3 - O CONHECIMENTO DE SI MESMO |
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- O CONHECIMENTO DE SI MESMO
"Qual o meio prático mais eficaz para se melhorar nesta vida e resistir
ao arrebatamento do mal? Um sábio da antiguidade vos disse: 'CONHECE-TE
A TI MESMO:" (Allan Kardec, O Livro dos Espíritos. Pergunta
919.)
De modo geral, vivemos todos em função dos impulsos inconscientes
que se agitam no nosso mundo interior. Manifestamos, sem controle e sem conhecimento
próprio, nossos desejos mais recônditos, ignorando suas raízes
e origens. O campo íntimo, onde os desejos são despertados nas
mais variadas formas, encontra-se ainda muito vedado diante de um olhar mais
profundo. Refletimos inconscientemente um sem número de emoções,
pensamentos, atrações, repulsas, simpatias, antipatias, aspirações
e repressões. Somos um complexo indefinido de sentimentos e idéias
que, na maioria das vezes, brotam dentro de nós sem sabermos como e por
quê.
Somos todos vítimas dos nossos próprios desejos mal conduzidos.
Se sentimos dentro de nós uma atração forte e alimentamos
um desejo de posse, não nos perguntamos se temos o direito de adquirir
ou de concretizar aquela aspiração. Sentimos como se fôssemos
donos do que queremos, desrespeitando os direitos do próximo. Queremos
e isso basta, cusle o que custar, contrariando ou não a liberdade dos
outros. O nosso desejo é mais forte e nada pode obstá-lo, esta
é a maneira habitual de (ungirmos internamente). Agindo desse modo, interferimos
na vontade dos que nos cercam e contrariamos, na maioria das vezes, os desejos
daqueles que não se subordinam aos nossos caprichos. Provocamos reações,
violências de parte a parte, agressões, discussões, desajustes,
conflitos, ansiedades, tormentos, mal-estares, infelicidades.
Vemos constantemente os erros e defeitos dos que nos rodeiam e somos incapazes
de perceber nossos próprios erras, tão ou mais acentuados que
os dos estranhos. As nossas faltas são sempre justificadas por nós
mesmos, com razões claras ao nosso limitado entendimento. Colocamo-nos
sempre como vítimas. Os outros nos causam contrariedades e desrespeitos,
somos isentos de culpa e apenas defendemos nossos direitos e nossa integridade
própria.
Esse comportamento é típico nos seres humanos e confirma o desconhecimento
de nós mesmos, das reações e manifestações
que habitam a intimidade do nosso eu, sede da alma. A grande maioria das criaturas
humanas ainda se compraz na manifestação das suas paixões
e não encontra motivos para delas abdicar em benefício de alguém;
são os imediatistas, de necessidades mais elementares, com predominância
das funções animais, como reprodução, conservação,
defesa. Dentro dessa maioria, compreendemos claramente como hábitos mais
evidentes e comuns a sensualidade, a gula, a agressividade, que, no ser racional,
muitas vezes ultrapassam os limites das reações primitivas animais
nos requintes de expressão, decorrentes daqueles três hábitos:
ciúme, vingança, ódio, luxúria, violência.
Podemos dizer que há, nesses tipos de indivíduos, a predominância
da natureza animal, orgânica ou corpórea.
Uma pequena minoria da humanidade compreende a sua natureza espiritual, e como
tal reflete um comportamento mais racional e menos impulsivo, isto é,
suas necessidades já denotam aspirações do sentimento,
algum esforço em conquistar virtudes e, assim, libertar-se dos defeitos
derivados do egoísmo. Estamos todos, possivelmente, numa categoria intermediária,
numa fase de transição de espíritos imperfeitos para espíritos
bons e, portanto, ora nos comprazemos dos impulsos característicos do
primeiro, ora buscamos alimentar o nosso espírito nas realizações
do coração, na caridade, na solidariedade, no esforço de
auto-aprimoramento. Vamos, assim, de modo lento, nas múltiplas existências,
realizando o nosso progresso individual, elevando-nos na escala que vai do ser
animal ao ser espiritual, alicerçando interiormente os valores morais.
Na resposta à pergunta 919-a, feita por Kardec aos Espíritos (O
Livro dos Espíritos. Livro terceiro, capítulo XII. Da Perfeição
Moral.), Santo Agostinho afirma: "O Conhecimento
de Si Mesmo é, portanto, a chave do progresso individual".
Todo esforço individual no sentido de melhorar nesta vida e resistir
ao arrebatamento do mal só pode ser realizado conscientemente, por disposição
própria, distinguindo-se claramente os impulsos íntimos e optando-se
por disposições que nos levam às mudanças de comportamento.
Desse modo, "conhecer-se a si mesmo" é a condição
indispensável para nos levar a assumir deliberadamente o combate à
predominância da natureza corpórea.
E por quais razões o conhecimento próprio é o meio prático
mais eficaz? Na Grécia, 400 anos antes de Cristo, Sócrates já
assim ensinava. lissa sabedoria milenar ainda hoje é sobretudo evidente,
e constitui o meio para evoluirmos. Não é compreensível
que ao nos conhecermos estaremos a um passo de melhorar? Não se torna
mais fácil, sabendo os perigos a que estamos sujeitos, afastarmo-nosdeles
e evitá-los?
Ney Prieto Peres