AS
VOZES |
"Tenho plena e firme convicção de que a vida continua; que nada se perde; que é possível, e já se tem conseguido de vários modos, a comunicação com os que se acham na vida do além. Empreguei esforços para realizar uma condição em que se tornasse possível aos Espíritos revestirem de uma substância física seus órgãos de respiração, a fim de poderem falar-nos, como quando na Terra. Tive a ventura de lhes ouvir as vozes, pelo melhor de todos os métodos, centenas de vezes. Milhares de individualidades falaram, servindo-se de seus próprios órgãos vocais, e eu lhes respondi. Dessa procedência grandes ensinamentos advêm, assim como o conhecimento de fatos acima do saber dos homens e que em nenhum livro se encontram. E tenho a fortuna de os pôr ao vosso alcance." Randall
No capítulo precedente, descrevi, do nosso ponto de vista humano, uma sessão. Neste, procurarei descrevê-la do ponto de vista dos que nos falam. Não é fruto da minha imaginação o que se vai ler. Apenas repetirei, tão claramente quanto o permitam as palavras, o que me disseram as vozes, que não pertencem a este nosso mundo físico. Cada uma de suas palavras foram ouvidas distintamente e grafadas ao mesmo tempo no papel.
Antes, porém, de passar adiante, seja-me lícito dizer um pouco mais acerca de nós mesmos e do mundo em que habitamos. Já declarei que muito se falaria de vibrações neste trabalho e a quem não possa conceber o que sejam vibrações, possível não será entender o Universo em geral, e, em particular, o assunto aqui versado, como não o será entender de finanças a quem não tenha conhecimento da aritmética.
O Universo todo é, precisamente, uma gigantesca escala de vibrações, das quais, entretanto, apenas um número infinitesímal nos afeta os sentidos. Explicar-me-ei melhor. Quando olhamos para um objeto, o que vemos são as suas vibrações, que nos chegam por meio de ondas de éter, indo tocar esse órgão extremamente sensível que é o olho, donde se transportam para outro órgão, também muito sensível, o cérebro, e daí para a mente. Esta, então, as transforma em imagem mental. Compõe-se a nossa mente de uma substância plástica passível de ser modelada, por aquelas vibrações, numa figura, de sorte que, quando observamos uma mesa, por exemplo, o que realmente vemos não é um móvel assim chamado, porém uma imagem que se nos formou na mente, mediante as vibrações transmitidas pelos eléctrons existentes nos átomos que compõem o dito móvel.
Talvez nos façamos melhor compreendidos, se voltarmos ao que já deixamos dito acerca do rádio. No nosso receptor, não ouvimos a voz do locutor. Ela apenas faz vibrar a atmosfera no gabinete donde ele fala. Essas vibrações atuam sobre um instrumento semelhante a um tambor, que, a intervalos, retarda ou acelera uma corrente elétrica, a qual envia para o éter ondas que igualmente retardam ou aceleram a corrente elétrica que atravessa a nossa camada aérea. A mesma corrente passa, através do nosso aparelho receptor, para o seu alto-falante e lhe faz vibrar o tambor, produzindo vibrações na atmosfera da sala em que nos achamos, vibrações que nos influenciam os tímpanos do ouvido, donde são conduzidas ao nosso cérebro e daí à nossa mente.
O mesmo se dá com o sentido do tato: as vibrações que uma substância emite, depois de nos passarem através dos nervos e do cérebro, fazem vibrar a nossa mente e temos a sensação do tocar. Cada substância emite um número especial de vibrações e, assim, pelo tato, podemos determinar se o que tocamos é, verbi gratia, um objeto de madeira, ou um tecido de algodão. Porém, o sentido do tato não é tão apurado quanto o da vista, pelo que, muitas vezes, com o tocar não conseguimos perceber qual o objeto em que tocamos.
Ora, o mundo físico é constituído de uma certa ordem de vibrações que nos afetam os sentidos; mas, em número diminutíssimo com relação às que sabemos existir. Elas variam, aproximadamente, entre 34.000 e 64.000 ondas por polegada, que é o que se denomina o espectro visível do espectroscópio, entre o infravermelho e o ultravioleta.
