O MÉDIUM

"Um homem probo é a mais sublime obra de Deus." Pope

O Sr. John C. Sloan, por intermédio de quem se realizaram as experiências que vou relatar, é homem de meia-idade, de pequena estatura e corretas maneiras. Tem um semblante de sonhador, e, quando em sessão, se não está falando ou tomando parte na conversação, parece alheio ao que o cerca. Nessas ocasiões, seus olhos assumem a expressão de quem se acha abstrato e, se lhe dirigem a palavra, visivelmente se assusta. Goza de perfeita saúde e, a trabalhar, poucos lhe notarão certas peculiaridades, que se lhe acentuam em casa, terminado o trabalho. Em não tendo algo de especial que lhe prendia a atenção, seu ar de sonhador mais se evidencia, tornando-se ele completamente distraído e despreocupado de tudo. Afora isso, é como qualquer indivíduo são e normal.

Sabe-se que, durante a sua vida toda, fatos supra-normais sempre se produziram ao seu derredor. Em moço, era freqüentemente perturbado por batidas e estranhas vozes, que ele não compreendia, e, tendo passado dos trinta anos, os aludidos fenômenos se desdobraram em mafestações gerais de vários gêneros. Sua mediunidade, no curso desses anos, abrangia o transe, a telecinesia trazimentos, a voz direta, a materialização, a clarividência e a clariaudiência. Variaram de grau, de ano para ano, porém, seus amigos, em geral, afirmam que, há uns três lustros, suas faculdades mediúnicas estavam no apogeu. Cumpre-me dar algumas explicações aos que fraca experiência têm desses fenômenos.

O transe é um estado de inconsciência, em que caem certas pessoas anormais. Pode comparar-se à imersão num sono profundo, com breves intervalos de vigília consciente. É, todavia, mais do que o sono, porque é um estado muito mais profundo de inconsciência; a personalidade se retira para mais longe do que no sono e o corpo fica mais insensível. Uma pessoa em transe melhor se pode comparar a alguém que esteja sob a ação de um anestésico, do que a uma que se ache a dormir, com a diferença de que o estado de transe pode durar de duas a três horas e repetir-se várias vezes numa semana, sem qualquer efeito mau ou nocivo. Quando Sloan se encontra nesse estado, fala; seria, porém, mais correto dizer que seus órgãos vocais fazem vibrar a atmosfera, de modo que ninguém que então o observe pode pensar em atribuir à sua personalidade o que ele diz. A voz é diferente e diferente a entonação e muito do que nessas ocasiões é dito ultrapassa grandemente o grau dos seus conhecimentos. Os termos clariaudiência e clarividência traduzem a faculdade, que algumas pessoas têm, de ouvir o que para outros é inaudível e de ver o que normalmente ninguém vê. Ambas decorrem da estrutura etérea do ouvido e dos olhos, para funcionarem anormalmente, tornando-se aptos esses órgãos a apanhar as vibrações etéreas. Telecinesia é palavra usada para significar o movimento de objetos sem o emprego de qualquer força conhecida. Trazimento é a condução de objetos de um compartimento para outro, ou de fora para o lugar onde está o médium, por um agente invisível.

O que se denomina Voz Direta é que constitui o assunto especial deste livro. Em presença do médium, vozes, que absolutamente não provêm dele e que elas próprias dizem ser de pessoas falecidas, falam e, se se lhes replica, respondem inteligentemente, mostrando que ali não está, por detrás da voz, apenas uma mente, mas uma inteligência apta a ouvir, tanto quanto a falar. Ao proceder às primeiras experiências desse fenômeno, pensei naturalmente que o médium personificava alguém, porque, em regra, é no escuro que as vozes se fazem ouvir; que é, então, o que haveria de mais fácil do que supor que ele me estava a enganar e aos outros, fazendo-nos crer que nos falavam os Espíritos dos nossos amigos trespassados?

Da primeira vez que tomei parte em experiência com essas vozes, achava-me positivamente suspeitoso; mas, já durante a sessão, espantava-me que um homem, mesmo que tívesse comparsas a auxiliá-lo, prolongasse por duas e três horas uma impostura de tal monta. Trinta vozes distintas, que falaram naquela noite, em tons e com inflexões diferentes, deram seus nomes, suas residências exatas na Terra e, dirigindo-se a pessoas sérias, foram reconhecidas, mediante referências a íntimas questões familiares. Nem uma só vez qualquer equívoco pôde se, apontado e a escuridão, na realidade, contribuía para mal, evidente tornar a genuinidade de tudo aquilo, porquanto, se difícil já seria lembrar-se alguém, em plena luz, dos falecidos amigos e dos conhecidos de cada um dos presentes e de seus respectívos negócios familiares, duplamente difícil fora isso no escuro, pois nada menos de quinze pessoas ali se achavam e o médium teria de saber com exatidão o lugar onde cada uma delas se sentara. A voz de cada vez, falava diante daquele que lhe conhecia nome, o endereço terreno e os detalhes que dava.

