25 - COMPANHEIRISMO, RENÚNCIA |
"Quem
quer que seja depositário da autoridade, seja qual for a sua extensão,
desde o senhor sobre o seu servo até o soberano sobre o seu povo, não
pode negar que tem o encargo de almas e responderá pela boa ou má
direção que tenha dado aos seus subordinados, e as faltas que
estes puderem cometer, os vícios a que forem arrastados em consequência
dessa orientação ou dos maus exemplos recebidos recairão
sobre ele. Da mesma maneira, colherá os frutos de sua solicitude, por
conduzi-los ao bem. Todo homem tem, sobre a terra, uma pequena ou uma grande
missão. Qualquer que ela seja, sempre lhe é dada para o bem. Desviá-la,
pois, do seu sentido, é fracassar no seu cumprimento."
(Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo XVII. Sede
Perfeitos, Superiores e Subalternos - François Nicolas Madeleine).
A - COMPANHEIRISMO
O espírito de competição reinante entre grupos e pessoas
tem gerado desentendimentos, incompatibilidades, desuniões.
As divergências de opiniões no tocante à Doutrina Espírita,
"a maioria das vezes, versam apenas sobre acessórios, não
raro mesmo sobre simples palavras. Fora, portanto, pueril constituir bando à
parte por não pensarem todos do mesmo modo". (Allan Kardec. O Livro
dos Médiuns. Segunda Parte. Capítulo XXIX. Das Reuniões
e das Sociedades Espíritas. Rivalidades entre as Sociedades.)
"Os que pretendem estar exclusivamente com a verdade,
terão que o provar, tomando por divisa Amor e Caridade, que é
a de todo verdadeiro espírita. Quererão prevalecer-se da superioridade
dos Espíritos que os assistem? Provem-no, pela superioridade dos ensinos
que recebam e pela aplicação que façam deles a si mesmos.
Esse é o critério infalível para se distinguir os que estejam
no melhor caminho."
Queremos nos referir em particular ao espírito de companheirismo a prevalecer
entre os irmãos de ideal espírita, imbuídos todos no aperfeiçoamento
próprio e coletivo.
"Se o Espiritismo, conforme foi anunciado, tem que determinar a transformação
da Humanidade, só poderá fazê-lo melhorando as massas, o
que se verificará geralmente, pouco a pouco, em consequência do
aperfeiçoamento dos indivíduos."
"Convidamos, pois, todas as sociedades espíritas a colaborar nessa
grande obra. Que de um extremo a outro do mundo elas se estendam fraternalmente
as mãos, e eis que terão colhido o mal em indeslindáveis
malhas."
O que precisamos, estimados confrades, é desenvolver o companheirismo,
combatendo o personalismo por todos os meios, para não desviarmos a nossa
missão de produzir e propagar o bem que a Doutrina nos ensina.
Citemos, então, ao menos algumas oportunidades que, no nosso entender,
possam nos fazer melhores companheiros:
a) Renunciando às nossas posições
rígidas tomadas na direção ou na liderança de agrupamentos
sociais ou religiosos, quando comprometam a união de esforços
no trabalho evangélico;
b) Considerando em igualdade de condições
os pontos de vista dos demais integrantes, mesmo que exerçamos o predomínio
das idéias no grupo de serviços cristãos;
c) Criando atmosfera impessoal e unindo colaboradores
nas tarefas comuns, desenvolvidas na seara do Cristo;
d) Aceitando as idéias ou pareceres dos
outros, que mais convenham em resultados produtivos, mesmo que contrários
aos nossos;
e) Emprestando a mesma parcela de trabalho em grupo,
independentemente da posição de dirigido ou dirigente;
f)
Superando os melindres próprios, quando esquecidos em alguma referência
ou convite cerimonial;
g) Omitindo-nos sempre que possível nas
ocasiões de destaque para fazer sobressair o trabalho de equipe;
h) Evitando a crítica desdenhosa, a colaboradores
ou a grupos, por tarefas não cumpridas;
i) Prestigiando as boas iniciativas com nosso estímulo
e apoio no âmbito das atividades beneméritas;
j)
Esquecendo experiências desagradáveis já passadas, envolvendo
irmãos de ideal;
l)
Ouvindo críticas pessoais feitas a nós sem irritação,
tirando delas o melhor proveito nas correções que sempre precisamos
fazer;
m) Silenciando o verbo ou a escrita na abertura
ao público de aspectos desabonáveis, a pessoas ou a instituições
co-irmãs, mesmo em defesa da pureza dos postulados que abraçamos.
