08 - ORGULHO E VAIDADE |
Procuremos,
agora, ilustrar, entre os defeitos que mais comumente manifestam-se em nós,
o orgulho e a vaidade. Busquemos tranquilamente conhecê-los, tão
profundamente quanto possível, sem mascarar os seus impulsos dentro de
nós mesmos. Entendamos que a tolerância começa de nós
para nós mesmos. Assim, o nosso trabalho de prospecção
interior é suave, e não podemos nos maldizer ou nos martirizar
pelos defeitos que ainda temos. Vamos, então, trazer aos níveis
de nossa consciência aquelas manifestações impulsivas que
nos dominam de certo modo, e que, progressivamente, desejamos controlar.
Vejamos, então, como identificar em nós o orgulho e a vaidade.
A - ORGULHO
"Aquele que não encontra a felicidade senão
na satisfação do orgulho e dos apetites grosseiros é infeliz
quando não os pode satisfazer, enquanto que aquele que não se
interessa pelo supérfluo se sente feliz com aquilo que, para os outros,
constituiria infortúnio."
(Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Livro Quarto. Capítulo I.
Penas e Gozos Terrenos. Parte dos comentários à resposta da pergunta
933.)
"O orgulho vos induz a julgardes mais do que sois,
a não aceitar uma comparação que vos possa rebaixar, e
a vos considerardes, ao contrário, tão acima dos vossos irmãos,
quer em espirito, quer em posição social, quer mesmo em vantagens
pessoais, que o menor paralelo vos irrita e aborrece. E o que acontece, então?
Entregai-vos à cólera."
(Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo IX. Bem-aventurados
os Brandos e Pacíficos. A Cólera.)
As principais reações e características do tipo predominantemente
orgulhoso são:
a) Amor-próprio muito acentuado: contraria-se por pequenos motivos;
b) Reage explosivamente a quaisquer observações ou críticas
de outrem em relação ao seu comportamento;
c) Necessita ser o centro de atenções e fazer prevalecer sempre
as suas próprias idéias;
d) Não aceita a possibilidade de seus erros, mantendo-se num estado de
consciência fechado ao diálogo construtivo;
e) Menospreza as idéias do próximo;
f) Ao ser elogiado por quaisquer motivos, enche-se de uma satisfação
presunçosa, como que se reafirmando na sua importância pessoal;
g) Preocupa-se muito com a sua aparência exterior, seus gestos são
estudados, dá demasiada importância à sua posição
social e ao prestígio pessoal;
h)
Acha que todos os seus circundantes (familiares e amigos) devem girar em torno
de si;
i) Não admite se humilhar diante de ninguém, achando essa atitude
um traço de fraqueza e falta de personalidade;
j)
Usa da ironia e do deboche para com o próximo nas ocasiõ e de
contendas.
Compreendemos que o orgulhoso vive numa atmosfera ilusória, de destaque
social ou intelectual, criando, assim, barreiras muito densas para penetrar
na realidade do seu próprio interior. Na maioria dos casos o orgulho
é um mecanismo de defesa para encobrir algum aspecto não aceito
de ordem familiar, limitações da sua formação escolar-educacional,
ou mesmo o resultado do seu próprio posicionamento diante da sociedade,
da imagem que escolheu para si mesmo, do papel que deseja desempenhar na vida
de "status".
É preferível nos olharmos de frente, corajosamente, e lutar por
nossa melhora, não naquilo que a sociedade estabeleceu, dentro dos limites
transitórios dos bens materiais, mas nas aquisições interiores:
os tesouros eternos que "a traça não come nem a ferrugem
corrói!".
B - VAIDADE
"O homem, pois, em grande número de casos,
é o causador de seus próprios infortúnios; mas, em vez
de reconhecê-lo, acha mais simples, menos humilhante para a sua vaidade,
acusar a sorte, a Providência, a má fortuna, a má estrela,
ao passo que a má estrela é apenas a sua incúria. "
(Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo V. Bem-aventurados
os Aflitos. Causas Atuais das Aflições.)
