A HUMILDADE |
Jesus
é o portador da Segunda Revelação das Leis de Deus, pela
qual o crescimento do espírito é entendido feito de aptidões
e virtudes. Dentre estas, como sendo a maior, aponta-se a Humildade, virtude
que, se não foi compreendida na sua primeira enunciação,
continua hoje quase desconhecida. É comum, mesmo entre os que se afirmam
cristãos, fazer dela uma idéia totalmente desfigurada, inadequada,
destituída de sua significação maior.
A fim de esclarecer seu significado, embora de maneira incompleta, nos apoiaremos
em três afirmações de Emmanuel. A
primeira: "Se, na ordem divina, cada árvore produz segundo
sua espécie, no trabalho cristão, cada discípulo contribuirá
conforme sua posição evolutiva." A
segunda: "O homem permanece em função de aprendizado
e, nessa tarefa, é razoável que saiba valorizar a oportunidade
de aprender, facilitando o mesmo ensejo aos semelhantes." A
terceira: "Quem retrata em si os louros desta virtude. . . aceita
sem constrangimento a obrigação de trabalhar e servir em benefício
de todos."
Assim sendo, diremos que, fundamentalmente, a humildade se distingue por três
características principais:
1— o desapego aos bens materiais;
2—
a necessidade de trabalho e aprendizado dentro do estágio evolutivo de
cada um;
3— o servir, na produção do bem comum.
A — O desapego aos bens materiais
Os judeus esperavam um Messias concebido dentro do dogma da Trindade: filho
de Deus, ele próprio Deus. O construtor do mundo — o Demiurgo,
na expressão de Platão. O dono do mundo, sendo eles o povo predileto.
Dessa forma, não poderia ele apresentar-se como homem, porque de outra
substância: de substância divina. Não poderia vir ele na
dependência das mesmas vicissitudes a que estão sujeitos os humanos,
tais como: sofrer, morrer, estar envolvido nas mesmas necessidades. Além
disso, deveria apresentar-se com toda a magnificência, na detenção
de todos os poderes que a sua divina condição de Arquiteto do
Universo lhe conferia. Por tudo isso não viram nele o Messias. Pior:
o escarneceram.
Na literatura espírita, Jesus é apontado como o Espírito
de grande hierarquia que recebe, no momento de sua formação, o
planeta, a fim de conduzir, nele, na caminhada evolutiva, esta humanidade. É
a partir deste instante que Ele, junto aos seus comandados, lhe definiu a estrutura,
as leis físicas, as condições de vida e o desenvolvimento
dos seres através das espécies. Jesus já
teria estabelecido sua vinda de antemão.
O momento aprazado teria sido aquele em que a humanidade já teria atingido
determinado nível de desenvolvimento, representado pela conquista do
monoteísmo, da ciência e da filosofia grega e do direito romano.
Atingido esse estágio, necessário se fazia novo impulso nas conquistas
de ordem moral. Tal qual hoje, em que, com o progresso material e científico
que atingimos, impõe-se novo avanço, também de ordem moral,
a fim de consolidar o progresso alcançado.
Esta era sua missão: trazer ao mundo novas concepções de
comportamento, reajuste da fé, uma reformulada compreensão do
relacionamento do homem com Deus e dos homens entre si — um novo impulso
no crescimento das consciências — seu objetivo maior.
Sendo da lei que o espírito se desenvolva nas tarefas da co-criação,
entrosadas entre si por um Plano Maior, a cada um é atribuído
um papel, uma função e os meios adequados ao seu exercício.
Por exemplo: é-nos necessária energia elétrica, para as
nossas atividades caseiras. Só por isso ninguém irá exigir
uma usina para si. Poderá pleiteá-la, entretanto, se para conduzir
indústria de porte bastante que a justifique. A cada um segundo as necessidades
da função que lhe é atribuída, por uma questão
de equilíbrio. Nem mais, nem menos. E é
o conformar-se a este princípio, que denominamos desapego ou desprendimento
dos bens materiais.
Não desprezo. O trabalhador não pode desprezar as ferramentas
de que se serve para produzir. O desprezo dos bens materiais é um falso
conceito introduzido na religião pelo panteísmo, que entende a
matéria um mal, esta vida uma incursão no pecado, e o desprezo
de tudo aquilo que se relaciona à matéria, a salvação.
