6 - O CONHECER-SE PELA DOR |
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- O CONHECER-SE PELA DOR
"Todos quantos sejam feridos no coração
por reveses e decepções da vida, consultem serenamente a sua consciência,
remontem pouco a pouco à causa dos males que os afligem, e verão,
se as mais das vezes, não poderão confessar: se eu tivesse feito,
ou se não tivesse feito tal coisa, não estaria nesta situação."
(Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo V. Bem-Aventurados
os Aflitos.)
A transgressão aos limites da nossa liberdade de ação,
dentro do equilíbrio natural que rege as existências, é
quase sempre por nós reconhecida somente através das consequências
colhidas através dos efeitos das reações que nos atingem.
A semeadura é livre, a colheita é obrigratória. "Quem
semeia ventos, colhe tempestades." Pela dor retificamos as nossas
mazelas do ontem longínquo ou próximo: de outras existências
ou da presente vida. Indubitavelmente, os processos de sofrimento, nas suas
mais variadas formas, provocam, na nossa alma, o despertar da consciência
e a ampliação do nosso grau de sensibilidade, para percebermos
os aspectos edificantes que o coração, nas suas manifestações
mais nobres, pode realizar.
Quando enfermos, vítimas do nosso próprio desequilíbrio,
sofremos os males físicos das doenças contraídas pela falta
de vigilância, que abre nossas defesas vibratórias às investidas
bacterianas no campo orgânico. É no tratamento e no restabelecimento
da saúde que somos naturalmente levados a meditar sobre as origens e
os motivos da doença. Se estamos conformados e obedecemos as orientações
médicas, mais rapidamente nos recompomos; se, porém, somos inflexíveis
e descremos da necessidade de mudar nossos hábitos, mais lentamente nos
restabeleceremos. Quem passa por um período de tratamento, sente e sabe
o que sofreu e, nem que seja apenas por autodefesa, toma certos cuidados, como
mudar seus costumes, transformar sua conduta, para que não venha a ter
uma recaída e, assim, sofrer as mesmas dores, repetir as experiências
desagradáveis.
Realiza-se, desse modo, um processo de autoconhecimento com relação
a alguns aspectos de nosso comportamento, de nossa forma de vida. Nessas ocasiões
em que adoecemos, muitas vezes somos obrigados a permanecer imóveis num
leito, semiconscientes ou sentindo dores dilacerantes, à beira do desespero,
por vários dias. E quando recebemos o alívio confortador de uma
vibração suave, transmitida por um coração amigo
que nos cuida ou nos visita, como ficamos agradecidos! Como reconhecemos os
valores aparentemente insignificantes dessas expressões de carinho! E
quem recebe desperta em si o desejo de proporcionar a outros o mesmo alívio,
o mesmo bálsamo. Amplia-se, assim, a nossa sensibilidade ao sofrimento
do próximo, além do fortalecimento da fé na bondade do
Criador e dos próprios corações humanos.
Quantas
criaturas não se transformam radicalmente depois de uma grave enfermidade?
Quantos não descobrem dentro de si os valores eternos do espírito,
após terem sofrido longos períodos de tratamento ou perdas irreparáveis
de entes queridos, após padecerem com dores morais, desilusões
de caráter afetivo ou dificuldades materiais, que nos ensinam a valorizar
as coisas simples da vida? Quantos que, estando à beira da morte, hoje
valorizam a vida, praticando caridades e distribuindo carinho ao próximo?
As dores, sob qualquer forma, ensinam-nos profundamente a nos conhecer, a nos
transformar, e, por mais que soframos, precisamos ter a disposição
íntima de agradecer, porque no mundo de facilidades e de atrativos para
os impulsos do ser imediatista e físico que ainda abrigamos, são
as oportunidades que a dor nos proporciona, algumas das maneiras mais eficazes
de transformação desse homem animalizado e insensível.
Valorizemos a nossa dor, tomemos a nossa cruz e com ela caminhemos para a nossa
redenção.
Ney P. Peres