33
- Como trabalhar intimamente |
"Não
existem paixões de tal maneira vivas e irresistíveis, que a vontade
seja impotente para as superar?
— Há muitas pessoas que dizem 'EU QUERO', mas a vontade está
somente em seus lábios. Elas querem, mas estão muito satisfeitas
que assim não seja. Quando o homem Julga que não pode superar
suas paixões, é que o seu Espírito nelas se compraz, por
consequência de sua própria inferioridade. Aquele que procura reprimi-las,
compreende a sua natureza espiritual; vencê-las é para ele um triunfo
do Espírito sobre a matéria."
(Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Capítulo XII. Perfeição
Moral. II. Das Paixões. Pergunta 911.)
O nosso trabalho, como acontece em qualquer processo de aprendizagem é
gradual e crescente, vai de etapa a etapa, progredindo sempre. Admitimos que,
seguindo-se o roteiro deste manual de aplicação, após compreendidas
as bases da Transformação Intima (Parte I) e estudado o que se
pode transformar (Parte II), o nosso esforço em exercitar, através
dos meios apresentados (Parte III), conduziu-nos de início à auto-análise.
De algum modo fazermos, embora empiricamente, as nossas reflexões, é atributo do ser pensante e até certo ponto racional; no entanto, quando procuramos realizar esse trabalho dentro de um contexto filosófico-moral, fundamentado no conhecimento da natureza espiritual do homem, da sua origem, constituição, relacionamento e destino, quando entendemos, à luz do Espiritismo, as leis morais que nos regem, então a nossa motivação se amplia e passamos a impulsionar com a nossa vontade que, apoiada nas realidades da vida espiritual, leva-nos a marchar irreversivelmente, rumo ao progresso moral, isto é, leva-nos a contribuir decisiva e vigorosamente para avançar na nossa evolução.
Assim
sendo, praticamos a auto-análise não apenas para livrarmo-nos
de algum conflito que nos desequilibra, tentando, portanto, conhecer as suas
causas, mas o fazemos como um trabalho necessário para alcançar
transformações dentro de padrões compatíveis com
os ensinamentos do nosso modelo de perfeição: Jesus de Nazaré.
(Id. ibid. Pergunta 625.) A auto-análise é um trabalho que se
desenvolve com o tempo e não cessa mais, pois é o meio de identificar
deliberadamente o que se deve melhorar. Quem está interessado em ser
melhor nunca mais pára de progredir, a evolução é
infinita.
Do diagnóstico propriamente dito, ou seja, da identificação
das manifestações impulsivas de inferioridade às transformações,
quase sempre realizadas lentamente, aplicamos a auto-observação,
que é sequente e decorrente da auto-análise. Podemos comparar
a auto-observação com uma ação consciente de autopoliciamento,
de vigilância, interligada ao esforço de auto-aprimoramento, ou
seja, de remover defeitos introduzindo virtudes, e ainda de verificação,
para que aquelas virtudes sejam autênticas, sem mesclas de orgulho ou
vaidade, quer dizer, virtude sem ostentação.
A auto-observação, vimos como fazê-la, contando com exatidão
e registrando graficamente as contagens das manifestações impulsivas.
Agora, o auto-aprimoramento se interrelaciona com a auto-observação
e, embora silencioso, ele é desenvolvido com energia e muita atividade
mental.
Como podemos trabalhar intimamente nesse auto-aprimoramento é o que vamos
discutir. Calma! Tenho que parar aqui! Uma pausa necessária. Não
há arrastamentos irresistíveis, há sim arrastamentos apenas
(Id., Ibid. Pergunta 845) e, diante deles, o que precisamos fazer? Sair de qualquer
modo, com rapidez, daquela situação de perigo. Dar um tempo, respirar
fundo, afastar-se, dar uns passos atrás, pedir licença para ir
ao banheiro, lavar o rosto, tomar um copo d'água, relaxar, contar até
dez, desculpar-se pelo engano, morder a língua, dar-se um beliscão,
num instante dizer, de si para si:
"CALMA
Al', AMIGO! AQUI TENHO QUE PARAR!"
Precisamos só de um pouco de coragem para conseguir as primeiras vezes,
porque nas próximas já dominaremos com maior facilidade. Esse
é o processo das Pausas, que podemos aplicar todas as vezes em que o
nosso vulcão interior ameaçar entrar em erupção.
Temos que ser velozes e parar de imediato com uma ordem mental firme, que cada
um saberá elaborar para surtir maiores efeitos.