B - RENÚNCIA
"Vosso apego aos bens terrenos é um dos maiores entraves ao vosso aprimoramento moral e espiritual. Com o apego à matéria aniquilais as vossas faculdades efetivas, voltando-as inteiramente para as coisas do mundo. Sede sinceros: a fortuna proporciona uma felicidade sem máculas? Quando os vossos cofres estão abarrotados, não há sempre um vazio em vossos corações? No fundo dessa cesta de flores, não há sempre um réptil oculto?"
(Allan
Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo XVI. Não se
pode Servir a Deus e a Mamom. Item 14. Desprendimento dos Bens Terrenos —
Lacordaire.)
"O esquecimento completo e absoluto das ofensas é inerente às
grandes almas, e o rancor é sempre um indício de sentimentos menos
edificantes e de pouca evolução espiritual. Não deveis
esquecer que o verdadeiro perdão se reconhece muito mais nos atos do
que nas palavras." Capítulo X. Bem-aventurados os Misericordiosos.
Item 15. Perdão das Ofensas —Paulo, Apóstolo.)
Como nos manter razoavelmente equilibrados, sobrevivendo hoje com as onerosas
despesas sem nos atormentar?
Será possível conciliarmos a preocupação pelo ganho
financeiro e o desprendimento dos bens terrenos?
Como vivermos nessa época de lutas pelos valores monetários, renunciando
a eles?
Como esquecer os prejuízos que nos causam economicamente, sem contrair
desgostos e rancores pelo infrator?
A perícia está em administrar adequadamente os bens e valores,
como usufrutuários e depositários, sem deles fazermos exclusivo
uso para o nosso prazer, poupando-nos os excessos, distribuindo-os em oportunidades
de trabalho, empregando-os para matar a fome, diminuir o frio e proporcionar
abrigo a quem esteja na miséria.
O maior engano é fazer das ambições e desejos de possuir
móveis, imóveis, veículos, aparelhos domésticos,
vestuário e utensílios os principais objetivos do nosso salário,
a eles nos condicionando com avidez e desassossego.
Renunciar é principalmente não viver preso à posse de valores
monetários. Mas é também estar liberto da importância
dada aos valores profissionais, intelectuais, sociais ou políticos.
Em poucas palavras: ninguém precisa ser rico ou socialmente evidenciado
para ser respeitado, admirado ou amado. Vejamos o exemplo de Chico Xavier, cuja
admiração e respeito do público está no bem que
ele realiza.
Vejamos como aplicar a renúncia em algumas das inúmeras ocasiões:
a) Avaliando os principais motivos que nos têm
até hoje impulsionado ao trabalho desenfreado, aprimorando daí
os nossos propósitos de ganho;
b) Pesando tranquilamente o que possuímos
em bens e valores monetários para responder honestamente se os estamos
empregando para gerar benefícios ao próximo;
c) Examinando acertadamente de quais necessidades
supérfluas precisamos nos libertar;
d) Observando com profundidade se alimentamos quaisquer
desejos de proeminência profissional, intelectual, social ou política;
e) Dedicando uma parcela do nosso tempo em algum
serviço não-remunerado ao próximo;
f) Atenuando e relegando certas dívidas
por empréstimos feitos a nós, que porventura estejam nos aborrecendo;
g) Oferecendo utensílios, objetos e roupas
que possuímos em proveito de outros;
h) Inclinando nossos ideais de vida no próprio
aprimoramento moral e espiritual de forma mais objetiva.
"Aprendei a contentar-vos com o pouco. Se sois pobres, não invejeis
os ricos, porque a fortuna não é necessariamente a felicidade.
Se sois ricos, não esqueçais de que esses bens vos foram confiados,
e que deveis justificar o seu emprego, como numa prestação de
contas de tutela. Não sejais depositários infiéis, fazendo-os
servir à satisfação do vosso orgulho e da vossa sensualidade.
Não vos julgueis no direito de dispor deles unicamente para vós,
pois não os recebestes como doação, mas como empréstimo."
(Capítulo XVI. Não se pode Servir a Deus e a Mamom. Item 14. Desprendimento
dos Bens Terrenos — Lacordaire.)
Ney P. Peres