A PROVA: 3 CASOS
DA CLASSE 1

"Não se pode, em caso algum, destruir a prova testemunhal,
a menos que haja evidência ou probabilidade de serem
incompetentes as testemunhas, para julgar dos fatos de
que dão testemunha, ou que, ao darem-ne acerca de um
caso particular, se achem sob qualquer influência indireta.
Enquanto, porém, isto se não demonstre, tem-se que
aceitar o testemunho." Butler

Os capítulos antecedentes devem ser considerado; uma introdução ao assunto deste livro. Vou agora ao cerne da questão, especialmente no que diz respeito a prova, porquanto é sobre a prova que tudo repousa e que os argumentos se erguem.

Poder-se-á objetar que, primeiro, deveria vir a prova ficando para depois as deduções; acontece, porém, que num caso como este, importa, antes de tudo, preparar o terreno, a fim de que, precipuamente, se admita a possibilidade da comunicação e compreensível se torne o que numa sessão ocorre.

Neste capítulo, sumariarei três casos que incluo na classe "A 1"; no seguinte, ocupar-me-ei com três da Classe "A 2". Apresentá-los-ei em resumo, porque apenas disponho de espaço bastante para assinalar os pontos mais salientes de cada um.

Caso 1 da classe "A 1" - Levei comigo à casa de Sloan um irmão meu, logo depois de ter sido desligado do Exército, em 1919. Ele a nenhum dos presentes conhecia, nem foi apresentado. Também nenhum dos que lá estavam o conhecia, nem sabia que ele pertencera ao Exército. Tampouco sabiam onde estivera durante o período em que servira sob as armas. Como a sua saúde não lhe permitisse ir para longe, estacionara por algum tempo perto de Lowestoft, numa pequena aldeia chamada Kessingland e, depois, em Lowestoft mesmo, como instrutor de artilharia. Dadas estas explicações preliminares, passo a resumir o que consta nas minhas notas sobre este caso:

No correr da sessão, ouviu-se distintamente a corneta a mover-se ao redor da sala e várias vozes falaram por ela. De súbito, bateu em meu irmão no joelho direito e uma voz, bem à sua frente, disse: - "Eric Saunders." Perguntou meu irmão, se era a ele que a voz se dirigia. Resposta: "Sim." Replicou que devia haver algum engano, porquanto a ninguém conhecera com esse nome. A voz não era forte, pelo que alguém propôs que todos cantassem e, enquanto isso fazíamos, a trombeta bateu de novo em meu irmão no joelho, no braço e no ombro e com tanta insistência, que o levou a dizer: "Penso que será melhor cessarmos de cantar, porque está aqui alguém desejoso de me falar." Perguntou novamente quem era esse alguém e a voz, agora muito mais forte, repetiu: "Eric Saunders." Meu irmão, a seu turno, repetiu que a ninguém conhecera assim chamado e perguntou onde o encontrara quem lhe estava falando. A resposta foi: "No Exército." Meu irmão citou diversos lugares por onde andara: Aldershot, Bisley, França, Palestina, etc., mas cuidadosamente ocultou Lowestoft, onde permanecera a maior parte do tempo que passara nas fileiras. A voz respondeu: "Não, não foi em nenhum desses lugares. Conheci-o quando você estava perto de Lowestoft." Perguntou-lhe meu irmão porque dizia "perto de Lowestoft" - e obteve como resposta: "Você não estava então em Lowestoft, mas em Kessingland." Era esta uma aldeia de pescadores, cerca de cinco milhas ao sul de Lowestoft, e lá atravessara meu irmão parte do ano de 1917.

Perguntou à voz de que companhia fizera parte e, como não pudesse perceber se ela dizia "B" ou "C", inquiriu se se lembrava do nome do comandante da companhia. Respondeu o comunicante: - "Mac-Namara." Era o nome do oficial que comandava a companhia "B", naquela ocasião. Para ter uma contraprova, quis meu irmão dar a supor que conhecia quem lhe falava e disse: "Ah! sim, você era um dos meus artilheiros da bateria Lewis. não?" Resposta: - "Não, você não tinha mais as peças Lewis; elas eram Hotchkiss." Absolutamente exato, por isso que os canhões Lewis lhes haviam sido tirados em abril de 1917 e substituídos por peças Hotchkiss. Meu irmão dirigiu à voz ainda duas ou três perguntas capitais, como: qual o nome do seu alojamento (dele inquerente), ao que Saunders respondeu com exatidão, acrescentando: _ "Tivemos lá ocorrências dignas de nota, lembra-se da inspeção do General?" Meu irmão riu-se e retrucou que a guarnição era continuamente inspecionada por generais; não podia, portanto, saber a qual das inspeções se referia Saunders, que logo obtemperou: "À do dia em que o General fez que todos corrêssem acelerado em torno dele com as peças." Foi um incidente de que meu irmão se lembrava perfeitamente bem e que na ocasião divertira muito os homens. Saunders também disse que fora morto na França e meu irmão lhe perguntou quando se dera isso. Respondeu que em ano de 1917, na "Grande Remessa". Perguntou-lhe meu irmão por que chamava àquilo "Grande Remessa". Em resposta inquiriu a voz, a seu turno: "Não se lembra da Grande Remessa, quando o Coronel fez um discurso às forças em parada?" Referia-se a um excepcionalmente grande envio de tropas feito aquele mês para a França, única ocasião em que meu irmão se recordava de haver o Coronel ido pessoalmente dizer adeus aos seus homens. Continuando, Saunders agradeceu a meu irmão a instrução, que lhe dera, do manejo da artilharia, a qual, disse, lhe servira de muito na França. Perguntou-lhe meu irmão por que viera ali falar-lhe e ele disse: - "Porque nunca me esqueci de que você certa vez me prestou um grande favor." Meu irmão tinha vaga reminiscência de haver obtido licença excepcional para um dos artilheiros, devido a circunstâncias especiais; não se recordava, entretanto, se o artilheiro se chamava ou não "Saunders".

