CONCLUSÃO

"Ser perfeitamente justo é atributo da Natureza Divina;
sê-la no mais alto grau das suas possibilidades é glória
do homem." Addison

Agora, pergunto, que é o que nos cabe concluir de tudo isto? Terei sido eu vítima de uma grande fraude? Terá explicação normal tudo o que registrei e ainda muito mais? Será mentira, ou transbordamento de uma imaginação exaltada tudo quanto me disseram acerca do outro mundo? Terão sido de Sloan, a personificar cada um dos indivíduos que se anunciavam, todas as vozes que falaram? Disporá ele de algum processo maravilhoso para obter informações sobre os amigos falecidos daqueles que lhe vão às sessões? Possuirá a faculdade de conhecer a todos, quer os tenha visto antes, quer não? Poderá ver no escuro e, mesmo com as mãos e os pés fiscalizados, houvera podido, em sessões na sede da Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Glasgow. por quaisquer meios, tocar, sempre delicadamente, com a trombeta, cada um dos presentes, na face e nas mãos, manejando às vezes simultaneamente os dois megafones? Terá a prodigiosa faculdade de ler, e no escuro, os pensamentos e de responder a perguntas, antes de serem oralmente formuladas?

Algumas simples experiências provaram ser isso impossível. Nem foi preciso que eu os questionasse a respeito: os meus amigos do Mundo Etéreo leram em minha mente a interrogação e a ela responderam, dizendo o em que eu estava a pensar. Dá-se isso freqüentemente, antes que me seja dado falar. Esteja eu esperando tranqüilo que uma voz fale e pensando nalguma coisa inteiramente estranha ao que em torno de mim se passa, e eis que uma voz me fala sobre o assunto que me ocupa o pensamento. Isto, por si só, constitui prova positiva de estar presente uma personalidade, com poderes que ultrapassam os de que dispõe qualquer ser vivo, e, como ocorre no escuro, ainda mais notável se torna o fato. Demos como possível que um ser humano, com a faculdade dedutiva de um Sherlock Holmes, possa ter alguma idéia dos nossos pensamentos à luz do dia, por um estudo das expressões do nosso semblante; mas, que o consiga na obscuridade, nunca.

Será que Sloan absolutamente não caia em transe, que fique de parte a manejar as trombetas e a imitar vozes através delas; será que finja ao mesmo tempo diferentes personalidades, de modo a parecer que duas entidades falam simultaneamente, quando, em realidade, é sempre e só ele quem fala? Ouvi trinta vozes distintas falar durante uma sessão, cada uma num tom especial, revelador de uma personalidade diversa das outras. Ao demais, como pode ele descrever com tanta exatidão as aparências dos Espíritos que vêm falar? Seria tudo isto uma vasta fraude; terei eu sido, e comigo outros, vítima de alguma grande conspiração? Se foi assim, trata-se inegavelmente da mais assombrosa e hábil combinação que jamais se conseguiu. Infinito trabalho e também consideráveis despesas seriam necessários para colherem-se tantas e tantas informações. E com que objetivo? Sloan vai para o seu labor às 7 horas da manhã e só regressa a casa às 18 horas. Onde acharia tempo para proceder a tão exaustivas investigações?

Salvo uma ocasião, que mencionei no capítulo IV (As vozes), nunca, que me conste, ele recebeu dinheiro por todo o tempo e todo o esforço que consumia nos trabalhos psíquicos. Será um louco, a tal respeito, ou será por um mórbido prazer de notoriedade que representa semelhante farsa? Se tal coisa se pode admitir, como explicar que fosse tão retraído e estivesse constantemente preocupado com o esconder a sua luz debaixo de um alqueire? Por que se negaria a ser apresentado àqueles a quem, referindo-se a mim, chamava "meus grandes amigos"? Por que preferiria o sossego e a solidão, a fazer sessões; por que tem predileção pelo mar e por que, de tempos a tempos, se larga por meses para o oceano, onde nunca fala, nem ouve falar de Espiritismo?

De quando em quando, eu me propunha a mim mesmo um sem-número de questões, no empenho de encontrar uma explicação. Telepatia? Se fosse, como explicaríeis o episódio de Eric Saunders e dezenas de outros e, em qualquer caso, como pode a telepatia produzir uma voz longe do médium? Serei vítima de uma alucinação? Se se pudesse admitir esta hipótese, também a minha estenógrafa e todos os presentes o teriam sido. Mas, uma alucinação coletiva, durante vinte anos, como fora o caso para alguns dos amigos de Sloan, seria inconcebível, porquanto o que um ouve todos ouvem, nas sessões. Muitas vezes, ouvi Espíritos falando a um e respondendo a outro, no correr das reuniões.

Caberá a hipótese da criptestesia - recordações escondidas, ou percepção de realidades, por meio de canais extra-sensórios? Mas, pode a memória ou esse meio de percepção produzir uma voz? Poderá a minha memória profunda, ou a sua percepção extra-sensória habilitar Sloan, normal ou supranormalmente, não só a descrever com exatidão meus falecidos amigos, aos quais nunca viu, como também a lhes reproduzir as vozes, de modo a serem por mim reconhecidas e a me falarem de coisas que eu ignorava inteiramente, e que, depois, verifiquei certas? E por que, em tal caso, somente aos chamados mortos diziam respeito essas manifestações? Ou, então, por que alguns dos que se dizem viventes no mundo do Espírito trazem outros a quem vós e eles conhecestes na Terra e, às vezes, trazem alguns que não sabíeis serem seus amigos, porém que depois verificais que eram? Como pode um médium conhecer, normal ou supranormalmente, não só os vossos amigos falecidos, como também os amigos desses amigos no Mundo Etéreo, e que foram igualmente vossos amigos e deles aqui na Terra ou amigos deles unicamente, coisas estas que ignoráveis, enquanto uma ulterior investigação não as confirmou?

