14 - NEGLIGÊNCIA E OCIOSIDADE |
"A
desordem e a imprevidência são duas chagas que somente uma educação
bem compreendida pode curar." (Allan Kardec. O Livro dos Espíritos.
Livro Terceiro. Capítulo III. Lei do Trabalho. Pergunta 685-a.)
"Se Deus tivesse liberado o homem do trabalho material, seus membros seriam
atrofiados; se o tivesse liberado do trabalho da inteligência, seu espírito
teria ficado na infância, no estado dos instintos animais.
"Eis por que o trabalho lhe é necessário. Ele lhe disse:
Busca e acharás, trabalha e produzirás; deste modo serás
filho de tuas obras, pelas quais terás o mérito e serás
recompensado segundo o que tiveres feito. " (Allan Kardec. O Evangelho
Segundo o Espiritismo. Capítulo XXV. Buscai e Achareis. Item 3.)
A - NEGLIGÊNCIA
O indivíduo negligente é aquele descuidado das suas obrigações,
ou seja, sabe o que deve e precisa fazer, mas deixa para depois, relaxa, faz
"corpo mole". Queremos analisar a negligência, relacionando-a
com o nosso trabalho de auto-aprimoramento moral, com as obrigações
relativas aos compromissos já assumidos conosco mesmo na reforma interior.
Nesse aspecto, somos todos negligentes, porque já entendemos muito bem
nossas atribuições, mas simplesmente não as realizamos
com a necessária intensidade e a desejada frequência.
A negligência pode também indicar desinteresse no que nos cabe
fazer, no esforço próprio que precisamos desenvolver para nos
aperfeiçoar progressivamente. Não tendo o devido interesse no
que pretendemos realizar, evidentemente o negligenciamos, o que é mesmo
mais comum, ou seja, o comodismo atua com predomínio em nossas ações.
Procuremos examinar como a negligência se manifesta em nós e também
de que forma. Assim, poderemos mais facilmente combatê-la:
a) Descuido na observação dos esforços
que precisamos desenvolver para conter nossos impulsos grosseiros;
b) Desatenção nos compromissos de
orar e vigiar para não cairmos em tentações;
c) Menosprezo às oportunidades de contribuir
em benefício do próximo, com uma palavra confortadora, um esclarecimento,
um auxílio material;
d) Preguiça em fazer algo desinteressadamente
ao próximo, na frequência ao grupo de estudos e aprendizado, na
leitura esclarecedora de obras necessárias, na conversa reconciliadora
no âmbito familiar, no posicionamento administrativo ponderado nas funções
trabalhistas e em tantas outras ocasiões em que os receios nos inibem
as ações transformadoras;
e) Irresponsabilidade no que nos foi confiado em
atribuições assumidas no grupo cristão, nas tarefas que
nos dizem respeito. Ao convite feito pesemos nossas possibilidades de cumpri-lo.
Uma vez aceito, a não correspondente parcela de trabalho reflete irresponsabilidade;
f) Desordem na própria arrumação
de objetos que se destinam às distribuições caridosas,
no trato dos cadernos e registros de contribuições, nos livros
que formam as bibliotecas das associações beneficentes, na conservação
dos móveis e utensílios do nosso grupo de trabalho cristão,
e nos pertences pessoais que nos servem de instrumentos como indumentária,
obras de consulta, ferramentas, cadernos de anotações, objetos
de uso, todos merecedores de nossos cuidados e zelo;
g) Imprevidência no planejamento e discussão
dos programas de atividades que se buscam realizar, nos centros comunitários
aos quais integremos nossa colaboração, deixando ao acaso e aos
espíritos protetores o desenrolar das tarefas que nos conferem.
Do acima exposto, resta-nos conhecer "quão" negligentes somos
para, então, aplicar os meios de diminuir esse defeito em nosso íntimo,
o que é uma das importantes metas a serem atingidas.
B -OCIOSIDADE
Ser ocioso é gastar o tempo inutilmente, sem proveito; é desperdiçá-lo
inativamente. Trazemos a ociosidade para as nossas cogitações,
numa abordagem dirigida ao aproveitamento do tempo nas realizações
que impulsionam a nossa evolução espiritual.
Convenhamos que, nesse aspecto decisivo, somos todos ainda ociosos, isto é,
gastamos o nosso valoroso tempo em muita coisa inútil ao progresso do
nosso espírito.
O trabalho é uma lei imperiosa da Criação, tudo se desenvolve,
caminha, evolui, produz-se como consequência dele, e como tal o que a
ele se opõe é nocivo, prejudicial. Vejamos, então, nesse
enfoque, como localizar esse defeito em nós:
a) Lazer prolongado, além dos limites do
repouso salutar ao espírito e ao corpo, em que nos entregamos à
inércia contemplativa ou à indiferença de fazer algo, em
exclusivo deleite pessoal, é prejuízo brevemente encontrado na
atrofia mental ou no enferrujamento dos membros de locomoção;
b) Inanição pelas declaradas recusas
a superar o "corpo mole" quando condicionados aos demorados sonos
refazedores; não nos dispomos a abraçar encargos de auxílio
ao próximo, receosos de comprometer as horas de indolência;
c) Desocupados, com tempo de sobra, quando não
dividimos as horas para cultivar leituras edificantes, nem praticar caridade
ou, muito menos, para o estudo e conhecimento de nós mesmos, responderemos
logo, contidos nas angústias aflitivas ou nas insatisfações
profundas, pela perda das oportunidades que as enfermidades mentais, quebrando
a rotina vaga, vêm nos exigir urgentes correções;
d) Não deixemos para amanhã o que
podemos fazer hoje, quando ainda contamos com horários livres e relativa
disposição no bem. Amanhã, no ocaso da vida, poderá
ser muito tarde, quando a falta dos movimentos dos braços e pernas, que
não exercitamos, nos levarão aos impedimentos definitivos;
e) Improdutivos na seara que nos foi confiada,
e que muito bem podemos reconhecê-la entre as múltiplas opções
de serviço cristão, quando dela estivermos afastados, alegando
dificuldades de tempo ou outras razões, estaremos identificados na figueira
estéril que secou.
Ocupamo-nos muito com os afazeres do cotidiano. Envolvemo-nos tremendamente
com as preocupações das obrigações assumidas, das
prestações contraídas na aquisição de algumas
das nossas necessidades e, assim, vai o tempo correndo sem percebermos. Ao olhar
em nossa volta, poderemos depois encontrar inúmeros adornos decorativos,
móveis modernos, veículos novos, aparelhos de som e de imagem,
propriedades diversas, mas, em nosso íntimo, quase sempre um vazio profundo
certamente residirá e não raro a ausência dos entes mais
caros. Indagaremos então: de que nos valeu tudo isso? Onde está
a felicidade supostamente conquistada? O que realmente construímos de
bom?
Ponderemos, queridos amigos, ainda hoje, aonde estamos aplicando o nosso tempo
tão precioso, e não nos percamos em coisas vãs e supérfluas.
A época em que vivemos é de resgate e de acertos de contas. Otimizemos
nossos esforços, valorizemos as horas no trabalho que nos proporcione
o necessário e renunciemos às ocupações extras que
nos permitem obter o que pode ser dispensado.
Dediquemos maior espaço de tempo nas atividades que desenvolvem e enriquecem
o nosso espírito, nas obras que poderão ser revestidas em méritos
e créditos, recompensando-nos segundo o que tivermos feito de bem ao
próximo.
Lembremo-nos de que, mesmo muito ocupados materialmente poderemos estar sendo ociosos espiritualmente...
Ney P. Peres