Isto me leva ao ponto que desejo tornar claro: primeiramente, que apenas sentimos ondas compreendidas entre dois limites determinados; segundo, que há um número enorme de vibrações, que não sentimos, acima do ultravioleta e abaixo do infravermelho. Chego deste modo ao que me foi dito acerca dos meios que empregam, para falar-nos pelo processo chamado da Voz Direta, os que baixaram suas vibrações e comigo se entretiveram sobre vários assuntos referentes às condições da vida no plano em que agora eles se encontram. Como é possível que as suas vibrações, de ordem mais elevada, se reduzam até ao ponto de fazerem vibrar a nossa atmosfera?
Consideremos o crescimento de uma criança, desde o momento da concepção até o instante da morte, e o que se segue daí por diante. Se procedermos criteriosamente, tudo se tornará muito simples de compreender-se.
A concepção só é possível quando a mente se associa à matéria. A primeira é de uma ordem diferente daquela da segunda; é substância - não há outro vocábulo de que nos sirvamos - que vibra muito para lá do ultravioleta. Essa substância delicadíssima liga uma célula masculina a uma feminina e começa o desenvolvimento.
Na obscuridade, e tal efeito só é possível na obscuridade, porque a luz impossibilitaria essa materialização do Espírito, aquela substância reúne em torno de si a matéria física, ou, noutros termos, a matéria que vibra entre o infravermelho e o ultravioleta. A mesma substância delicadíssima pensa, desde o ponto inicial da concepção, elabora a estrutura em torno da qual se reunirá a matéria mais grosseira, até que, no momento preciso, um corpo se acha formado. Em chegando a ser bastante forte para resistir às vibrações da nossa luz, esse corpo deixa a obscuridade e temos o que se chama o nascimento. Uma alma ou mente (qualquer dos dois termos serve) há então entrado a funcionar no mundo físico. Continua o processo do desenvolvimento, a matéria física continua a ser acumulada sobre a estrutura etérea e, de par com o crescimento físico, verifica-se o crescimento mental. Este último não pára nunca, se bem na velhice já a mente não possa funcionar com muita facilidade. Contudo, a individualidade se acha firmada em definitiva, pois que à mente é que pertencem as qualidades que nos fazem o que somos. O cérebro físico não passa de um envoltório destinado a proteger a mente contra as vibrações físicas até que ela se ache suficientemente forte para funcionar apenas por meio do cérebro etéreo. Pertencem à mente a memória, as afeições, tudo, em suma, que forma o nosso caráter, a nossa personalidade.
Por ocasião da morte, a vestidura física é abandonada para voltar à Terra donde proveio; a mente ou espírito também volta ao meio donde viera. Nenhuma mudança de situação se faz necessária, podendo o Espírito permanecer no que para nós é, no espaço, o mesmo compartimento ou a mesma localidade onde a morte, ou digamos a separação ocorreu. Como, porém, o espírito pertence, em realidade, a uma ordem mais alta de vibrações, é com estas que ele se põe em concordância. Não lhe é mais possível corresponder às vibrações físicas, porque para tal lhe falta o corpo físico. Não experimenta, portanto, depois da morte, sensações físicas, mas, apenas, as do mundo etéreo. Assim como, quando o espírito se achava neste mundo, a matéria, vibrando dentro de determinados limites, influenciava a mente através do corpo físico, no mundo etéreo, igualmente, vibrações de ordem mais elevada influenciam o corpo espiritual e, por meio dele, a mente. Esta, então, só é sensível a essas vibrações mais altas; aprecia a estrutura delicada a que se achava preso o corpo físico; percebe a forma que o seu corpo toma, porque sabe que o que se desenvolveu na Terra foi construído sobre o que ela concebera. O corpo terreno ligou-se à substância etérea, talhada de acordo com o que a mente ideara, e, assim sendo, ao abandonar aquele corpo, esta última se conservou a mesma, com os mesmos pensamenntos a darem forma e caráter ao corpo espiritual. Apenas o ambiente mudou. A mente é indestrutível, permanece, sem embargo da mudança que a morte lhe acarreta no envoltório e no meio onde ela passa a atuar; mas, o corpo do Espírito continua com a forma que tinha na Terra, a mente pensa ainda do mesmo modo e se recorda de suas experiências terrestres. Nada se perdeu, por efeito da morte, que nenhuma importância tem; apenas fê-la passar para outro meio que, do ponto de vista da situação, é exatamente aquele onde a morte se verificou.
