19 - SENSATEZ, PIEDADE |
A- SENSATEZ
"...
Não tenta dar valor ao seu espírito, nem aos seus talentos, a
expensas dos outros. Pelo contrário, aproveita todas as ocasiões
para fazer sobressair as vantagens dos outros. Não se envaidece jamais
com sua sorte, nem com seus predicados pessoais, porque sabe que tudo quanto
lhe foi dado pode ser retirado.
"Usa mas não abusa dos bens que lhe são concedidos, porque
sabe tratar-se de um depósito, do qual deverá prestar contas,
e que o emprego mais prejudicial para si mesmo, que poderá lhes dar,
é pô-los ao serviço da satisfação de suas
paixões. "
(Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo XVII. Sede
Perfeitos. O Homem "de bem.)
Ser sensato nas suas determinações é aquele indivíduo
judicioso, que age com cautela e sabedoria. Sabedoria pressupõe conhecimento
das verdades espirituais e, portanto, da importância dos fatos e ocorrências
da vida como meios para nos elevar na escalada da evolução espiritual.
Assim, a visão desse ângulo, quando somos chamados a agir, é
posição que devemos tomar, para sermos coerentes com a lei divina
ou natural que a tudo preside.
E até inadmissível agirmos contrariamente a esse posicionamento,
quando já estamos a par dos princípios doutrinários espíritas.
No entanto, como somos quase sempre envolvidos pelos impulsos emocionais que
antecedem nossas ações no proceder, deixamos de analisar com prudência
os acontecimentos vividos e não aplicamos a sensatez no que fazemos.
De que modo podemos ser sensatos?
a) Pensando cautelosamente nas consequências
que os nossos atos possam causar de prejudicial a outrem;
b) Evitando comentários que possam acarretar
dificuldades, separações, intrigas, desentendimentos a quaisquer
pessoas;
c) Afastando as oportunidades que nos induzam a
cometer erros e falhas;
d) Renunciando aos desejos caprichosos de posse
entre as paixões que ainda perduram em nós;
e) Pesando com reserva os próprios pensamentos,
idéias ou impressões, antes de articulá-los em palavras,
para não veicularmos por hipótese alguma a má informação;
í) Agindo com discrição, sem
alaridos, discussões ou críticas, nas decisões que nos
dizem respeito, que envolvam criaturas humanas;
g) Controlando com previdência os hábitos
e costumes que possam comprometer nossa saúde física ou nosso
equilíbrio emocional;
h) Indagando sempre do bom uso que estamos fazendo,
com proveito geral, dos bens materiais que nos foram confiados;
i) Utilizando os talentos que judiciosamente identificamos
em nós, colocando-os a serviço do bem comum, sem vaidade ou presunção,
com circunspecção e modéstia.
Quem já conhece - embora pouco - a destinação espiritual
do ser que nos anima o corpo, é naturalmente dirigido a pesar muito bem
todos os pensamentos, palavras e atitudes, como decorrência do amadurecimento
interior, cujos frutos começamos a cultivar, nos cuidados de tudo que
sai de nós: criações ou obras, expressões ou gestos,
conversas ou comentários, idéias ou irradiações,
que a sensatez pode aprimorar dignificando-nos à condição
de filhos de Deus.
B - PIEDADE
"O sentimento que mais acelera o progresso, domando
o egoísmo e o orgulho, dispondo a alma à fraternidade, à
beneficência e ao amor do próximo, é a piedade; essa piedade
que vos comove até as fibras mais íntimas, diante do sofrimento
de vossos irmãos, que vos leva a estender-lhes a mão caridosa
e arrancar lágrimas de simpatia."
(Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo XIII. Que
a Mão Esquerda Não Saiba o Que Faz a Direita. Item 17. A Piedade
- Michel.)
Esse sentimento que emana dos corações sensíveis em direção
aos que estão sofrendo pode refletir em nós com maior ou menor
intensidade, variando dos menores lampejos de dó às comoções
mais profundas.
O que nos torna mais sensíveis ao sofrimento alheio?
Quais os meios de canalizar mais corretamente esses sentimentos, em benefício
daqueles que nos tocam a compaixão?
Podemos cultivar a piedade? Com que finalidade?
Essas talvez sejam algumas indagações que faríamos nessa
época de tantas tribulações e de interesses imediatistas.
Pensar no problema dos outros já é difícil, que dirá
sentir a dor alheia.
"A piedade é a virtude que mais vos aproxima
das almas aprimoradas; é a irmã da caridade que vos conduz a Deus".
O sentimento, que é manifestação da alma, se amplia na
medida em que nos despojamos dos interesses egocêntricos, abandonamos
os apegos aos nossos pertences e nos voltamos para o bem-estar dos que estão
ao nosso redor. As satisfações que nos preenchem a alma transbordam
do nosso íntimo, abrangendo os semelhantes, e apenas se completam quando
proporcionamos a eles algum benefício.
Desponta,
então, dentro de nós, a devoção, e a piedade cresce,
como precursora que é da caridade, a mais sublime das virtudes. Desse
modo devemos, como esforço de aprimoramento, cultivar a piedade, que
acelera o nosso progresso espiritual e é indicativa do nosso amor ao
próximo.
Como, então, impulsionar a piedade dentro de nós?
a) Estimulando os próprios sentimentos de
compaixão para com os males alheios;
b) Dirigindo nossa atenção e nosso
olhar para os que convivem conosco, analisando-lhes as preocupações
e os receios;
c) Dedicando mais tempo em pensar nas aflições
dos que nos cercam em vez de nos absorver nas necessidades próprias;
d) Interessando-nos pelos problemas que atormentam
as criaturas sem rumo, oferecendo-lhes apoio e orientação evangélica;
e) Permitindo que o nosso coração
se enterneça diante das dores e tribulações de nossos semelhantes;
f) Visitando parentes, amigos e indigentes, hospitalizados
ou em reclusão, levando-lhes o bálsamo pelas expressões
de carinho,
restaurando-lhes a esperança e a resignação com palavras
de conforto;
g) Estendendo nossas mãos, em auxílio
fraterno e amparo, aos que nos comovam as fibras do coração;
h) Não sufocando jamais as emoções
de pena, para com qualquer pessoa, deixando-as crescer em nós e transformando-as
em
resultados benéficos objetivos.
"Ao contato da desventura alheia, a alma sem dúvida experimenta
um estremecimento natural e profundo, que faz vibrar todo o vosso ser e vos
afeta penosamente. Mas a compensação é grande, quando conseguis
devolver a coragem e a esperança a um irmão menos feliz, que se
comove ao aperto da mão amiga, e cujo olhar, ao mesmo tempo umedecido
de emoção e reconhecimento, se volta com doçura para vós,
antes de se elevar a Deus, agradecendo por lhe ter enviado um consolador, uma
sustentação."
Ney P. Peres