Era verdadeiramente assombroso e não menos o era que duas ou três vozes falassem ao mesmo tempo. Não só devia haver cúmplices, pensava eu, como também um admirável sistema de colher informações. Mas, como poderia isso fazer-se de modo tão cabal, ou, então, como poderiam falar os mortos? Mesmo que eles ali acorressem, seus órgãos vocais estavam sem dúvida sepultados e de que modo logravam fazer que a atmosfera vibrasse sem um instrumento físico-corpóreo? Não, nada mais impossível do que semelhante coisa. Eu já ouvira referências a fraudes e a impostores, porém, nunca ouvira dizer que mortos falassem; portanto, o que ali havia era sem dúvida fraude.

Tumultuavam assim as minhas idéias naquela memorável noite de 20 de setembro de 1918, quando, de súbito, uma voz se pôs a falar defronte de mim. Espantei-me. Disse um dos assistentes, a meu lado: "Amigo, alguém lhe quer falar." Obtemperei, então: "Sim, quem és?" - "Teu pai, Roberto Downie Findlay", respondeu a voz e entrou a referir-se a uma certa coisa de que somente ele, eu e um terceiro sabíamos, na Terra, sendo que esse terceiro também já morrera, havia anos. Era eu, pois, a única pessoa viva que tinha ciência daquilo a que a voz aludia. Já bastante extraordinário se me afigurou esse fato; entretanto, a minha surpresa cresceu de ponto, quando, tendo meu pai concluído, outra voz declinou o nome da terceira pessoa que na Terra estivera a par da questão lembrada e essa voz continuou a conversação que meu pai começara. A nenhum sistema de espionagem, por perfeito que fosse, a nenhuma personificação por parte do médium se poderia atribuir o que acabara de dar-se, acrescendo que absolutamente nenhuma das pessoas presentes me conhecia. Não dera o meu nome, ao entrar para a sala, não conhecia nenhum dos que lá se achavam e nenhum deles sabia o que quer que fosse a meu respeito.

Tal o meu primeiro contacto com John C. Sloan e com as Vozes Diretas. Finda a sessão, perguntei-lhe se poderia voltar, pois estava ansioso para saber mais sobre o assunto. "Certamente, todas as vezes que quiser vir, terei o maior prazer em recebê-lo", respondeu ele. Dirigindo-me a alguém que me estava próximo, perguntei quanto deveria pagar ao Sr. Sloan. Lembrar-me-ei sempre da resposta que obtive: "Se falar em pagar-lhe, ofendê-lo-á profundamente. Ele faz isto cônscio de cumprir um dever, não para ganhar dinheiro com a sua mediunidade." Isso não me deu a impressão de ser um método de que possa usar qualquer embusteiro. Como poderia, perguntava a mim mesmo, um homem que trabalha para ganhar algumas libras por semana, gastar o tempo e o dinheiro em obter todas as informações que eu lhe ouvira dar às pessoas presentes aquela noite? Tão viva impressão me deixara a singular experiência, que, de regresso a casa, me pus a escrever, até ao alvorecer da manhã seguinte, uma cuidadosa descrição de tudo o que ocorrera nessa primeira sessão a que assistira, prática que, daí por diante, segui invariavelmente, até quando consegui levar comigo um estenógrafo.

Lenta, mas, firmemente, cheguei a compreender que o que eu pensava fosse impossível era, em realidade, possivel; que, com efeito, se dava o que eu supunha não poder dar-se; que os que eu cria mortos estavam inteiramente vivos, tinham corpos de tecidos mais delicados, porém de formas semelhantes às dos nossos; e que o médium fornecia uma substância que os habilitava a materializar suas bocas, gargantas e línguas, para fazerem vibrar a nossa atmosfera. Aprendi afinal que, assim como a vida fisica somente na escuridão - a do estado que precede ao nascimento - pode reunir em torno de si a matéria também a escuridão é necessária para que a materialização se produza com a substância fornecida pelo médium. Só muito devagar aprendi isso e depois de haver cansagrado muito tempo ao assunto e de ter sobre ele meditado muito; mas, antes de tentar saber como todas aquelas coisas se passavam, tomei a mim experimentar a honestidade do médium, para o que lancei mão de vários meios.