Cerca de seis meses depois do fato narrado acima, estando meu irmão em Londres, encontrou-se com o cabo que fora seu assistente de artilharia ligeira, no batalhão, por aquela época; narrou-lhe o caso que venho de relatar e perguntou se ele se lembrava de algum soldado de nome "Eric Saunders". Tendo sido, quase dois anos, instrutor de artilheiros, que se sucediam em turmas de doze, mais ou menos, cada quinze dias, depois de os submeter a exame e a uma inspeção geral, meu irmão os deixava, sem haver jamais estabelecido, com qualquer deles, relações pessoais que lhe facultassem lembrar-se de seus nomes. O cabo, não obstante conviver mais com os artilheiros, de nenhum tinha lembrança que assim se chamasse. Felizmente, porém, na tarde do seu encontro com meu irmão, trazia no bolso um velho calepino, em que costumava outrora escrever os nomes dos que estavam recebendo instrução militar, além de outras notas. Sacou-o do bolso e os dois se puseram a examiná-lo, até que chegaram a umas anotações relativas à Companhia "B", no ano de 1917. Logo deram ali com esta: "Eric Saunders, p. h. agosto de 17", riscada a tinta vermelha por cima. P. h. significava: plenamente habilitado; mas, embora soubesse o que queria dizer o traço a tinta vermelha, meu irmão perguntou ao cabo qual o significado daquele risco. Ele respondeu: "Não se lembra, Sr. Findlay, que eu sempre riscava a vermelho os nomes dos que morriam? Isto quer dizer que Saunders morreu em agosto de 1917."

Infelizmente, meu irmão não perguntara a Saunders qual o seu regimento e, assim, não me foi possível proceder a investigações sobre sua morte, visto como, sem essa indicação, não pôde o Ministério da Guerra fornecer-me quaisquer pormenores a respeito, dado que para mais de 4.000 homens de nome Saunders tombaram nos campos de batalha. A Lowestoft vinham eles de todo o país, para receberem instrução, de sorte que meu irmão não podia lembrar-se do regimento a que pertencera Saunders.

Sem embargo dessa circunstância, é notável este caso porquanto escapa a toda explicação pela fraude, pela telepatia, pela criptestesia. Não só nenhum dos presentes conhecia a meu irmão, como este não conhecia a entidade que lhe falava, tanto que ainda hoje não pode lembrar·se dela, pela razão de que centenas de homens foram instruídos por ele, a quem todos conheciam, mas que não tivera oportunidade de os ficar conhecendo individualmente. O presente caso contém catorze fatos distintos e exatos cada um dos quais ressalta do meu padrão "A 1". Alguns clarividentes que assistiram à sessão declararam ter visto Saunders em pé defronte de nós a falar, acrescentando que o viram sorrir, ao saudar meu irmão, antes de deixar-nos.

Caso 2 de "A 1" - Um dia, estando eu de visita ao Rev. John Lamond, meu amigo, dei com um quadro a óleo 'sobre a escarpa do seu fogão. Observando-o, declarou-me ele ser uma pintura feita em transe, pelo pintor David Duguid, falecido no princípio deste século. "Tem uma história esse quadro", disse o meu amigo e acrescentou: "Obtive essa tela quando, uma vez, há muitos anos, visitei David Duguid, em Glasgow; como minha família não acreditava nesse método de pintar, guardei-a numa caixa de folha-de-flandres."

Passados alguns anos, morto Duguid, meu amigo foi a uma sessão de voz direta, em Londres, e uma voz lhe falou, mencionando o nome David Duguid. - "O senhor certamente nenhum valor deu à minha pintura, Dr. Lamond", disse David. - "Por quê ?", perguntou meu amigo. - "Se lhe houvera dispensado algum apreço, não a teria metido numa caixa em seu quarto." Meu amigo esquecera onde havia posto a tela; mas disse a Duguid que a procuraria e colocaria sobre o seu fogão. Tal qual o dissera Duguid, a pintura lá estava e meu amigo a dependurou naquele lugar.

