5 - O CONHECER-SE NO CONVÍVIO COM O
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- O CONHECER-SE NO CONVÍVIO COM O PRÓXIMO
"Amar ao próximo como a si mesmo, fazer aos
outros o que quereríamos que os outros nos fizessem, é a mais
completa expressão da caridade, pois que resume todos os deveres para
com o próximo." (Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Capítulo XI. Amar ao Próximo como a Si Mesmo.)
No relacionamento entre os seres humanos, as experiências vividas ensinam
constantemente lições novas. Aprendemos muito na convivência
social, através de nossas reações com o meio e das manifestações
que o meio nos provoca. O campo das relações humanas, já
pesquisado amplamente, talvez seja a área de experiências mais
significativa para a evolução moral do homem.
O tempo vai realizando progressivamente o amadurecimento de cada criatura, na
medida em que aprendemos, no convívio com o próximo, a identificar
nossas reações de comportamento e a discipliná-las. O relacionamento
mais direto acha-se no meio familiar, onde desde criança brotam espontaneamente
nossos impulsos e reações. Nessa fase gravam-se impressões
em nosso campo emocional que repercutirão durante toda nossa existência.
Quantos quadros ficam plasmados na alma sensível de uma criança,
quadros esses que podem levá-la a inconformações, angústias
profundas, desejos recalcados, traumas, caracterizando comportamentos e disposições
na fase da adolescência e na adulta.
Guardamos, do relacionamento com os pais, irmãos, tios, primos e avós,
os reflexos que mais nos marcaram. Começamos, então, numa busca
tranquila, a conhecer como reagimos e por que reagimos, na infância e
na adolescência, aos apelos, agressões, contendas, choques de interesses.
Essas reações emocionais, que normalmente não se registram
com clareza nos níveis da consciência, deixam, entretanto, suas
marcas indeléveis nas profundidades do inconsciente. Importantes são
as suaves e doces experiências daqueles primeiros períodos da nossa
vida, quando os corações amorosos de uma mãe, de um pai,
de um irmão, de uma professora, pelas expressões de carinho e
de compreensão, aquecem nossa alma em formação e nela gravam
o conforto emocional que tantos benefícios nos fizeram, predispondo-nos
às coisas boas, às expressões de amor, que, por termos
conhecido e recebido, aprendemos a dar e a proporcionar aos outros.
Essas
ternas experiências constituem necessários pontos de apoio ao nosso
espírito, para que possamos prosseguir e ampliar nossas obras nas expressões
do coração. No convívio escolar, iniciamos as primeiras
experiências com o meio social fora dos limites familiares. As reações
já não são tão espontâneas. Retraímo-nos
às vezes; a timidez e o acanhamento refletem de início a falta
de confiança nas professoras e nos colegas de turma. Aprendemos paulatinamente
a nos comportar na sociedade, com reservas.
Sufocamos, por vezes, desejos e expressões interiores, e até mesmo
defendemos com violência nossos interesses, mesmo que ainda infantis.
E também brigamos com aqueles que caçoam de alguma particularidade
nossa. Quase sempre retribuímos com bondade aos que são bondosos
conosco. E devolvemos insultos aos que nos agridem. Sem dúvida são
reações naturais, embora ainda bem primárias.
Vamos assim caminhando para a adolescência, fase em que nossos desejos
se acentuam. O querer começa a surgir, a auto-afirmação
emerge naturalmente, a nossa personalidade se configura. Aparecem as primeiras
desilusões, as amizades não correspondidas, os sonhos frustrados,
as primeiras experiências mais profundas no campo sentimental. De modo
particular, cada um reage de forma diferente aos mesmos aspectos do relacionamento
com os outros: uns aceitam e resignam-se com os desejos não alcançados;
outros, inconformados, reagem com irritação e violência
e, porisso mesmo, sofrem mais. E o sofrimento é maior porque é
necessário maior peso para dobrar a inflexibilidade do coração
mais endurecido, como ensina a lei física aplicada à nossa rigidez
de temperamento. Os mais dóceis e flexíveis sofrem menos, porque
menor é a carga que lhes atinge o íntimo. Esses não oferecem
resistência ao que não podem possuir.