Estabelecendo pausas, damos tempo para que o próprio tempo trabalhe a
nosso favor. O que dissermos em pensamento agirá produzindo novas disposições,
em substituição àquele primeiro impacto de reação,
e, desse modo, quebramos o processo automático ao qual estamos condicionados
ou habituados, e que nos leva às reações explosivas.
As pausas dão lugar às manifestações construtivas,
renovadoras, tranquilizantes, confortadoras, portanto de efeitos reais.
Relaxamento e Meditação
Hoje, as práticas de relaxamento e de meditação não
são apenas utilizadas pelos místicos orientais de vida reclusa,
são largamente empregadas no Ocidente, divulgadas e ensinadas por um
surpreendente número de autores estrangeiros e brasileiros: filósofos,
pensadores, psicólogos, educadores, médicos e terapeutas.
Essas técnicas ajudam grandemente o homem moderno a suportar as tensões
e os desgastes de seu trabalho diário.
Não queremos aqui, atrevidamente, apresentar uma técnica ou método
pessoal, preferimos recomendar aos interessados que consultem algumas obras
específicas e escolham por si mesmos a que lhes parecer melhor. A nossa
experiência é muito relativa e temos nos utilizado simplesmente
dos processos de fácil emprego, em resumo compreendidos no que segue:
1°
Em local isolado e silencioso, sentado, reclinado ou deitado, com pequeno gravador
cassete, tocando baixinho músicas suaves de meditação e
prece, em hora conveniente;
2° Começando por relaxar pausadamente, em ordem, dos pés à
cabeça, descontraindo músculos e aliviando tensões, penetrando
em profunda calma;
3° Pode-se respirar compassadamente com maior profundidade, algumas vezes,
imaginar-se absorvendo energias vitalizantes e envolto numa atmosfera reconfortante
de vibrações azul-claro;
4° Imaginando-se às margens de um lago sereno, numa paisagem tranquila,
identificado emocionalmente com aquelas irradiações, iniciamos,
assim, a mentalização de algumas afirmações dentro
do que esperamos alcançar, ou seja: obter equilíbrio emocional,
dominar impulsos, superar tentações, vencer vícios, eliminar
hábitos, transformar defeitos, adquirir virtudes, realizar o bem desinteressadamente,
não reagir com violência, ser compreensivo, amigo, tolerante, benevolente,
piedoso, laborioso, modesto, despretensioso, e assim por diante...
Essas afirmações devem ser claras, bem definidas e independentes
umas das outras, fazendo-se uma por vez, sem se deixar saturar cansativamente
por um prolongado e extenso número delas. Essas práticas contribuem
de forma generalizada para obtermos uma razoável condição
de equilíbrio emocional e movimentarmos nossas potencialidades espirituais,
no sentido das transformações íntimas. Desse modo, nos
predispomos a reagir com serenidade e a controlar nossos impulsos, como também
nos auxiliando a superar ansiedades e tensões.
O mecanismo em ação é: ao trabalharmos profunda e permanentemente
as raízes do inconsciente, agimos magneticamente em nossos registros
mentais, de maneira a modelar as suas manifestações.
Conversas
consigo mesmo
Quantas vezes precisamos ponderar para nós mesmos as razões
sérias em que nos apoiamos para não cometer esse ou aquele erro?
As conclusões que tiramos sobre a maneira grosseira de agir para com
alguém, o fazemos numa conversa silenciosa conosco mesmo.
Repreendemo-nos então, com frases articuladas mentalmente, reconhecendo
nossa culpa e encorajando-nos a expressar nosso arrependimento num pedido de
escusas.
Diante de um envolvimento forte, que possa nos induzir a um ato repreensível,
precisamos balancear os "prós" e os "contras", trazendo
à discussão íntima os conhecimentos apreendidos, pesando
bem as consequências desastrosas e renunciando a algum prazer ilusório.
É como se conversássemos, persuadindo-nos amigavelmente a não
nos deixar levar por esse ou aquele impulso, apelando para a própria
compreensão dos prejuízos a causar, não valendo a pena,
por tão pouco, destruir todo um esforço de edificação
interior.
Nessa conversa bem consistente, vamos sentindo que o clima emocional muda e
a fogueira que ardia vai abrandando até extinguir-se. Conseguimos,
assim, reprimir o impulso e remover a ação prejudicial.
O Espiritismo nos reforça a necessidade prática dessa conversa
interior, ao mostrar a influência oculta dos espíritos sobre os
nossos pensamentos e ações. (Id., ibid. Capítulo IX. Intervenção
no Mundo Corpóreo. Perguntas 459 e 472.) Desse modo, distinguindo sempre
o bem do mal, separamos as más influências das boas, os próprios
maus impulsos, as sugestões perniciosas, e afastamo-nos do proceder transgressor,
repelindo as tentativas dos espíritos que nos incitam ao mal.