Desprezar os bens materiais que nos são necessários ao cumprimento
de nossa missão corresponderia a enterrar talentos, o que é contrário
à lei. A matéria não é um mal. É uma bênção,
uma oportunidade que a reencarnação renova: a
possibilidade de recompor caminhos, edificar conquistas novas.
Jesus viera ampliar o âmbito da Revelação, no cumprimento
da lei. Viera trazer a norma que Ele estabelecera em obediência às
leis de Deus, como guia, para a evolução desta humanidade: novos
conceitos de aperfeiçoamento, o aprimoramento dos sentimentos. Não
para ostentar grandeza, ou para exibir o de que Ele seria capaz. Mas para ensinar,
exemplificando, ao homem, o procedimento que lhe cabe assumir para que se conduza
com sucesso.
Viera dar uma lição, colocando-se no lugar do homem, da mesma
forma que um professor, ao ensinar algo, se situa na posição do
aluno, resolvendo suas dificuldades, mostrando-lhe os caminhos de superação
das dificuldades — no mesmo nível. A primeira lição
foi a de limitar-se a possuir apenas o essencial. Para a missão que vinha
cumprir bastava-lhe apenas, primeiramente: uma família bem constituída;
um pai honesto, cônscio de seus deveres — um trabalhador de profissão
bem definida; uma mãe dedicada e extremamente virtuosa; um povo que detinha
as noções religiosas mais avançadas da época —
as concepções do Deus único e da vida regida por leis morais.
O nascimento na manjedoura é a primeira grande lição de
humildade, destacando, como sua característica de primordial importância,
o desprendimento dos bens materiais.
B — A necessidade de trabalho e aprendizado dentro
do estágio evolutivo de cada um
A segunda característica fundamental da humildade é o conhecimento
do que somos, do que significamos, do papel que nos cabe exercer no meio em
que vivemos. É o conhece-te a ti mesmo.
Somos espíritos em evolução com largo caminho a percorrer,
mas com um acervo de conquistas já feitas. De um lado temos o que oferecer;
de outro temos que receber. O que já alcançamos, o que já
possuímos, são os nossos talentos, que não podemos enterrar;
mas que devemos pôr a produzir em benefício do bem comum.
Jesus sabia quem Ele era e não negava sua condição. No
início de suas pregações, conta Humberto de Campos, em
Boa Nova, vai a Jerusalém e, abordado por sacerdotes que lhe inquirem
sobre o que está a fazer, responde:— Vim implantar o reino de Deus
entre os homens.— Mas como! Tu? Por acaso conheces Roma (o direito, a
capacidade administrativa? E assim mesmo sem que Roma tivesse conseguido reunir
o mundo em um único reino!); a Grécia (sua ciência, sua
filosofia, outros grandes capítulos do conhecimento sem os quais não
se pode implantar um reino só!)?
A que Jesus responde:— Conheço a Vontade de meu Pai que está
nos céus. (Não um reino no sentido da palavra;
mas o burilamento dos sentimentos humanos, sobre os quais os homens haveriam
de instituir um relacionamento pacífico e fraterno entre si — o
reino de Deus.) Pede aos discípulos que o chamem de Mestre —
Ele tem uma boa nova a comunicar. Falava com autoridade: — Ninguém
vai ao Pai senão por mim. Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Agia
com determinação e consciência de seus poderes. Estendia
as mãos: curava, ressuscitava, estancava males, expulsava demônios.
É mister saibamos o que somos, o que se espera de nós, para estabelecer,
no chamamento do dever, nossa ação de prestatividade. Para tal
devemos seguir nossas inclinações, nossas tendências, nossos
impulsos recônditos e profundos. Nisso reside também a razão
pela qual se recomenda aos jovens que se dediquem ao que gostam, independentemente
das dificuldades que possam advir e de qualquer consideração interesseira.
Porque nesta linha de ação é que se têm intuições
desenvolvidas — bagagem resultante de um passado de conquistas, sobre
o qual se assentam as bases de um maior desenvolvimento, da criatividade, de
uma mais ampla prestatividade a benefício do todo que, em permitindo
dar mais, acarreta um maior receber. Fora disso corre-se o risco de embrenhar-se
em uma luta para a qual não se está preparado, não se está
em condições de competir.
Ser humilde não é negar-se a si próprio. É Eclipsar-se.
É Diminuir-se. Não é despojar-se do que se tem. Deter-se
numa pousada do caminho a pespegar: — Eu não sou ninguém...
