11 - PERSONALISMO |
"O
egoísmo se funda na importância da personalidade; ora, o Espiritismo
bem compreendido, repito-o, faz ver as coisas de tão alto, que o sentimento
da personalidade desaparece de alguma forma perante a imensidão. Ao destruir
essa importância, ou pelo menos ao fazer ver a personalidade naquilo que
de fato ela é, ele combate necessariamente o egoísmo." (Allan
Kardec. O Livro dos Espíritos. Livro Terceiro. Capítulo XII. Perfeição
Moral. Parte da resposta à pergunta 917.)
Entre
as expressões do egoísmo, vamos encontrar precisamente na grande
maioria personalista as diversas formas, de comportamento, e mesmo a maneira
de ser, caracterizadas pelo estado íntimo de rigidez e de autoconfiança
nas idéias ou opiniões próprias. Esses tipos de indivíduos,
pelas suas atitudes, acarretam, quase sempre, conturbações no
convívio em grupos.
Vejamos alguns dos aspectos reconhecidos nas pessoas predominantemente personalistas:
a) Suas opiniões ou pontos de vista são
sempre os certos e são os que devem prevalecer aos dos demais;
b) As experiências próprias são
aquelas que servem de referência a resultados que se discutem com outros,
desconsiderando em igual importância as experiências do próximo;
c) Em sociedades, as suas decisões e iniciativas,
quando em cargo de mando, são quase sempre tomadas sem a participação
dos demais;
d) Na condição de subalterno, nega-se
à colaboração de um plano ou projeto quando sua idéia
ou parecer não é aceito numa escolha em grupo;
e) Melindra-se na sua auto-importância quando
não convidado a participar com destaque nas decisões relativas
a empreendimentos do círculo que frequenta, muitas vezes até afastando-se
ou ameaçando afastar-se de suas funções;
f) Sente-se valorizado quando nas funções
de comando e dificilmente aceita ser conduzido pela direção de
outrem;
g) Aborrece-se facilmente quando contrariado nos
seus desejos ou idéias;
h) Num trabalho para obtenção de
um resultado comum, acha ou age como se pudesse dispensar a cooperação
dos demais integrantes;
i) A autoconvicção e a determinação
nos seus propósitos é obstinada até mesmo quando incompatíveis
com a situação do momento e a harmonização pretendida;
j) Teimosia e birra, revivendo questões
ultrapassadas e contendas já superadas, onde sua opinião não
foi seguida.
O personalismo tem sido, na humanidade, um fator impeditivo ao entendimento
entre as criaturas. As lutas e separatismos são oriundos da inflexibilidade
dos homens nas suas idéias e desejos. Dificilmente alguém cede
em benefício da concórdia e renuncia aos seus anseios em proveito
do bem comum. O egoísmo se manifesta acentuadamente nos tipos personalistas
mais endurecidos. Para eles é difícil abrir mão das posições
conquistadas e colaborar com espírito de caridade desinteressada.
O personalismo leva à não-aceitação, obscurece qualquer
compreensão e impede a cooperação. O individualismo pode
resultar do isolamento de alguns do meio comunitário, quer pela posição
social, quer pela crença ou idéias políticas, filosóficas
ou religiosas que adote. Esse individualismo pode agrupar homens dentro das
mesmas tendências e idéias que lhes são comuns, constituindo,
assim, sociedades, castas, seitas, correntes políticas, sociais e religiosas.
Ainda desse modo é fator de divisões, separações
e contendas.
O personalismo desagrega os grupos, destrói a força de união,
enfraquece o espírito de colaboração, incrementa a competição,
amplia a luta pela supremacia, leva à discórdia e às querelas,
conduz à agressão, aos embates e até a guerras. Ainda não
aprendemos a viver num clima de cooperação, de auxílio
mútuo, trabalhando juntos e unidos dentro de um objetivo, visando ao
bem comum. O espírito de companheirismo, de confraternização,
só será alcançado quando aprendermos a renunciar e a nos
desprender do exclusivismo individual.
Ainda não entendemos com profundidade que "o saber não é
tudo; o importante é fazer e, para fazer, homem nenhum dispensa a colaboração
e a boa vontade dos outros" A importância e a superioridade que queremos
dar à nossa participação, algumas vezes no próprio
âmbito da tarefa doutrinária, é precisamente reflexo do
nosso personalismo, da necessidade de reafirmação e da nossa vaidade.
Não seremos nós que avaliaremos os resultados dos nossos trabalhos
e aquilataremos a sua importância. O Plano Maior é que terá
os meios de pesar os frutos do empreendimento social ou religioso ao nosso alcance,
cuja relevância muitas vezes enfatizamos na nossa maneira apaixonada de
ver as coisas.
Aquele que varre diariamente o chão, como sua parcela de auxílio,
e nessa incumbência coloca todo o seu amor e desprendimento, poderá
estar dando muito mais do que aquele que ensina por palavras, escreve páginas
brilhantes ou exerce cargos de direção. Como o personalismo tem
prejudicado o avanço da Doutrina de Jesus! O que ainda vemos são
as divergências típicas de colocações e de pontos
de vista, de posições filosóficas e, em decorrência
disso, as divisões, como se animosidades oferecessem algum resultado
prático e objetivo.
No
tocante à Doutrina dos Espíritos, entendemos que a mesma dispensa
defensores, zeladores ou guardas-de-honra; ela é verdadeira e evidente
por si mesma. No entanto, precisa, sim, dos exemplos dos seus seguidores, para
que seja cada vez mais respeitada pelos que não a conhecem. Diz-nos o
próprio Codificador: "Reconhece-se o verdadeiro
espírita pela sua transformação moral e pelos esforços
que emprega para dominar suas más inclinações".
Esse ainda é um desafio, e se preferirem, um paradigma que pode muito
bem qualificar aqueles que se dizem seus adeptos e que se colocam como seus
ardorosos defensores ou líderes, mas que resvalam exatamente nas exacerbações
do personalismo, esquecidos de aplicar o esforço próprio no domínio
das más inclinações. Só pelos frutos do trabalho
conjunto, mais irmanados e menos pretensiosos, portanto menos personalistas,
é que valorizamos em conteúdo a nossa parcela de colaboração,
porque primeiro precisamos nos amar para juntos nos instruir, como ensina o
Espírito de Verdade. (Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Capítulo VI. O Cristo Consolador. O advento do Espírito de Verdade.)
Ney P. Peres