O que neste mundo se entende por mudança de situação, nada significa para a mente, em a nova morada. A sua situação muda, em virtude das vibrações a que lhe cumpre corresponder. Se ela na Terra não se desenvolveu, corresponderá a uma ordem inferior de vibrações. Se, porém, se encontra altamente desenvolvida, corresponderá a vibrações de ordem mais elevada. Assim é que pode prosseguir no seu desenvolvimento, pondo-se sempre em correspondência com vibrações mais altas, sem mudar de situação, mas, também, sem passar repentinamente de vibrações baixas para outras elevadas, com as quais não esteja de harmonia. Não quero dizer que a mente, uma vez livre do envoltório físico, nunca mude de posição e que só se torna senhora de um novo ambiente, por corresponder a mais altas ou mais baixas vibrações. De modo algum. O movimento, em cada plano a que ela ascende após a morte, lhe é tão possível, quanto aqui na Terra; em realidade, lá é mesmo muito mais rápido. O que a mente não pode fazer é alçar-se a um plano de vibrações mais alto do que aquele a cujas vibrações correspondem as que lhe são próprias. Entretanto, pelo pensamento, pode ela responder a vibrações mais baixas, quais as do mundo físico.
Chegamos desta maneira a compreender que o que se passa numa sessão é, ao mesmo tempo, racional e natural. Os do outro plano da vida têm seus mensageiros em contacto com o nosso mundo, os quais os informam de que uma sessão se vai realizar e as notícias lhes são levadas mais celeremente do que uma informação na Terra. A força do pensamento nesses planos de mais altas vibrações está acima da nossa capacidade de compreensão. Os que querem falar descem ao nosso planeta e baixam suas vibrações, reunindo em torno de seus órgãos vocais que se chama ectoplasma, tomando-o ao médium e aos assistentes. Este assunto, explaná-lo-ei mais tarde minuciosamente.
Para se obter a voz direta ou independente, faz-se mister que, conjugadas às do mundo espiritual, se estabeleçam aqui as necessárias condições, do contrário o fenômeno não se produzirá. Eles, os do Além, reclamam a nossa cooperação, tanto quanto nós pedimos a deles. Somos cooperadores passivos, eles ativos. Precisamos de um indivíduo, o médium, possuidor de certas forças ou substâncias vitais, mais dilatadas do que normalmente o são. A essas forças os assistentes acrescentam, em suplemento, as suas forças ou vitalidade normais.
Tal a nossa parte na operação; o resto é feito pelos que conosco trabalham do outro lado do véu. À medida que as minhas investigações prosseguiam, mais me impressionavam as complicações do processo empregado no mundo espiritual para que se estabeleçam as condições indispensáveis a tornar possível a comunicação. Um grupo de Espíritos destros em manusear substâncias químico-orgânicas trabalha juntos de nós. Logo que nos reunimos, esses Espíritos se aprestam a executar a parte que lhes cabe do trabalho. O grupo se compõe de um diretor das operações e de um ou mais químicos, de um para mover a trombeta na direção do Espírito que quer falar, de um para reunir as substâncias com que contribuem o médium e os assistentes, a fim de combiná-las com o auxílio do químico, que delas tira o material necessário e que se estende do médium e dos assistentes até a um ponto central. A substância tirada de um e outros, o químico a deita num recipiente etéreo, ao qual adiciona as substâncias etéreas que extrai de si mesmo. Outro, do grupo, ajuda os Espíritos recém-chegados a falar, ensinando-lhes o que devem fazer. Outros conduzem os Espíritos para dentro do círculo e Whitefeather, a quem já me referi, um Pele-Vermelha, se considera o mais importante de todos, porque é o encarregado de avisar quando uma sessão se realiza, a fim de que os operadores se achem presentes e em seus postos.
Fica assim descrito, de forma geral, o modus operandi da voz independente, tanto do lado físico, como do lado etéreo da vida; porém, realizadas as condições necessárias, qual a explicação de tudo o que ocorre?
Primeiramente, temos que lhes aceitar a afirmativa de que o corpo etéreo é, em todos os pontos, uma reprodução do corpo físico, com relação quer aos órgãos internos, quer aos externos. Na vida espiritual, a comunicação se dá do mesmo modo que na vida terrena. Lá também os órgãos vocais fazem vibrar a atmosfera do plano onde funcionam, a língua se move, os pulmões respiram e expelem um equivalente do nosso ar, passando-se cada coisa como se passa aqui na Terra, com a única diferença de que tudo se verifica dentro de uma matéria de estrutura muito mais delicada e de uma ordem de vibrações muito mais rápidas. Daí vem que os órgãos vocais deles, capazes de funcionar no mundo etéreo que lhes é próprio, não podem fazer outro tanto no nosso mundo mais grosseiro. Seus tecidos são por demais finos para poderem produzir qualquer efeito na nossa atmosfera. Faz-se necessário, para isso, que se estabeleçam condições especiais, em que as suas vibrações se tornem mais baixas. Para obtê-las, é indispensável a obscuridade completa, ou uma luz vermelha muito fraca, porquanto os raios da luz branca inutilizam e desintegram as forças e substâncias delicadíssimas com que eles operam. Os melhores resultados se conseguem em noites claras e com a atmosfera isenta de umidade. Para que as condições sejam as mais propícias a permitir que as falas se produzam excelentemente, é preciso, além do que já ficou dito, que os assistentes gozem boa saúde e sejam entre si harmônicos.