Eu nada valho... Eu sou a última das criaturas. ..- Quem sou eu?. . .Esta
é humildade aparente.
Ninguém é inútil ou destituído de valor. Onde quer
que estejamos somos peça importante:
— somos um trabalhador, de quem se espera produtividade determinada, em
função da tarefa designada;
— somos um marido em quem a esposa confia, para a manutenção
e a sustentação do lar;
— somos um pai, do qual se espera proteção, compreensão,
orientação;
— somos um cidadão ao qual se confia a sustentação
da pátria;
— em qualquer posição que nos situemos somos um seareiro
do Senhor de quem se espera boa vontade para o impulsionamento do progresso
e o estabelecimento da paz.
Somos criaturas muito importantes, criadas por Deus, merecedoras do seu amor
e amparo, destinadas a um fim glorioso e imortal, de quem se espera o cumprimento
do papel que lhe foi atribuído. Mas se temos muito a dar pelo que já
adquirimos, não resta dúvida de que temos ainda longo caminho
a percorrer, a exigir-nos aperfeiçoamento, crescimento na capacidade
de produzir para o bem comum, recebendo na justa medida do que dermos.
C — Servir na produção do bem comum
Com o desprendimento em relação aos bens materiais e o
conhecimento do papel que nos cabe desempenhar, é da lei que demos o
melhor de nós, que sirvamos à criação. Que busquemos
na ampliação da nossa capacidade de servir os motivos de aprendizado
e aperfeiçoamento, superando os tropeços, ignorando o mal que
nos possa ser dirigido.
A falta de desprendimento em relação aos bens materiais e o desconhecimento
do que somos, nos desenvolvem o orgulho, a cobiça, e nos induzem a considerar-nos
proprietários daquilo que nos cerca ou merecedores de posições
a que não fazemos jus. Disso despontam o egoísmo e a vaidade a
desviar-nos dos propósitos a que devíamos permanecer ajustados,
envolvendo-nos a alma com o ciúme, o despeito, a intemperança,
ocasionando-nos desequilíbrios emotivos.
Sempre que praticarmos uma ação examinemos o móvel que
a determinou. — "Se resultou do desejo injusto de supremacia, se
obedeceu somente à disputa desnecessária (se por contenda ou vanglória),
cuida do teu coração para que o caminho te seja menos ingrato.
Mas se atendeste ao dever, ainda que hajas sido interpretado como rigorista
e exigente, incompreensivo e infiel, recebe as observações indébitas
e passa adiante".
O agir movido pela humildade não busca recompensas, nem reconhecimento,
a não ser a satisfação do dever cumprido: "Magnificente,
o Sol, cada dia, oscula a face do pântano sem clamar contra o insulto
da lama: a flor, sem alarde, incensa a glória do céu. Filtrada
na aspereza da rocha, a água se revela mais pura e, em seguida às
grandes calamidades, a colcha de erva cobre o campo, a fim de que o homem recomece
a lida."
"Humildade é independência, liberdade interior que nasce das
profundezas do espírito. Cultivá-la é avançar para
a frente sem prender-se, é projetar o melhor de si mesmo sobre os caminhos
do mundo..." A despeito de tudo — "Continua trabalhando em teu
ministério, recordando que, por servir aos outros, com humildade, sem
contendas e vanglorias, Jesus foi tido por imprudente e rebelde, traidor da
lei e inimigo do povo, recebendo com a cruz a coroa gloriosa."
Na humildade não cabem a tibiez, a frouxidão, a transigência,
o transfúgio, a apatia, a renunciação. Humildade
é fortaleza, firmeza de propósitos, intrepidez na produção
do bem. Ê o destemer daqueles que, ao afrontarem a morte nos circos
do sacrifício, entoam hosanas ao Senhor. É a heroicidade de Joana
D'Arc, que se imola na fogueira fiel às suas vozes, esquecida de seus
algozes. É o desprezo pela contaminação, de São
Francisco, quando frente à necessidade de oferecer gesto de consolação
fraterna ao leproso. É o nascimento de Jesus na manjedoura, na exemplificação
do total devotamento à sua missão. É o término de
seus dias na cruz, no derradeiro e maior testemunho de valor, fortaleza e determinação,
no ensino do amor que viera ministrar, perdoando a seus inimigos.
Rino Curti