O caminho seguido para que nos utilizemos desse método é aproximadamente
esse:
1° Ao começar a descobrir a inclinação disfarçada
para cometermos algum deslize, mesmo na forma sutil, como uma expectativa de
satisfação, prazer ou algo semelhante, vamos logo ao encontro
dela;
2° Vamos, então, indagando o "porquê" daquela emoção
sorrateira e sondemos onde estão as suas raízes. Podemos até
dizerem pensamento: "Aproxime-se, quero lhe conhecer melhor", "Por
que vou seguir a sua sugestão?", "Não é preferível
saber primeiro os seus motivos?", "Acontece que não espero
agradar-lhe", "Quero manter meu equilíbrio e não ceder
às suas tentações", "Quais as suas necessidades?",
"Não serão os chamamentos corpóreos, as predominâncias
do ser animal que habita em mim?"
3° Assim prosseguimos, e identificando as origens das manifestações
atraentes, ponderamos as consequências: "Se eu ceder, serei levado
a colher profundas tristezas, depressões, sofrerei amargamente",
"Assim fazendo prejudicarei a (A) e a (B), pois sucederá (isso)
ou (aquilo)", "Será que eu gostaria que assim fizessem
comigo?", "Ah! Não vale a pena, a minha tranquilidade é
mais importante!", "Quero seguir Jesus, ele me ensina a agir nessas
ocasiões, (desse) e (daquele) modo", "Ë isso que vou fazer",
"Estou decidido e basta!"
4° Recorrer à leitura de algumas páginas de livros como:
Conduta Espírita. André Luiz.
Sinal Verde. André Luiz.
Rumo Certo. Emmanuel.
Coragem. Espíritos Diversos.
Segue-me. Emmanuel.
Pão Nosso. Emmanuel.
Vinha de Luz. Emmanuel.
Caminho, Verdade e Vida. Emmanuel.
Fonte Viva. Emmanuel,
e tantos outros que nos incentivam ao bem proceder, apoiados no Evangelho de
Jesus.
Gritar Mentalmente
Algumas vezes, quando a conversa conosco mesmo não consegue mudar a impregnação
de qualquer desejo, quando ainda ficamos alimentando-os e, apesar de compreender
que não devemos e eles dar escoamento, permanecemos envolvidos sem afastá-los.
Nessas ocasiões de indefinição corremos sérios riscos
de cometê-los e necessitamos de um salva-vidas para não afundar.
Nesses casos é muito válido gritar mentalmente, com bastante energia,
expressões como:
"Saia da minha cabeça!"
"Afaste-se de mim!"
"Não me atormente!"
"Não vou cair nesse erro!"
"Basta!"
"Chega!"
"Suma!"
Podemos gritar mentalmente em qualquer situação, sem chamar a
atenção dos outros, cada vez que aparece um pensamento nocivo,
uma emoção caprichosa, uma imagem erótica, um desejo incontido.
Podemos gritar, se for necessário repetidamente, qualquer frase de contenção
vigorosa, como uma ordem à fonte geradora, até que a emissão
perigosa desapareça.
Ao emitir mentalmente um grito de alerta, respondemos com uma reação
ao impulso destruidor e derrubamos a sua força de envolvimento, saindo,
portanto, daquele instante perigoso.
Com um grito, diz o adágio popular, "se salva uma boiada",
e podemos salvar a nós mesmos de cair num abismo.
Evitar as ocasiões de perigo
Ao observar o que nos leva a agir de modo indesejável, podemos muito
bem identificar as situações que nos cercavam ao manifestar aquela
reação incontrolada.
Ora, conhecendo as circunstâncias que possam nos envolver e assim nos
fazer cometer ações que procuramos evitar, qual será a
disposição mais inteligente para quem conhece as suas próprias
fraquezas? É afastar-se dos momentos perigosos. Assim faz o alcoólatra
em recuperação: evita experimentar um gole, mesmo inofensivo,
de qualquer bebida contendo álcool. O jogador que combate a sua forte
inclinação não vai a rodas de amigos que praticam esse
hábito. Os glutões em regime preferem fugir dos restaurantes atraentes
e dos pratos suculentos. Quem não quer poluir sua imaginação
com erotismo não lê revistas pornográficas nem vai assistir
filmes que exploram o sexo. E assim por diante...