Imaginemos agora que estamos sentados em círculo e conosco o médium; que, cantando, pusemos em vibração a atmosfera, durante cerca de um quarto de hora, e que de repente, uma voz nítida, distinta e distante do médium ressoa sobre nós e, após declinar um nome e mencionar uma residência na Terra, trava conversação com um dos do círculo. Que é o que então se dá? Esta a questão é que mais me preocupou, desde que me acostumei àqueles singulares fatos. Estaria o médium a personalizar alguém, ou aquilo era feito por um comparsa dissimulado entre os assistentes? Por muitas razões, pude reconhecer que a voz não provinha de nenhum ser humano; que ali estava a falar uma personalidade invisível, não deste mundo, mas presente na sala. Dispus-me, em conseqüência, a descobrir a causa determinante de tal efeito e, por uma série de perguntas e respostas, durante certo tempo, foi-me dito o que se segue e que, por amor à brevidade, reproduzirei com palavras minhas.
O químico, a quem já aludi, depois de misturar com os seus próprios ingredientes as substâncias que obtém do médium e dos assistentes, toma do preparado resultante e com ele, primeiro, materializa suas mãos, depois do que fabrica uma máscara tosca, com partes semelhantes a uma boca e uma garganta. Essa máscara ele a coloca em lugar adequado, as mais das vezes no centro do círculo. O Espírito que quer falar, toma dessa máscara, onde é lenta a vibração, e com ela reveste ou cobre sua boca, língua e garganta. Esses órgãos se tornam então mais densos ou pesados, exigindo a língua maior esforço para mover-se, o que, afinal, com um pouco de prática vem a ser fácil. Aí, o Espírito se pôs, momentaneamente, em condições de fazer de novo o que fazemos nós, na medida de sua capacidade para formar palavras. Ele volta a ser, para essa circunstância, um habitante da matéria, de vibração lenta, de sorte que, quando fala, produz sobre a nossa atmosfera os mesmos efeitos que nós, quando falamos. Achamo-nos, ele e nós, na mesma sala, a pequena distância um do outro, ele de pé a nos falar e nós sentados, a responder-lhe. Ouve-nos e nós o ouvimos. Essa situação dura pouco tempo, não mais, em regra, de cinco minutos, ao cabo dos quais começa a desmaterialização, por enfraquecimento do material, e, conquanto a boca continue a falar, nada mais se ouve. Isto, abreviadamente, o que eles definem, dizendo que se adaptam às condições terrenas do nosso ambiente. Todos os médiuns de voz direta posssuem uma certa força ou substância vital, bem como os assistentes, embora, estes, em grau menor, força ou substância à qual os Espíritos químicos adicionam outras forças ou substâncias etéreas, formando com semelhante combinação um material de vibração suficientemente lenta, para fazer vibrar a nossa atmosfera. Só o que não podemos compreender é como o Espírito se reveste desse material, ou o absorve (Nota da Editôra Brasileira. Ver Missionários da Luz). Qual o efeito que realmente se produz, quando o Espírito sobre ele atua e com ele se cobre? Sem dúvida, acharei, algum dia, a explicação; por agora, o que escrevo é, em substância, o que me foi dito. Ao pedir maiores detalhes, responderam-me que eu não entenderia e que me devia contentar com as informações que me haviam dado. Muitas vezes hei colado meu ouvido à boca do médium e nada mais ouvi, além da sua regular respiração, no momento mesmo em que uma voz falava a alguns dos presentes e eram todos amigos meus pessoais os que assistiam às sessões da Glasgow Society for Psychical Research (Sociedade de Glasgow para Pesquisas Psiquicas) .
