09 - A INVEJA, O CIÚME E A AVAREZA |
A - A INVEJA
"-
Invejais os prazeres dos que vos parecem os felizes do mundo. Mas sabeis, por
acaso, o que lhes está reservado? Se não gozam senão para
si mesmos, são egoístas e terão de sofrer o reverso. Lamentai-os,
antes de invejá-los! Deus às vezes permite que o mau prospere,
mas essa felicidade não é para se invejar, porque a pagará
com lágrimas amargas. Se o justo é infeliz é porque passa
por uma prova que lhe será levada em conta, desde que a saiba suportar
com coragem. Lembrai-vos das palavras de Jesus: 'Bem-aventurados os que sofrem,
porque serão consolados'."
(Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Livro Quarto. Capítulo
I. Penas e Gozos Terrenos. Parte da resposta à pergunta 926.)
Com um pouco de observação de nós mesmos, facilmente reconheceremos
as manifestações de inveja que, até mesmo de forma sutil,
podem limitar o necessário esforço que devemos desenvolver para
elevar o padrão dos nossos sentimentos. A inveja reflete a fragilidade
em que o nosso espírito ainda vive, deixando-se consumir em desejos inconsistentes,
até mesmo ilusórios, principalmente de ordem material, em lugar
de lutar pelas conquistas dos valores eternos que enobrecem o espírito.
É ela resultante da nossa limitada compreensão da lei de causa
e efeito, aplicada a nós mesmos, segundo a qual as atuais condições
da nossa existência, escolhidas e programadas na Espiritualidade, são
as que melhores resultados nos podem proporcionar no resgate dos desacertos
do passado. Então, às vezes, momentaneamente enfraquecidos, esquecidos
da luta que selecionamos ao programarmos essa existência, caímos
nas teias dos desejos mais recônditos, refletindo as reminiscências
de vidas que tivemos em existências anteriores.
Interessante é que, ao constatarmos nos outros algo que desejaríamos
possuir, manifestamos uma vibração de ódio gratuito para
com eles, como se fossem os culpados da nossa condição precária,
da remuneração baixa no trabalho material, ou de qualquer outro
aspecto limitante dentro das dificuldades em que vivemos.
Vivemos no permanente erro de sempre culpar alguém pelos males que sofremos,
como fuga a um olhar corajoso para dentro de nós mesmos, onde encontraríamos
as causas, remotas ou próximas, dos tormentos de hoje.
Vejamos as características mais comuns da inveja:
a) Desejo manifestado dentro de nós de possuir algo que vemos em alguém
ou na propriedade de alguém;
b) Crítica a alguém que pouco faz e muito possui, comparando sua
posição com os sacrifícios que a vida nos apresenta;
c) Estados de depressão, causando tristeza, sofrimento, inconformação
e revolta com a própria sorte;
d) Sentimento penetrante e corrosivo que emitimos quando assim olhamos para
outrem, nos deixando entregues a ódios infundados, por deterem o que
ambicionamos;
e) Sentimento destruidor da resignação, da tolerância, da
conformação e da fé, que devemos alimentar em nossos corações
nas ocasiões de penúria material;
f) Resultado do apego, ainda presente em nós, aos valores transitórios
da existência, tais como: posição social, objetos de uso
pessoal, bens materiais, recursos financeiros.
O próprio conhecimento popular já definiu o conceito de "mau
olhado", que, ao ser dirigido por determinadas criaturas, a tantos causa
prejuízos em seus bens materiais, quando não o mal-estar e a indisposição.
É a vibração que o invejoso emite de tão forte envolvimento
negativo, que, ao atingir alguém desprotegido e desprevenido, realmente
pode provocar vários males.
Muito cuidado, portanto, com os sentimentos de inveja que venhamos a emitir
para quem quer que seja, lembrando sempre que colheremos, para nós mesmos,
todo o mal que aos outros provocarmos.
B - CIÚME
"— Inveja e ciúme! Felizes os que não
conhecem esses dois vermes vorazes. Com a inveja e o ciúme não
há calma, não há repouso possível. Para aquele que
sofre desses males, os objetos da sua cobiça, do seu ódio e do
seu despeito se erguem diante dele como fantasmas que não o deixam em
paz e o perseguem até no sono. O invejoso e o ciumento vivem num estado
de febre continua. É essa uma situação desejável?
Não compreendeis que, com essas paixões, o homem cria para si
mesmo suplícios voluntários, e que a terra se transforma para
ele num verdadeiro inferno?"
(Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Livro Quarto. Capítulo I.
Penas e Gozos Terrenos. Parte da resposta à pergunta 933.)
O nosso apego aos objetos e às pessoas tem, no ciúme, uma das
suas formas de manifestação. O zelo demasiado, o cuidado excessivo,
a valorização descabida aos nossos pertences chegam às
raias da preocupação, do desequilíbrio, do desassossego,
nas reações do indisfarçável ciúme. É
mesmo um estado febril de intranquilidade, que pode nos tirar o sono muitas
vezes.
