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- Um método prático de auto-análise |
"Aquele
que, todas as noites, lembrasse todas as suas ações do dia e se
perguntasse o que fez de bem ou de mal, pedindo a Deus e ao seu anjo guardião
que o esclarecessem, adquiriria uma grande força para se aperfeiçoar,
porque, acreditai-me, Deus o assistirá."
(Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Santo Agostinho. Pergunta 919-A.)
Esboçaremos
um método prático, à guisa de sugestão, para realizarmos
individualmente o trabalho de auto-análise. Podemos, sem dúvida,
aplicar esse método em quaisquer situações que haja necessidade
do exame das nossas reações: no "convívio com o próximo",
na "dor", como tarefas nas "Escolas de Aprendizes do Evangelho",
ou mesmo como norma que isoladamente desejarmos seguir no propósito de
auto-reforma, como o fez Santo Agostinho.
O método aqui apresentado se desenvolve em 5 (cinco) fases: Preparação,
Sintonia Espiritual, Reflexão, Detalhamento e Renovação.
Na preparação, procuramos chegar a uma condição
de tranquilidade que permita uma penetração mais profunda no nosso
campo subjetivo, para exploração da nossa consciência.
Com a Sintonia Espiritual recorremos ao apoio e à colaboração
dos nossos companheiros espirituais (anjos guardiães), estreitando os
nossos laços vibratórios para melhor sintonia com eles e integração
no plano que possivelmente juntos elaboramos para a nossa presente existência.
Admitimos, à luz do Espiritismo, ser essa uma das condições
indispensáveis para esse trabalho.
Na Reflexão movimentamos as nossas potencialidades espirituais a serviço
da autoconsciência e compreensão, dos condicionamentos e dos impedimentos
aos progressos espirituais que programamos realizar nessa existência.
No Detalhamento dinamizamos a auto-análise, isolando fato por fato, ocorrência
por ocorrência, e penetrando em cada uma por vez, até as raízes
mais profundas que consigamos atingir. A utilização de um caderno
de anotações é importante para registrarmos o material
que iremos elaborar na auto-análise.
E, finalmente, na Renovação trabalhamos, aos níveis do
nosso consciente, com os recursos disponíveis, as transformações
progressivas que objetivamos dentro da orientação evangélica
ensinada pelo nosso Mestre Jesus.
O presente método dispensa a figura do orientador humano, do confessor,
do supervisor ou do psicoterapeuta, afastando os perigos das dependências
e conveniências que se têm criado de há muito e que, por
comodismo, preferimos quase sempre aceitar sem reflexão, seguindo o que
os "outros" nos dizem em lugar de assumirmos nós mesmos os
nossos destinos, erros e acertos.
Isso
também ocorre com aqueles que, em assuntos corriqueiros e naqueles de
sua própria competência, sistematicamente procuram ouvir os "espíritos",
preferindo fazer o que eles dizem, tardando o desenvolvimento das suas próprias
faculdades de pensar, ponderar, discernir, decidir e agir, 'conduzindo-se por
si mesmos.
Achamos que esse processo valoriza cada criatura, dinamizando a sua consciência,
desenvolvendo a sua força de vontade e proporcionando a testemunhação
individual, livre e autêntica. Vejamos, então, de que modo podemos
exercitar o sugerido método.
A prática da auto-análise requer um local na própria residência
ou fora dela, para permanecer por alguns momentos sozinhos e isolados da movimentação
externa. Um quarto, uma sala, um terraço, um recanto no jardim. Ali,
sentados confortavelmente, despreocupados de tudo, vamos começar a conduzir
o nosso pensamento numa certa direção, na qual buscaremos a exploração
do nosso terreno emocional e mental.
Pela falta de treinamento e até mesmo disciplina nesse tipo de experiência íntima, no início naturalmente sentiremos dificuldades, pois vivemos muito dispersivos nas nossas atividades diárias e não estamos acostumados a conduzir a ocupação da nossa mente numa meta desejada.
