TUDO É VIDA E RENOVAÇÃO
DA VIDA

Querida Mamãe. Meu querido pai. Abençoem-me. Sinceramente, estou assim na posição de alguém que não sabe retomar-se com segurança.

Alguém que passou por acontecimento difícil de descrever, que perdeu as forças, que se arrojou a grande enfraquecimento, que ficou doente sem saber como, e volta à família para dar notícias. Tenho a cabeça parecendo engrenagem enferrujada; com muito custo vou movendo as peças. E preciso pensar, embora o vovô Acylino esteja aqui comigo com tia Raquel Bailão e outros protetores, quando a idéia de que me reajusto nos movimento, mais por impulsão deles do que por minha própria capacidade e diz que minhas informações são necessárias. Creio que meus queridos pais estão desanimados ... É o que deduzo do que ouço. Por isso, convalescente, qual me vejo, rogo à senhora, Mamãe, para que não deixe o seu coração devotado e carinhoso se arrebentar no sofrimento em que nos achamos, de instante para outro. Ajude-nos.

Não podemos, por enquanto, ficar, sem o apoio de casa. E nossa casa agora mais me parece um lago de pranto e de aflição. Não posso pensar em nosso ambiente, sem receber um golpe no espírito. Não estou reclamando. Não .

Que família conseguiria perder dois filhos de uma só vez e ficar imperturbável?

Compreendi, querido papai, no justo momento do carro arremessado sobre nós ...

Creiam, o senhor e Mamãe, que nossas conversas sobre o assunto do espírito e as poucas leituras que pude desfrutar me valeram muito. Procurei a conformação enquanto adivinhasse o rigor da provação que nos separava. Enquanto tinha a impressão de que o mundo desabava sobre nós, fiz forças para tentar algum auxílio ao Fausto, e à Walquíria e à companheira, mas era tudo uma espécie de tempestade concentrada em recinto estreito, como que a quebrar-nos as energias.

Procurei, por dentro de mim, onde estavam as orações de minha mãe, e as achei todas. Eram luzes na memória semelhando pequenas chamas que de repente acendessem para que eu não estivesse no escuro. Repeti no íntimo todas as preces de que me lembrava, ou colocava as palavras minhas nas estruturas que o amor de Mamãe e seu carinho de pai me puseram no coração. O sono veio rápido, um sono de injeção maciça quando a pessoa se vê obrigada a entregar-se sem qualquer resistência. Depois, nada mais vi senão que despertava com meu avô Acylino e com um amigo que me lembra parte de seu nome Luiz Pereira. Tia Raquel Bailão me disse que Fausto e eu fôramos transportados para uma Escola-Hospital ligada à Mossâmedes, informando que estávamos sob a proteção de Santa Damiana da Cunha.

Daí para cá, sei que fui levado à nossa casa algumas vezes, mas fico muito perturbado com as lágrimas de meus pais queridos, que não sei consolar. Ainda estou fraco, fraco mesmo. Fausto ainda não tem forças para se retomar. E de Walquíria é que mais nada sei. Quis saber alguma coisa do pobre doente que se fez instrumento de nossa prova, e meu avô Acylino me disse que se eu quisesse falar ao senhor e a Mamãe deveria primeiro, orar pelo causador do problema e desculpá-lo com todo o coração. Quero dizer-lhes que fiz isso com sinceridade e peço a Jesus que o proteja onde estiver, porque também não sei como ficou o pobre enfermo, que nos merece paz e compreensão.

Papai, olhe Mamãe e não deixe que ela venha a baquear. Lembremos o Celso Júnior, o Luciano, a Cybele e tantos entes queridos Aqui nós nos viramos com muitas saudades, mas procuraremos nos virar, desde que os pais queridos nos auxiliem.

A vida não termina quando o corpo cai estragado, ou inútil.

Penso que nós somos parecidos com as lagartas e as borboletas. As lagartas, ao que me parece, se arrastam no solo e nem sonham que um dia terão asas.

Chega um momento em que se acomodam no casulo, dando a impressão de refúgio fechado e, em momento determinado, saem para o ar de modo tão diferente que devem ganhar o espaço com grande assombro. Pois, comigo, o assunto é isso aí: "Asas não tenho, mas que a gente sai do corpo com outros recursos, não posso negar" ... Creio que os problemas são muitos, mas o maior de todos, é pedir-lhes para viver, para que não queiram vir para cá de maneira violenta. Mamãe, viva e ajude o papai, os nossos a viver. Agradeço à D. Trindade o que está fazendo por nós.

Se puder vê-los fortes, estarei fortalecido. Não consigo escrever mais. As lembranças parecem fora de mim, esperando minha memória sarar para repassarem aos lugares que ocupam em minha cabeça.

Não sei explicar, de outro modo, o que sinto. Vovô Acylino me afirma que o senhor, papai, compreenderá com Mamãe tudo que não posso escrever. Fausto não sabe que estou aqui, mas enviarei a ele as vibrações de reconforto que estou sentindo pelo fato de conseguir escrever.

Mamãe querida e querido papai, a morte não existe, tudo é vida e renovação da vida. Pretendo aprender muito. Por agora posso apenas trazer-lhes o coração.

Recebam os dois - os nossos maiores amores da Terra - Papai e Mamãe - um beijo nas mãos com todo amor e com a gratidão do filho, sempre o filho reconhecido.

Acylino