Após aquela primeira noite, muitos amigos meus falecidos me falaram, dando seus nomes e endereços exatos na Terra e dizendo-me coisas de que nenhum dos presentes, exceto eu, podia ter conhecimento. Imaginei, então, que tudo havia de ser efeito de telepatia, embora não me fosse possível compreender de que modo a telepatia lograva vibrar a atmosfera, como uma voz que eu reconhecia. Todavia, resolvera não deixar pedra sobre pedra, enquanto não chegasse a me inteirar da verdade e, assim, dispus-me a ver até onde essa teoria seria capaz de manter-se de pé. Não tardou que o conseguisse, tal como sucedera com a teoria da fraude. Vieram amigos, falaram-me, dizendo coisas de que não só nenhum dos presentes sabia, mas que eu próprio ignorava e das quais nunca tivera notícia. Verifiquei, por meio de investigações, que essas coisas eram exatas, de sorte que imaginei haver-se produzido, afinal, uma transmissão de pensamentos entre o meu eu consciente ou subconsciente e o do médium.

Logo deliberei aproveitar a primeira oportunidade para me sentar ao lado deste e, quando a voz começasse a falar, colar à sua boca o meu ouvido. Segurei-lhe as mãos desde o princípio da sessão, e, assim a voz entrou a falar, apliquei-lhe à boca o meu ouvido. Senti-lhe a respiração, meu ouvido e seus lábios se tocavam; entretanto, nenhum som escutei. Isso fiz, não uma ou duas vezes, porém, muitas, até que, finalmente, me convenci não só de que o fenômeno da voz direta era genuíno, como também que os que falavam eram realmente os que as vozes afirmavam ser, isto é, amigos nossos e conhecidos que, embora despojados de suas vestes físicas, continuam a viver, da mesma forma que nós aqui, e que, se conseguirem dispor, em quantidade suficiente, do ectoplasma de um ser humano, podem, baixando o grau de suas vibrações, fazer vibrar a nossa atmosfera, falar-nos e ouvir-nos, se lhes respondemos.

Ao cabo de doze anos de experiências íntimas com o Sr. John C. Sloan e de haver tomado parte em sessões com outros médiuns de destaque, neste país e na América, posso dizer, com convicção, ser ele o melhor médium que encontrei, de transe, de voz direta, de clarividência e de clariaudiência. Se bem as manifestações de transe nunca me tenham abalado tanto como as vozes diretas, notáveis lhe reconheço as faculdades para aquelas manifestações. Extraordinárias são as que possui de clariaudiência, especialmente no que concerne a apanhar os nomes e endereços terrenos dos que lhe falam, o que para muitos médiuns é difícil. Se ele houvesse querido revelar seus dons ao público, teria adquirido a reputação de um dos mais eminentes médiuns do país; ao invés, preferiu apenas reunir amigos, em sua casa, uma noite cada semana e dar-lhes o prazer de se entrevistarem de novo com os entes a quem aqui estiveram presos pelos laços da amizade e que já passaram para o outro plano da vida. É retraído e modesto ao extremo. Nenhum apreço dá aos louvores que freqüentemente lhe deferem, ao termo de cada uma de suas sessões. Causa-me sempre a impressão de que estas lhe desagradam e que só as efetua por um dever sei bem que, se fora deixado entregue a si mesmo, nunca exercitaria suas faculdades mediúnicas. Nele, o sentimento do dever e a bondade constituem os motivos de terem tido seus amigos aquela satisfação especial.

Não conheço homem mais honrado, nem de coração mais bondoso, ou que realizasse melhor o tipo de independência da velha Escócia. Enquanto há podido trabalhar, nunca aceitou dinheiro em troca de seus dons. Teve seus altos e baixos na vida. Conquanto operário de merecimento, ocasiões houve em que, sem ser por culpa sua, careceu de trabalho. De uma feita, o Sr. Mc Cully (algumas de cujas experiências são aqui citadas no Capítulo IX), assíduo freqüentador de suas sessões semanais, disse-me que, certa vez, estando o Sr. Sloan sem trabalho, lhe propuseram que aceitasse alguma coisa dos que lhe assistiam habitualmente às sessões, os quais a seu turno levariam outros que também de boa-vontade pagariam. Depois de muita relutância, anuiu em dar três sessões assim; fez duas e se recusou a fazer mais. "Tenho agora um biscatezinho", disse, "e nunca mais aceitarei novamente dinheiro pela minha mediunidade, desde que posso arranjar trabalho que me dê com que sustentar a minha família." A terceira daquelas sessões combinadas se realizou, mas sob a condição de que nenhum pagamento lhe seria feito.