A resignação é o meio de modelação da nossa
alma, característica de desprendimento e da mansuetude que precisamos
cultivar. Inúmeros aspectos desconhecidos da nossa personalidade abrem-se
para a nossa consciência exatamente quando conseguimos identificar, nos
entrechoques sociais, aquilo que nos atinge emocionalmente. As reações
observadas nos outros que mais nos incomodam são precisamente aquelas
que estão mais profundamente marcadas dentro de nós. As explosões
de gênio, os repentes que facilmente notamos nos outros e comentamos atribuindo-lhes
razões particulares, espelham a nossa própria maneira de ser,
inconscientemente atribuída a outrem e dificilmente aceita como nossa.
É o mecanismo de projeção que se manifesta psicologicamente.
Poucas vezes entendemos claramente as manifestações de nossos
sentimentos em situações específicas, principalmente quando
alguém nos critica ou comenta nossos defeitos. Normalmente reagimos:
não Incitamos esses defeitos e procuramos justificá-los. Nesse
momento passam a funcionar os nossos mecanismos de defesa, naturais e presentes
em qualquer criatura.
No convívio com o próximo, desde a nossa infância, no lar,
na escola, no trabalho, agimos e reagimos emocionalmente, atingindo os domínios
dos outros e sendo atingidos nos nossos. Vamos, assim, nos aperfeiçoando,
arredondando as facetas pontiagudas do nosso ser ainda embrutecido, à
semelhança das pedras rudes colocadas num grande tambor que, ao girar
continuamente, as modela em esferas polidas pela ação do atrito
de parte a parte.
É interessante notar que as pedras de constituição menos
dura modelam-se mais rapidamente, enquanto aquelas de maior dureza sofrem, no
mesmo espaço de tempo, menor desgaste, demorando mais, portanto, para
perderem a sua forma original bruta. Esse aperfeiçoamento progressivo,
no entanto, vem se realizando lentamente nas múltiplas existências
corpóreas como processo de melhoramento contínuo da humanidade.
As vidas corpóreas constituem-se, para o espírito imortal, no
campo experimental, no laboratório de testes onde os resultados das experiências
se vão acumulando. "A cada nova existência, o espírito
dá um passo na senda do progresso; quando se despojou de todas as suas
impurezas, não precisa mais das provas da vida corpórea."
(Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Capítulo IV. Pluralidade
das Existências. Pergunta 168.) Instruirmo-nos através das lutas
e tribulações da vida corporal é a condição
natural que a Justiça Divina a todos impõe, para que obtenhamos
os méritos, com esforço próprio, no trabalho, no convívio
com o próximo.
O conhecer-se implica em tomarmos consciência de nossa destinação
como participantes na obra da Criação. Dela somos parte e nela
agimos, sendo solicitados a colaborar na sua evolução global;
Deus assim legislou. O limitado alcance de nossa percepção e de
nossa vivência em profundidade, no íntimo do nosso espírito,
dessa condição de co-participantes da Criação Universal
é decorrente de nossa mínima sensibilidade espiritual, o que só
podemos ampliar através das conquistas realizadas nas sucessivas reencarnações.
Parece claro que caminhamos ainda hoje aos tropeços, caindo aqui, levantando
acolá, nos meandros sinuosos da estrada evolutiva que ainda não
delineamos firmemente. Constantemente alteramos os rumos que poderiam nos levar
mais rapidamente ao alvo. Os erros nos comprometem e nos levam às correções,
por isso retardamos os passos e repetimos experiências até que
delas colhamos bons resultados, para daí avançarmos.
O conhecer-se é o próprio processo de autoconscientização,
de conhecimento de nossas limitações e dos perigos a que estamos
sujeitos no campo das experiências corpóreas. É ponderar
sempre, é refletir sobre os riscos que podem comprometer a nossa caminhada
ascensional e tomar decisões, definir rumos, dar testemunhos.
É precisamente no convívio com o próximo que expressamos
a nossa condição real, como ainda estamos — não o
que somos, pois entendemos que, embora ainda ignorantes e imperfeitos, somos
obra da Criação e contamos com todas as potencialidades para chegarmos
a ser perfeitos, listamos todos em condições de evoluir. Basta
querermos e dirigirmos nossos esforços para esse mister.
Uma das melhores diretrizes para chegarmos a isso nos é oferecida pelo
educador Allan Kardec (O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo XVII.
Sede Perfeitos. O Dever):
"O dever começa precisamente no momento em
que ameaçais a felicidade e a tranquilidade do vosso próximo,
e termina no limite que quereríeis alcançar para vós mesmos".