Na
diversidade de assuntos que tratamos durante o dia e na contínua movimentação
das paisagens que a nossa vista acompanha, estamos constantemente envolvidos
por fatores externos a nós mesmos; são os estímulos de
toda sorte que nos atingem e gravam-se no nosso psiquismo.
Quando, então, no local escolhido, isolarmo-nos do que se passa externamente
e estivermos comodamente sentados, em silêncio, de olhos fechados, vamos
conviver com o que se passa no nosso interior. O que observamos? De início,
percebemos a inquietação e a dispersão tão comuns
a todos e, a partir disso, começaremos a conduzir nossas emoções
e pensamentos em lugar de sermos por eles conduzidos, como acontece comumente.
Para facilitar, dividamos essa prática ern fases. Teremos então:
1ª Fase -Preparação
Comecemos por agir no sentido de relaxar interiormente, descontrair os músculos
do corpo, dos pés à cabeça, e principalmente da fronte,
dos olhos, da boca, dos maxilares, libertando as tensões musculares e
emocionais. Procuremos chegar progressivamente a um relaxamento completo.
Vamos assim prosseguindo no desejo de agora serenar a nossa mente, buscando
sentir no coração uma calma profunda, e imaginemos que um halo
de luz suave, azul-claro, vai impregnando e envolvendo todo o nosso ser.
Nesses primeiros momentos, possivelmente conseguiremos apenas aquietar um pouco
o nosso interior, mas persistamos ao ponto de conseguir tranquilidade e bem-estar.
Um fundo musical, baixo e suave, ajuda substancialmente a chegar a esse estado
de serenidade.
Nesses instantes, assim impregnados numa atmosfera de bem-estar profundo, respiremos
compassadamente algumas vezes, enchendo os nossos pulmões e esvaziando-os,
mentalizando nesse exercício a absorção de energias vitalizantes.
Com o decorrer das experiências, alguns talvez comecem a sentir uma impressão
de deslocamento, e até mesmo de distanciamento do ambiente; no entanto,
não se deve deixar perder a consciência.
2ª Fase — Sintonia Espiritual
Continuemos e, em seguida, vamos buscar nossa sintonia com o amigo espiritual,
o companheiro que mais de perto supervisiona e inspira os nossos passos na existência
presente. Recorramos a ele, indo ao seu encontro, nesse trabalho que desejamos
fazer com a sua ajuda. Estabeleçamos um diálogo mental com o nosso
protetor espiritual, manifestando esse desejo de "conhecer-se melhor"
e libertar-se das nossas imperfeições, desse modo capacitando-nos
na melhoria interior, para melhor servir ao Nosso Mestre de Amor.
Possivelmente algum tempo decorrerá, não previsível, até
conseguirmos essa vivência espiritual. No entanto, nunca desanimemos e
continuemos persistentes no nosso esforço de auto-análise mesmo
sem chegar completamente a essa condição. Depois de atingir esse
estágio, que poderá ser identificado por um bem-estar profundo,
e cujo tempo de duração para nele chegar varia de pessoa a pessoa,
passemos ao trabalho de exploração da nossa consciência.
3ª Fase — Reflexão
Dentro daquela atmosfera já atingida, vamos então ativar a consciência
trazendo à tona da nossa memória os acontecimentos diários,
de preferência numa ordem cronológica, que nos fizeram viver as
emoções fortes, as explosões de sentimentos, as manifestações
de violência, as agressões, os impulsos que vêm do nosso
inconsciente, e que ficaram impregnados na nossa aura, nos transmitindo as suas
impressões de forma sutil, e, na maioria das vezes, deixando-nos num
estado de intranquilidade ou de ansiedade.
Naturalmente devemos focalizar nessa ordem cronológica um quadro ou uma impressão emocional de cada vez e concentrarmo-nos naquela de maior intensidade escolhida para a análise que estamos realizando no momento, sem deixar que as impressões dos demais acontecimentos interfiram. Lembremos que temos em nós uma tendência natural de soterrar aqueles acontecimentos e lembranças que nos são desagradáveis, e inconscientemente afastamos os que nos aborrecem, mas permanecem represados, exercendo seus reflexos e influenciando constantemente o nosso comportamento.