Tal é John C. Sloan: esquisito e teimoso, se o quiserem; porém, unicamente no que constituía para ele uma questão de consciência. Ninguém, que lhe solicite permissão para assistir às sessões, terá que temer uma recusa; ninguém deve recear faça ele sentir que, com a permissão pedida, obtém um favor. Para Sloan, é um dever pôr a sua mediunidade a serviço dos que dela necessitem; mas, não lhe ofereçam paga, que será recusada.

Poderá parecer extraordinário que um homem com tais dons seja tão pouco conhecido. Isso é devido à sua modéstia e ao seu natural retraimento. Tem horror a toda espécie de publicidade .. É tão tímido que, às vezes, solicitando-lhe eu permissão para que assistissem à sessão alguns de meus amigos membros da Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Glasgow, me pediu que não os introduzisse antes que ele houvesse entrado e tomado o seu lugar e as luzes se apagassem. Só está tranqüilo quando, em casa, cercado unicamente de amigos seus, a sessão assume o caráter de um ato religioso, porque, para ele, aquilo é uma comunhão santa com o invisível. Sua recompensa, costuma dizer, consiste em que aquele que entre aflito saia certo de que a vida continua além deste mundo e de que ele apenas serve de intermediário para que ali se reúnam uma mãe ou uma viúva e o filho ou o marido que a morte lhes arrebatou. Apreciar-lhes o contentamento quando, no fim da sessão, sai do estado de transe, representa para Sloan remuneração ampla a todas as suas tribulações. Centenas e centenas de pessoas receberam por seu intermédio essa consolação, esse reconforto. Faz questão de não ser considerado mais do que simples instrumento; declara nada saber de como todas aquelas coisas se dão. Tem lido pouco sobre o assunto e, quando está em transe durante a sessão, tudo ignora do que ocorre.

Tivesse ele um feitio diverso e muito mais fácil se tornaria a sua vida, por meio das faculdades que possui, e se faria conhecido como um dos mais notáveis médiuns. Ele, entretanto, se contenta com um viver simples, mantido com o labor de suas mãos, ganhando algumas libras por semana. Sustenta numerosa família, habitando pequena mas confortável casa, num dos bairros operários de Glasgow, e freqüentemente se vê obrigado a um esforço árduo para que não lhe faltem os recursos indispensáveis. Executa conscienciosamente e bem o trabalho diário que lhe incumbe, e o seu empregador, que amiúde lhe assiste às sessões, o tem na conta de um dos melhores e mais dignos trabalhadores.

Esse o homem com quem me encontrei aquela noite, faz mais de doze anos. Fui introduzido numa pequena sala, onde se achavam reunidas mais de uma dúzia de pessoas, e, após ligeira palestra, sentamo-nos todos em círculo, ocupando Sloan o mocho de um pequeno harmônio. Apagaram-se as luzes, ficando a sala em plena escuridão. Em seguida a uma prece inicial, Sloan girou o mocho e tocou vários hinos que todos cantamos. Antes de terminado o último, foi ele tomado por uma entidade que deu o pitoresco nome de ''Whitefeather'' (Pena Branca), mas a quem habitualmente chamávamos "Whitie", divertida personagem que disse ter sido, quando na Terra, um chefe de Índios Vermelhos, que vivera nos Montes Rochosos, diante de cujo cenário a nossa paisagem escocesa lhe parecia inexpressiva.