A vaidade é decorrente do orgulho, e dele anda próxima. Destacamos
adiante as suas facetas mais comuns:
a) Apresentação pessoal exuberante (no vestir, nos adornos usados,
nos gestos afetados, no falar demasiado);
b) Evidência de qualidades intelectuais, não poupando referências
à própria pessoa, ou a algo que realiza;
c) Esforço em realçar dotes físicos, culturais ou sociais
com notória antipatia provocada aos demais;
d) intolerância para com aqueles cuja condição social ou
intelectual é mais humilde, não evitando a eles referências
desairosas;
e) Aspiração a cargos ou posições de destaque que
acentuem as referências respeitosas ou elogiosas à sua pessoa;
f) Não reconhecimento de sua própria culpabilidade nas situações
de descontentamento diante de infortúnios por que passa;
g) Obstrução mental na capacidade de se auto-analisar, não
aceitando suas possíveis falhas ou erros, culpando vagamente a sorte,
a infelicidade imerecida, o azar.
A vaidade, sorrateiramente, está quase sempre presente dentro de nós.
Dela os espíritos inferiores se servem para abrir caminhos às
perturbações entre os próprios amigos e familiares. É
muito sutil a manifestação da vaidade no nosso íntimo e
não é pequeno o esforço que devemos desenvolver na vigilância,
para não sermos vítimas daquelas influências que encontram
apoio nesse nosso defeito. De alguma forma e de variada intensidade, contamos
todos com uma parcela de vaidade, que pode estar se manifestando nas nossas
motivações de algo a realizar, o que é certamente válido,
até certo ponto. O perigo, no entanto, reside nos excessos e no desconhecimento
das fronteiras entre os impulsos de idealismo, por amor a uma causa nobre, e
os ímpetos de destaque pessoal, característicos da vaidade.
A vaidade, nas suas formas de apresentação, quer pela postura
física, gestos estudados, retórica no falar, atitudes intempestivas,
reações arrogantes, reflete, quase sempre, uma deformação
de colocação do indivíduo, face aos valores pessoais que
a sociedade estabeleceu. Isto é, a aparência, os gestos, o palavreado,
quanto mais artificiais e exuberantes, mais chamam a atenção,
e isso agrada o interprete, satisfaz a sua necessidade pessoal de ser observado,
comentado, "badalado". No íntimo, o protagonista reflete, naquela
aparência toda, grande insegurança e acentuada carência de
afeto que nele residem, oriundas de muitos fatores desencadeados na infância
e na adolescência. Fixações de imagens que, quando criança,
identificou em algumas pessoas aparentemente felizes, bem sucedidas, comentadas,
admiradas, cujos gestos e maneiras de apresentação foram tomados
como modelo a seguir.
O vaidoso o é, muitas vezes, sem perceber, e vive desempenhando um personagem
que escolheu. No seu íntimo é sempre bem diferente daquele que
aparenta, e, de alguma forma, essa dualidade lhe causa conflitos, pois sofre
com tudo isso, sente necessidade de encontrar-se a si mesmo, embora às
vezes sem saber como.
O mais prejudicial nisso tudo é que as fixações mentais
nos personagens selecionados podem estabelecer e conduzir a enormes bloqueios
do sentimento, levando as criaturas a assumirem um caráter endurecido,
insensível, de atitudes frias e grosseiras. O Aprendiz do Evangelho terá
aí um extraordinário campo de reflexão, de análise
tranquila, para aprofundar-se até as raízes que geraram aquelas
deformações, ao mesmo tempo que precisa identificar suas características
autênticas, o seu verdadeiro modo de ser, para então despir a roupagem
teatral que utilizava e colocar-se amadurecidamente, assumindo todo o seu íntimo,
com disposição de melhorar sempre.
Ney P. Peres