Conhecer os defeitos que ainda não conseguimos vencer é medida
de prudência, de precaução, em lugar de querer testar a
nossa fortaleza, simplesmente contornar os precipícios que possam nos
fazer cair naqueles abismos.
Podemos, então, antes de ser arrastados às circunstâncias
que propiciem o acontecimento dos incidentes, ou que possam nos induzir a repeti-los,
não aproximarmo-nos delas. Em discussões, por exemplo, sobre posições
contrárias em aspectos religiosos, nas quais dificilmente convencer alguém
das nossas convicções, o melhor é não prosseguir
em argumentos, mesmos que fundamentados na mais evidente comprovação,
porque, conhecendo as nossas tendências, podemos terminar, no ardor do
vozerio, em agressões e contrariedades que nada constróem.
Nessas eventualidades, trabalhemos como um vigilante e intimamente acendamos
uma luz amarela, como sinal de atenção, colocando-nos em estado
de alerta, e podemos também dizer para nós mesmos:
"Estou diante de uma situação perigosa. É preferível
recuar pois mais vale um covarde vivo do que um herói morto". "Corajoso
é aquele que, conhecendo os riscos de cair em erros, consegue evitá-los,
afastando-se das situações que os possam provocar."
Desse modo, se soubermos modificar, contornar, evitar as ocasiões que
nos cercam, poderemos com isso transformar as habituais ações
defeituosas e nos aprimorar progressivamente. Conhecendo as nossas situações
de perigo, por que iremos nos expor a elas? Não temos necessidade de
dar ouvidos aos convites tentadores ou às sugestões hipnóticas
invisíveis, de experimentar para dar provas.
Ler e orar
O livro é sempre um bom companheiro. Quase sempre os pensamentos bailam
e a imaginação voa, explorando as esferas de atração,
em que a nossa predominância animal se compraz, quando a mente está
livre, vazia ou ociosa.
O hábito da leitura edificante sempre é salutar ao nosso espírito,
com o meio de ampliação dos nossos conhecimentos, como enriquecimento
do espírito na sintonia com as idéias renovadoras, como meio para
encontrar respostas às nossas indagações, ou para fortalecer
os nossos propósitos de reforma íntima.
O nosso trabalho de auto-aprimoramento pode ser grandemente intensificado pela
leitura das obras que nos esclarecem e incentivam ao comportamento evangélico.
É precisamente o meio que temos para renovar as nossas idéias,
estimular a reflexão, saber como agir, escolher rumos e alimentar nosso
espírito no trabalho permanente de efetiva aplicação.
Em quaisquer circunstâncias em que estejamos vivendo nossas provas, nos
testes mais diretos dos defeitos a burilar, precisamos recorrer à leitura
para comer subsídios que norteiem o nosso esforço. Isso é
fundamental, é mesmo imperioso. E o orar? Por que será que o Cristo
deu tanta ênfase ao "orar"? No "orai e vigiai" o Mestre
da Galiléia colocou-o em primeiro lugar. "Amar a Deus sobre todas
as coisas..." é outra máxima que se eleva a tudo mais.
Não será exatamente no "orar" que mais nos aproximamos
do Criador e melhor expressamos a Ele o nosso amor? Evidentemente que dependerá
do conteúdo, da essência das nossas preces, do que elas traduzem
em profundidade. Não será por muito orar que seremos ouvidos,
já o sabemos, bem como, "a oração não nos exime
das faltas, o perdão rogado só se obtém mudando de conduta,
e são as boas ações a melhor prece". (Id., Ibid. Pergunta
661.)
É também clara a resposta dada à pergunta 910 do mesmo
livro, referindo-se à ajuda eficaz que os Espíritos possam nos
dar para superarmos as paixões: "Se orar a Deus e ao seu bom gênio
com sinceridade, os bons espíritos virão certamente em seu auxílio,
porque essa é a sua missão".
"Orar constitui a fórmula básica da renovação
íntima, pela qual o divino entendimento desce do Coração
da Vida para a vida do coração." (André Luiz. Mecanismos
da Mediunidade. Capítulo XXV. Oração, Prece e Renovação.)
Constantemente vemo-nos defrontados por vibrações desgastantes
que nos atingem, causando depressões, fadiga, desânimo e irritação,
provenientes de criaturas próximas ou afastadas, no próprio
plano terreno ou já desencarnadas, em condições de revolta,
ora curtindo ódios ocultos, invejas, ou mantendo desafetos recônditos,
de certa forma relacionadas conos-co, nessa ou em outras experiências,
com as quais tenhamos convivido no erro, e agora unidos sob o mesmo teto ou
comprometidos com objetivos profissionais comuns, sentimo-nos então vulneráveis,
frágeis ainda, entre o estágio ideal a conquistar e a realidade
íntima que nos condiciona ao mundo dos desejos.
