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- Misericórdia |
"A
misericórdia é o complemento da brandura, pois os que não
são misericordiosos também não são mansos nem pacíficos.
A misericórdia consiste no esquecimento e no perdão das ofensas.
"
(Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo X. Bem-aventurados
os Misericordiosos. Item 4.)
O que seria de nós, criaturas impregnadas de defeitos, se não
recebêssemos os acréscimos da Misericórdia Divina?
Fossem os nossos atos avaliados pelas mesmas medidas com que julgamos os atos
alheios, estaríamos inapelavelmente soterrados de tantos males acumulados
em nossa volta.
E se infinitas misericórdias temos recebido, que retribuições
estaremos dando ao próximo? Quais exemplos estamos seguindo?
É triste nos ver enquadrados na categoria de filhos ingratos, de um Pai
Bom e Justo...
O que nos faz tão fracos e facilmente atingidos, senão a importância
que nos damos, resultante do nosso orgulho, do imaginário valor que julgamos
ter?
Sendo mais coerentes e conscientemente mais realistas da nossa precária
condição evolutiva, de modo algum deixaríamos nos engolfar
com as exterioridades e nos valorizar pelo que possivelmente detenhamos.
A misericórdia deve ser inicialmente dirigida a nós mesmos, para
identificar nossas fragilidades e inconseqüências, partindo disso
para a reconstrução dos novos valores da vida em alicerces sólidos
e de eterna consistência.
Apoiemo-nos na observação simples de que os desejos de posse e
destaque denotam, em tese, caracteres de insegurança e carência
afetiva.
A atmosfera irreal da luxúria, do relacionamento requintado, não
poderá satisfazer por muito tempo aqueles que já despertaram para
os valores da alma. Quem assim se compraz, ainda se acha preso às pretensões
dos prazeres momentâneos e da vaidade.
O fato de ser admirado pelo que tem, de viver cercado socialmente, de manter
um "status" econômico que traduz para o seu "ego"
valores puramente convencionais é, me desculpem, pura perda de tempo!
Nada disso levamos conosco como benefícios ao nosso espírito.
Pura balela que tende a esvair-se, dia a dia...
Quando então nos observarmos muito exigentes, ofendidos por coisas simples,
arrogantes com os outros e cheios de si, vejamos aí um sinal de alerta!
Está na hora de aplicar a misericórdia para conosco mesmo e refletir
serenamente sobre o que estará pretendendo o nosso "ego". O
que estará nos faltando que desejamos preencher com coisas fúteis
e de somenos importância?
Invariavelmente o que nos falta é substituir os prazeres humanos pelas
alegrias do espírito, que só a caridade desinteressada nos proporciona.
Entre as muitas maneiras de aplicar a caridade está a misericórdia.
Quando
conscientemente a exercemos em nós mesmos, ficamos conhecendo os seus
bons efeitos e ficamos mais aptos a utilizá-la com aqueles que nos cercam.
Ser misericordioso significa estar munido de brandura e pacificação,
molduras que ornamentam delicadamente os traços nítidos do perdão,
da tolerância.
O nosso mundo deve ser, com as boas predisposições das criaturas
viventes, enriquecido com as expressões de misericórdia. Saber
desculpar até mesmo os que, no desespero das revoltas ou do que lhes
falta, possam cometer crimes, assaltos, sequestros.
Entendemos que isso deva prevalecer, não nos deixando manter ódio
contra os que possam nos atacar nas ruas ou em nossa própria casa.
"O esquecimento das ofensas é o apanágio
das almas elevadas, que pairam acima dos golpes que lhes queiram desferir."
Ney P. Peres