Essa a história que me contou o Rev. Lamond, quando o visitei em Edimburgo. A ninguém a comuniquei e o meu amigo não conhecia a Sloan. Agora o seguimento. Algum tempo depois de me ter sido narrada a história daquela pintura, encontrei, numa sessão em casa de Sloan, um Sr. Robinson, parente do Dr. Lamond, mas que nunca ouvira a aludida narrativa, não obstante conhecer muito o dono da tela. Ê que este raramente falava do fato a quem quer que fosse, por ser muito escrupuloso no que concerne a um assunto em que seus parentes e amigos não acreditavam. Nada obstante, o Sr. Robinson foi comigo uma noite à casa de Sloan e sentou-se a meu lado, sem ser apresentado a pessoa alguma. Antes, nunca vira Sloan e este certamente não o conhecia.

Foi ele, entre todos, o primeiro a obter notável prova.

Uma voz forte bradou, declinando-lhe o nome. Disse:

"Sr. Robinson, sou David Duguid; diga a seu amigo Dr. Lamond, 18, Regent Terrace, Edimburgo (exato), que lhe estou muito grato, por haver cumprido a promessa que me fez, colocando a minha pintura sobre o seu fogão." O Sr. Robinson ficou muito espantado e me disse:

"Não sei do que está falando." Eu, porém, que sabia da história, prometi a Duguid que transmitiria o seu recado, pelo que ele me expressou seus agradecimentos.

Este é outro caso de prova inteiramente satisfatória, que posso incluir na minha classe "A 1" e que não admite qualquer explicação, a meu ver, que não a de ter sido a personalidade de Duguid que ali, presente, falou. Porque, de que modo outro poderia semelhante recado ser transmitido?

Caso 3 de "A 1" - O último caso "A 1", que relatarei, diz respeito a uma dama, a Sra. Wood Sims, a quem levei comigo uma noite à casa de Sloan. A sessão estava marcada para as 7h15m; de caminho para lá, procurei aquela senhora e perguntei-lhe se gostaria de ir comigo. Às 7hl0m, ela, que se aprontara rapidamente, partiu em minha companhia. Conversando, informou-me, incidentemente, de que acabava de voltar de uma visita a amigos seus residentes na Inglaterra e a ouvi dizer a mesma coisa a alguém, momentos antes de começar a sessão, mas sem entrar em pormenores, per acidens.

Durante a sessão, uma voz lhe falou declinando o nome do falecido filho do amigo por ela visitado e dizendo: - "Eu a vi quando confortava o pai dele, em Leeds." Várias outras vozes lhe falaram, dando seus nomes e enviando recados ao seu amigo de Leeds. Duas lhe eram desconhecidas; ela, porém, declarou que transmitiria a seu amigo o que lhe acabavam de dizer.

Disse-me, mais tarde, a Sra. Wood Sims que o seu amigo lhe respondera que havia conhecido na Terra todas aquelas pessoas e que suas mensagens lhe eram perfeitamente inteligíveis. (Posteriormente encontrei esse senhor que confirmou o que me dissera aquela senhora.) Também, lhe falou, na mesma ocasião, um irmão seu, chamando-lhe "Ana", nome que somente ele lhe dava, porquanto nunca assim se chamou. Disse a voz que seu nome era "Will", mas, para ela, "Eill", como de fato, e repetiu com exatidão e pormenorizadamente alguns conselhos que lhe dera antes de morrer. "Se os tivesse seguido, quão diferente houvera sido a tua vida", acrescentou. "É absolutamente verdadeiro", disse-me a minha amiga, passado algum tempo. Finalmente, ele materializou o rosto à sua vista e ela me afirmou que era, com todas as particularidades, o que lhe conhecera em vida.

Aqui temos registrados catorze fatos de "A 1", e os casos que acabo de relatar, em que se contam trinta e quatro fatos da mesma classe, são apenas três entre muitos. Importa lembrar que nas minhas notas se acham registrados uns cento e oitenta fatos, cada um tão apreciável quanto os que venho de referir.

Com relação aos três casos acima, a hipótese de fraude tem que ser excluída, dadas as precauções que tomei. Que é então, e por outras palavras, que se pode conjeturar da parte do médium? Um matemático eminente, calculando as chances de interpretar corretamente todos os fatos registrados, achou que o ter alcançado semelhante exatidão representa o equivalente de 1 para 5.000.000.000.000, ou, em outros termos, que a proporção é de 5.000.000.000.000 para 1, relativamente à possibilidade de encontrar-se outra explicação. Assim sendo, dificilmente poderemos considerá-la.

J. A. Findlay