Encontramos,
assim, na prece, o meio de renovação íntima, envolvendo-nos
nas vibrações balsâmicas dos planos elevados ao estabelecer
a sintonia com os Espíritos amigos e benevolentes, que nos impulsionam,
convertidos em fiéis companheiros, que por já terem ascendido
aos níveis sublimados, nos estendem a mão, desejosos de que os
alcancemos.
Nos momentos de oração, despojados de interesses, sem repetir
peditórios cansativos, abrimos simplesmente a nossa alma, desejosos de
compreender mais e aceitar resignadamente as provas que escolhemos, empenhando
a nossa persistência e a nossa resistência, para bem aproveitar
as oportunidades de crescer interiormente, no trabalho de auto-aprimoramento
e no serviço do bem comum.
O orar é espontâneo e informal. Quanto mais profundamente falar
o coração, mais alto projetamos, em formas luminosas, os nossos
sentimentos, sejam eles as expressões de intraduzíveis emoções,
de dores dilacerantes, de súplicas aflitivas ou de sofrimentos buriladores.
Nesses instantes emitimos irradiações de imenso poder transformador,
que inundam a nossa alma de energias reconfortadoras, nos ajudando a caminhar
e ampliando as potencialidades espirituais. (Id., ibid. Capítulo IV.
Matéria Mental e Matéria Física.)
No nosso trabalho interior, as ocasiões de dificuldade em superar os
defeitos arraigados ao espírito, ou os desfalecimentos do bom ânimo
são precisamente os momentos para recorrermos à prece. Aí
falará o nosso coração e a sinceridade nos fará
chegar aos bons espíritos, que certamente virão em nosso auxílio.
A automatização do bem proceder
Até que ponto chegaremos, realizando esse trabalho interior? Sendo-nos
tão dificultoso eliminar vícios e defeitos, quando nos libertaremos
e concluiremos nossa empreitada?
Essas indagações que certamente faremos de início não
podem ter respostas plausíveis, mesmo a contento dos nossos apressados
anseios.
De certo modo, o que nos cabe fazer é desempenhar, da melhor maneira,
a nossa parte, isto é, trabalhar, trabalhar e trabalhar, permanentemente
e sem pretensões. A rigor, quanto mais nos conhecemos e melhor desvendamos
nossos segredos seculares, mais amplamente abrem-se os horizontes da nossa compreensão,
e também melhor aquilatamos as distâncias a serem galgadas.
Apesar de tudo, em lugar dos desânimos passamos a sentir incontáveis
emoções sustentadoras e as expressões de humildade, de
abnegação nos fazem penetrar num mundo novo de vivências.
Nada é mais animador do que as alegrias experimentadas no dever cumprido,
na consciência reta.
Do mesmo modo, como os hábitos nocivos seguem um mecanismo em que nos
viciamos pelos processos de respostas num sistema de reflexos condicionados
— como automatismos repetitivos —, o contínuo modelar das
nossas atitudes no bem proceder cria, com o tempo, respostas naturais e espontâneas,
sem que para isso precisemos despender maiores esforços.
Reagimos sempre evangelicamente, em quaisquer situações, como hábitos salutares adquiridos e já automatizados, resultantes das construções íntimas, conscientemente elaboradas. Entendemos que, na condição de espíritos em vias de regeneração, muito temos a realizar, e não podemos achar que as remodelações interiores se façam todas numa única encarnação. No entanto, muito podemos transformar, mesmo numa atual existência, trabalhando de forma ordenada o burilamento das nossas diferentes facetas e ângulos de imperfeições.
No final, de regresso à pátria espiritual, com bagagem quase sempre aquém da realização desejada, é que avaliaremos os frutos do nosso esforço, e daí nos prepararemos para nova viagem ao mundo das provas. Contamos, porém, com os relativos meios de aferição dos rumos seguidos nessa vida. A bússola ainda é a nossa consciência, dela recolhemos as respostas e por ela percebemos se estamos progredindo, isto é, conseguindo articular nossos automatismos no bem proceder.
E o que periodicamente carecemos efetuar são as nossas auto-avaliações, assunto a ser abordado em capítulo próximo, de importante utilização no delineamento da trajetória em percurso, que nos solicita cotidiano exercício dos bons impulsos a se tornarem um dia espontâneos.
Ney Prieto Peres