Precisamos
ter a disposição de desenterrá-los e trazê-los à
consciência, enfrentando-os e trabalhando para compreendê-los, nos
libertando das suas pressões incontroláveis. Vamos remontar os
acontecimentos sem nos deixar envolver pelos mesmos impulsos que naqueles momentos
nos dominaram. Esforcemo-nos por ser, dentro do possível, um mero espectador
em lugar do protagonista que os desempenhou.
4ª Fase — Detalhamento
Enfoquemos, então, aqueles acontecimentos mais vivos que se acham gravados
em nós e vamos registrando por escrito, na ordem em que cada uma deles
ocorreu, desde o seu início: primeiro, o que deu origem ao acontecimento;
depois o que desencadeou nossa reação impulsiva e, por último,
as consequências provocadas pela nossa atitude. Dentro dessa ordem natural,
anotemos num caderno, de um lado os nossos impulsos, depois os motivos que originaram
os mesmos, e ao lado desses as suas prováveis raízes ou causas
desencadeadoras.
5ª Fase - Renovação
Dispondo-nos ao melhoramento de nós mesmos, com espírito de combate
e já despertados espiritualmente para os testemunhos cristãos,
esclarecidos pelo nosso protetor espiritual, nessas ocasiões manifestam-se
no nosso espírito os arrependimentos pelas reações intempestivas
ou pelos deslizes cometidos. Esses são os primeiros lampejos de renovação,
denotando as transformações que se iniciam em nós.
Vigiemos, no entanto, para não nos deixar envolver por esses sentimentos
depressivos. Consideremos que eles são indicativos do desabrochar da
nossa sensibilidade para uma nova fase de evolução, e, com paciência
e vigor, conduzamos as nossas energias no fortalecimento dos propósitos
de não nos deixar levar, em outras oportunidades semelhantes, pelos mesmos
sentimentos desavisados.
Ao identificar conscientemente o que originou no nosso íntimo a reação
impulsiva, indaguemos agora por que a tivemos e com que propósito agimos
daquele modo. Formulemos perguntas claras e objetivas, desenvolvendo a autocensura
e tirando conclusões precisas sobre os tipos de defeitos e paixões
que mais comumente ainda se encontram arraigados dentro de nós mesmos.
Algumas vezes a simples auto-observação já conduz o indivíduo
à modificação do seu comportamento improcedente. A identificação
da causa que motivou a reação ajuda consideravelmente a mudar
os seus efeitos desastrosos, porque passamos a conhecê-los e a evitá-los
voluntariamente.
Da identificação feita pela auto-observação das
causas provocadoras das nossas reações inferiores à mudança
propriamente da maneira de agir, há um trabalho considerável a
ser realizado. No entanto, a Renovação aí começa
e prossegue com o nosso esforço de vontade. Mostraremos nos capítulos
seguintes algumas técnicas, recursos ou meios para realizarmos praticamente
essas importantes mudanças. Essa última fase do método
aqui sugerido ajuda-nos a dar os primeiros passos no trabalho de auto-renovação,
que se prolongará, daí em diante, até superarmos as deficiências
já localizadas.
Exemplos de situações com aplicação do método
de auto-análise
Para ilustrar o método acima, tomemos alguns exemplos de casos que têm
acontecido na vida comum:
SITUAÇÃO A: Caso conjugal
Histórico Sumário: Um casal de condição
média e relativa instrução, adeptos do Espiritismo, colaboradores
dedicados nos serviços de assistência social e de explanação
evangélica nas Casas Espíritas de uma cidade do Interior, convivendo
harmoniosamente há onze anos, com dois filhos, de dez e oito anos, tendo
o marido já superado, com a ajuda da esposa, períodos de limitações
financeiras, deixa-se envolver por forte atração que uma jovem
aflita, por ele entrevistada na própria instituição espírita,
lhe faz sentir. Após alguns meses de relacionamento com essa jovem em
conflito, afasta-se do lar, abandonando esposa e filhos, passando a conviver
com aquela que estaria agora preenchendo os seus ideais.