Nada, penso, exceto a fraude ou a realidade, explica satisfatoriamente tudo o que tive ensejo de observar. Pelo que concerne à fraude, conhecendo Sloan e os fatos, como conheço, não a levo em conta. Quanto à realidade, a prova circunstancial a seu favor é esmagadora. Ninguém jamais acompanhou, como eu, submetendo-os à mais severa crítica, os atos e palavras de Sloan em transe e fora do transe e afirmo que, durante todos esses anos, nem por atos, nem por palavras, fez ele coisa alguma que me tornasse suspeitoso, ainda que levemente, dos motivos a que obedecia. Sloan é altivo, reto e religioso, sem muita instrução, e de inteligência mediana. Bom operário, porém, não estudioso. Muito circunscrito é o seu campo literário. Disse-me, certa vez, que raros livros lera em toda a sua existência, devido à fraqueza da vista. Nunca lhe vi um livro em casa, cujos compartimentos todos percorri; apenas, uma ocasião, deparei com um jornal da tarde. Não tem capacidade para dirigir uma sessão, quais as que descrevi, normalmente, por dez minutos, ainda que o quisesse. Repugna-me aludir à fraude, tratando-se de um homem cujos princípios são tão elevados.

Outros, entretanto, não o conhecem como eu e, para os que nunca procederam a experiências no campo dos fenômenos psíquicos, como fiz, a fraude é a mais simples e a mais óbvia das explicações.

Ponho, pois, de lado a fraude, ponho de lado a telepatia, ponho de lado a criptestesia. Insisto na única explicação que se coaduna com todos os fatos, nomeadamente o de continuarem vivos os que supúnhamos mortos; o de terem eles, como temos nós, corpos de um tecido mais delicado do que o dos nossos corpos físicos; o de habitarem um mundo de matéria mais sutil que a do nosso; e o de poderem certos indivíduos chamados médiuns supri-los de uma substância que, misturada a ingredientes que eles próprios fornecem, os habilita, por tempo limitado, a assumir condições físicas e, com suas lembranças, afeições e caracteres diferentes, sustentarem conversações com seus amigos ainda existentes na Terra.

Minha mente se conserva pronta a receber quaisquer posteriores explicações que a Ciência possa oferecer. Até agora, porém, ainda ela nenhuma explicação me deu, consentânea com todas as provas que obtive. Com efeito, até muito recentemente, a Ciência pouca atenção há dado aos fenômenos por mim descritos. A Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres gastou anos estudando os fenômenos mentais; entretanto, os da voz independente, talvez os mais importantes de todos, porque implicam a identificação pessoal, jamais foram, que eu saiba, oficialmente investigados. Se ela o tivesse feito, bem possível houvera sido, então, isolar a máscara materializada e tomar-lhe o peso, o que tornaria mais compreensível a sua construção e a maneira de ser utilizada. Temos que aprender as leis que regem os fenômenos. Vasto campo se acha aberto ao investigador e confio que o que escrevi animará alguém, de mentalidade científica, a prosseguir nessas investigações, levando-as até a um ponto em que claro se tornará o que hoje é obscuro, porquanto essencial se faz um completo apanhamento científico dos fenômenos.

O que deixo escrito é um registro fiel das minhas experiências, registro que me julguei na obrigação de fazer. Alguns as aceitarão, outros suspenderão sobre elas o juízo, enquanto muitos sem dúvida lhes negarão crédito, sobre o fundamento de que, sem ilusão, não podem tais coisas ocorrer. Responderei aos críticos com as mesmas palavras de que usou Pasteur, retorquindo aos que lhe impugnavam aprioristicamente as descobertas: "Em tudo isto, não se trata de religião, nem de filosofia, nem de ateísmo, nem de materialismo, nem de espiritualismo. É uma questão de fato." Os fatos aí estão e o lhes virarem as costas não os altera. Se alguém edificar um sistema de crença em oposição a esses fatos, tal sistema terá que se modificar, para pôr-se de acordo com os fatos, porquanto estes não se alterarão para acompanhar nenhum sistema particular de crença.

Acredito que a Ciência e a Religião, em aceitando esses fatos, se unirão; os homens darão imenso passo à frente no desenvolvimento intelectual e a família humana se congregará fraterna e harmoniosamente.

Posso agora deixar tranqüilamente que o futuro traga mais provas cumulativas em apoio das minhas asserções, certo de que dia virá em que o descrer da realidade dos fenômenos psíquicos será pleitear a ignorância, e zombar deles será rematada loucura. Todavia, o mundo se compõe dos que não pensam maduramente sobre tais assuntos, ou que, se o fazem, ficam satisfeitos com a suposição de que nada mais lhes resta por aprender, de que já está sabido tudo quanto podíamos saber do Universo, e, de outro lado, compõe-se dos que conseguiram aprender alguma coisa, do que existe para lá do véu, com os que se foram antes de nós, pelo que trazem ampliada a sua visão.

J. A. Findlay