De uma feita, disse-me o comunicante que o laringe do médium estava sendo utilizado e que sua voz era traduzida, por um tubo psíquico, para a trombeta, que a ampliava de modo a podermos ouvi-la. Por outras palavras, que ele se estava servindo dos pulmões, do laringe e da boca do médium, para evitar uma materialização especial desses seus órgãos.
Ulteriores respostas tornaram mais claro o ponto.Quando uma voz fala pela trombeta, nem sempre independe do médium; nem sempre provém de uma entidade materializada no centro do círculo. A força não é em todas as ocasiões, bastante para sustentar esse modo de comunicação durante a sessão inteira. Acontece então o seguinte: o Espírito que quer falar "controla" o médium e fala através dele. Todavia, não exerce sobre o médium a mesma ação que os seus guias habituais e, por isso, a voz que se produz não passa às vezes de um sussurro. Por meio de um tubo psíquico ou ectoplásmico materializado, a voz é dirigida para a trombeta que a amplia até poder ser ouvida. O Espírito que nessas circunstâncias fala se coloca por detrás do médium, cujo Espírito, enquanto dura a comunicação, se conserva afastado de seu corpo, ou, noutros termos, o médium cai em transe, ficando o Espírito comunicante apto a lhe influenciar os órgãos vocais. Há um elo conector, magnético, etéreo ou psíquico, que causa sobre os músculos do médium efeito idêntico ao das ondas atmosféricas sobre as duas pontas de um diapasão, afinadas no mesmo tom. Assim como as vibrações de uma atuam sobre a outra, também atuam reciprocamente sobre si as das duas sedes dos órgãos vocais, donde resulta atuarem em uníssono esses órgãos, no espírito e no médium. Assim, o que diz o espírito diz o médium, trabalhando harmônicos os dois órgãos.
Este esclarecimento me satisfez até certo ponto; mas, a questão era saber como se produzia o som. Nossos lábios formam as palavras, nossos laringes ocasionam os sons. Perguntei então que era o que causava o som e foi-me respondido que o laringe do médium era utilizado para isso e que o som vinha dele para a trombeta, por meio do tubo psíquico. Tornava-se, portanto, claro que o que vinha do médium para a trombeta não era o ar de seus pulmões. O laringe é utilizado para produzir o som, porém, não por meio do ar passando pelas cordas vocais. A atmosfera, eles a fazem vibrar por um método que lhes é próprio e disseram-me que aceitasse como real o fato de ser o laringe empregado para produzir o som e de ser este trazido do Espírito que fala para a trombeta.
Não se trata, declarou o meu informante, dessas mensagens que de algum modo sofrem a influência mental do médium, porquanto, no caso em apreço, a sua mente de nenhum modo intervém. Eles não atuam através da mente do médium, mas, diretamente, sobre os seus órgãos vocais. A mente do Espírito se acha completamente controlada e o cérebro do médium constrangido temporariamente. O que, pois, ouvimos às vezes é a voz do médium através da trombeta, embora com um som inteiramente diverso do que lhe é habitual, por se achar ele em transe e pertencer essa forma de comunicação à mesma categoria das manifestações por meio do transe, salvo a circunstância de serem as vozes dirigidas para a trombeta e ouvidas partindo desta e não do médium. Não é preciso que a trombeta esteja junto à boca do médium, porquanto, segundo eles me disseram, fácil lhes é encaminhar a voz para aquele instrumento, fazendo-a passar por sobre o círculo. Segue-se que, nas sessões de Sloan, temos três formas diferentes de comunicação: primeiro, as manifestações pelo transe; segundo, as manifestações pelo transe com a trombeta; terceiro, a melhor de todas, vozes de Espíritos que materializam seus órgãos vocais e os respectivos pulmões e falam como o fazemos nós, sem qualquer ligação com o médium, a não ser pela substância ectoplásmica, necessária à materialização, e que eles tomam de empréstimo ao mesmo médium e aos assistentes.
A trombeta é acionada por meio de varetas materializadas, feitas de uma combinação dessas substâncias fornecidas pelo médium e pelos assistentes com as que o químico fornece. Também pode ser movida por uma mão materializada, servindo a extremidade mais larga passa por ela introduzir-se no seu interior a boca materializada a fim de que a voz tome a direção que deseje a entidade que fala, sem que lhe seja preciso deslocar o instrumento do lugar onde haja feito a materialização. O outro lado da trombeta pode ser usado como lhes convenha mais aos objetivos. Quando não se servem da trombeta, quer isso dizer que a substância é suficiente e bastante a força para que uma ou mais materializações se dêem, comumente nas proximidades da pessoa a quem o Espírito quer dirigir-se. Assim é que, em várias ocasiões, ouvi duas e até três vozes falando ao mesmo tempo a outras tantas pessoas.