O ciúme anda próximo da inveja. Ambos
são expressões da cobiça, e se manifestam no nosso desejo
de posse ou na nossa condição possessiva, ambiciosa, egoísta.
Quando o ciúme se refere às pessoas do nosso relacionamento, é
indício da paixão, do amor ainda condicionante, dominante, restritivo,
exclusivista. Ninguém em verdade pertence a outrem. Alguns pares, no
entanto, podem desenvolver laços afetivos que os liguem a compromissos
ou a tarefas comuns, como entre cônjuges, por exemplo, assumindo responsabilidades
a dois, num desejável clima de compreensão, tolerância e
respeito mútuo.
Os suplícios ou tormentos muitas vezes são criados voluntariamente,
quando começamos a exigir, a cobrar do outro, o que achamos ser de sua
obrigação: o ciúme impõe condições.
É assim que quase sempre se origina a inconformação, o
desespero, o desentendimento entre casais. Respeito e liberdade, de ambas as
partes, na confiança que edifica e fortalece, aprofunda a amizade para
muito além dos limites de uma paixão, tudo isso pela admiração
construtiva, mútua, que estimula o bem proceder e amplia o reconhecimento
dos valores individuais dos dois.
Quantos ciúmes doentios não geram desconfianças e desarmonias desnecessárias? Por que vamos, então, transformar nossa vida num verdadeiro inferno? Procuremos serenamente indagar o porquê dos nossos ciúmes. Com que sentido nos deixamos envolver por eles? Será por carência, ou por insegurança? Por apego ou desespero? Localizemos as causas do aparecimento desse fantasma que é o ciúme.
Fantasma
criado pela nossa imaginação, que pode estar mal informada ou
até deformada, e que precisa ser realimentada com a confiança,
a fé, o otimismo, a esperança, a alegria, a dedicação
e o desprendimento, para sermos felizes em profundidade, gerando felicidade
e bem-estar em volta de nós.
C - AVAREZA
"Aquele que acumula sem cessar, e sem beneficiar
ninguém, terá uma desculpa válida ao dizer que ajunta para
deixar aos herdeiros? - É um compromisso com a consciência má."
(Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Livro Terceiro. Capítulo
XII. Perfeição Moral. Pergunta 900.)
"Rico, dá do que te sobra; faze mais; dá um pouco do que
te é necessário, porquanto o de que necessitas ainda é
supérfluo, mas dá com sabedoria."
(Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo XVI.
Não se Pode Servir a Deus e a Mamom. Emprego da Riqueza )
A avareza diz respeito igualmente ao apego específico ao dinheiro e aos
objetos materiais que possuímos. O homem avaro é o egoísta
que nega o auxílio pecuniário a quem lhe bate à porta,
desprezando as oportunidades de servir, e até mesmo de ouvir quem lhe
venha pedir socorro. O avaro centraliza sua preocupação na aquisição
do dinheiro ou nas diversas formas de enriquecimento. Para ele, o objetivo principal
da existência é o dinheiro e o que ele lhe proporciona para usufruto.
A atmosfera vibratória do avaro é certamente obscura, densa. Ele
tem grande dificuldade em sentir a inspiração que vem de mais
alto, em captar sugestões mais nobres com relação ao seu
proceder. É exatamente a eles que a ironia do destino causa os maiores
impactos quando a desventura os atinge. A queda é grande e o sofrimento,
profundo, pois retira o que lhes é mais valioso: o dinheiro. Guardamos,
em diferentes gradações, as manifestações de avareza,
que também se refletem nas nossas preocupações diárias,
com maior ou menor intensidade.
A
importância que damos aos nossos pertences e as inquietações
que tantas vezes nos desequilibram, pelo fato de termos perdido esse ou aquele
objeto de maior estima, representam nosso apego a eles. O zelo demasiado quando
relutamos em emprestar algumas das nossas quinquilharias, com receio de perdê-las
ou desgastá-las, é igualmente" uma forma de avareza, como
também um aspecto do ciúme.
A mania de guardar por tempo indeterminado, até mesmo sem usar, jóias,
roupas ou outros pertences pessoais, reagindo em dar a alguém que mais
necessite, sem justificativas, caracteriza também o avaro. Nenhum benefício
real, dentro dos valores eternos que os Aprendizes do Evangelho já conheceram,
pode resultar da avareza e, por isso mesmo, precisa ser identificada e combatida.
Como exemplo de desprendimento dos valores materiais, lembremos um episódio
da vida do estimado benfeitor espiritual, Dr. Bezerra de Menezes. Certo dia,
ao consultar em seu gabinete médico uma senhora de parcas posses, entregando-lhe
o receituário, ouviu suas lamentações, pois ela não
contava com numerário suficiente para a compra dos remédios. Então,
o magnânimo médico, não encontrando em seus bolsos o correspondente
em moeda corrente, entregou à senhora o seu anel de formatura, para que
com ele obtivesse dinheiro que lhe permitisse medicar a criança doente
que trazia ao colo.
Ney P. Peres