Sloan, durante a sessão, permanece, ao que pude verificar, sentado no mocho do harmônio. Vozes, de todos os graus de vigor e cultura, falaram, parecendo provirem de todos os pontos da sala; difícil, no entanto, era dizer de onde, no momento, procediam, por isso que no centro do círculo havia dois megafones ou trombetas, cada qual com cerca de dois pés e meio de comprimento e, pelo timbre metálico da voz, evidente era que de ambas se serviam os que falavam. Sempre que não eram utilizadas para a transmissão da voz, as duas percorriam o círculo, tocando delicadamente cada uma das pessoas que o formavam. Um era ligeiramente tocado na ponta do nariz, outro no alto da cabeça, outro na mão e assim sucessivamente, nenhuma jamais dando qualquer pancada forte. Se algum dos presentes o pedia, sentia logo, sem engano, sem tateamentos, nítido e brando toque na parte do corpo que indicara, façanha impossível para qualquer ser humano, na mais completa obscuridade, conforme em várias ocasiões provei. Às vezes, moviam-se as trombetas com tanta rapidez sobre as nossas cabeças, que produziam um som sibilante. Luzes do tamanho, mais ou menos, de moedas de meia coroa, de fosforescente aspecto, estavam de contínuo a deslocar-se ao derredor da sala e em todos os seus cantos.

Consultando o meu registro, verifico que tenho notas de 43 sessões diversas em que eu ou meus amigos conversamos com entidades que diziam ter-nos conhecido, quando estavam na Terra; 39 com o Sloan e quatro com outros médiuns. Também por diversas vezes fui testemunha do mesmo fenômeno com os mais notáveis médiuns de voz direta, neste país e nos Estados Unidos, pelo que penso poder afirmar que disponho de bastante experiência para me achar capaz de fazer uma análise crítica dos fatos dessa natureza e tirar as minhas conclusões. Como já disse, tenho notas de 39 sessões diferentes com Sloan, nas quais 83 vozes distintas me falaram, ou a amigos meus pessoais, que eu levara em minha companhia; e 282 comunicações me foram dadas ou a eles. Classifico sob a anotação "A 1" uma série de 180 dessas comunicações, as em que era impossível que o médium ou qualquer outra pessoa presente tivesse conhecimento do que delas consta: formei a classe "A 2" com 100, de cujo objeto podia o médium ter notícia por meio de jornais ou de referências em livros conhecidos. De uma só das informações que as vozes me deram ainda não pude verificar a exatidão e uma apenas reconheci falha. A última a que me refiro estava certa num ponto; mas, como fazia parte de uma mensagem que me fora transmitida em nome de outrem, possível é que o erro proviesse da transmissão. Se nela se fizesse ligeira modificação de forma, ficaria correta. Entendo, portanto, que essa única exceção de maneira nenhuma pode invalidar as outras, que tive de reconhecer perfeitamente exatas.

Nestes últimos anos mais próximos, algumas alterações sofreu a vida de Sloan. Suas filhas casaram e seus filhos se fizeram ao mar. Ficando só, achou que o viver se lhe tornara monótono. Os parentes de sua mulher eram gente do mar, o que lhe induziu os filhos a seguir a mesma profissão. Ele próprio sempre tivera, durante toda a sua existência, marcado pendor para a vida marítima e, como nenhum laço mais o prendia em terra, acompanhou os filhos, engajando-se num barco da linha do Atlântico lugar em que permaneceu por alguns anos, até que, afinal voltou novamente a viver como dantes. Está agora empregado numa das mais importantes casas de negócio de Glasgow e continua a fazer sessões para os seus amigos. Entretanto, só esporadicamente exercita os dons mediúnicos, porque já não goza de boa saúde como outrora.

Parecerá singular que um homem possuidor de tão excepcionais faculdades se conserve, para todos os efeitos práticos, desconhecido do mundo; mas, assim é. Semelhante fato só se pode atribuir à sua persistência na recusa a receber dinheiro e a tornar-se um médium público, e nada o fará mudar de proceder. Escreve-me de quando em quando e tenho notícias suas por intermédio de amigos comuns; agora, raramente nos encontramos, porque, vivendo eu na Inglaterra, só por exceção vou à Escócia. Guardo, todavia, as minhas notas, para me recordar das muito interessantes e instrutivas horas que passei na sua companhia e até ao fim da minha vida lhe serei grato, pela bondade e delicadeza de que sempre usou para comigo.

Lembro-me com freqüência da primeira noite em que estivemos juntos e sinto que, antes, a minha posição era a de quem olhava para alguma coisa e não a divisava. Aquela noite me deu ensejo de encontrar o que andava procurando: a prova positiva de que continuamos a viver para lá deste apertado vale chamado vida e que, quando chega o fim da existência terrena, não somente entramos numa outra mais ampla e mais plena, como também nos reunimos de novo aos que aqui amamos. Por isso, serei sempre muito reconhecido a John C. Sloan.

J.A.Findlay