Nem sempre, contudo, está presente a personalidade que se diz ser a que fala, visto como, para os Espíritos que já passaram pelo que se chama a segunda transição em esferas avançadas, difícil é, senão impossível, o comunicarem-se. Eles então transmitem suas mensagens aos que se encontram em esferas mais baixas, os quais, por sua vez, as passam a um que se ache presente à sessão. Isto, penso eu, é o que mais freqüentemente sucede, mesmo com os que ainda se acham nas esferas inferiores, desde que tenham dificuldade em comunicar-se, materializando seus órgãos vocais. Um irlandês, que em vida se chamou Gallacher, me disse que a maior parte do tempo, nas sessões, ele a ocupava em receber e transmitir mensagens. Apelidava-se a si mesmo de "aparelho telefônico".
Perguntei, de uma feita, se os órgãos vocais materializados podiam ser tocados e se tinham peso. Responderam-me que sim e que tinham o peso que nós, os assistentes, perdiamos durante a sessão. Se cada um de nós se colocasse numa balança, verificaríamos o decréscimo gradual do nosso peso no curso da sessão e também que, ao aproximar-se esta do seu termo, à medida que o ectoplasma fosse sendo reabsorvido, aquele peso nosso iria voltando ao normal. As experiências do Dr. Crawford e outros provaram a exatidão deste asserto. O ectoplasma que eles tiram dos assistentes não é utilizado, enquanto o químico não o mistura com os seus ingredientes, porque a materialização não se pode executar exclusivamente com o primeiro. Essa combinação ectoplásmico-etérea, disseram-me, é indispensável não só para a materialização, como também para que os que vivem a vida de Espírito possam mover quaisquer objetos físicos. Sem ela, nada podem eles movimentar. Os nossos corpos se compõem dos ingredientes de que eles tiram essa substância chamada ectoplasma. Foi-me impossível, no entanto, obter informações detalhadas sobre o que são os ingredientes químicos da substância que eles juntam ao ectoplasma. O químico não me as quis ministrar, dizendo que eu nada entenderia. Perguntei se os pensamentos do médium coloriam de algum modo as comunicações que se recebiam por meio da voz independente e a resposta foi: "Absolutamente não."
Acerca do que ocorre quando o médium fala em transe, explicaram-me que o Espírito que deseja falar toma daquele o ectoplasma e estabelece por esse meio o controle sobre os seus órgãos vocais. Pelo que diz respeito a Sloan, não lhe utilizam o cérebro. Sumariamente é isto o que sucede: o ectoplasma forma o elo de conexão entre o Espírito e os órgãos vocais do médium e, quando o primeiro fala, estes se movem. Nesse caso, não se verifica a materialização da boca, do laringe e da língua apenas os órgãos vocais do médium são empregados para, controlados pelo Espírito, fazerem vibrar a atmosfera e formarem as palavras que o mesmo Espírito articula.
Meu intento, neste livro, é dar uma explicação, simultaneamente lógica e racional, de como se processo o fenômeno da Voz Direta. Os fatos referidos nos três capítulos que se seguem não serão suficientes por si só para convencer ao primeiro que passe desatento. Desde que, porém, ao mesmo tempo sejam explicados logicamente, muito menos difícil se torna a aceitação do fenômeno.
Adotei todas as precauções para impossibilitar a fraude e, a personificação e, por inquirições persistentes, obtive com referência ao Mundo Etéreo, aos seus habitantes e à maneira como se dá a comunicação, explicações que devem satisfazer às exigências de qualquer pessoa. Isso, antes, ainda não fora conseguido, que eu saiba, de modo tão sistemático e é de assinalar que toda a minha vida tenho andado às voltas com fatos intrincados. Como homem de negócios, adquiri conhecimentos de Matemática e Economia, e, por outro lado, dediquei particular interesse à Física. Foi, pois, senhor de mim que entrei neste assunto e as informações que colhi tornam os fenômenos racionais e naturais, para todo aquele que não se ache escravizado a idéias preconcebidas, o que concorrerá, conseguintemente, para elevá-lo a um plano mais alto do pensamento e será uma outra alpondra acrescentada às que já tenham sido postas sobre científica base.
J.A.
Findlay