Decorridos cerca de dez meses, como se poderia esperar, desperta do sonho ilusório
que lhe envolvera os sentidos, após ter imaginado que houvera encontrado
a felicidade inconsistentemente apoiada em alguns devaneios infantis elaborados
subconscientemente, possíveis traços de tendências de vidas
pregressas.
A consciência se inquieta, ferve-lhe a cabeça, aperta-lhe o coração,
um torvelinho de pensamentos e emoções passa a dominar-lhe, vive
em profunda aflição, desgoverna-se, sem resposta, indaga-se constantemente
o que fazer.
Auto-análise: Num dia de trégua, a razão finalmente emerge
daquele tormento de emoções, inclina-se à reflexão
tocado pelo amigo espiritual, que, depois de lento e paciente envolvimento à
distância, encontra condições de aproximar-se.
Senta-se, relaxa e consegue refletir. A imaginação caminha e localiza
algumas pequenas contrariedades com a esposa, que lhe fizeram sorrateiramente
desejar uma felicidade mais completa, criando ilusões com algum outro
coração feminino.
Identifica
a imaturidade, a falta de uma ponderação mais firme buscando os
aspectos valorosos no caráter da própria esposa que agora percebia:
sua dedicação aos filhos, seu espírito de conformação.
Afinal, deixara levar-se por um impulso sem fundamento que começou a
minar sua resistência e a tomar corpo na forma de uma insatisfação
incontida. Colhia agora os resultados desastrosos da sua invigilância.
Procurou objetivamente relacionar:
1° O que deu origem ao seu estado aflitivo?
2° Quais as razões que o levaram a tal situação?
3° Quais as consequências provocadas?
Conseguiu, então, responder por ele mesmo:
1° - O seu estado de aflição
foi motivado pelo impulso de um envolvimento passional a que se deixou levar,
e que lhe foi progressivamente absorvendo por falta de vigilância.
2° - As razões que o levaram a tal situação
foram: a ilusão que deixou fixar-se na sua imaginação;
a falta de ponderação; a imaturidade; a necessária reação
aos impulsos nos momentos de suas manifestações.
3° - As consequências verificadas: sofrimento
próprio, da esposa e dos filhos; desequilíbrio emocional dos mesmos;
problemas psicológicos como trauma, insegurança, ansiedade, desajustes
de comportamento, principalmente na esposa e nos filhos.
Em resumo:
- Impulsos últimos: desejo mal conduzido, intolerância, fuga
- Motivos: imaturidade. irreflexão. irresponsabilidade
- Consequências: desequilíbrios, sofrimento, desajustes.
Obviamente, tomando consciência da situação, o protagonista,
querendo sair da situação desesperadora em que se encontra, procurará
os meios de reconstruir o seu lar, o que certamente só conseguirá
com paciência e espírito de luta, pois colherá as reações
naturais daqueles a quem atingiu com a sua invigilância.
FAÇA SUA AVALIAÇÃO INDIVIDUAL:
1 - Já sentiu a necessidade de refletir por algum tempo sobre dado acontecimento o que lhe tenha intranquilizado?
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2 - Em alguns momentos de aflição ou ansiedade já procurou desvendar as suas origens?
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3 - Sente-se de alguma forma aliviado quando intimamente consegue entender os motivos de alguma manifestação sua que tenha magoado alguém? O que faz para corrigir-se?
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4 - Já recorreu à prece na tentativa de ser esclarecido sobre alguma falha cometida?
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5 - Tem como prática o costume de pensar sobre o que lhe ocorre durante o dia?
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6 - Consegue facilmente analisar uma situação que viveu?
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7 -Nas vezes em que tem refletido sobre algo que lhe tenha alterado a tranquilidade, já procurou fazê-lo sem reviver as mesmas emoções ou contrariedades?
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8 - Procura se acalmar e relaxar quando algo ou alguém lhe fere o íntimo?
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9 - Já buscou confabular em pensamento com o seu protetor espiritual?
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10 - Preocupa-se em ter um comportamento sempre melhor, reagindo às emoções e aos pensamentos que lhe aborrecem ou que sejam prejudiciais a alguém?
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Ney Prieto Peres