
O senhor quer esmorecer por minha causa, busca as minhas lembranças e me pede quase me intimando, que lhe apareça. E a luta se estabelece, porque não sei quem chora mais, se o senhor buscando quase morrer, se eu mesmo tentando viver à força num campo de experiência que não mais me pertence.
É preciso, papai, que a conformação nos abençoe. Ou melhor, seu filho precisa de tranqüilidade e segurança. Viva, sim! O senhor e Mamãe precisam recordar que as meninas aí estão, que a família não se acabou e que se seu filho for auxiliado, poderá também auxiliar.
Sei tudo, sei que o senhor contava comigo como sendo o companheiro que Deus lhe dera, mas creia que ainda sou. Compreendia os seus projetos de futuro que eram meus. Para seguir seus passos, para imitá-lo, meu pai, o próprio estudo era pra mim sacrifício. Queria o campo, a beleza das árvores, as águas moventes, o ar puro e o gado - o gado que parecia nos entender.
Cresci para ser mais seu que mesmo de minha mãe, porque, em verdade, o sonho nosso era penetrar o sem-fim e respirar no verde grande, para construir coisas novas, mas quem de nós não é de Deus? E Deus, papai, queria seu filho para trabalhar ao seu lado, mas de outro modo. Não chore mais.
Levantemos o coração para a fé. Recorde com Mamãe tudo que era de mais lindo em nossa casa - a fé em Deus - e não a abandone.
Estaremos juntos, rezando. Mamãe encontrou o clima espiritual onde a resignação é sustentada com segurança, e peço-lhe pra seguirmos com ela à frente.
Não acredite que alguém teve culpa naquela corrida, que o Zé, o nosso Zé da Brahma, buscava se exercitar. Eu mesmo dirigia. Prometi que haveria de dar-lhe alguns macetes em matéria de equilíbrio nas grandes velocidades, e pisei confiante. O carro não se arrancou, porque, na verdade, era mais uma decolagem. Quase voamos, entretanto, veio o insucesso, a queda foi violenta. Não esperava que pudesse acontecer o que vimos. Quis gritar e dominar a situação, no entanto, fiquei imóvel, sem meios de falar o que acontecia. Lutei comigo mesmo, ouvi as vozes de todos os que se aproximavam desejando iniciar o socorro, mas, por fim, foi um sono ou semi-sono, porque nem dormia, nem deixava de perceber o que se passava em derredor. Depois, veio um sono grande a que me entreguei vencido.
Não passou muito tempo, e vi que estava em nossa casa. Era domingo à noite, quando me vi assim, como quem melhora depressa. Chamei por todos, entretanto, compreendo hoje porque ninguém me respondeu. Comecei a sentir medo, quando um amigo se aproximou, depois outro, não os conhecia, mas se identificaram de pronto.
O que vinha à frente se declarou meu avô Izídio, e o outro que me abraçou ternamente se afirmou como sendo, alguém da família, dando-me o nome de avô Sahb, ou melhor, bisavô, carinhoso e amigo. Logo após, uma senhora se ofereceu para socorrer-me e auxiliar-me a tomar um leito móvel, porque o susto me fazia então cair. Mais tarde, vim a saber que se tratava de Maria Luiza Teixeira, irmã que se disse, com muito amor, ser nossa amiga nas bênçãos de Buriti Alegre.
Chorei muito ao saber que perdera o volante e o corpo físico. Procurei pelo Zé, e sei agora que ele está sob o amparo de muita gente. E assim, desde aquele fevereiro de fim difícil, estou preso aos meus pais queridos. Hospitalizado me vejo porque não tenho a liberdade de agir. Estou atado ao poste de nossas lágrimas; papai, solte seu filho readquirindo a sua fé em Deus e o nosso trabalho, tudo vai melhorar. Nossos planos agora de Araguaína não se acabaram. Pense em nossa família e nos outros - nos outros rapazes que necessitam de proteção e amor.
Papai, e Mamãe, trabalharemos nas boas obras. O mundo espera seguidores de Jesus para levantarem a vida melhor.
Leila, Lau, vocês que se acham conosco, ajudem-me, colaborem com a Mamãe nas tarefas em auxílio das crianças mais necessitadas, não deixem papai chorando diante de meus retratos e de meus objetos de rapaz.
Tudo é bênção de Deus. Vovô Izídio e tia Nenê com o Padre José Joaquim, um protetor e amigo nosso, estão comigo, e deixam um abraço a todos. Eles dizem que têm pedido a Jesus por nós todos, sem esquecer que a vovó Laudelina pede por tio Tonico como pelos demais familiares do coração.
Queria escrever mais, no entanto, não posso.
Mamãe, agradeço o seu esforço por mim baseado na sua confiança em Jesus e em nossa Mãe dos Céus. Não deixe que a nossa casa esteja sem a luz da oração.
Papai, abençoe-me. Beijo as suas mãos. Orem pelo filho que ainda necessita de paz a fim de fazer a própria renovação.
Pai, auxilie-me. Peço-lhe para viver, e viver com muita saúde e coragem.
Lembranças a todos os nossos que ficaram na retaguarda, e recebam, papai e Mamãe, todo o coração do filho reconhecido, do filho que os acompanha agradecendo-lhes a vida e a esperança, sempre e sempre filho do coração.
Izídío